23 de Março de 2006, por volta das 11 da manhã. Tinha acabado de passar o Bet Din (tribunal rabínico) que tinha julgado a minha conversão ao Judaísmo. O rabino que me aceitara na Comunidade Judaica de Lisboa e com quem tinha começado a estudar, dois anos antes, tinha-me acompanhado naquele momento crucial no processo de conversão. Foi em sua homenagem que escolhi o meu nome hebraico, Boaz.
À saída do edifício, o rabino disse-me, apontando as minhas têmporas: "Agora vais ter de deixar crescer as payot". "Naaa, acho que não", respondi, desinteressado em aceitar aquele costume. Porém, dois ou três meses depois, quando voltei a cortar o cabelo – a primeira vez que cortei o meu próprio cabelo – deixei sem cortar uma área acima das orelhas.
A Torá proíbe aos homens judeus cortar completamente os cantos da cara – payot, em hebraico, baseada no versículo: "Não cortarás o cabelo dos cantos da vossa cabeça, e não rasparás [com navalha] a tua barba" (Levitico/Vaikrá 19:27). Umas das explicações para esta lei – se é possível explicar completamente os mandamentos da Torá – é distinguir os Judeus dos Gentios. Os judeus iemenitas tinham (e alguns ainda mantém) o costume de usar payot especialmente longas, às quais chamam "simanim" (sinais), exatamente por servirem de sinal de distinção com os não-judeus. Uma consequência desta proibição foi a difusão do costume de deixar crescer o cabelo nos cantos da cara entre alguns sectores judaicos mais ortodoxos. Ainda que esse não fosse o fundamento desta lei. A proibição é o corte completo do cabelo nos cantos da cabeça, sem haver qualquer obrigação de deixar crescer as payot.
Antes que os meus caracóis crescessem até poder prendê-los atrás das orelhas, habituei-me às piadas dos colegas da yeshivá. Diziam que as minhas pequenas payot pareciam orelhas de urso. Porém, nos meses seguintes, os tufos de cabelo junto às orelhas foram crescendo e foi possível "adestrá-los" atrás das orelhas. Acabaram-se aquelas piadas. Começariam outras.
Em algumas ocasiões, usava os "canudos" bem enroladinhos e presos atrás das orelhas, quase impercetíveis. Assim os usei em 2007, da segunda vez que voltei a Portugal depois da minha mudança para Israel. Por alturas do meu casamento, as minhas payot já quase alcançavam a altura dos ombros. Para as fotos na boda, usei-as enroladas e metidas atrás das orelhas. O balanço das danças depressa as fizeram saltar para fora do esconderijo. Alguns meses depois de casar, passei a usar os caracóis sem estarem colocados atrás das orelhas. Isso, junto com a minha barba ruiva, podia dar-me um ar marcadamente ultra-ortodoxo, ainda que essa não seja a corrente judaica que eu sigo.
No meu quarto regresso a Portugal, em 2009, em nenhum momento escondi as payot atrás das orelhas ou debaixo da kippá. Fosse no encontro com os amigos ou nas idas ao supermercado em Leiria ou na Batalha, a vila onde cresci, ou nos passeios em Lisboa. Se havia olhares de estranheza pelo meu aspecto tão incomum nas ruas portuguesas, nunca os percebi como hostis. Noutras paragens na Europa, por razões de segurança – inclusive por perigo de vida – teria sido recomendável ocultar aquele sinal judaico tão evidente.
Nos princípios de 2011, as minhas payot levaram o primeiro grande corte. Antes de uma entrevista importante sobre uma proposta para trabalhar como líder comunitário e professor de escola judaica numa cidade da Argentina, fui aconselhado a realizar uma séria tosquia. Entendo que o tal aspeto “demasiado ortodoxo” poderia causar uma certa rejeição inicial, em especial numa comunidade pouco religiosa. Por esse valor mais alto, aceitei sacrificar as minhas payot que começara a deixar crescer há quase cinco anos.
Na semana passada, desferi o último golpe no que ainda restava. Fui a uma barbearia de Jerusalém, que frequentara várias vezes, situada no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. Mera provocação: ir justamente ali cometer tamanho sacrilégio! No sofá da barbearia estava sentado um judeu ultra-ortodoxo, amigo do barbeiro. Naquela hora da tarde, sem clientes a quem servir, o barbeiro estava a estudar Torá com o amigo até à minha entrada no estabelecimento.
Ao sentar-me na cadeira do barbeiro pedi: "máquina número 3 de lado e tesoura em cima". Assim que pedi ao barbeiro que cortasse o meu cabelo com a máquina, o seu gesto imediato foi segurar uma das payot e passar a máquina à volta dela. Disse-lhe que poderia cortar também as payot. Parou subitamente, espantado com a minha ordem. "O que se passou?", perguntou ele. Respondi, "Nada, apenas desejo cortar as payot. Já as tive durante muito tempo. Chegou a altura de as cortar."
Nesse momento, iniciou-se uma discussão filosófica entre o barbeiro e o amigo. O barbeiro parecia decepcionado pela minha mudança de aspeto. Conversámos um pouco. Ao saber que eu já tinha saído da yeshivá e entrado no mundo do trabalho, o tal amigo sentado no sofá comentou “o trabalho é que guarda o juízo ao homem!”. Algo surpreendente vindo de alguém que pertence a um público onde muitos dos seus membros olham o trabalho como algo quase desprezível, defendendo que um homem deve apenas estudar Torá.
Curiosamente, o homem do sofá tinha umas payot longas, e uma barba a condizer. Numa declaração que parecia falar contra ele próprio, comentou que o aspeto dos ultra-ortodoxos os torna “os moicanos de hoje”. Com as suas longas (e muitas vezes desgrenhadas) barbas e as payot, são tão extravagantes como as coloridas cristas eriçadas que foram moda entre a juventude rebelde há algumas décadas.
Depois de terminado o trabalho do barbeiro, observou "Olha como ficou bonito! Tem barba, tem as payot que a Torá prescreve, que não precisam de ser longas, kipá e tzitzit à mostra. Abençoado sejas". Desejou-me boa sorte para o trabalho. E que sendo um judeu religioso no mundo do trabalho, que santifique o nome de Deus.
Este é um desafio dos judeus religiosos: manterem a prática religiosa no seu contacto com o mundo não-religioso. Muitos aspetos da “vida moderna” são contrários a certas determinações da Lei Judaica. Se do lado secular, existe uma certa aversão às manifestações exteriores de religiosidade, do lado religioso existe também a insistência em afirmar essa identidade religiosa. Ambos os lados se sentem ofendidos pela atitude do lado contrário.
Um judeu religioso, no seu trabalho, tem a dupla responsabilidade de ser um bom profissional e um bom cumpridor da Halachá. O seu aspeto exterior pode criar a aversão dos não-religiosos não só à sua pessoa, mas a todos os judeus religiosos. No caso em que ele seja o único judeu observante entre os colegas, ele será um embaixador de todo o público religioso. Um representante da tradição milenar judaica e um testemunho de que a Torá tem lugar e relevância em todas as eras, sem nunca cair em desuso, e muito menos parecer ultrapassada.
Enrolar as payot. É quase um vício daqueles que seguem este costume judaico.
Há uns tempos, em conversa com um amigo americano sobre o lugar onde moramos, ele comentou que, por eu residir no colonato religioso de Alon Shevut, vivia numa espécie de "bolha". Em jeito de piada eu comentei-lhe que na verdade eu vivia dentro da "bolha brasileira" dentro da "bolha de Alon Shevut". Ele mora no vizinho colonato de Efrat, o melhor exemplo de uma "bolha americana" em Israel.
Desde que cheguei a Israel, há quase 7 anos, que o meu contacto com a sociedade israelita tem sido quase marginal. Eu explico. Vim para estudar num curso de conversão para sul-americanos, em que as únicas línguas usadas eram o português e o espanhol. Daí passei para uma yeshivá, o Machon Meir, estando integrado no grupo de estudos sul-americano. No meu quarto, falava português com os companheiros brasileiros e, pela falta do hebraico, usava o inglês com os dois companheiros israelitas. Apenas com um deles, de origem russa e com um inglês escasso, tentava falar um pouco em hebraico, à medida que ia aprendendo nas aulas do ulpan ivrit (curso oficial de hebraico).
Ao passar para a Yeshivat Hakotel, de novo para um programa de sul-americanos, o hebraico era apenas a quarta língua usada no meu dia-a-dia. Antes da língua sagrada, estavam o português, o espanhol e o inglês, usado com os muitos colegas americanos da yeshivá. O hebraico limitava-se às orações e os livros de estudo, mas não às discussões talmúdicas com os meus companheiros de estudo, que eram sempre brasileiros.
O mesmo aconteceu depois de entrar no grupo de alunos do kollel, a classe dos alunos casados, que estudam Torá num nível avançado. Na altura, tinha aberto um kollel para sul-americanos na yeshivá e eu integrei o grupo estreante. Apesar de estudarmos as fontes da Halachá (a Lei Judaica) na sua forma original em hebraico e aramaico, as duplas de estudo e discussão e as classes de semanais de revisão e desenvolvimento da matéria eram feitas exclusivamente em português.
Depois de casar, com uma brasileira, fomos viver para Alon Shevut, um pequeno colonato religioso 20 quilómetros a sul de Jerusalém, na região de Gush Etzion. A razão para a escolha da morada foi simples: a referida "bolha brasileira". Estar com pessoas que falam a mesma língua, e as quais já conhecíamos antes de casar, seria uma boa forma de nos integrarmos na vida local.
Conhecemos e somos próximos de quase todas as famílias brasileiras do povoado. É comum partilharmos a mesa de Shabbat, quer recebendo visitas ou sendo visitantes em suas casas. As crianças das famílias brasileiras são também bastantes próximas, se bem que muitas vezes brinquem em hebraico – a língua do infantário e da escola – e não tanto em português.
A língua sagrada, ainda que se fosse desenvolvendo naturalmente, era relegada para as ocasionais conversas de rua, no supermercado e no autocarro ou com os vizinhos israelitas. Mas sempre com a sensação de ser ainda uma língua estrangeira. Consigo pensar em português e mesmo em inglês ou espanhol, mas ainda não em hebraico.
Ao entrar no curso de preparação para shelichut, o meu nível de hebraico foi forçado a aumentar. Todas as classes, e praticamente todas as conversas com os companheiros de curso, eram exclusivamente em hebraico. Ainda que, no início, tenha perdido um pouco do conteúdo das aulas pelas dificuldades do idioma, o meu nível de hebraico melhorou consideravelmente com o tempo.
Há uns meses, chegou a hora de deixar a yeshivá e procurar trabalho "lá fora". Depois de algumas semanas de procura, encontrei um emprego numa empresa de call-center. A empresa é israelita, mas trabalha exclusivamente para o mercado internacional, em especial a França. No meu caso, sou o encarregado do serviço de atendimento aos clientes de uma empresa de material informático francesa que tem negócios em Portugal e Espanha. Mesmo a calhar. Por e-mail ou pelo telefone, trabalho exclusivamente nos idiomas ibéricos. Com os colegas de trabalho, todos franceses, falo em hebraico e começo a recuperar o idioma de Voltaire, abandonado desde que deixei de o estudar, no 9º ano da escola.
Apesar de ter encontrado trabalho, e de não me queixar das condições, continuo à procura de outro lugar. Ainda penso ser possível encontrar algum lugar onde possa por em prática aquilo que aprendi na faculdade. Se não for ao serviço do negócio da comunicação, que fosse ao serviço do Estado de Israel. Possivelmente, ainda demorará algum tempo até conseguir sair da bolha brasileira (e agora francesa) e finalmente integrar plenamente a sociedade israelita. Porém, como alguém me disse uma vez: "apesar de viver há mais de 30 anos em Israel, a dupla identidade – israelita e estrangeira – é algo que nunca nos larga".
Lembro-me como se tivesse sido ontem, pensarão muitos, que terão ainda bem vivo na memória o abalo daquele dia. Para aqueles que presenciaram – mesmo pela televisão – o desenrolar do mais delirante ataque terrorista de sempre, o 11 de Setembro de 2001 é um dia inesquecível. Poderei dizer que será o dia mais negro deste ainda curto século XXI. O mais marcante, pelo menos.
Até hoje, sentimos as repercussões do embate dos dois aviões e a consequente queda das majestosas Torres Gémeas do World Trade Center. (Sem esquecer o ataque ao Pentágono e a queda do 4º avião num campo da Pensilvânia, heroicamente despenhado pelos próprios passageiros). A guerra ao terror, com todos os seus erros e más decisões, não tornou o mundo mais seguro depois do 9/11. Pelo contrário.
A invasão do Afeganistão e perseguição de Bin Laden – finalmente morto há poucos meses, depois de quase uma década de busca pelos americanos – não eliminou a ameaça dos Talibãs e do seu fanatismo. A sinistra al-Qaeda está ativa. Apesar de ferozmente acossada pelo exército americano, continua a espalhar o medo e a morte. Mesmo morto, Bin Laden continua a inspirar seguidores, dispostos a matar e morrer em nome da sua doutrina. Como uma sanguinária divindade pagã, a cujo culto devem ser sacrificados todos os que ousem recusar o seu tirânico domínio.
O Afeganistão, para lá das principais cidades controladas pelo regime central apoiado e guardado pelo Ocidente, continua a ser um imenso campo de treino terrorista como era nos tempos em que a canalha de Bin Laden dominava o país. Espantados em parte do Afeganistão, os terroristas da al-Qaeda pululam hoje no Paquistão, na Somália, no Iraque e (suspeita-se) em Gaza. Ou onde quer que a confusão reine pelo mundo muçulmano.
A invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein provou-se um desaire militar e de relações públicas para os EUA. E um sorvedouro de dinheiro dos impostos americanos: de acordo com alguns cálculos, mais de 3 triliões (!) de dólares já foram gastos com a invasão e os quase oito anos de ocupação do Iraque. As armas de destruição maciça não passavam de uma boa desculpa para derrubar um ditador anti-americano e brutal, mas inocente em relação ao que se passou naquela manhã de Setembro. O Iraque é hoje um campo de treino e o maior palco de ação de organizações terroristas. Tirando o Curdistão Iraquiano, o resto do país é marcado pelos ataques às tropas ocupantes, as autoridades locais e a perseguição às minorias religiosas. Carnificinas diárias matam indiscriminadamente dezenas de pessoas, em atentados contra estações de polícia, mesquitas e mercados. O número de refugiados iraquianos nos países vizinhos e dentro do próprio país atinge os 4 milhões.
As invasões do Afeganistão e Iraque até poderiam ter sido "justas", ou no mínimo justificadas, se tivessem resultado numa pacificação desses países. Poderiam ter tornado o mundo num local mais seguro. Porém, o perpetuar da ocupação militar já custou alguns milhares de mortos entre as tropas americanas e britânicas. E entre os iraquianos, o número de mortos desde a invasão e bombardeamentos iniciais aos milhares de atentados que aconteceram desde então, varia entre algumas centenas de milhar e mais de um milhão, dependendo das fontes. Tudo isto fez rapidamente perder a simpatia pela "Guerra ao Terror", em especial na Europa, onde a imagem dos EUA é cada vez mais negativa. Nos EUA, o aparelho de segurança, apesar de consumir um orçamento astronómico de dezenas de biliões de dólares anualmente, continua a ser pouco eficiente. Nisto, Israel tem muito a ensinar aos Estados Unidos e a qualquer outro país.
Logo a seguir ao 11 de Setembro, as autoridades entenderam a necessidade de limitar os direitos individuais em nome da segurança coletiva. Hoje, essa concepção parece estar a perder apoio, tanto entre o povo, como entre os políticos. Por exemplo, enquanto radicais islâmicos propagam abertamente a sua doutrina nas ruas e mesquitas da Europa, as autoridades permanecem, em muitos cais, sem qualquer reação. Também, ou talvez sobretudo, por medo da retaliação violenta dos fanáticos.
Um ensinamento do Midrash (uma forma de explicar a narrativa bíblica) diz: "Aquele que é misericordioso com os cruéis, acabará sendo cruel com os misericordiosos" (Midrash Tanhuma, Parashat Mezorá, 1). Esta expressão poderia ser entendida e recebida, ainda que a contra-gosto, por muitos políticos e cidadãos comuns no seguimento dos ataques de Setembro de 2001. Hoje porém, a sua aceitação será menos unânime. Em nome da supremacia da "liberdade de expressão" e dos "direitos humanos".
O fanatismo islâmico, apesar de todos os apelos a uma auto-análise e reforma islâmica, também não diminuiu de força. Para lá das iniciais reações de júbilo pelos ataques de 11 de Setembro entre alguma populaça muçulmana, a opinião pública no mundo árabe e islâmico não se tornou mais pró-americana ou anti-fundamentalista. A verdade é que tampouco foram educados para tal pelos seus governantes e líderes religiosos. Tirando algumas cosméticas operações de caça a terroristas e seus apoiantes na Arábia Saudita, Iémen ou Paquistão, pouco foi feito para combater o radicalismo islâmico na sua origem. E mesmo estas operações destinaram-se mais a defender a permanência dos próprios regimes face à ameaça da oposição destes fundamentalistas, do que a combater os agentes armados do Islão radical.
Apesar de todas as discussões sobre os perigos do crescente radicalismo islâmico e a urgência de uma reforma social, política e religiosa no mundo islâmico, pouco mudou dentro do Islão desde 2001. Bin Laden e a sua ideologia fanática ainda alimentam paixões e fervoroso apoio populares. Os líderes políticos árabes continuam tão corruptos e fanáticos como antes. Até as revoltas populares que têm alastrado um pouco por todo a região, apesar das enormes esperanças da instauração da democracia, correm o risco de se transformarem em oportunidades de tomada do poder pela via democrática pelas forças radicais, como a Irmandade Muçulmana no Egito.
Na Líbia, até agora um dos mais liberais regimes árabes em termos de igualdade entre os sexos, já se nota o aumento do número de mulheres que usa o véu publicamente, um sinal da crescente influência do Islão tradicional, depois do derrube do regime secular de Kadhafi. Os líderes da oposição líbia que tomaram o poder em Tripoli já anunciaram que a Sharia (a Lei Islâmica) deve ser a base da futura constituição da Líbia pós-Kadhafi. A esperança da "Primavera Árabe" poderá transformar-se num tempestuoso Inverno islâmico no Médio Oriente e Norte de África.
Os líderes religiosos muçulmanos, em especial no mundo árabe, tirando algumas figuras fora do mainstream, seguem a retórica da jihad contra o Ocidente. O Wahhabismo, a doutrina mais fanática dentro do Islão atual – apesar de ser considerada uma heresia por algumas das escolas islâmicas mais influentes – continua em forte expansão. Os abundantes petrodólares sauditas que patrocinam a construção de centenas de mesquitas dos EUA ao Brasil e a toda a Europa e África, patrocinam também os respetivos imãs, doutrinados de acordo com a corrente islâmica wahhabi, a única permitida na Arábia Saudita.
A Europa, com a sua cada vez mais alienada juventude muçulmana, dividida entre a sociedade europeia onde reside e a sua origem cultural, tem sido um fértil campo de recrutamento para o terrorismo. Os próprios autores do 11 de Setembro tinham sido estudantes em universidades europeias. E alguns dos mais ousados ataques (ou tentativas de ataque) desde o 11 de Setembro foram cometidos por muçulmanos europeus, como o "terrorista do sapato", o inglês Richard Reid.
Em termos políticos, a União Europeia tem sido cronicamente incapaz de ter uma voz única em termos de diplomacia, seguindo perigosa e estupidamente impotente face ao avanço do Islão radical dentro das suas fronteiras. O anti-americanismo doentio de alguns setores da política europeia tem minado uma completa cooperação em termos de segurança entre os dois lados do Atlântico que é indispensável para os desafios que se nos apresentam. A expressão "guerra ao terror" tornou-se quase inócua 10 anos passados do mais mortal atentado terrorista da história. As mudanças ao nível da segurança já caíram na rotina de muitos cidadãos.
Como comentou Uri Bar Lev, um especialista israelita em terrorismo: "Precisamos de começar a preparar-nos para a próxima guerra, em vez de para as guerras que já travámos. Estamos numa nova era, inteiramente diferente e mais perigosa do que a era passada. Não podemos dar-nos ao luxo de vacilar em face desta nova realidade."
Segurança nos aeroportos | Prisão de Guantanamo, em Cuba | Abu Hamza al-Mazri, líder da mesquita de Finsbury Park, em Londres, um dos focos do radicalismo islâmico na Europa
Embate do segundo avião no World Trade Center, em NY | A queda da Torre Norte
Soldado americano ferido no Iraque | Jovens afegãs de burka numa cerimónia de graduação
Cumprem-se hoje cinco meses desde o dia em que embarquei na mais longa viagem que fiz até hoje: Cancún, no México. Fui visitar a kehilá (comunidade judaica) local. A frequentar o curso de preparação de shelichut¹, recebemos uma proposta séria para a pequena comunidade judaica no Caribe mexicano. Depois de algumas conversas via Internet e troca de emails, fui convidado a passar uma semana com a kehilá. Apenas eu iria viajar para Cancún. Nesta fase inicial de contacto com a comunidade, decidiram que era prematuro que a restante família me acompanhasse.
O programa da visita foi um pouco complicado de gerir. Acima de tudo, por ser a primeira vez que passava por uma experiência deste género. Nas semanas anteriores à viagem tive de preparar várias classes, discursos a serem proferidos na sinagoga durante o Shabbat e atividades para as crianças. Contactei rabinos que tinham trabalhado na América Latina, incluindo no México, para saber que assuntos abordar nas classes, para manter as pessoas interessadas. Uma das classes seria para as mulheres. Aconselharam-me a falar sobre o Amor. Além disso organizaria uma “conferência” com um tema à minha escolha.
Porém, o que me levantou mais dúvidas foi a convivência com a débil prática religiosa dos judeus locais. Como comer kosher durante uma semana? Se houvesse alguma atividade na praia ou na piscina – ambientes comuns no dia-a-dia dos judeus locais – como ficaria a questão de
tzeniut² (ou modéstia feminina)? E, com alguns membros da comunidade não sendo judeus de acordo com a Lei Judaica (por via de conversões não-ortodoxas) como poderia organizar as rezas na sinagoga?
As conversas com o diretor da organização onde estudei dois anos para a preparação da shelichut deixaram-me bem mais descansado. Era preciso, antes de mais, “aliviar um pouco a cabeça” habituada à estrita ortodoxia da vida judaica de Israel. A comida seria providenciada pela cozinha da comunidade, que é kosher, e pelas famílias que respeitam as regras alimentares judaicas em suas casas, como havia comprovado o próprio diretor numa visita a Cancún, alguns meses antes. Na questão da tzeniut, as opiniões que consultei divergiam. Uma dizia para tentar fixar as atividades de forma que evitasse totalmente esse problema. Outra opinião, que me surpreendeu pela complacência, foi simplesmente um peremtório: “Não olhes”.
Quanto aos possíveis não-judeus que integram as rezas na sinagoga (neste caso, convertidos por correntes não-ortodoxas, que não aceitam todas as regras da Lei Judaica), fui aconselhado a ignorar esses casos e organizar as rezas da maneira regular. Existem inclusive algumas razões haláchicas para esta leniência, por isso durante a minha visita não deveria abordar estes casos problemáticos.
A viagem de avião para Cancún foi difícil de aguentar. O horário do voo, saído de madrugada de Tel Aviv, estragou-me a noite de sono. O frio, o barulho dos motores, das dezenas de pessoas a roncar e tossir e o choro das crianças tornaram o longo voo de 12 horas até Filadélfia uma tormenta. A paranóia de segurança dos EUA iria fazer-me correr na curta escala entre os voos. Nem mesmo para quem está habituado à apertada máquina de segurança em Israel, as regras praticadas nos EUA são fáceis de suportar.
Cheguei a Cancún quase 24 horas depois de sair de casa. Passei do fresco início de Primavera de Gush Etzion para o escaldante e interminável Verão das Caraíbas. À saída do aeroporto, a rajada sufocante dos mais de 30 graus e da imensa humidade. O ar condicionado seria o meu melhor amigo naquela semana. Fui recebido pelo presidente da comunidade. Antes de me levar ao hotel, no centro da cidade, passámos pelo pequeno centro comunitário judaico para conhecer as instalações, a dois quarteirões de distância do meu hotel.
Teria algumas horas para descansar, depois de um duche. Antes de me deitar, ainda mandei uma mensagem para casa, pela Internet. Sete horas de diferença em relação a Israel significavam um quase absoluto desencontro de horários para marcar uma conversa com a família. Uma pessoa da comunidade tinha mandado entregar dois cestos com comida kosher (fruta, sumos e bolachas) para satisfazer o meu apetite no hotel. Depois do duche, da mensagem para o lar, do curto descanso, de comer um pouco – no voo de 4 horas desde Filadélfia não havia comido nada – começava o programa de trabalho daquela semana de visita à comunidade judaica de Cancún. As reuniões foram todas à volta da mesa de jantar, com as famílias dos líderes da comunidade.
Antes do primeiro almoço de trabalho, fui levado a um breve passeio para apreciar a famosa praia de Cancún. A alguns quilómetros do centro da cidade, percorrendo a avenida onde se situam os gigantescos hotéis, os clubes noturnos e os centros comerciais luxuosos, chegámos a um ponto onde pude admirar o Mar das Caraíbas, de um azul-turquesa indescritível. Perante tal grandiosidade, recitei a bênção: “Bendito És Tu, Eterno Nosso Deus, que fazes a Obra da Criação”. Pela primeira vez, vi o Atlântico do seu lado ocidental.
Num local tão improvável para encontrar vida judaica organizada como a costa caribenha do México encontrei uma comunidade pequena, de apenas 40 famílias. Todos tinham chegado a Cancún vindos de outra região do México, a maioria da cidade do México. Ou de outros países. Sem escola própria, minada pela assimilação e os casamentos mistos, era até então uma comunidade associada ao Judaísmo Conservador. A atuação do último rabino da comunidade tinha sido de tal modo desastrosa, dando uma péssima fama da comunidade de Cancún, que esta decidiu contratar um rabino ortodoxo.
Não que, com a chegada de um rabino ortodoxo, a comunidade se tornaria só por si ortodoxa. Contudo, apercebi-me que as mudanças pretendidas eram mais do que cosméticas. A liderança estava consciente das mudanças profundas necessárias à sobrevivência da pequena congregação. O problema das conversões “expresso” ocorridas na fase “conservadora” era o assunto mais quente da futura atuação do futuro rabino da comunidade. Num fenómeno demasiado corrente na Diáspora, quase todos os homens da comunidade haviam casado com mulheres não-judias. Em alguns casos, elas tinham passado a tal conversão vapt-vupt, em outros nem isso. Isso significava que entre as crianças da comunidade, poucas seriam judias de acordo com a Halachá (a Lei Judaica).
Para uma comunidade tão pequena e tão pouco religiosa – poucas famílias cumprem as regras alimentares judaicas e apenas um membro da comunidade cumpre o Shabat – a participação nas atividades religiosas da sinagoga é bastante elevada. Ao contrário de comunidades maiores (como Lisboa, por exemplo), a sinagoga tem minyan diariamente. Todas as manhãs, após o serviço religioso: o pequeno-almoço comunitário é uma oportunidade de ouro para organizar uma breve sessão de estudo. No Shabat, após o Kabalat Shabat há sempre um jantar da comunidade, frequentado por umas 50 pessoas. E o almoço na manhã seguinte também é partilhado por várias famílias. Cada um sente a sua responsabilidade como membro, para que a restante comunidade possa manter-se ativa. O compromisso com a vida comunitária é fortíssimo e comovedor de testemunhar.
Durante a semana, servi de chazan (oficiante) durante os serviços matinais na sinagoga. Também fui eu que li na Torá. Duas estreias absolutas para mim. Não creio que me saí tão mal, mas precisarei de mais prática. Na manhã de domingo, a ocasião de conhecer algumas crianças e participar nas suas atividades semanais na sinagoga, junto com o animador do grupo de jovens, recém regressado de Israel. Através de algumas brincadeiras didáticas ensinei-lhes um pouco sobre a festa de Pessach, a acontecer daí a algumas semanas.
Por uma questão de cortesia, visitei o emissário Chabad na cidade. Devido à situação dos casamentos mistos e das conversões, ele tinha recusado a oferta de ser o rabino da comunidade. Por isso, tirando algumas aulas com algumas famílias e o abastecimento de alguma comida kosher importada, ele dedicava-se quase exclusivamente a assistir os turistas judeus de visita a Cancún.
Uma das coisas que mais me impressionou na visita foi a simpatia e informalidade dos judeus cancunenses. Apesar de quase todos serem milionários, vivendo em mansões faustosas, não tinham o menor toque de snobismo, tão comum entre os ricos. (E essa é a imagem que tenho dos judeus mexicanos).
Depois de uma semana de visita, apesar de todos os desafios que uma shelichut em Cancún implicaria, imaginei que seria uma comunidade interessante onde trabalhar. Sendo uma comunidade tão pequena e remota, era contudo extremamente unida e interessada na vida comunitária, algo que falta noutras paragens. O local também ajudara a criar uma boa perspetiva de decidir transplantar a família para tão distantes latitudes. As questões económicas nem sequer foram mencionadas. Esse assunto deveria ser relegado para uma etapa mais avançada nas negociações.
Poucos dias após o regresso a Israel recebi a resposta da kehilá. Eu não seria o escolhido para liderar a comunidade. A minha falta de experiência, face às complicadas questões que rodeiam a vida judaica em Cancún, determinara este desfecho. Ainda que um pouco desiludido, reconheço a razão da decisão. As tarefas são hercúleas e o novo shaliach terá de ter um pulso muito forte para aguentar as adversidades. Além de, diplomaticamente ter de engolir alguns sapos e por vezes fechar os olhos, por outro terá de ter coragem de bater na mesa quando seja imprescindível. Só desejo o maior sucesso ao que tomar o cargo que, um dia pensei que poderia ser eu a realizar. De Cancún e dos seus judeus guardo ótimas memórias.
¹ Shelichut – Literalmente, "missão". O termo aplica-se aos rabinos e educadores (sendo estes chamados de shelichim, "enviados"), que vão trabalhar temporária ou definitivamente com as comunidades judaicas da Diáspora. Também é aplicado aos diplomatas. ² Tzeniut – "descrição" ou "modéstia". Refere-se em especial às regras de vestuário feminino para evitar expor demasiado o corpo. Algo especialmente difícil nos 12 meses de verão de Cancún.
Praia de Cancún | Espetáculo de um mimo israelita no shopping Kukulcan Plaza.
Pequeno-almoço comunitário | Vitral maia, cúpula do Kukulcan Plaza.
Depois de dois anos, terminámos o curso de preparação para shelichut, para irmos trabalhar em alguma kehilá (comunidade judaica) da Diáspora. No início do curso, as limitações do meu hebraico (que ainda persistem, embora cada vez menos) fizeram-me perder algum do conteúdo de algumas classes.
Nas primeiras semanas, muitas das aulas pretendiam dar-nos uma perspetiva da situação do Povo Judeu no Mundo. Perante a maior experiência e muito maiores conhecimentos de quase todos os meus companheiros de classe, apercebi-me do quanto ainda tinha de desenvolver as minhas aptidões. Porém, também percebi que, apesar das minhas limitações em alguns níveis, a minha capacidade de relacionamento com outras pessoas e diferentes culturas – a tal “cabeça aberta” que falta a muitos judeus religiosos israelitas – ajudavam a ultrapassar alguns desses obstáculos.

O movimento Chabad é pioneiro nas iniciativas de aproximação dos 'afastados' às suas raízes judaicas.
Relatos dos diretores do curso, que viajam regularmente para acompanhar o trabalho nas várias congregações, assim como dos próprios emissários de visita a Israel, revelaram uma imagem quase catastrófica do Judaísmo da Diáspora. As altíssimas taxas de casamentos mistos em todos os países (exceto em dois ou três casos muito específicos), níveis de prática religiosa e conhecimentos de Judaísmo muito baixos, crise na identidade judaica entre os jovens e ocorrência de anti-semitismo. A cada semana, a carga de tragédias aumentava e com ela a sensação de total impotência para enfrentar a situação.
Aos poucos, porém, a frustração foi substituída pela consciência de que, apesar das enormes dificuldades no trabalho com as comunidades judaicas, existe muito por onde melhorar e qualquer pequeno progresso faz uma grande diferença. Apesar do desinteresse (ou pura ignorância) pelas tradições dos antepassados, das crescentes taxas de assimilação e abandono da vida judaica, os processos inversos também se verificam.
O renascimento da espiritualidade, o regresso às origens perante a perceção de que o "Mundo Ocidental" não dá todas as respostas nem preenche todos os vazios. Ainda que, por vezes, essa nova espiritualidade não se enquadre propriamente dentro das normas da ortodoxia. Como alguém muito pragmático descreveu o fenómeno: parece não existir nenhuma contradição em “estudar Cabalá numa Sexta à noite, em redor de um prato de camarão”.
Ao longo do curso fomos recebendo algumas propostas de destino de trabalho. Ansiosos por preencher as vagas e enviar o maior número de emissários da própria organização, antes que o lugar seja ocupado “pela concorrência”, recebemos também algumas propostas quase absurdas. A primeira foi para Lisboa, poucos meses após o início do curso. Tendo eu passado por Lisboa na minha caminhada em direção ao Judaísmo, e conhecendo ainda um pouco da kehilá, depressa entendi a proposta como irrealista. Enfrentar uma comunidade pequena mas complicada como Lisboa, com a minha inexperiência, seria um perfeito suicídio. Alguém me avisou: “vão comer-te vivo!”.
O "caso Lisboa" não avançou – na verdade não tinha sequer como avançar logo à partida – e, numa questão de poucos meses, o lugar foi preenchido por alguém muito melhor preparado. Definitivamente, aquela oferta não era para alguém que procura ainda o seu primeiro posto de shelichut.
Alguns meses depois, fomos despertados com a possibilidade de irmos para Madrid. Alguém na comunidade madrilena pretendia abrir um beit midrash – um centro de estudos judaico – e precisavam de um professor. Ao mesmo tempo trabalharia com os jovens no colégio judaico local. Algumas conversas com um intermediário deram-nos detalhes interessantes sobre o trabalho. Porém, algumas semanas depois, de repente, os planos para o beit midrash madrileno esfumaram-se.
Ainda durante o primeiro ano do curso, mais de metade dos colegas de classe encontraram um lugar em comunidades no estrangeiro. A maioria na América do Norte. Outros, por alguma razão, desistiram de sair. Ao longo do segundo ano, o entusiasmo inicial de trabalhar para ajudar o Povo de Israel esmoreceu parcialmente. O panorama de sair de Israel para, daqui a alguns anos, voltar ao país sem ter casa nem trabalho, fizeram-nos distanciar um pouco daquele sonho.
Entretanto recebemos uma proposta para Cancún, no México. O tipo de comunidade pareceu-me bem interessante: pequena mas ativa, sem escoa judaica onde tivesse de ensinar todos os dias “das 9 às 5”. Falei pela Internet com os líderes da comunidade e cheguei mesmo a viajar para o México durante uma semana, a fim de conhecer in loco a comunidade. Apesar da experiência positiva da viagem e do contacto com os judeus de Cancún, acabaram por decidir que eu ainda não tinha a experiência necessária para resolver os graves problemas da comunidade. Não posso dizer que não tenham razão, apesar de lamentar de ter – de certa forma – perdido uma boa oportunidade. Mas, se não é, é porque não tem de ser.
Havíamos decidido, à partida, irmos para algum lugar de língua portuguesa ou espanhola, também por questões de proximidade cultural. Enfrentar a possibilidade de não entendermos as pessoas com quem iríamos trabalhar e ainda forçar as nossas crianças a aprender um idioma adicional, estava fora de questão. Porém, as ofertas para outras latitudes continuaram a chegar. Como o cargo de vice-rabino de Atenas, na Grécia, trabalhando como auxiliar do rabino local e em projetos de educação dos jovens da comunidade. Sem falar grego, a única possibilidade seria comunicar-me em inglês. Contudo, a minha esposa praticamente não fala o idioma de Shakespeare (e menos ainda o de Platão), pelo que isso significaria, nos primeiros meses, até aprender um pouco do idioma local, uma total impossibilidade de comunicação. Por outro lado, as crianças estariam numa escola onde aprenderiam um idioma – neste caso o grego – totalmente desconhecido por nós, e que não seria sequer usado em casa. Proposta idêntica tivemos para Wroclaw, na Polónia. Mas em vez do grego, o polaco. Que se seguirá: coreano?
Poucas semanas antes de terminar o curso soubemos do caso da comunidade de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos. A comunidade pretendia um casal de professores para a escola judaica local. O homem ensinaria os rapazes, a esposa daria aulas às meninas. Pelos dados que recolhi sobre a kehilá – quase ultra-ortodoxa – entendi que não seria o lugar adequado para nós.
Mesmo depois de terminado o curso, as possibilidades de saída continuarão a surgir. Porém, quanto mais tempo passa depois da conclusão do curso, é verdade que diminuem as hipóteses de encontrarmos algum lugar. É algo que ainda queremos fazer, mas não podemos sair precipitadamente. A comunidade certa para os emissários certos. Como num casamento. De outra forma, arriscamo-nos ao fracasso.
Ainda que, como instituição o casamento esteja em grave crise, o dia da boda é – depois do nascimento – quase universalmente considerado a mais importante data da vida de alguém. Em todas as culturas, a formação de uma nova família é um evento rodeado de inúmeros rituais, tradições, formalidades e superstições.
As festas de casamento judaicas, apesar de serem ocasiões obviamente intensas e emocionantes, duram apenas algumas horas. Em Israel, pelo menos. Não um dia inteiro, como é normal nas bodas cristãs. Em Israel, o único dia de descanso semanal é o Shabbat, o Sábado. O Domingo, pelo contrário, é um dia de trabalho normal. Porém, de acordo com a Halachá, a Lei Judaica, não se realizam casamentos no Shabbat. Restarão os dias úteis para a realização do matrimónio. Depois do horário de trabalho, ao final da tarde, ou já de noite. Em Israel, a maior parte dos casamentos não se realizam em sinagogas. Toda a boda, incluindo a cerimónia religiosa, realiza-se normalmente num salão de festas. Ou num hotel.
Tirando os membros mais chegados da família, é normal os convidados chegarem à boda diretamente do trabalho. A informalidade israelita não impõe o uso de gravata ou fato de cerimónia. Nem sequer ao noivo. Entre o público dati leumi, ou ortodoxo moderno israelita, é comum muitos dos homens, em especial os mais jovens, usarem sandálias que noutras paragens seriam consideradas adequadas a uma ida à praia. Se esse é o calçado que eles usam até no Shabbat, porque seriam impróprias para usar num casamento?
Entre os Judeus religiosos, muitos dos casais são unidos por intermédio de um shiduch. Algum intermediário combina o encontro entre o rapaz e uma potencial pretendente. Apesar de o shiduch ter a aparência de "casamento arranjado", a decisão de casar-se é feita exclusivamente pelos noivos e nem sequer pelos seus pais. A Lei Judaica proíbe absolutamente a coerção de uma das partes a casar-se com quem não deseja. Apenas o "empurrão inicial" e alguns conselhos intermédios são feitos pelo shadchan, o tal intermediário.
Após a oficialização do noivado – é comum haver uma pequena cerimónia – são poucos meses, ou mesmo só algumas semanas, até à realização do casamento. Não há tempo a perder, se o casal já deseja a união! Além dos inúmeros detalhes de uma qualquer cerimónia de casamento: a escolha do salão, do fotógrafo, da decoração, da banda ou do vestido de noiva, o casamento judaico implica outros trabalhos extras.
Em Israel não existem casamentos civis. Apenas religiosos. Sejam eles judaicos, muçulmanos, cristãos ou drusos. Para os Judeus, toda a burocracia do casamento tem de passar pelo rabinato local. Uma das dificuldades acrescidas nos últimos tempos é a exigência de uma "prova de Judaísmo". Com a imigração de gente de todo o mundo, com muitas pessoas nascidas de uniões não realizadas de acordo com a Halachá, ou que não possuem documentos que provam os casamentos familiares, torna-se mais difícil provar a cadeia familiar judaica. Sem a certeza de que se trata de duas pessoas judias (nascidas de mãe judia ou que passaram uma conversão ortodoxa), o casamento não pode ser realizado de acordo com a "Lei de Moisés e Israel".
Um dos fenómenos causados por estas exigências de prova de identidade – que por vezes revelam que afinal um dos noivos não é judeu – é a decisão de casar fora de Israel. Isto, no caso de o membro não-judeu do casal não desejar passar um processo de conversão. Desta forma, os noivos viajam para a Grécia ou Chipre e aí realizam um casamento civil. Esta união é reconhecida em Israel.
Depois de ultrapassada a burocracia do rabinato, existe a exigência de estudo das leis familiares judaicas. A separação do casal durante o período menstrual, rodeada de complicadas leis, é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo. Mesmo que não sejam cumpridas – em todo ou em parte –, pela maioria das famílias não-observantes, as futuras noivas judias passam pelo menos por uma classe sobre "as leis de pureza familiar". Entre os judeus religiosos, também os homens passam um período de estudo destas leis antes do casamento. Ao mesmo tempo, são estudados assuntos como a harmonia familiar e formas de a conservar, evitando a discórdia.
Nas vésperas do grande dia, noiva deve passar por uma imersão numa mikve, um tanque de águas usado para a purificação ritual. Também existe o costume de o noivo fazer uma imersão na mikve. Em algumas comunidades ultra-ortodoxas existe o costume de o futuro casal não se encontrar, e muitas vezes nem sequer falaram um com o outro pelo telefone, uma semana antes do casamento. Com isto pretende-se aumentar a saudade entre os dois e a ânsia de realizarem a sua união. No próprio dia do casamento cada um dos noivos costuma ser acompanhado por um "guardião". Alguém que os vigia e se assegura que tudo corre tranquilamente e não se deixam vencer pela ansiedade.
Como nos casamentos ocidentais, também o noivo judeu chega primeiro ao local da cerimónia. Há que tratar da assinatura da ketubá, o contrato matrimonial. Perante o rabino oficiante da cerimónia e duas testemunhas – e normalmente também o pai da noiva –, o noivo assina a ketubá, um documento que atesta os direitos da futura esposa e as obrigações do futuro marido. Nesta altura, enquanto o noivo trata das últimas formalidades legais, noutra parte do salão de festas a noiva encontra-se rodeada das amigas, sentada numa cadeira decorada.
Após a assinatura da ketubá, dá-se início à festa. A banda de música que anima a ocasião e os homens convidados rodeiam o noivo, que inicia um cortejo até ao lugar onde a sua noiva está sentada. Para os que cumprem o costume, esta é a primeira vez que os noivos se vêem numa semana. Aí, cobre-lhe a cabeça com o véu. Daí, o noivo, ladeado pelo pai e o sogro, é seguido pelo mesmo cortejo até à chupá, o pálio nupcial sob o qual será realizada a cerimónia religiosa. A noiva chega pouco depois acompanhada pela mãe e, às vezes, também a sogra.
A cerimónia é bastante simples e rápida. Sete bênçãos são recitadas sobre um copo de vinho. Às vezes, cada uma é recitada por um homem diferente, desde rabinos convidados até amigos e familiares dos noivos. Depois da segunda bênção, o noivo entrega a aliança à noiva, declarando que "Estás consagrada para mim através deste anel, como dita a lei de Moisés e Israel". "Consagrada, consagrada, consagrada!", os convidados declaram em voz alta. A ketubá é lida. Normalmente, este é um "momento morto" da cerimónia, uma vez que o contrato matrimonial está escrito em aramaico, uma língua que muito poucos entendem. Ao final das sete bênçãos, recorda-se Jerusalém: "Se eu te esquecer Jerusalém, que a minha mão direita perca a sua força; que a minha língua se cole ao meu palato se eu não te lembrar; se eu não te elevar ao topo da minha alegria".
O momento mais famoso da festa de casamento judaico é o quebrar do copo de vidro. Apesar de se seguir de um "Mazal tov!" (Boa sorte!) em uníssono, o ato simbólico de partir o copo representa a lembrança da destruição do Templo de Jerusalém e de como a alegria desta festa não pode ser completa, ao sabermos que o Templo continua ausente e o Povo de Israel ainda está distante da sua glória de outrora.
Os convidados invadem a chupá para saudar os noivos. Depois, novamente a barafunda do cortejo de convidados acompanha o casal desde a chupá até a um lugar onde os dois, pela primeira vez, se encontram a sós. É a hora de os convidados poderem sentar-se à mesa e comer. Porém, dentro de alguns minutos, quando os noivos voltarem, a euforia da festa será explosiva.
Nas festas de casamento judaicas ortodoxas, existe uma separação entre homens e mulheres. Ao menos na parte das danças. Homens e mulheres dançam em espaços distintos. E com uma barreira, mais ou menos alta, a separá-los. No caso das comunidades ultra-ortodoxas (e também alguns sionistas religiosos) até as mesas da refeição se encontram separadas por géneros.
O baile do casamento é uma ocasião frenética. É quase milagroso como não acontecem desastres durante a festa, dado o nível do frenesi. De mãos dadas em cadeia, os homens dançam em redor do noivo, cada vez mais rapidamente. O mesmo fazem as mulheres em volta da noiva. Os dançarinos mais enérgicos vão passando das rodas exteriores cada vez mais para o interior do furacão dançante. Um convidado mais entroncado levanta o noivo nos ombros. Outros levantarão o pai do noivo e o sogro. Rodando-os e balançando-os sob os aplausos delirantes dos convidados.
De tempos a tempos, o noivo é deixado sentar numa cadeira no centro da multidão de bailantes para descansar por alguns instantes. Suado e exausto, alguém lhe traz uma bebida. Perante o noivo sentado, alguns dos amigos fazem palhaçadas, acrobacias, exibições de dança ou até números de circo com fogo e malabarismos. Tomados pelo entusiasmo e assumindo a missão de alegrar os noivos, até respeitáveis rabinos se transformam em bobos da festa.
É preciso não esquecer que tudo isto acontece num dia de semana. E amanhã também se trabalha. Pelo que a festa acaba relativamente cedo. No final da refeição, restarão apenas os familiares e os amigos mais chegados. As mesmas bênçãos que foram recitadas sob o copo de vinho na chupá são repetidas após a bênção final da refeição. Ainda que a festa não dure sete dias como as bodas ciganas, as refeições festivas em honra do novo casal repetem-se durante uma semana. O primeiro Shabbat após o casamento é especialmente celebrado. Depois de passada a primeira semana, com o seu ambiente de festa quase diário, os noivos entrarão a sério na vida de casados. Para a maioria das jovens famílias, os filhos chegarão menos de um ano depois do “sim” nupcial.
Nesta altura do ano, o calendário judaico aproxima-se dos chamados yimei bein hametzarim, os "dias entre os sofrimentos". São as três semanas que separam 17 [do mês hebraico] de Tamuz e 9 [do mês] de Av, duas datas marcadas por tragédias na história judaica. Nesta época de luto parcial, não se realizam casamentos. Por isso, até à entrada nas três semanas fatídicas em que não se trocam os votos de casamento, acumulam-se as bodas em Israel.
Casamento judaico em Marrocos, de Delacroix. Museu do Louvre.
Passaram mais de 40 anos, mas os acontecimentos de 5 a 10 de Junho de 1967 têm consequências até à atualidade. Conhecida por "Guerra dos Seis Dias", é um dos mais dramáticos episódios da história de Israel. Desde o dia da sua fundação, em 14 de Maio de 1948, o moderno Estado de Israel foi ameaçado pelos seus vizinhos árabes. Com o cessar-fogo da Guerra da Independência, em 1949, não foi instaurada a segurança e a estabilidade nas fronteiras do jovem Estado Judaico.
A partir do Sinai e da Faixa de Gaza – ocupada pelo Egito em 1949 –, as violações da fronteira de Israel eram constantes. A cada ataque seguiam-se retaliações da parte de Israel. O clima de guerra era permanente e, com a nacionalização do Canal de Suez, o Egito esperava represálias também da França e do Reino Unido, que pretendiam defender os seus interesses no Canal.
Sabendo dos interesses anglo-franceses, Israel decidiu ser o primeiro a atacar. A intenção israelita não ocupar o Sinai permanentemente. O objetivo era impor uma derrota ao beligerante regime de Nasser, que levasse o exército egípcio a terminar com as ameaças às fronteiras de Israel. A “Operação Kadesh” de 1956 causou uma derrota egípcia, mas o ambiente de guerra não abandonou a região. Com a colocação de milhares de soldados da ONU no Sinai para vigiar o cessar-fogo, as incursões árabes em território israelita terminaram durante alguns anos. A confiança israelita nas suas tropas cresceu consideravelmente.
A tranquilidade relativa da fronteira egípcia contrastava com os repetidos ataques na fronteira síria. Povoações no norte da Galileia e nas margens do Kinneret (Mar da Galileia) eram bombardeadas a partir de posições sírias no estratégico planalto de Golan. Em Jerusalém e na fronteira oriental, a ameaça do exército jordano também era crescente. Ainda que o Rei Hussein fosse o mais moderado dos vizinhos de Israel, era pressionado pelos milhares de residentes palestinianos no seu país e pelos restantes líderes árabes.
A situação agravou-se com a ordem do presidente egípcio Abdel Nasser de expulsão das tropas da ONU estacionadas no Sinai e a retoma do controlo militar da península pelo poderoso exército egípcio. No estreito de Tiran, no fundo do Sinai, foi imposto um bloqueio aos navios de Israel, impedindo o seu acesso ao Mar Vermelho. A guerra era de novo eminente.
Os dois blocos da “Guerra Fria” armavam cada um dos lados. Os soviéticos equipavam as forças árabes, enquanto Israel usava armas de fabrico americano, francês e britânico. Em evidente desvantagem numérica e estratégica, a única hipótese de Israel conseguir uma vitória no conflito que estava eminente, seria desencadear um ataque surpresa, rápido e massivo.
Na manhã de 5 de Junho, a aviação israelita atacou as bases aéreas egípcias a partir do Mediterrâneo. Voando a baixa altitude evitaram ser detetados pelos radares. Em algumas horas, a Força Aérea de Israel reduziu a cinzas toda a frota de aviões de Nasser. Simultaneamente, foram atacadas bases na Síria, Jordânia e Iraque. Este ataque fulminante permitiu a Israel o controlo absoluto do espaço aéreo, podendo depois concentrar-se na ofensiva terrestre.
Perante o ataque israelita, as populações árabes reagiram com entusiasmo. Afinal, não haviam sido informadas da pesada derrota aérea pela comunicação social controlada pelos seus regimes. Num esforço propagandístico evidente, a Rádio Damasco difundia a mensagem: “Destruiremos Israel em quatro dias”.
Os combates foram rápidos no Sinai. Em apenas três dias, a maior parte das forças egípcias – o mais poderoso exército árabe – foram derrotadas em batalhas de blindados. O exército de Israel avançou até à margem oriental do canal de Suez. Com a frente egípcia totalmente dominada, Israel concentrou-se na frente oriental. O exército jordano atacava a Cidade Nova de Jerusalém, pretendendo avançar pela cidade rumo ao Mar Mediterrâneo, cortando Israel ao meio.
As tropas israelitas atravessaram a "terra de ninguém"; que se estendia ao longo da fronteira que dividia a cidade desde 1949 e cercaram a Cidade Velha. Após dois dias de combates, o exército jordano foi repelido da Cidade Santa e a cidade foi finalmente reunificada. Pela manhã do dia 7 de Junho, já os fiéis judeus rezavam no Kotel, o Muro das Lamentações, pela primeira vez em 19 anos. O local mais sagrado do Judaísmo havia estado inacessível aos Judeus desde 1948, quando Jerusalém Oriental, incluindo a Cidade Velha, fora capturada pela Jordânia.
Israel avançou para Oriente, conquistando o território da Judeia e Samaria, que desde 1949 estava sob controlo jordano. Em 1950, esses territórios haviam sido mesmo anexados pelo Reino da Jordânia. Nessa altura, ainda ninguém reclamava a região para fundar um "Estado Palestiniano". Com as vitórias no sul e no leste asseguradas, restava suster a ameaça da Síria. Antes que as Nações Unidas decretassem um cessar-fogo, os blindados israelitas venceram o exército sírio nos Montes Golan. A 10 de Junho foi instaurado o cessar-fogo. A essa altura, as tropas israelitas já haviam avançado até próximo da capital síria, Damasco.
Em menos de uma semana, Israel aumentou mais de três vezes o tamanho do seu território. (A península do Sinai seria devolvida ao Egito em 1981, instaurando o primeiro tratado de paz israelo-árabe, o qual se mantém até hoje, apesar de alguns momentos problemáticos nas relações entre os dois países.) A partir de 20 de Junho foi autorizado a todos os Muçulmanos o acesso à mesquita de Al-Aqsa, no Monte do Templo (ou Esplanada das Mesquitas). Anteriormente, os fieis muçulmanos que viviam do lado israelita da “Linha Verde” também não podiam rezar nos seus santuários da Cidade Velha.
A espetacular vitória israelita causou um fortalecimento sem precedentes da identidade judaica. No espaço dos últimos 2000 anos, nunca as profecias de Redenção pareceram tão reais. Em todo o mundo, milhares de judeus seculares que até então desprezavam a sua origem judaica, passaram a afirmar com orgulho o seu Judaísmo. Milhares de Judeus fora de Israel passaram a usar com orgulho as suas kippot, publicamente. Na União Soviética, onde os Judeus sofriam uma forte perseguição religiosa, mesmo debaixo da opressão do regime despertara um movimento que reclamava o direito de imigrar para Israel.
Desde que Israel unificou Jerusalém, a cidade experimentou uma fase de desenvolvimento sem precedentes. Nunca a cidade se tornara verdadeiramente num local santo para as três religiões monoteístas. Apenas sob o domínio israelita foi instaurada a liberdade religiosa para todos os seus habitantes.
Hoje, o calendário judaico marca o Yom Yerushalaim, o Dia de Jerusalém, que celebra a reunificação da Cidade Santa, ocorrida durante a Guerra dos Seis Dias. Ele simboliza a restauração do domínio do Povo de Israel sobre a sua capital ancestral. O retorno a Sião, base do Sionismo, a ideologia fundadora do Estado de Israel, que é a ânsia dos Judeus de regressarem à sua pátria histórica depois de quase dois mil anos de exílio. A coroa regressou ao seu legítimo soberano.
Fiéis judeus no Kotel, uma realidade impossível até 1967.
Numa das minhas últimas jornadas diárias para Jerusalém, apanhei boleia num carro onde viajavam duas mulheres que conheço vagamente, residentes em Alon Shevut, tal como eu. Mãe e filha conversaram num idioma estranho durante toda a viagem. Percebi imediatamente que não era hebraico. Apesar de ainda um pouco ferrugento na minha boca, o hebraico já não é “um idioma estranho” para mim.
“Talvez seja yiddish”, imaginei, lembrando-me da língua falada pelos Judeus oriundos da Europa Oriental, que é uma mistura de dialetos alemães e eslavos. “Não, também não é”, percebendo pela falta do forte sotaque alemão. Curioso, prestei atenção à conversa, sem entender uma única palavra daquele idioma misterioso. Da lista de possibilidades, fui sucessivamente excluindo as línguas germânicas e eslavas. “Húngaro!” concluí, atendendo à abundância do som “ô”. Aqui e acolá, a filha pontilhava o húngaro com expressões em hebraico e até português. *
Jerusalém, nas línguas do Mundo. Na década de 1880, o escritor e jornalista Eliezer ben-Yehuda iniciou e reabilitação da língua hebraica como um idioma moderno. Consultando as fontes do Tanach (as escrituras judaicas, que incluem a Torá e os livros dos vários profetas), ben-Yehuda criou palavras novas a partir de velhos termos. Muitas das suas palavras novas são hoje parte do léxico hebraico, mas cerca de 2000 nunca foram adotadas.
Comparando com o português ou o espanhol, o idioma hebraico é bem menos rico em raízes de palavras. Porém, de apenas uma raiz, conseguiram criar-se dezenas de termos. Por exemplo, da palavra avir, “ar” em hebraico, surgiu aviron, “avião”. Porém, este é mais conhecido como matós, proveniente da raiz tas, “voar”. E como este, há dezenas de exemplos de vocábulos do hebraico moderno, com versões diferentes para a mesma coisa, dependendo da raiz que foi usada para nomear pela primeira vez uma coisa nova. Em maior ou menor medida, adotaram-se palavras com sonoridade grega, inglesa ou espanhola.
Porém, este renascimento da língua hebraica não apagou o uso das línguas que os Judeus usaram durante as gerações passadas na Diáspora. Os judeus haredim (ultra-ortodoxos), chegados da Europa Oriental, ainda hoje usam o yiddish como idioma do quotidiano, dos jornais da comunidade e dos pashkevilim, os cartazes afixados nas paredes dos bairros ultra-ortodoxos, contando as novidades, escândalos e alertas da comunidade. Inclusive na yeshivá, a academia de estudos religiosos, a Lei é discutida no idioma dos seus antepassados europeus. O hebraico, a língua sagrada, é reservado para os próprios livros da Lei e para as orações. Na opinião de muitos haredim, usar o hebraico nos assuntos do quotidiano seria misturar o sagrado com o profano. Um sacrilégio, portanto.
Os israelitas de origem russa – mais de um milhão, chegados na década de 1990 depois do colapso do Império Soviético – até hoje falam a sua língua materna. Ainda que aprendam hebraico com uma rapidez impressionante, mantém um fortíssimo sotaque eslavo. O mesmo se passa com os judeus franceses, a imigrar em cada vez maior número para Israel.
Os judeus provenientes do mundo islâmico mantêm o sotaque mais próximo da norma hebraica moderna, mas é normal ouvi-los a falar árabe, turco ou persa. Os mais velhos ainda falam os dialetos típicos dos judeus desses países, como o quase desaparecido haketia ou ladino ocidental, proveniente do Norte de Marrocos. Do mesmo modo, os judeus turcos e gregos guardam ainda o ladino oriental. E os bukharianos, o seu dialeto de origem turca.
Também os judeus imigrados do mundo anglo-saxónico continuam a usar o inglês em abundância. Em Jerusalém e nos colonatos e cidades dos arredores, existem numerosas comunidades de falantes de inglês. Daí que muitos, mesmo depois de vários anos a residir em Israel, continuem com um nível de hebraico muito básico. E, mesmo os que atingiram um nível fluente, quase todos continuam com sotaques inconfundíveis que denunciam a sua origem.
Numerosos empregos, em especial nos negócios e na alta-tecnologia, usam o inglês como língua franca, como em qualquer lugar do mundo. Assim, são muitos os imigrantes que não sentem sequer necessidade de falar o hebraico. Uma piada em Efrat, o principal colonato da região de Gush Etzion, habitado principalmente por americanos, diz que “em Efrat, de vez em quando até é possível escutar hebraico”. De facto, desde os negócios nas lojas até numerosas aulas de Torá, praticamente tudo se pode fazer usando apenas o inglês. Em Israel, hebraico e árabe partilham desde a fundação do Estado o estatuto de idiomas oficiais, apesar das discussões recentes de promover o hebraico a único idioma oficial e passar a considerar o árabe como semi-oficial, como são o inglês e o russo.
Casado com uma brasileira, em minha casa fala-se quase exclusivamente português, ainda que pontilhado por numerosas palavras e expressões hebraicas. Para falar com a família em Portugal, vejo-me por vezes a baralhar os idiomas. Há palavras portuguesas que, pura e simplesmente, desapareceram do meu discurso, substituídas pelas correspondentes hebraicas. Na yeshivá, apesar de usar livros em hebraico, estudo diariamente com brasileiros e outros sul-americanos. Muitos colegas da yeshivá são norte-americanos e ingleses. Assim, num dia normal uso o português, o espanhol e o inglês. O hebraico acaba muitas vezes por ser reservado apenas para breves conversas de autocarro ou para ser atendido no supermercado.
A filha mais velha, de 2 anos, frequenta o infantário local e aprende rapidamente a língua nacional, trazendo palavras novas todos os dias. Muitos nomes de objetos, alimentos, e também as cores e os números são aprendidos originalmente em hebraico. Vejo-me cada vez mais a entremear o idioma de Camões com o idioma de Moisés. Portubraico, digamos.
* A senhora octogenária, natural da Hungria, sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, onde trabalhava na clínica do macabro Dr. Mengele. Depois da guerra imigrou para o Brasil, onde nasceram os seus filhos. As suas memórias estão publicadas em hebraico e português.
A onda de peregrinos na última quadra natalícia, incluindo as celebrações de alguns cristãos ortodoxos, que ocorrem alguns dias mais tarde que o calendário gregoriano, encheu o país de visitantes estrangeiros. O ano de 2010 foi o melhor de sempre para o turismo israelita. Pela primeira vez, mais de 3 milhões de visitantes estrangeiros entraram em Israel. Não é um número impressionante se comparado com referências no turismo mundial como a França, Espanha ou Itália com mais de 50 milhões de visitantes por ano cada um. Mas “3 milhões” é um marco assinalável.
O turismo cristão representa mais de 50% de todos os visitantes em Israel. Mesmo nos anos negros da Segunda Intifada (2000-2005), os cristãos continuaram a afluir à Terra Santa. A sonhada enchente da Passagem do Milénio foi uma quimera, mas os cristãos (em especial evangélicos), mais até do que os judeus, continuaram a visitar o país. As numerosas igrejas em Jerusalém e Nazaré, a Via Dolorosa, a igreja da Natividade em Belém, uma imersão no Rio Jordão (agora pouco mais é que uma vala imunda, pouco recomendável) em forma de baptismo e um passeio num “barco de Jesus” no Mar da Galileia, estes são os passeios obrigatórios para o peregrino em viagem pela Terra Santa. Porém, ainda que estes locais sejam o destaque de qualquer campanha de promoção turística para Israel, o país tem muito mais para oferecer do que os locais sagrados das Escrituras.
Cratera de Ramon, no deserto de Negev | Mar Vermelho, junto a Eilat.
Em Haifa, na face norte do Monte Carmelo situa-se um dos melhores postais turísticos de Israel. O Centro Mundial da Fé Bahá'í, com os seus jardins grandiosos construídos em degraus e os seus edifícios de arquitectura neoclássica, é uma das Maravilhas do Mundo. Muito perto de Haifa, a cidade de Akko é um museu de história a céu aberto. As muralhas da Cidade Velha encerram uma fortaleza do tempo dos Cruzados e um mercado árabe muito mais autêntico que o de Jerusalém.
Na capital, ainda que seja impossível ignorar os lugares santos, uma típica peregrinação pode ser complementada com outro tipo de visitas. O Museu de Israel, que recentemente foi aumentado e modernizado, é um paraíso para os apreciadores de arqueologia e de todo o tipo de artes. Num registo bem distinto, o Yad Vashem, o moderno Museu do Holocausto, e o vizinho Monte Herzl, onde fica um cemitério militar e o “panteão nacional”, são lugares imperdíveis. Em Holon, o original Museu das Crianças tem exibições especiais que permitem aos visitantes experimentar o Mundo do “ponto de vista” dos cegos e dos surdos.
Para os apreciadores de arte, em Tel Aviv e Ashdod encontram-se bons museus de arte contemporânea. Em Safed, no norte da Galileia, para lá das muitas sinagogas e as sepulturas dos grandes mestres cabalistas, encontram-se inúmeras galerias de arte. A cidade tem uma numerosa colónia de artistas e mostra uma curiosa fusão entre a excentricidade dos artistas e a tradição dos judeus ortodoxos.
A fortaleza de Massada, situada num planalto próximo do Mar Morto, a pouco mais de uma hora de Jerusalém, é um dos locais históricos mais importantes do Médio Oriente. É o maior símbolo da independência judaica e da resistência contra o domínio estrangeiro. São admiráveis os seus palácios romanos bem preservados, as cisternas gigantescas escavadas na rocha, destoantes num local extremamente seco. Tudo isto num planalto de paredes abruptas entre a paisagem quase lunar do deserto da Judeia, a ocidente, e o profundo azul-cobalto do Mar Morto, a oriente. Com as vermelhas montanhas de Moav, na Jordânia, do outro lado do espelho de águas.
Ali perto, o oásis de Ein Gedi com as suas cascatas de água doce desafia a implacável secura do deserto. A poucas centenas de metros, no fundo da escarpa, jaz o domínio do sal. O Mar Morto, o local mais profundo da superfície terrestre é o mar (na verdade é um lago) mais salgado do Mundo. Dar umas braçadas ou apenas flutuar naquela água espessa e morna é uma das experiências mais originais de uma visita a Israel. A salinidade extrema que impossibilita a vida e impede que os corpos se afundem, fez florescer o turismo com numerosos hotéis e spas e é a base de uma indústria de cosméticos de renome mundial.
Um dos lemas do turismo em Israel são mesmo os seus “quatro mares”. Na verdade, são apenas dois, mas cada um ligado a um oceano distinto, o que é algo de nota num país tão pequeno. Enquanto a costa ocidental é banhada pelo Mediterrâneo, que liga ao Atlântico, a pequena faixa de 12 quilómetros da costa de Eilat, no extremo sul, é banhada pelo Golfo de Aqaba, o ponto mais a norte do Mar Vermelho, uma parte do Oceano Índico. Porém, uma das denominações do Kinneret, um lago de água doce, é Mar da Galileia e o lago salgado conhecido por Mar Morto não tem outro nome. Assim se completam os tais “quatro mares”.
No deserto do Neguev, quem tenha força nas pernas pode aderir a uma das paixões dos israelitas: as caminhadas pela natureza. As inóspitas montanhas do sul de Israel têm um aspeto desolado, mas ao longo dos milénios foram refúgio de profetas e de civilizações há muito desaparecidas. Como os nabateus – os construtores de Petra, na Jordânia – que deixaram marcos também deste lado da fronteira. A gigantesca cratera de Ramon é um dos panoramas mais espetaculares do país. Parece uma cratera vulcânica, mas é um makhtesh, um raríssimo fenómeno geológico exclusivo de Israel. Para lá da visão assombrosa no miradouro sobre a cratera, às primeiras horas da manhã é possível ver os elegantes ibexes da Núbia, uma espécie de cabra do deserto, que sobem a escarpa e se aventuram pelas ruas ermas da pequena cidade de Mitzpe Ramon.
Apreciar a vida selvagem é um dos valores de uma visita a Israel. Desde um mergulho nos corais de Eilat junto com centenas de peixes coloridos, até observação de aves no Vale do Jordão. Israel é um dos principais pontos de passagem na migração de milhões de aves entre o Norte da Europa e a África Oriental. No norte da Galileia, o vale de Hula, com os seus pequenos e numerosos lagos, serve de descanso e refúgio de passagem às aves, durante a longa migração. Nos últimos anos, foram ali reintroduzidos os búfalos de água, outrora extintos. No oásis de Ein Gedi, entre um mergulho junto às cascatas, podem-se avistar as fugidias lebres das rochas, bandos de abutres e, para os mais atentos, até alguns leopardos. Ainda que o país tenha ainda que dar muitos passos em termos de ecologia, uma boa parte do seu território é composto por reservas naturais.
Do lado oriental da Galielia situa-se o Kinneret ou Mar da Galileia. O clima subtropical na maior parte do ano torna-o um agradável destino turístico. As ruínas das antigas termas em Tiberias e Hamat Gader testemunham que já desde a Antiguidade a região atraía a elite romana e mais tarde bizantina e otomana. Outra opção é um passeio de bicicleta nas margens do lago.
Nos Montes Golan, conquistados à Síria na Guerra dos Seis Dias em 1967, situa-se o ponto mais alto de Israel. O monte Hermon é local de esqui durante algumas semanas no Inverno. Nada que se possa comparar com uma qualquer estância de Inverno dos Alpes, dos Cárpatos ou mesmo do Líbano. Ainda assim, a abertura das pistas de esqui do Hermon é ansiada por muitos israelitas assim que caem os primeiros nevões.
Uma piada que revela a exiguidade de Israel, e ao mesmo tempo a sua espantosa variedade diz que, num dia de Inverno é possível esquiar de manhã no Hermon e algumas horas depois apreciar uma praia no ambiente subtropical de Eilat.
Enquanto no Cairo e algumas outras cidades egípcias, o povo se revolta para tombar o regime, em Jerusalém o governo olha, atento ao que se passa com o grande vizinho do sul. Até agora, a palavra de ordem em Jerusalém sobre a crise egípcia é, simplesmente manter o silêncio. Isso e realçar o interesse de Israel em manter os acordos de paz com o Egito, assinados há precisamente 30 anos. Do resto do Mundo, também é evidente a cautela em decretar a morte do regime. Esperar para ver.
Uma das coisas que mais surpreende sobre o que se tem passado na Tunísia, Egito e noutros pontos do Mundo Árabe, para quem assiste a partir de Israel é a ausência de referências ao conflito com os Palestinianos. Entre os gritos dos manifestantes em Tunis e no Cairo não se escutam apelos a "morte a Israel" ou à "Palestina Livre".

Para aqueles que consideram a questão israelo-palestiniana como o cerne de todos os problemas no Médio Oriente, as revoltas nas capitais árabes provam o contrário. Nos últimos anos, políticos e diplomatas nos EUA, na Europa e nas Nações Unidas repetem o mesmo mantra: "a resolução do problema dos Palestinianos conduzirá à resolução de todos os demais problemas do Médio Oriente". Para apaziguar os ditatoriais governos árabes hostis às mudanças, a diplomacia internacional – interessada em manter boas relações com o poder instituído – raramente refere a necessidade de reformas políticas e económicas a fim de melhorar as condições sociais no Mundo Árabe. Pelo contrário, Israel e a situação dos Palestinianos sempre estão na agenda das visitas oficiais a um qualquer estado árabe.
Ao longo das décadas, em todo o Mundo Árabe o apoio à causa palestiniana é recorrente nos discursos políticos. Na década de 1960, no Egito de Nasser, face à pressão popular pela reforma política (já nessa altura os egípcios queriam mudar de regime), o ditador acenava com a causa palestiniana como o maior objetivo nacional. A resolução dos gravíssimos problemas do Egito: falta de liberdade política e religiosa, analfabetismo, corrupção do governo e desemprego, foi repetidamente adiada sob a demagógica bandeira da "libertação dos irmãos árabes da Palestina".
Porém, os manifestantes da "Revolução de Jasmim" tunisina, tal como aqueles que há uma semana marcham no Egito, e também esporadicamente na Jordânia, Iémen, Marrocos, Argélia, Líbano, Sudão e os que já apelam à mobilização popular na Síria, anseiam pela sua própria liberdade. A questão palestiniana e o ódio contra Israel são distrações recorrentes para a sua própria desgraça. Mais do que sobre israelitas e palestinianos, a instabilidade social e política do Mundo Árabe é sobre os próprios árabes. Sobre o seu desemprego e pobreza (que leva milhões a imigrar para a Europa). Sobre o desespero de quem não vislumbra um bom futuro.
A Palestina está diariamente nas primeiras páginas dos jornais, nas reuniões das Nações Unidas, nos discursos das chancelarias. Israel é repetidamente incriminado na arena internacional. Porém, perante os abusos que se prolongam há décadas e que originaram a explosão popular que se espalha pelo Médio Oriente, a resposta da diplomacia internacional tem sido nula.
A história ensina que em muitas revoluções populares que desejavam a democracia, o resultado foi a tragédia e a brutalidade. Da "mãe das revoluções", a Revolução Francesa, saiu um breve período democrático do qual nasceu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Pouco tempo depois, o ímpeto democrático foi varrido pelo "Reino do Terror" liderado por Robespierre. Em 1979, com a queda do regime do Xá do Irão também surgiram breves ventos democráticos pela mão de Shapour Bakhtiar, mas o fanatismo islâmico do ayatollah Khomeini acabou com as esperanças de democracia. Até aos nossos dias.
Por enquanto, parece um movimento de espontânea revolta popular. Ao contrário das manifestações em Teerão depois das últimas eleições presidenciais fraudulentas, na revolta egípcia não há uma liderança clara dos que pretendem a reforma do regime de Hosni Mubarak. Porém, à espreita nas sombras, os extremistas islâmicos da Irmandade Muçulmana estarão a preparar-se para um assalto ao poder. Israel olha com cautela para as ruas do Cairo.
Mesmo depois de revelar a minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos católicos, continuei a frequentar com fiel assiduidade o Grupo de Jovens da paróquia local, ao qual já pertencia há alguns anos. Por duas razões: todos os meus principais amigos eram também membros do grupo e os valores aí professados eram mais de natureza ética do que puramente religiosa. Ainda que aos poucos me fui abstendo de participar em certas atividades que estavam para lá da minha "linha vermelha" e eram inconciliáveis com a minha opção. A exclusão mais evidente foi cantar na igreja, mesmo que por uma questão diplomática, tenha aberto excepções pontuais por ocasião de casamentos de amigos. Também continuei a participar no Jantar de Natal, uma das raras ocasiões anuais em que o Grupo se encontrava completo.
Este ano, como em todos os Dezembros, os membros do Grupo (entretanto extinto, mas cujos ex-membros mantêm um contacto mais ou menos próximo) combinaram reunir-se uma vez mais para o encontro natalício. Na troca de e-mails para decidir os detalhes do encontro, surgiram várias opiniões distintas. Ao longe, decidi também intervir numa disputa que se levantava entre dois amigos. Numa tentativa de serenar os ânimos, alguém sublinhou que o grupo era composto de pessoas com opiniões diferentes. E, sem qualquer relação com a discussão, realçou que "seguir Jesus" fora a essência dos ensinamentos do Grupo. Na mesma frase, foi destacado que eu fora o único a sair do caminho de forma evidente.
Ainda que tenha dado toda a razão à declaração, decidi dar uma explicação: sim, eu havia deixado de "seguir Jesus", mas que o havia seguido durante bastante tempo durante a minha vida. Afinal, fizera a mesma catequese que todos os outros membros do Grupo. Realcei que não vivera o Cristianismo de forma superficial, e que também não fora de forma superficial que tomara a decisão de abandonar o Cristianismo e aderir ao Judaísmo. A minha declaração levantou uma onda de e-mails de conteúdo teológico e uma certa "militância cristã" como nunca me havia deparado desde a minha separação do Cristianismo. Senti-me a ser alvo de uma tentativa de re-evangelização.
Perante a minha afirmação de "apostasia consciente" recebi uma apaixonada descrição de Jesus como salvador e redentor, afirmando a universalidade da mensagem cristã. Nada de novo: toda aquela descrição condensava os meus anos de catequese e de vivência cristã ativa. O autor da mensagem parecia sugerir uma dúvida na seriedade da minha decisão, perguntando se eu havia dedicado à “busca de Jesus” o mesmo empenho que dedicara ao meu processo de conversão. Expliquei que, mesmo antes da decisão de conversão, existem imensas questões e mudanças não apenas na prática, mas sobretudo em termos de concepção do divino e da sua relação com o mundo. A esta altura percebi – e assim declarei – que obviamente aquela discussão não levaria a lugar algum. Nem eu, um judeu consciente, nem eles, cristãos convictos, iríamos mudar de opinião.
Porém, parece que do outro lado, essa constatação não foi entendida. Antes pelo contrário. E em resposta recebi uma citação da Epístola de Paulo aos Coríntios: “(…)E não fazemos como Moisés, que punha um véu sobre o seu rosto para que os filhos de Israel não vissem o fim do que era transitório. Mas o entendimento deles foi obscurecido, e ainda hoje, quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu continua a não ser removido, pois é só em Cristo que deve ser levantado. Sim, até hoje, todas as vezes que lêem Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Mas, quando se converterem ao Senhor, o véu será tirado. (…)”
Na comparação evidente do Judaísmo com o Cristianismo, entre a riqueza das metáforas desta "Glória da Nova Aliança", encontram-se temas usados em todas as eras pelos teólogos cristãos, na afirmação da nova e radiante fé cristã em contraste com a velha e obsoleta fé judaica. A cegueira judaica que se recusa a ver e aceitar a luz, a ideia da exclusividade na salvação pela via cristã e a desonra dos descrentes. Tive a sensação de estar perante um exaltado pregador medieval, de crucifixo em punho, a tentar convencer os incrédulos, os desgraçados que se recusam a receber "a Glória".
Uma das perguntas clássicas que surgem quando falo acerca da minha conversão ao Judaísmo é: "mas como foi a reação das pessoas à tua decisão?". A curiosidade refere-se em especial à minha família, mas também aos amigos e companheiros cristãos. Ao revelar que nunca recebi qualquer tipo de oposição ou descriminação por parte dos amigos, os ouvintes mostram-se totalmente incrédulos. Cristalizada em muitas mentes judaicas está a ideia que os Cristãos perseguem, oprimem e odeiam os Judeus. Afinal, "Esaú odeia Jacob" ou em outras palavras "Roma odeia Israel". Sob esta ideia, seria inconcebível que um membro abandonasse tranquilamente o "rebanho", sem qualquer reação negativa dos crentes.
Na macabra contabilidade das centenas de milhões de sacrificados no altar das ideologias (sejam religiosas ou seculares), o Cristianismo detém um lugar de destaque. Cruzadas, Inquisições, Expulsões e perseguições implacáveis, conversões forçadas e guerras religiosas. No caso extremo da Shoá (o Holocausto), a atitude cristã, para lá de corajosas exceções, variou entre o silêncio cúmplice e a participação ativa. Estas são algumas das imagens que os cristãos deixaram na História nos últimos dois milénios e são aquelas que ficaram gravadas mais fundo entre os Judeus. É injusto generalizar, mas não é possível negar que o Catolicismo tem um sério “problema de imagem”. E não apenas entre os Judeus.
Na discussão com os meus amigos católicos acerca da minha conversão, evitei todavia referir a questão da tolerância e da aceitação da diferença por parte dos cristãos. Ainda que lemas catequéticos cristãos como "Deus é amor" e princípios éticos como "dar a outra face" tenham sido espezinhados inúmeras vezes ao longo da História, não foi por um conflito ético em aceitar o evidente fosso entre a mensagem apregoada pela Igreja e o comportamento de muitos dos seus líderes e seguidores que me levou a distanciar e por fim abandonar completamente o Catolicismo. Se a razão da minha mudança de religião fosse um desfasamento entre a doutrina e a prática dos fiéis católicos, eu poderia simplesmente ter aderido a uma outra corrente do Cristianismo. Ou até, passar a ser apenas mais um cristão "sem denominação", mantendo a crença em Jesus mas não em qualquer igreja ou religião organizada. Não foi esse o caso.
Ainda que nos últimos 2000 anos o Cristianismo tivesse – ao menos entre os seus próprios aderentes – instaurado a paz, o problema mantinha-se. A minha divergência era com o cerne da crença cristã de que Jesus não só é o Messias, o Salvador, como é o próprio Deus. "Verdadeiro Deus e verdadeiro homem", como foi declarado na referida troca de mensagens. E, apesar da enorme variedade das igrejas e seitas cristãs, esta crença é comum a todas as correntes do Cristianismo.
Reconheço como a crença em Jesus pode ser satisfatória para muita gente, reconfortante até. Tendo sido uma pessoa, com as suas dores, dúvidas e tentações, é extremamente fácil identificar-se com ele. Falando contra a corrupção das elites do seu tempo, proclamando a superioridade da justiça em relação aos rituais, a sua doutrina ética poderia ser apreciada até pelo pacifista ateu mais obstinado. (Aliás, a crítica de Jesus à corrupção e hipocrisia da liderança política e religiosa do seu tempo tampouco é original. Esta acusação foi proferida com veemência por vários profetas das Escrituras Judaicas.)
É muito mais difícil a identificação com uma divindade cuja essência é puramente espiritual e sem qualquer paralelo com algo que exista na natureza. Usando as palavras de Moshe Luzzatto no primeiro capítulo de "O Caminho de Deus", um Deus "cuja verdadeira natureza não pode ser entendida de qualquer forma por ninguém além Dele mesmo. A única coisa que sabemos sobre Ele é que a Sua existência é perfeita em todas as formas possíveis e não existe Nele qualquer deficiência".
Ou, como descreveu o Rabino Joseph Soloveitchik em "O Solitário Homem de Fé": “Deus, como o soberano cósmico, é contemplado na sua infinita majestade reinando supremo sobre a Criação, a Sua vontade cristalizada na lei natural, a Sua palavra determinando os padrões de comportamento da natureza. Ele está em todo o lado, mas ao mesmo tempo, acima e fora de tudo”. O Criador do Universo atua por detrás do "curso natural das coisas" e a Sua Presença acompanha os homens. Mas não é um deles.
A natureza humana de Jesus, em si mesma contradiz a existência da perfeição absoluta da essência de Deus. A natureza humana, por mais elevado que seja o nível que atinja, será sempre limitada, dependente, corruptível. No fundo, não existe nela a perfeição absoluta. Deus é único, indivisível, perfeito e independente de qualquer outra existência. E por isso, não pode ser reduzido a uma existência (mesmo que paralela, se atendermos à crença de duas dimensões da Trindade: o Pai e o Filho) dentro de um corpo humano.
Durante os meus anos de busca espiritual esforcei-me por entender o mistério da dualidade humana e divina de Jesus, assim como o conceito de Salvação defendido pelo Cristianismo. A morte de Jesus – ou seja, a morte do próprio Deus – servindo de perdão definitivo aos pecados de todos os homens. E apenas ela salva. Naquela época, entre as ruínas do meu edifício espiritual, apenas uma crença se manteve inabalável e a salvo do desmoronamento: a crença na existência de Deus.
Alguém que leia estas linhas poderá até considerar-me profundamente enganado em relação às verdades do Cristianismo. Alguém que faça as mesmas perguntas que eu fiz poderá, pelo seu próprio estudo e reflexão, encontrar respostas distintas que o satisfaçam. Poderá até emergir das respostas com uma fé cristã ainda mais fortalecida. Não ponho isso em causa. No entanto, creio que a maioria dos crentes – aliás, de qualquer religião – na verdade nunca se perguntaram a fundo sobre aquilo em que acreditam. Vivem (quando vivem) a sua religião pela força da inércia. A fé não tem de ser racionalmente lógica e, num tempo em que praticamente tudo pode ser explicado pelas teorias científicas, só o ato de acreditar já é um ato de coragem. Mas cada um, se leva a sério a sua fé e a assume de forma consciente, tem de conseguir conciliar os aparentes contrários.
Na altura da revelação da minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos do Grupo de Jovens não revelei os porquês da decisão. Reconheço a delicadeza do tema. Reconheço como a fé em Jesus pode ser algo central na vida daqueles que acreditam nele. Estando num grupo de jovens católico, tive o cuidado de escolher apenas os membros com um Cristianismo mais amadurecido para saberem do meu abandono da fé cristã. Excluí os membros mais novos, há pouco tempo no caminho. Podia simplesmente abandonar o grupo e percorrer sozinho a minha jornada, sem dar satisfações aos meus amigos cristãos. Contudo, por serem amigos, achei importante partilhar a minha mudança com eles. Não me arrependo de o ter feito.
Por fim, afirmo que não existe possibilidade de diálogo teológico entre o Judaísmo e o Cristianismo. O diálogo é apenas possível como forma de trabalhar em conjunto para resolver problemas da Humanidade, em particular nas trágicas relações históricas entre Cristãos e Judeus. A barreira teológica entre ambas as religiões é absolutamente intransponível. Enquanto para os Cristãos, cuja religião se fundamenta na crença de Jesus como o Salvador, o cumpridor das profecias messiânicas judaicas e a própria divindade; para o Judaísmo, as profecias messiânicas ainda não foram cumpridas. Ainda que se fale tanto em "cultura judaico-cristã", o Cristianismo e o Judaísmo possuem na verdade, duas concepções antagónicas do divino.
Nunca me escusei às perguntas dos amigos, quando elas surgiam. A minha conversão foi uma decisão pessoal e eu não tinha a intenção de levar ninguém atrás de mim. Por isso sempre mantive o assunto na maior discrição. Ninguém me verá a pregar na praça ou a bater às portas, armado com a Bíblia Hebraica, tentando convencer os outros a aceitar a verdade judaica. Não é esse o caminho do Judaísmo.
Não espero a compreensão dos cristãos – nem sequer dos meus amigos – pela minha mudança de crença. Menos ainda a sua aprovação. Não peço nem uma nem outra. Só não aceito que ponham em causa a minha seriedade na forma como vivi o Cristianismo e de como o abandonei.
Igreja e Sinagoga, esculturas na fachada da catedral de Estrasburgo, França.
À direita: 'Igreja', um rei segurando o cálice do sangue do Redentor.
À esquerda: 'Sinagoga', uma mulher vendada, de bastão partido e as Tábuas da Lei ao contrário.
A chuva, que tardava neste Outono israelita, chegou ontem. Porém, a situação de seca extrema, que se agrava de ano para ano, não se resolve com um dia de aguaceiros, por muito generosos que sejam (o que nem sequer foi o caso de ontem). Devido à grave seca que se vive em Israel, causada pela extrema falta de chuvas – que até agora haviam caído apenas durante um dia desde a Primavera passada –, e com o Outono quente e seco já quase no fim, o Rabinato-Chefe de Israel apelou às comunidades judaicas para rezarem pelas chuvas. Durante os três serviços religiosos diários – na noite, manhã e tarde, por esta ordem – os fiéis devem incluir na oração principal um excerto pedindo pela misericórdia divina para que se abram as portas do céu e caiam chuvas abundantes. E não apenas isso, foi também decretado um dia de jejum.
Israel, ao contrário da generalidade dos outros países, não dispõe praticamente de rios. O único que corre o ano inteiro, o Jordão, não é mais de um ribeiro estreito e, durante o Verão, é tão pouca a água que nele corre que não passa de uma vala fétida e lamacenta. As chuvas são portanto essenciais para as reservas de água da nação.
Na Yeshivat HaKotel, onde estudo, antes de Minchá (a oração da tarde), o Rosh (diretor) Yeshivá atual e o anterior falaram perante todos os alunos reunidos no
Beit Midrash, a sala de estudos principal que funciona também como sinagoga. Lembraram a gravidade da condição de carência de chuvas e a relação, de acordo com as fontes judaicas, entre as bênçãos do céu e o cumprimento dos preceitos divinos. A seca é um sinal do alto, de que algo vai mal cá em baixo.
Apesar da importância da mensagem dos sábios, faltou referir algo que, ainda que seja simples, talvez não seja compreendido por todos: a necessidade de poupança de água. Nenhuma palavra foi dita nesse sentido. Fiquei espantado pela ausência deste recado nas prédicas dos rabinos. Porém, não totalmente. Afinal, a sociedade israelita em geral e o público religioso em particular, estão em grande medida afastados das questões ambientais.
Na região centro do país, nos arredores de Tel Aviv, a preocupação pela ecologia é algo que começa a fazer-se sentir, em especial nos subúrbios habitados por judeus originários da Europa e América do Norte. Para os judeus religiosos porém, a questão ecológica é relegada para um plano muito inferior na lista das prioridades. Talvez por estas questões estarem tão associadas aos esquerdistas, chilonim, os não-religiosos.
Um dos exemplos do descurar da poupança de água entre os religiosos relaciona-se com o preceito de netilat yadaim, a lavagem ritual das mãos. A Halachá (ou Lei Judaica) prescreve a lavagem das mãos para efeitos rituais assim que a pessoa se levanta, representando uma purificação do corpo que acaba de "renascer do sono". O mesmo se passa antes de comer pão, representando a pureza que deve existir na hora da refeição. A Halachá prescreve que a quantidade mínima de água necessária para netilat yadaim é de um reviit, uma medida de contagem de líquidos equivalente a pouco mais de 90 ml. Outras opiniões defendem que essa medida equivale a 160 ml. Em qualquer dos casos, não é muita água.
Para realizar o ritual de netilat yadaim usa-se uma natlá, uma caneca especial de duas asas. Uma natlá comum comporta cerca de um litro de água, ou até mais, bem acima da quantidade mínima necessária para a ablução das mãos. Porém, como se uma caneca cheia não fosse suficiente, alguns religiosos ainda são mais estritos no cumprimento desta prática, despejando sobre as mãos não apenas uma natlá cheia de água, mas duas. Um verdadeiro exagero, ainda mais nestes tempos de escassez.
A sabedoria judaica ensina que a reza destinada a receber uma bênção divina deve ser acompanhada do esforço pessoal para atingir esse objetivo. A isso chama-se histadelut. E o esforço não é sinal de falta de fé. Afinal, ninguém se questiona se em caso de doença, seja falta de fé ir ao médico e tomar medicamentos, ao mesmo tempo que se reza por saúde. Então, alguém pensará que é falta de fé rezar para que as chuvas caiam em abundância e, ao mesmo tempo esforçar-se para poupar as escassas reservas existentes?
Para além do aumento da reza, das boas ações e do estudo de Torá para receber a misericórdia dos Céus em relação às chuvas, deveria haver um esforço pessoal para não desperdiçar água. Não devemos esperar milagres nem basear a fé na sua eventual ocorrência. Só quando o homem dá o máximo de si mesmo, torna-se merecedor da ajuda divina.
Pescadores num cais de Tiberias, nas margens do Kineret, ou Mar da Galileia.
Veja-se o baixo nível das águas, em virtude da seca prolongada em Israel, 2009.
Depois de anos a lutar contra a maré, as críticas, as manifestações de repúdio, os cartoons ofensivos – acrescentaria ainda a modernidade libertina e os esquerdistas anti-tudo-o-que-cheirar-a-velho –, o Papa resolveu dar o braço a torcer e permitir o uso do preservativo (camisinha, em português do Brasil). Porém, a permissão é apenas "em certos casos", para reduzir o risco de contaminação por HIV, o vírus da Sida (ou Aids). "Finalmente". "Um passo no bom caminho". "Já vem tarde", etc. Este é o tipo de reações ao volte-face papal. Numa instituição atacada por todos os lados, nada do que possa fazer, chega para melhorar os estragos já feitos.
Virou moda atacar o Cristianismo. Não há que negar os abusos. A pedofilia entre os sacerdotes católicos e respetivo encobrimento pela liderança da Igreja são factos graves. Porém, se alguém pensava o contrário, membros do clero pedófilos (e encobrimento dos casos pelas altas esferas da hierarquia) também existem no Islão, no Protestantismo, no Judaísmo ou no Hinduísmo. E poucos saberão o que se passa com os jovens monges nos recônditos mosteiros budistas. Experimente googlar sobre o tema – foi o que eu fiz – e saberá que, por detrás da reclusão e da modéstia monástica oriental, também há predadores da inocência infantil. Não é só na sombra da cruz que se escondem os depravados.
Abuso de poder do clero. Mas não existem pastores, imãs, rabinos, gurus e lamas que se aproveitam da sua posição para enriquecimento ilícito? E relações demasiados próximas entre o poder clerical e temporal em todos os países onde uma religião – seja ela qual for – seja a maioria, o que leva tantas vezes à corrupção daqueles que se acham e dizem incorruptíveis? Obviamente que o facto de haver outros que também pecam não desculpa os pecados de ninguém. Talvez os torne mais relativos. Menos exclusivos. Este rol de crimes, abusos, pecados e pecadilhos é em muitos casos público, criticado e condenado. E obviamente, condenável.
De toda a má fama que a Igreja ganhou com tantos escândalos, tornou-se alvo de todas as acusações. A cada discussão sobre o uso do preservativo e a SIDA, os dedos acusadores viram-se para o Vaticano. Uma das acusações é culpar o Vaticano/a Igreja Católica pela propagação da Sida, por via da proibição católica do uso do preservativo. Em primeiro lugar, este tipo de acusação é absurdamente cínico. À laia dos medievais (e em alguns casos ainda atuais) libelos de sangue anti-judaicos, este é nada menos que um libelo. Libelo de esperma, digamos. É certo que a Igreja é contra o uso das borrachinhas, mas apenas os católicos são supostos cumprir os decretos vaticanos. Usemos um pouco a lógica. Apenas os católicos são infetados com Sida? E se, caso exista algum não-católico infetado, a quem devem atirar-se então as culpas? Se não à Igreja, então a quem?
É pura desonestidade intelectual acusar a Igreja de responsabilidade na propagação da Sida. Em termos de comportamento sexual, a doutrina oficial católica – a qual aliás, coincide com a posição da Lei Judaica – é bastante clara: proibição do uso do preservativo e do sexo antes do casamento e a obrigação da fidelidade conjugal. Na África Subsariana – onde vivem 70% dos infetados com a doença a nível mundial – a promiscuidade sexual, a poligamia e o recurso à prostituição são práticas correntes. Máximas da moral católica como a abstinência sexual pré-matrimónio e a fidelidade depois dele são antagónicas com a profundamente machista cultura africana. Sejamos honestos, estas são as razões para a alarmante propagação da epidemia em África (e não só). E não qualquer norma anti-preservativo saída da Cúria Romana.
E não é apenas em África que o "ideal do macho-alfa africano" adoece, morre, contagia e mata com Sida. Nos EUA, os Afro-Americanos somam 47% do total da população seropositiva (infetada com o vírus HIV) e, mesmo após várias décadas de campanhas de prevenção da doença, são mais de metade dos novos casos de contágio da doença, apesar de os Afro-Americanos totalizarem apenas 12% da população do país. Entre as mulheres afro-americanas as estatísticas mostram que elas têm 19 vezes mais hipóteses de sofrerem da doença do que as mulheres americanas brancas. Dezanove vezes! Porém, é racismo fazer estas correlações. (Tal como é homofobia referir que a maioria dos infetados nos EUA são homossexuais, incluindo metade dos novos casos reportados anualmente.) Isto não quer dizer, obviamente, que a homossexualidade ou o ser africano implica automaticamente contágio com Sida. Somente que, alguns comportamentos prevalentes nestes grupos – mas não exclusivamente neles – podem explicar os maiores níveis de incidência da doença.
O Uganda foi, nas décadas de 1980 e 1990 o país com maior prevalência da epidemia. Hoje é tido como o único caso de sucesso de controlo da doença em África, sendo o único país africano a conseguir reduzir a sua taxa de infeção por HIV. É verdade que campanhas de informação sobre o uso do preservativo tiveram os seus resultados no estancar da doença. Porém, mesmo contrariando a cultura local prevalente, houve também uma promoção da abstinência sexual antes do casamento e da fidelidade. Tal como tem sido a doutrina católica neste assunto. E assim continua a ser, apesar da nova permissão – em certos casos – do uso da camisinha.
Contudo, num mundo em que "É proibido proibir" é um dos lemas vigentes; o auto-controle é sinónimo de fraqueza; a virgindade, a fidelidade e o casamento estão ultrapassados e uma pessoa moderna é aquela que experimenta de tudo, colocar travões nas vontades é digno de condenação. Daí a impopularidade da posição tradicional do Catolicismo nesta questão. Podem elogiar quanto quiserem o uso da camisinha na diminuição do risco de infeção de Sida ou outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas sem uma educação do compromisso e da responsabilidade pessoal e sexual, não virá da borracha a salvação.
Preservativo Papal, o polémico cartoon de António, 1993 | Bordel em Nairobi, Quénia.
O presidente sul-africano Jacob Zuma, com as três atuais esposas. Em Dezembro casará com a quarta.
Tem pelo menos 23 filhos de 11 mulheres diferentes. No país com maior número de seropositivos do planeta, o presidente além de polígamo é também famoso por ser promíscuo. Um exemplo para a nação.
Israel está na moda. Esta afirmação pode parecer estranha, dadas as recorrentes notícias mostradas sobre o país, que lhe dão uma imagem em geral muito pouco atraente. Os terríveis cinco anos da Segunda Intifada fizeram afundar a imagem de Israel depois das boas (ou talvez sonhadoras) perspetivas criadas com os acordos de paz. A Guerra do Líbano em 2006 e a última guerra em Gaza no Inverno de 2008-2009 ainda estão na memória de muitos. E o episódio da flotilha turca em finais de Maio de 2010 incendiou mais uma vez a opinião pública contra Israel. Mas podemos generalizar?
Quando visitei Jerusalém em Maio de 2005, o turismo local ainda estava praticamente moribundo, depois do golpe da Intifada. No mercado árabe da Cidade Velha muitas lojas estavam encerradas. Na Ben Yehuda, uma rua pedonal de lojas de souvenirs e cafés no coração da Cidade Nova, viam-se poucos turistas. Tão poucos que as lojas ofereciam descontos aos “turistas corajosos”. Visitar Israel naquela época era manifestar nada menos que uma evidente declaração política. Essa foi a razão secreta para a minha viagem.
A cidade de Belém, vizinha de Jerusalém e controlada pela Autoridade Palestiniana, onde me atrevi a entrar por algumas horas, era uma deprimente cidade-fantasma, de ruas poeirentas e hotéis desertos. Na altura, a presença de turistas era tão incomum que eu, junto com um grupo de ocidentais hospedados na velha Petra Hostel, fui entrevistado por um jornalista israelita da revista National Geographic Treveler, para uma reportagem sobre o regresso dos mochileiros às pousadas de Jerusalém.
Hoje, cinco anos, algumas guerras e muitos gritos anti-Israel depois, a realidade parece o oposto ao marasmo no turismo israelita vivido nos meados da década. Todos os dias, ao atravessar a Cidade Velha de Jerusalém pelo shuq, o mercado árabe, sou testemunha de uma verdadeira torrente de visitantes. Apesar da crise económica internacional e da persistente valorização da moeda israelita, o shekel, em relação ao dólar e o euro. A época alta do Verão e as Grandes Festas judaicas do início do Outono passaram, mas o fluxo de estrangeiros não parece abrandar.
A julgar pelo crescente número de turistas e as boas recomendações de várias cidades israelitas em meios de comunicação especializados em turismo, não se confirma em nada a má imagem do país na arena mundial. Tel Aviv foi recentemente classificada pelo famosíssimo guia “Lonely Planet” em terceiro lugar no Top 10 dos melhores lugares para visitar em 2011. “A cidade que nunca dorme” foi ainda votada como uma das 10 melhores cidades do Mundo para diversão, a par de lugares com muito “melhor fama”, como Berlim, Las Vegas, Ibiza ou Lisboa. Jerusalém também tem recebido várias recomendações de renome no panorama turístico internacional.
Os turistas israelitas, após alguns anos afastados da Cidade Santa devido à violência terrorista da Intifada, regressam aos mercados, aos cafés da Ben Yehuda, ao Muro das Lamentações (conhecido localmente como Kotel, “muro” em hebraico) e ao parque arqueológico da Cidade de David. Apesar de não haver escola em Israel que não organize passeios ao Kotel e de, durante o serviço militar muitos soldados realizarem visitas à Cidade Velha, é comum ser inquirido na rua por turistas israelitas sobre como chegar ao Muro.
A normalização das relações diplomáticas de Israel com alguns países muçulmanos, mesmo que seja abaladas a cada estalar do conflito com os Palestinianos, tem atraído um número cada vez maior de peregrinos islâmicos a Jerusalém. Depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita, Jerusalém é a terceira cidade santa do Islão. Parecem ser indianos, malaios ou paquistaneses – os meus conhecimentos de antropologia não são suficientes para os identificar. E nunca tive coragem para lhes perguntar a origem.
Grupos de nigerianos cristãos, em especial as mulheres com os seus trajes coloridos e penteados entrançados, enchem as lojas de souvenirs. Admirava-me como um país com tanta pobreza como a Nigéria conseguia fornecer tantos turistas a Israel. Até descobrir que o governo do país patrocina a peregrinação dos fiéis cristãos à Terra Santa, tal como faz com a peregrinação de muçulmanos a Meca. Além dos produtos típicos do Médio Oriente, os nigerianos têm uma misteriosa predilecção por mantas e malas de viagem.
De Itália, Espanha, Polónia, França e Alemanha, com as suas bem estabelecidas comunidades católicas encontram-se numerosos peregrinos em excursões diocesanas acompanhadas com os respetivos padres. Da Rússia, vêm-se grupos de fiéis, a grande maioria mulheres, com a cabeça coberta com lenços brancos em sinal de recato seguindo o sacerdote ortodoxo, com os seus trajes negros e cabelos atados num longo rabo-de-cavalo. Destes lugares, quase todos os turistas são gente que já atingiu a idade da reforma. O mesmo se passa com os grupos de protestantes americanos. Sinal do desinteresse geral dos jovens por assuntos religiosos, que por essa razão preferem paragens mais exóticas e de veraneio.
Entre os judeus americanos estabeleceu-se o costume de viajar para Israel por ocasião do bar mitzva dos seus filhos. A cerimónia realizada pelos meninos de 13 anos que marca a sua entrada na idade adulta do cumprimento dos mandamentos costumava ser, e em muitos casos ainda é, uma ocasião efusiva, de exageros quase carnavalescos. Em vez de gastarem uma fortuna numa festa praticamente vazia de significado, as famílias decidem fazer uma viagem à Terra Santa, realizando a cerimónia religiosa no Kotel, o Muro das Lamentações. Nos hotéis vizinhos da Cidade Velha enormes cartazes dão as boas-vindas aos jovens e suas famílias.
Outro dos grupos numerosos é o dos sul-americanos. Colombianos ou mexicanos (identifico-os pelo sotaque) e sobretudo evangélicos brasileiros enchem as ruas do shuq. A decisão da companhia aérea israelita El Al de abrir uma ligação aérea direta Tel Aviv-São Paulo tem sido um sucesso. Por um lado, o Brasil é um dos destinos de eleição dos mochileiros israelitas para viagem pós-serviço militar. Por outro, para milhões dos fervorosos evangélicos brasileiros, uma viagem à Terra Santa é o sonho de uma vida.
Aqui, a TAP poderia fazer um bom negócio. A companhia portuguesa já é a companhia aérea estrangeira que mais voa para o Brasil, com ligações entre Lisboa e nove cidades brasileiras (com outras quatro que podem entrar na lista em breve). A El Al voa apenas para São Paulo. Apenas com abertura de uma ligação aérea entre Lisboa e Tel Aviv, Lisboa poderia servir de ponte aérea entre Israel e o Brasil, aproveitando-se do crescente fluxo de evangélicos brasileiros para a Terra Santa e da popularidade do Brasil em Israel.
E no final das contas, Lisboa até poderia impor-se como um destino por si só e não apenas como um aeroporto de escala. É que, até para os portugueses, Israel também já começa a voltar aos roteiros turísticos. De acordo com as estatísticas, ainda que os números absolutos ainda sejam baixos, em termos percentuais Portugal foi mesmo o país que mais aumentou a remessa de turistas para Israel. E sejam muito bem-vindos.
Rua do Bairro Latino da Cidade Velha de Jerusalém, próxima do Santo Sepulcro.
Quase deserta. Mas isto era em 2006.
Logo após a criação de Adão por Deus, este foi ordenado a dar continuidade à sua própria espécie. "Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e conquistai-a". Esta foi a primeira ordem divina ao ser primeiro humano recém-criado. Nenhuma outra criatura: animal, peixe ou planta, foi instruído para se reproduzir. Podemos presumir dessa exclusiva ordem divina aos humanos que "reproduzir-se" é mais do que seguir a lei natural, comum a todas as criaturas vivas.
Em todas as culturas – dos "primitivos" caçadores-recoletores da Nova Guiné aos "moderníssimos" japoneses, a formação de uma família é rodeada de uma simbologia especial. A família é a génese de todas as civilizações. Numerosos povos têm na sua mitologia histórias de pais, filhos e irmãos. Desde Zeus/Júpiter e os seus numerosos filhos que constituem o topo do panteão de deuses greco-romanos até às humanas dinastias reais em que o filho sucede – na maioria dos casos – ao pai.
Também no Judaísmo, desde os tempos do patriarca Abraham, que a família é a base da transmissão das tradições. Logo ao oitavo dia, os rapazes judeus são circuncidados. Em hebraico brit milá, o ritual é um dos mais respeitados no Judaísmo. Marca a entrada no pacto entre Deus e Abraham, daí que seja chamado o "pacto do nosso patriarca Abraham".
Em geral, nas festas judaicas, a família tem um papel ativo nas celebrações. Em Pessach (a Páscoa Judaica), é em volta da mesa familiar que se realiza o Seder, a refeição acompanhada do relato do Êxodo da escravidão egípcia para a Terra de Canaã. A participação das crianças no desenrolar do Seder é essencial. Em Succot, a Festa das Cabanas, toda a família come durante sete dias em cabanas construídas na varanda ou no pátio da casa. As crianças contribuem para a decoração da sucá, a cabana, e dormir aí, em vez da normalidade de dormirem no seu quarto, transforma-se numa experiência inesquecível.
Ao longo da longa corrente das gerações do Povo Judeu, o nascimento de uma criança é considerado uma grande bênção. Israel é, entre os países desenvolvidos do Mundo, aquele que apresenta a taxa de natalidade mais elevada, ainda bem acima de dois filhos por mulher. Pelo contrário, na Europa e Japão a natalidade tem caído para níveis muito abaixo daquele que é o valor mínimo necessário para a renovação das gerações.
Entre as comunidades ultra-ortodoxas a média é mesmo superior a 8 filhos por mulher, uma das taxas mais altas do Mundo. E a taxa tem crescido, em contraste com a tendência mundial. Ao contrário, entre as mulheres árabes israelitas (e também as palestinianas), a natalidade tem decrescido gradualmente, situando-se por volta dos 4 filhos por mulher. A crescente escolarização das mulheres árabes em Israel – o país conta com a mais alta alfabetização das mulheres árabes no Médio Oriente – e a sua maior participação no mercado de trabalho, tem feito adiar a idade do casamento e decrescer o número de filhos em relação às gerações anteriores. (Estes dados deitam por terra a tão apregoada e quase apocalíptica teoria da bomba demográfica árabe em Israel.)
Mesmo entre os judeus seculares, com o seu estilo de vida tipicamente ocidental, a média de filhos por mulher é superior aos seus congéneres europeus ou americanos. É comum encontrar casais não-religiosos passeando com três criancinhas. Enquanto isso, na Europa, é mais comum ver um casal a passear com dois cachorros do que com duas crianças. Em outras sociedades tradicionais, os filhos eram vistos como uma forma de garantir a velhice e o sustento dos pais. No Povo Judeu, perseguido durante séculos, os filhos são vistos como a garantia da sobrevivência, acima de tudo, das tradições.
Em Alon Shevut, o colonato judeu religioso onde eu moro, os habitantes têm o costume de ajudar a família onde nasceu uma nova criança. Durante uma semana, assim que a mãe regressa da maternidade, a família recebe comida pronta dos vizinhos que se juntam para colaborar. A cargo com um novo bebé, a mãe não precisa, pelo menos durante uma semana, de cozinhar.
Não é por acaso que os Judeus são conhecidos como Filhos de Abraham, ou Filhos de Israel. A vivência judaica assenta antes de mais na transmissão das tradições dentro da família, para a próxima geração. Com a chegada de uma nova criança à família, também nós somos agraciados com a bênção de adicionar mais um anel na longa e milenar corrente do Povo de Israel. É sem dúvida, o melhor "Mazal tov!" que se pode receber.
Cohanim, os membros da casta sacerdotal, abençoam um menino de oito dias,
após a circuncisão, Jerusalém, 2006.
De repente, alguém desconfia de algo anormal. Dá o alarme. A zona é evacuada. Carros da polícia chegam para bloquear as ruas nas imediações. Os pedestres são impedidos de passar. É assim, cada vez que se descobre algum hafetz hashud, um objeto suspeito. Não são assim tão comuns no dia-a-dia israelita, mas não há quem não tenha passado por pelo menos um episódio destes. Quase se podia considerar uma experiência tipicamente israelita.
Encontrado num lugar público, seja no meio da rua, num centro comercial ou numa estação de transportes, a resposta a uma situação de "objeto suspeito" é sempre a evacuação dos civis. Em breves minutos, um esquadrão anti-bomba da polícia chega ao local para analisar o problema. Nos casos mais complicados aparece um veículo-estilo-robô que recolhe o objeto e o faz explodir de forma controlada. Noutros, um elemento da brigada anti-explosivos envolto num fato à prova de explosões (não todas, obviamente) aproxima-se para verificar o incómodo com olhos humanos.
Em cinco anos de residência em Israel, já assisti a estes espetáculos por vezes hollywoodescos. Felizmente, em nenhuma deles o perigo era real. Na última das situações, ontem mesmo durante o regresso a casa, observei as pessoas que tal como eu esperavam que o episódio se resolvesse. Habituadas a incontáveis incidentes do género, em especial durante os anos da Segunda Intifada, respondiam com uma expressão de tédio à informação de que se tratava de mais um hafetz hashud. Fazer o quê? Resta esperar. A polícia não deixa passar ninguém.
Em alguns minutos apenas, a situação resolve-se. O trânsito volta a circular. Em todas as paragens de autocarros acumulam-se passageiros impacientes, desconhecedores do que se passou no outro lado da cidade. Ao terminar a situação de alerta chegam filas de autocarros que haviam ficado retidos no bloqueio da rua.
A desconfiança securitária em Israel é por vezes stressante e exagerada. Na vida quotidiana, a qualquer momento, a normalidade pode ser interrompida por um objecto deixado no sítio errado. Talvez seja inocente – a maioria das vezes é mesmo –, mas não há lugar para indulgências quando está em causa a segurança pública. As ameaças por estes lados são um pouco mais sérias do que as que existem em quase todo o resto do Mundo.
Soldado com um fato anti-explosivos. No filme "The Hurt Locker".
Os Judeus, apesar do seu pequeno número em relação à população mundial – algo como 0,2% da humanidade –, são bastante variados em termos de costumes. Aquilo que em hebraico se chama min’hag. Tradicionalmente dividem-se em sefarditas e askenazitas. Os primeiros são provenientes da Península Ibérica (Sefarad em hebraico, que ainda hoje é também o nome para Espanha) e dos países árabes. Os segundos são descendentes das comunidades do Vale do Reno, na Alemanha (Ashkenaz em hebraico, ainda que hoje se lhe chame Guermânia) e da Europa Oriental. Além destes, ainda há alguns pequenos grupos como os judeus Italianos e os Iemenitas, que têm costumes muito próprios.
A história de Sefarad fica marcada pela "Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol" a qual produziu génios como Maimónides (o Rambam) e Nachmânides (o Ramban), o Cuzarí e dezenas de autores essenciais da filosofia e da literatura judaicas. Com a expulsão judaica dos reinos ibéricos, os sefarditas espalharam-se por grande parte do Mundo Judaico. Marrocos, Holanda, Itália, Grécia e o Império Otomano foram os principais destinos.
Com a descoberta do Novo Mundo em 1492 – o mesmo ano da Expulsão – e o início da colonização das Américas, judeus e "cristãos-novos" também se estabeleceram no Hemisfério Ocidental. A primeira sinagoga foi estabelecida por descendentes de Judeus portugueses na cidade brasileira de Recife, durante a ocupação holandesa. Após a reconquista da região pelos portugueses, os judeus escaparam para as Caraíbas (Curaçau, Barbados, Jamaica) e a recém-fundada Nova Amesterdão, que seria mais tarde Nova Iorque.
Em Portugal, Espanha e nas colónias – do México ao Brasil –, apesar da oficial Expulsão, nascia o fenómeno dos Marranos (Anussim, em hebraico). Judeus por dentro, cristãos por fora. Receosos da Inquisição sempre vigilante. As gerações passaram, a identidade foi-se perdendo aos poucos, mas mantiveram-se estranhos costumes como acender velas sexta-feira ao anoitecer, jejuar uma vez por ano no começo do Outono, limpar a casa e não comer nenhum alimento fermentado por voltas do início da Primavera. Para muitos, a origem destes costumes era desconhecida. Para outros, a alma e a identidade judaica, ainda que reprimidas, mantinham-se vivas. Em segredo.
Também na Europa Oriental a vida judaica era agitada de tempos a tempos por convulsões. Aí, o pensamento judaico tradicional dividia-se entre as linhas hassídicas com a sua forte componente mística e, em sua oposição, o racionalismo lituano fundador do moderno conceito da yeshivá, a academia rabínica. O liberalismo napoleónico promoveu aos poucos a integração dos Judeus à igualdade de cidadania. Ainda que a fera do anti-semitismo não tenha sido extinta pelo humanismo liberal. Dentro do próprio Judaísmo, a maior abertura social criou uma revolução. A Haskalá ou Iluminismo Judaico abriu caminho a um maior liberalismo na religião e mais tarde à fundação do movimento reformista.
No final do século XIX e no início do século XX, campanhas de massacres da população judaica às mãos de polacos, russos e dos cossacos ucranianos, levaram vários milhões de judeus askenazitas a todo o mundo anglo-saxónico. Hoje, eles são a imensa maioria dos judeus americanos, a maior comunidade da Diáspora Judaica. A liberdade americana fez florescer a comunidade judaica, atingindo um nível de desenvolvimento cultural e social nunca antes alcançado em qualquer outra etapa deste Exílio já bi-milenar.
Nas décadas de 1930-40, o Holocausto destruiu os maiores centros da vida judaica europeia. Por ter atingido em especial a Europa do Leste, a enorme maioria dos seis milhões de mortos judeus durante a Shoá eram askenazitas. Grupos hassídicos inteiros foram exterminados na voragem da ocupação nazi. Na mesma época, também importantes comunidades sefarditas como Salónica (Grécia), Sarajevo (Bósnia) e Amesterdão praticamente desapareceram.
Logo após a independência israelita em 1948, com uma crescente onda de anti-semitismo nos seus países de origem, mais de 800,000 judeus dos países árabes chegaram à Terra Santa. Até aos anos de 1990, antes da grande onda de imigrantes da ex-União Soviética que trouxe mais de um milhão de pessoas, os sefarditas compunham mais de 70% da população judaica do país. Hoje, a proporção entre as duas comunidades é praticamente idêntica, apenas com uma ligeira maioria de sefarditas. Porém, a nível mundial, a população judaica é maioritariamente de origem askenazi, numa proporção de 4 para 5.
Na sua versão moderna, o sionismo teve a origem no Leste Europeu. Os principais impulsionadores da ideia da fundação de um estado judeu na Terra de Israel eram askenazitas. Eles foram os pioneiros das comunidades coletivas locais, os kibbutzim e moshavim; fundadores das primeiras cidades judaicas da embrionária Israel e dos partidos políticos originais no país. Desde o início do Estado de Israel, a política tem sido dominada pelos askenazitas. Em 62 anos, todos os Primeiros-Ministros foram askenazitas. Entre os Presidentes da República, apenas dois eram sefarditas, Moshe Katzav, nascido no Irão, e Yitzhak Navon, descendente de uma família espanhola estabelecida em Jerusalém. Este desequilíbrio na esfera política levou à fundação do Partido Shas, dirigido pelo grande rabino Ovadia Yosef, é hoje o maior partido religioso em Israel e com uma crescente influência política, participando em todas as coligações de governo desde os anos de 1990.
A integração na moderna sociedade israelita de estilo marcadamente europeu, foi particularmente difícil para os judeus recém-chegados dos países árabes, provenientes de sociedades tradicionais. A maioria dos recém-chegados foi alojada em cidades de tendas construídas à pressa (as maabarot) ou insalubres "cidades de desenvolvimento" nas regiões periféricas de Israel. A ruptura com o seu modo de vida tradicional era evidente. Muitos haviam desfrutado de um elevado nível de vida nas suas terras de origem e na fuga à perseguição haviam perdido todos os seus bens. Viver em comunidades agrícolas também não foi bem sucedido, dado que nos países árabes os Judeus haviam sido mercadores e artesãos, e raramente se dedicavam à agricultura. Tal como acontecera com os Judeus na Europa medieval.
No novo país, composto por gente de tão variadas origens, recuperou-se a língua hebraica, a língua nativa dos Judeus. Usada durante os 2000 anos da Diáspora somente no âmbito religioso tornou-se o idioma da vida diária. Os askenazitas, falantes do yiddish, alemão, húngaro ou russo, contribuíram com a forma moderna do alfabeto. Os sefarditas, falantes do ladino, árabe, persa ou bukhari deram a sua pronúncia ao idioma moderno. Numa piada um pouco cínica, alguém definiu esta simbiose com a expressão bíblica "A mão de Esaú e a voz de Jacob".
Ainda hoje existe um certo sentimento de inferioridade dos judeus sefarditas em relação aos askenazitas. Todavia, a tendência parece visionar uma crescente influência dos sefarditas. A demografia joga a seu favor. Afinal, estes compõem a maioria dos judeus religiosos, que têm mais filhos que os seculares. Ainda que a face mais visível do judaísmo ortodoxo em Israel sejam os haredim askenazitas, notados pelas suas capotas negras e os shtreimels (chapéus de pêlo usados no Shabbat e dias festivos), estes são na verdade minoritários no panorama religioso em Israel. Por outro lado, os judeus tradicionalistas ou massoratim (não confundir com os adeptos do Movimento Masorti, uma denominação do Judaísmo Conservador) são parte de um fenómeno característico do público sefardita em Israel. Em geral, os askenazitas ou são ortodoxos ou declaradamente seculares. Esse "meio-termo entre a tradição e a modernidade" é a regra dos sefarditas não ortodoxos. E é raro encontrar um sefardita obstinadamente laico e totalmente ignorante da sua herança religiosa.
Mesmo na Diáspora, em países como o México, o Brasil, a França ou a Venezuela, as comunidades menos "assimiladas" são as sefarditas. Ao contrário, as comunidades askenazitas do mundo anglo-saxónico, com raras excepções, vão sendo dizimadas pelo fenómeno da assimilação e dos casamentos mistos. No moderno Estado de Israel, com a aliá de judeus de todos os cantos do planeta, realiza-se a profetizada kibbutz galuyot, a "reunião dos exilados" na Terra Prometida, o futuro parece antever um gradual atenuar das diferenças entre as diferentes comunidades judaicas.
Afinal, hoje em dia, é comum o casamento entre um homem sefardita e uma mulher askenazi. Ou o inverso. Ou até um homem louro de origem alemã com uma mulher etíope. A divisão askenazi/sefardita é um produto da Diáspora. O "novo judeu" – ideia romântica dos pioneiros sionistas inspirados em ideais socialistas –, é cada vez mais uma simbiose entre os costumes de ambos. Num exemplo caseiro, na mesa israelita é normal encontrar-se hoummous ao lado de gefilte fish. Afinal, pode dizer-se sem cair em sacrilégio que, tirando o toque especial da avozinha, seja ela húngara ou marroquina, cholent e dafina são basicamente a mesma coisa.
Minyan no Kotel. Onde se juntam todos os tipos de judeus.
Apesar de descartada a outrora sonhada carreira de jornalista, tento de alguma maneira manter-me informado acerca do que se passa no Mundo, em especial pela via dos meios de comunicação social portuguesa e israelita. Quase diariamente consulto os sites de jornais portugueses. Como é natural, interesso-me de modo particular pela cobertura dos acontecimentos no Médio Oriente. No último ano da faculdade realizei o meu trabalho final do Curso de Comunicação Social, dedicado em parte à cobertura das notícias do Médio Oriente por dois diários portugueses. Os anos passam, os velhos erros continuam (e agravam-se). Aquilo que, há quase 10 anos parecia uma tendência de jornais populistas, alastrou hoje ao jornalismo tido como "de referência".
Os jornalistas profissionais são regidos por um Código Deontológico (CD), um conjunto de regras éticas formuladas pela própria classe jornalística para regular a sua atividade. A cada atropelo de alguma dessas regras por "forças externas", a defesa das regras supremas é categoricamente afirmada. Porém, quando a falha vem da própria classe jornalística, nem sempre a retificação é feita, apesar de uma das regras do CD – no caso de Portugal, mas o mesmo vale para os outros países –, ser "promover a pronta retificação das informações que se revelem inexactas ou falsas". Em pouquíssimos casos é dado um destaque à retificação idêntico àquele que merecera a notícia. (Uma retificação significa um admitir de erro na transmissão da verdade, e nenhum meio de comunicação social gosta de passar por mentiroso). Ou seja, serão também poucas as pessoas que conhecerão a retificação dos factos, mantendo-se como "verdade" pública o erro que fora inicialmente noticiado.
No caso das notícias sobre o Médio Oriente, os últimos anos têm sido férteis em casos graves de atropelos às regras jornalísticas. Em geral, em desfavor de Israel. O mais famoso dos quais continua a ser a história de Muhammad Al-Dura, o menino palestiniano morto em 30 de Setembro de 2000, no segundo dia da Segunda Intifada. A sua morte foi filmada pelo repórter de câmara palestiniano Talal Abu Rahma ao serviço da TV France 2. A história foi transmitida ao Mundo pelo repórter Charles Enderlin, correspondente do canal em Israel, que não estivera no local das filmagens, comentando uma sequência editada de imagens com menos de um minuto (de um total de mais de 17 minutos de filmagem nunca transmitidos em público), dizendo que o menino tinha sido "alvo de tiros de uma posição militar israelita".
Sérias dúvidas sobre o caso Al-Dura surgiram nos dias seguintes. Porém, na opinião pública mundial, bombardeada pelas imagens do tiroteio, a culpa israelita estava já cristalizada. O caso de Huda Ghaliya e da sua agonia ao lado dos cadáveres dos seus familiares numa praia de Gaza é idêntico ao de Muhammad Al-Dura. A chamada "Batalha de Jenin" também continua a ter fama de massacre, ainda que se tenha provado que tenham morrido 52 palestinianos (a maioria deles armados) e não as centenas que foram noticiados. E por aí em diante. Nestes casos e noutros, nenhuma investigação seria considerada séria. No máximo, uma investigação que provasse a inocência, ou ao menos introduzisse a presunção da inocência do lado de Israel, seria vista como uma manifestação do "poder da propaganda sionista". E por isso, até hoje, Muhammad Al-Dura, Huda Ghaliya e Jenin continuam a ser poderosos e inquestionáveis ícones da causa palestiniana.
A Guerra do Líbano produziu mais alguns casos de fabricação de notícias contra Israel. O fotógrafo libanês Adnan Hajj, trabalhando para a agência Reuters, divulgou algumas fotos de Beirute durante os bombardeamentos israelitas, em Agosto de 2006. O fumo dos bombardeamentos, propositadamente manipulado digitalmente pelo fotógrafo, chegou às redações de todo o Mundo. Esta e outras tramas em redor da manipulação de fotos da guerra do Líbano foram descobertas por vários bloguistas americanos. A Reuters admitiu os erros e o fotógrafo foi dispensado. Mas isso não diminuiu o estrago mediático contra Israel.
Um dos casos recentes foi a notícia do tablóide sueco Aftonbladet, em Agosto de 2009, da autoria do jornalista freelancer Donald Boström alegando que, em 1992, o Exército de Israel recolheu órgãos de prisioneiros palestinianos. A notícia provocou uma crise diplomática entre a Suécia e Israel. O jornalista confessou mais tarde que não tinha quaisquer provas daquilo que escrevera e que apenas pretendia o assunto investigado e declarou que: "se é verdade ou não – Eu não tenho ideia. Não tenho qualquer pista". As próprias fontes mencionadas pelo jornalista revelaram depois não terem fornecido nenhuma das informações contidas no seu artigo. Ainda assim, com todas estas falhas, o artigo foi publicado e o editor do jornal manteve o apoio ao deplorável trabalho do jornalista.
As regras sagradas do jornalismo parecem ser constantemente quebradas quando o assunto é Israel. A falta de confirmação das fontes e o uso de expressões de opinião disfarçadas em verdades noticiosas são fenómenos repetidos. Outro dos mistérios da relação dos media com o conflito Israel-Palestinianos é a persistente ausência de factos de enorme valor noticioso que sejam desfavoráveis ao lado palestiniano. Por exemplo: o fenómeno da corrupção e do défice das contas da Autoridade Palestiniana (em 2005, as doações atingiram os 1,1 mil milhões de dólares e o défice chegou aos 800 milhões) não aparece nas páginas de economia dos jornais europeus, ainda que o bolso dos europeus seja o principal financiador da Autoridade Palestiniana.
As contradições na situação em Gaza também não parecem merecer a análise dos media ocidentais. Ao mesmo tempo que políticos e comentadores europeus comparam Gaza com um "campo de prisioneiros" (o último a usar a brilhante metáfora foi o novo PM inglês David Cameron), no território dominado pelo Hamas são inaugurados hotéis de cinco estrelas, uma piscina olímpica, resorts de praia, restaurantes de luxo e centros comerciais. Esta pujança de construção contrasta profundamente com a ideia expressa nos relatos do persistente bloqueio israelita à Faixa: causador da falta de materiais de construção, água, e outros produtos básicos. E mais estranho parece quando, os hotéis recém-inaugurados, os resorts e os restaurantes sejam frequentados pelos mesmos jornalistas estrangeiros, deputados do Parlamento Europeu e trabalhadores das ONGs de visita a Gaza que, entre umas braçadas na piscina, um banquete no restaurante Roots e uma sessão de compras nos shoppings e mercados fartos, relatam a "total miséria" do local e repetem a a já costumeira comparação com "um campo de prisioneiros".
E, se a situação é grave no que toca ao trabalho dos jornalistas, pior é com os comentários dos leitores nos sites de notícias. É de acreditar que a maioria das pessoas que lêem aqueles jornais até sejam gente decente, informada (e minimamente bem formada). É provável que muitos dos tais comentaristas de ocasião até saibam discutir com calma uma variada série de assuntos, com mais ou menos capacidades. E acima de tudo, o consigam fazer de uma forma tranquila. Porém, misteriosamente, tudo se transforma quando o assunto é Israel.
A cada ato de Israel, mesmo que nada tenha a ver com o conflito com os Palestinianos, seguem-se inacreditáveis e numerosas manifestações de raiva verbal. Expressões cheias de ódio, as eternas comparações grosseiras com o Holocausto. (José Saramago parece ter deixado uma numerosa horda de sucessores intelectuais). Uma das mais comuns é afirmar que "Hitler deveria ter terminado o trabalho". Será que as pessoas têm real consciência da dimensão do bizarro daquilo que se atrevem a expressar? Talvez a maioria nem sequer seja anti-semita – até acho que o termo está demasiado banalizado –, talvez estejam apenas tremendamente mal informadas sobre os assuntos: a situação do Médio Oriente e o Holocausto.
A par da incredulidade face à índole dos comentários, espanta-me que as mesmas regras de "justiça" e crítica dirigidas a Israel sejam totalmente alteradas quando se muda a geografia dos factos. Por exemplo, por ocasião da decisão recente de expulsar centenas de imigrantes ilegais de Israel, choveram os tais comentários indignados. A mesma indignação aconteceu na semana seguinte, quando a França e a Itália decidiram expulsar milhares de imigrantes ciganos romenos. Porém, desta vez, o conteúdo das opiniões foi bem mais civilizado. E até compreensivo.
Talvez ser anti-Israel seja uma atitude que simboliza a modernidade, o atual auge do progresso das ideias. Afinal, a causa palestiniana é "a Causa" entre a intelectualidade europeia e americana. Desta forma, quem se atreva a apartar-se da causa, arrisca-se a ser qualificado de antiquado, reaccionário, imperialista e outros apodos de mau crédito. Contudo, é interessante notar que, das mesmas vozes que não se inibem de acusar Israel, nunca se escutam criticas à violência entre os próprios Palestinianos. Como a que é exercida pelo Hamas sobre as mulheres, os opositores políticos e os cristãos em Gaza, ou a da própria Autoridade Palestiniana também em relação aos seus opositores, aos denunciantes da corrupção do regime ou aos "traidores informantes de Israel". O mediático "humanismo" dos pensadores só funciona num sentido. E fora outras centenas de valorosas causas mantidas na ignorância das massas e no silêncio dos "formadores de opinião".
Uma amiga jornalista, numa discussão recente sobre este assunto talvez tenha revelado a essência do enigma: "O jornalismo é uma profissão como qualquer outra, há bons e maus profissionais, cometem-se erros, injustiças... mas é um negócio como qualquer outro". Na esfera mediática parece compensar ser anti-Israel. O negócio floresce pela existência de polémicas. Israel atiça paixões como nenhum outro país do Mundo. A "Causa" vende bem. E talvez por isso, ainda mais em tempos de crise, se justifiquem tantos atropelos à transmissão da verdade.
E assim, parece cumprir-se uma cínica máxima atribuída (sem qualquer prova) a Joseph Goebbels, o sinistro mestre da propaganda nazi: "Uma mentira repetida milhares de vezes torna-se verdade". E segue solta esta verdade frouxa, sem ninguém que a pare.
Nuvens de Photoshop sobre Beirute | Os órgãos roubados, por Donald Boström.
A “Corboba House” (Casa de Córdoba) seria apenas mais uma mesquita a ser construída nos Estados Unidos. Afinal, de acordo com as estatísticas, o Islão é a religião que mais cresce nas terras do Tio Sam. Porém, esta não é uma mesquita qualquer. E a Baixa de Manhattan, em Nova Iorque, também não é um espaço qualquer. Apenas a dois quarteirões, ou 180 metros de distância situavam-se as "Torres Gémeas" do World Trade Center. Vozes contra e a favor do projeto depressa se manifestaram. Para os opositores, um estandarte do Islão – ainda que tolerante – ao lado do "solo sagrado" do Ground Zero é visto como uma provocação.
Em 11 de Setembro de 2001, o fanatismo islâmico alcançou o seu auge com os atentados terroristas nos EUA. O "choque de civilizações" manifestava a sua face mais violenta (e mediática). Foi o despoletar da "guerra ao terror". Que continua até hoje e, apesar da boa vontade do presidente americano Barack Obama, não tem perspetivas de terminar tão cedo. Este conflito é visto por alguns setores do mundo islâmico como uma nova Cruzada.

Dentro do próprio Islão, a par da enorme popularidade da figura de Osama bin-Laden, correntes moderadas exigiam uma auto-reflexão do Islamismo. Com o alastrar do terror em larga escala pela mão da Al-Qaeda e de outras organizações terroristas muçulmanas a quase todo o planeta: Madrid, Londres, Bali, Carachi, Istambul, Jerusalém, Beirute, Bombaim, Moscovo, Bagdade, Cabul, a imagem do Islão ficou severamente afetada. Políticos e clérigos muçulmanos tentaram (e tentam) convencer o mundo de que os terroristas são uma minoria no Islão. Estadistas e pensadores ocidentais, muitas vezes aderindo fielmente às regras do politicamente correto, ajudaram nessa campanha de limpeza de imagem.
É neste âmbito que entra a "Iniciativa Córdoba". Esta organização, fundada por Feisal Abdul Rauf, um imã americano nascido no Kuwait, pretende estabelecer um centro cultural e social islâmico perto do Ground Zero a fim de mostrar aos Americanos a face tolerante do Islão. Abdul Rauf declarou que a sua intenção é "enviar a declaração contrária àquilo que aconteceu em 11 de Setembro". "Nós queremos dar um empurrão contra os extremistas", declarou.
Todavia, tanto o espaço escolhido para a construção do centro islâmico como o nome do futuro centro não são inocentes. O local, apesar de se situar a dois quarteirões do Ground Zero, foi um dos edifícios secundários destruídos total ou parcialmente naquela manhã de Setembro de 2001. Na altura do embate na Torre Sul, uma parte do trem de aterragem do avião caiu sobre o número 45 da Rua Park Place, um dos dois edifícios a ser demolidos para a construção da mesquita.
O nome, por seu lado, também levanta sobrolhos. Córdoba lembra o Califado estabelecido no sul de Espanha, que marcou o período mais florescente da expansão islâmica no Ocidente. A refundação do Califado de Córdoba é declaradamente um dos sonhos de Osama bin Laden. A polémica (secundária) em redor do nome, levou a organização a renomear o projecto, escolhendo um inócuo "Park 51", ainda que reclamem que Córdoba evoque a cidade onde muçulmanos, cristãos e judeus viviam em convivência pacífica.
Numerosas personalidades se declararam a favor do empreendimento. Entre elas o próprio mayor Michael Bloomberg, alegando a liberdade de culto existente no país. O presidente Obama expressou apoio ao direito de construção do centro, dizendo: "Os muçulmanos têm o mesmo direito de praticar a sua religião como qualquer pessoa neste país. E isso inclui o direito de construir um local de culto e um centro comunitário em propriedade privada na Baixa de Manhattan, de acordo com as leis locais."
Uma das opiniões que considerei mais ponderadas foi a de Abraham Foxman, líder da Liga Anti-Difamação, o maior movimento de judaico de direitos humanos dos EUA. Afirmou que algumas das opiniões contra a mesquita são derivadas de fanatismo anti-islâmico e reconheceu o direito dos promotores de construírem o centro naquele local. Porém, apelou aos construtores para respeitarem a sensibilidade da família das vítimas, uma vez que a construção de uma mesquita naquele local poderia causar mais sofrimento a algumas famílias de vítimas do 11 de Setembro.
As vozes que se opõem ao projeto naquele local, na generalidade comparam o nível de infâmia na construção de um centro cultural muçulmano junto ao lugar onde outrora se ergueu o World Trade Center com a abertura de um centro cultural alemão em Treblinka. Ou um centro cultural japonês em Pearl Harbour. (Eu acrescentaria ainda um centro cultural americano em Hiroshima ou Nagasaki). No mínimo, desapropriado. Os familiares das vítimas dos atentados, ainda que alguns se manifestem a favor em prol da liberdade que é uma das bases da América, são uns dos mais declarados opositores da mesquita. Na sua opinião, o local seria um símbolo do "Islão triunfante".
Se o objetivo principal do centro é a promoção do islamismo tolerante, então em vez de Nova Iorque, ele devesse talvez ser construído em Bagdade, Cabul, Beirute, Gaza ou mesmo em Meca. Como demonstração de tolerância islâmica, porque não permitir a construção de igrejas na Arábia Saudita, para servirem de espaço de culto às centenas de milhar de imigrantes cristãos (em especial das Filipinas)? Aí, a prática de qualquer religião que não o Islão – e até mesmo a minoria xiita é altamente perseguida – é punível com penas de prisão, chibatadas e mesmo a morte por decapitação.
Mais do que um diálogo inter-religioso limitado a intelectuais e realizado no Ocidente, a melhoria da imagem do Islamismo seria conseguida por mudanças no próprio Mundo Islâmico. E não apenas em prol da melhoria das relações com os não-muçulmanos, mas sobretudo da vida nas próprias sociedades islâmicas. Mais do que uma grande e dispendiosa operação de Relações Públicas como a "Cordoba House", o Islão necessita de uma significativa reforma interna. Pois se é absolutamente verdade que a maioria dos muçulmanos não são terroristas, também parece inegável que a maioria dos terroristas são muçulmanos.
No último dia das férias do Verão, antes do recomeço dos estudos na yeshivá, decidi visitar – desta vez sozinho – a cidade de Hebron, situada a apenas 20 quilómetros de casa. Há três anos que não visitava a cidade dos Patriarcas. Apesar da importância histórica e espiritual daquela que é a segunda cidade santa do Judaísmo, confesso que não é dos lugares que mais me atraem. Para lá da santidade, é uma cidade conflituosa, além de terrivelmente suja. Da primeira visita, recordo o som de tiros esporádicos e o persistente fedor a esterco de burro.
Apanhei boleia no cruzamento de Gush Etzion. Destino: Kiryat Arba. Assim que se sai do cruzamento do Gush em direção a sul, a estrada torna-se mais estreita. Ao lado do caminho há vinhas e campos de cultivo, alguns abandonados. Atravessamos várias aldeias árabes. A maioria das casas parecem inacabadas. Grafittis em árabe estão em quase todas as paredes. Entre a miséria das aldeias sobressaem as casas dos ricos locais, com um telhado em forma de pagode chinês. Destoam tanto como as casas de imigrantes com inclinados telhados alpinos que pululam nas aldeias de Portugal. Montes de entulho de obras e das pedreiras e sucatas ferrugentas pontilham a paisagem. O lixo despejado na borda do jardim ou junto às paredes das casas fazem jus à proverbial imundície dos povoados árabes. Em frente a cada cruzamento, uma torre de vigia do exército de Israel. Na beira da estrada, placas vermelhas e brancas avisam os cidadãos israelitas da proibição de entrar no território da Autoridade Palestiniana. Ameaçadoramente declaram “Estão por sua conta e risco”.
Chegados a Kiryat Arba, o condutor da boleia deixa-me numa praça do colonato. Pergunto como chegar a Hebron. “Siga esta rua até ao cruzamento e espere uma boleia até à Gruta dos Patriarcas.” Pergunto se é possível chegar a pé. “Sim, tem presença do exército e da polícia. Não tem problema.” Ao chegar ao tal cruzamento, olho para Hebron, do outro lado da cerca que rodeia Kiryat Arba. Tirando o posto de controlo na entrada do colonato, não se vêm soldados na rua. Decidi não arriscar a caminhada e esperei pela boleia, que chegou logo a seguir. Quase não se avistam pessoas na rua. O calor do meio-dia não encoraja a sair de casa.
Na praça em frente à Gruta dos Patriarcas uma multidão de centenas de turistas franceses com bandeiras de Israel chega para visitar o santuário. Num dos cantos do edifício situa-se o lugar conhecido como o Sétimo Degrau. Desde a conquista islâmica no século XIII aquele era o ponto mais próximo onde os peregrinos judeus podiam rezar do túmulo dos Patriarcas. Depois de 1967, quando Israel conquistou a cidade à Jordânia, os Judeus puderam voltar a rezar no interior do santuário. Mesmo com a permissão, ainda hoje, muitos visitantes continuam a rezar no Sétimo Degrau, recordando 800 anos de humilhante proibição. Homens e mulheres, haredim e os tais turistas franceses, rezam juntos no local. Algumas mulheres choram.
À entrada do santuário há dois pontos de controlo dos visitantes. Não se pode entrar com armas. Nem com bandeiras, mesmo as de Israel que os franceses empunham. Grupos de homens estudam. Ao lado, um minyan reza Minchá, a oração da tarde. Uma vedação de madeira separa-os das mulheres que recitam salmos. No pátio interior coberto por um toldo, outro grupo de homens reza. De cada extremo do pátio, dois pequenos santuários entre os túmulos dos casais dos Patriarcas sepultados no local. Jacob e Leah de um lado. Abraão e Sara do outro. A decoração do local é tipicamente muçulmana, denotando o domínio islâmico quase ininterrupto durante 1400 anos. As pinturas nos tectos têm um aspeto renovado. Sob o túmulo de Leah, os pombos – indiferentes à santidade do local –, deixaram os seus despojos.
Decido estudar um pouco enquanto espero por um novo minyan para a oração da tarde. Saio pouco depois de terminada a reza. Ao descer as escadas para a rua pondero se devo ou não visitar outros locais de Hebron onde residem os judeus. Paro a alguns metros de um soldado que vigia um cruzamento da rua principal. Acerco-me e pergunto: “Quero ir até Tel Rumeida, é seguro?”. “Sim, não tem problema”, assegura-me.
A cidade de Hebron é um dos principais pontos de disputa entre Israel e os Palestinianos. Uma parte da Cidade Velha, em redor da Gruta dos Patriarcas e junto a Kiryat Arba, é controlada por Israel. Nessa área, três pequenos núcleos abrigam algumas centenas de habitantes judeus. Os bairros árabes têm um aspeto de cidade fantasma. A violência da Segunda Intifada – que em Hebron teve alguns dos seus piores episódios – levaram a prolongados períodos de recolher obrigatório e encerramento de lojas. Muitos dos habitantes árabes mudaram-se para o outro lado da cidade, controlada pela Autoridade Palestiniana.
À minha frente, na rua principal, caminha um casal de árabes idosos. O homem usa um longo keffiyeh branco e vermelho. Um pouco adiante, um turista asiático. Ao passar por ele cumprimenta-me com um sorriso: “Hello”. Retribuo a saudação e pergunto-lhe de onde vem. É sul-coreano. No caminho tento conversar um pouco com ele, mas o seu inglês é terrivelmente limitado. Decide parar junto a uma paragem de autocarro que me parece abandonada.
Continuo sozinho a minha jornada. Olho as varandas sobre a rua principal, todas protegidas por finas redes de ferro. “Ao menos assim, não tenho de me preocupar que me atirem alguma pedra…”, penso. Todavia, um cano de espingarda passa bem entre os buracos da rede. Confio que o Exército deve ter procedido à limpeza das armas da cidade. No caminho, uma cafetaria self-service para uso dos soldados israelitas que patrulham as ruas. Beit Hadassa, o antigo hospital judaico é hoje uma das residências judaicas em Hebron. O local foi palco de um massacre da comunidade judaica às mãos dos vizinhos árabes, em 1929. Um pequeno museu recorda a tragédia.
Até há alguns anos, em cada porta havia uma loja. Hoje estão todas fechadas e trancadas com uma barra de ferro. A Intifada matou o comércio nesta metade da cidade. Não sei se ainda vivem árabes naquela área. Alguns barulhos de conversas e de televisões informam-me que sim. No fim da rua, um checkpoint serve de passagem de pedestres para a parte palestiniana de Hebron.
Tel Rumeida, o meu destino, situa-se no alto de uma colina. A estrada é íngreme. Ao lado, o muro que separa a cidade. Quase no alto da encosta, uma abertura no muro permite observar a cidade palestiniana do outro lado. Ao contrário da área onde me encontro, daquele lado vejo shoppings e mais shoppings, com cúpulas vistosas. Prédios residenciais modernos. Aqui e além, mais alguns pagodes chineses. E um ininterrupto barulho de buzinas.
No alto da ladeira, dois soldados patrulham um cruzamento muito próximo de Tel Rumeida. Ali situa-se, ao lado de uma pequena base militar israelita, o núcleo judaico mais isolado de Hebron. A maior parte das famílias vivem em caravanas, ao lado das ruínas milenares de Tel Hebron. Entro no recinto da base para visitar o túmulo de Yishai e Rute, pai e bisavó do rei David. É uma ruína poeirenta e deserta. Uma vela memorial colocada sobre a laje escurecida testemunha que alguém passou ali recentemente. Entro na pequena sinagoga ao lado. Está vazia, mas a luz e a ventoinha estão ligadas. Sento-me por alguns minutos para descansar do calor e da caminhada. Recito alguns salmos. As eternas palavras do Rei David entoadas na cidade onde ele reinou por sete anos têm outro significado. Dou uma volta pelas ruínas. Um painel informa a existência de uma antiga sinagoga. Entro, curvando-me, por uma porta baixa. No interior, nada lembra tratar-se de uma sinagoga. Exceto alguns livros sagrados numa estante ou amontoados num canto, cobertos de pó.
São horas de regressar a casa. Desço a encosta em direção ao centro da cidade. Algumas crianças árabes caminham também por ali. Passa por mim um carro israelita, o primeiro que vejo passar desde que saí há mais de uma hora da Gruta dos Patriarcas. Junto a Beit Hadassa várias crianças judias correm pela rua. Para eles aquele é o espaço de brincadeiras, independente da situação que se viva na cidade.
Avisto o autocarro 160 que vai partir para Jerusalém. Cheguei em boa hora. Na segunda paragem, o turista coreano ainda espera o transporte de regresso a Jerusalém. Olho a cidade passar pelo vidro sujo do autocarro. Sujo como as ruas da Cidade Velha com casas esventradas, cicatrizes da Intifada. Hebron é um dos símbolos das intermináveis (e talvez insolúveis) negociações com os Palestinianos. É difícil para Israel manter a situação atual, pelos custos económicos e humanos. O exemplo da entrega de Gaza não perspetiva bons resultados para futuras transferências de território. Até porque Hebron é um dos mais poderosos redutos do Hamas na Cisjordânia.
Santa e conflituosa. Cheia de preces. Cansada de mágoas.
"Sétimo Degrau" | Túmulo de Sara
Túmulo de Yishai e Rute | Checkpoint "Tarpat"
Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente
É proibido o uso de conteúdos sem autorização
. De bolha em bolha (de Cop...
. Kiddush com tequila (Em t...
. Mais do que um destino de...
. Blogs
. Contra a Corrente/O MacGuffin
. Poplex
. Das 12 Tribos
. Aish
. Int'l Survey of Jewish Monuments