Domingo, 31 de Janeiro de 2010
A hora de deixar o ninho

Depois de alguns meses numa yeshivá em Israel, para a maioria dos alunos estrangeiros chega a hora de regressar aos seus países. Os estudantes americanos chegam, geralmente, de um ambiente religioso, com famílias observantes e comunidades bem organizadas. Muitos vêm para a yeshivá como alternativa a um ano de estudos na Yeshiva University, uma conceituada universidade judaica ortodoxa dos EUA, em Nova Iorque. O ano que estudam em Israel dá-lhes créditos para o curso universitário e, a anuidade na yeshivá é muito menor que a da universidade, por isso compensa financeiramente às famílias enviar os filhos para Israel.

Com os brasileiros e outros latinos a situação é bem diferente. A grande maioria dos alunos que chegam do Brasil fez teshuvá (tornaram-se religiosos) por via de algum movimento judaico juvenil – em geral o Bnei Akiva. Em alguns casos, esse desvio em direção à observância religiosa não foi acompanhado pelas respetivas famílias. Assim, a hora de voltar é um passo duplamente difícil.


Beit Midrash, o centro de estudos da yeshivá.
A quantidade e variedade de livros é impressionante.

Muitos chegam com um nível básico de hebraico, obtido durante os estudos nalgum colégio judaico. Em termos de conhecimentos de Torá a situação não é melhor. Alguns começaram há pouco a cumprir as leis do Shabbat e da alimentação casher. Apesar de “verdes” chegam com uma ânsia enorme de aprender.

Praticamente nunca tiveram contato com o Talmude, a base de todo o estudo na yeshivá. O choque inicial é enorme. A dificuldade com a intrincada construção das discussões talmúdicas e o obstáculo da língua aramaica – a língua da Guemará, parte principal do Talmude –, significam um avanço lento nos estudos. O “verdinho”, um popular dicionário aramaico-hebraico-inglês, é consultado a cada duas palavras do texto da Guemará.

Nas primeiras semanas, a frustração é evidente em muitos destes alunos. Em conversas com os alunos mais experientes, alguns confessam pensar em desistir. Raramente o fazem. Na yeshivá o tempo passa rápido e uma clara progressão é visível logo ao fim de um mês. Aos poucos, o “verdinho” é posto cada vez mais de lado. A repetição dos termos talmúdicos e a classe diária sobre o assunto em discussão ajudam a entrar na dinâmica da Guemará.

O Shabbat é um dos tempos mais extraordinários na yeshivá. O ambiente de festa, com canções e até mesmo dança durante as refeições festivas deixam uma marca profunda. Com o tempo, alguns dos que viam a sua estadia na yeshivá como algo temporário decidem não regressar definitivamente a casa. Na verdade, decidiram que a sua casa é em Israel e voltar para um ambiente não religioso torna-se impensável.

Para os que ficam, várias questões se colocam: tratar já do processo de aliyá (a imigração para Israel) ou permanecer por enquanto como residente estrangeiro? Continuar na yeshivá mais um ou vários anos, ou sair e ir para a faculdade? E a entrada no serviço militar – agora, ou adia-se mais um pouco?

Mesmo os que saem da yeshivá e tomam algum outro caminho em Israel – exército, trabalho ou faculdade –, mantêm um contacto com o local e os amigos que lá fizeram. Nas horas vagas dos estudos lá fora ou nos dias de licença militar regressam aos bancos do Beit Midrash, a sala de estudos principal. Com frequência passam o Shabbat na yeshivá ou em casa de um rabino ou de um aluno já casado. Todos se reencontram nos casamentos de amigos. E a yeshivá é uma fábrica de casamentos!

Ainda assim, há os que têm mesmo de voltar para os seus países. Para terminar a faculdade que ficou “trancada”. Para o trabalho deixado em pausa. Para a família que insiste que voltem. As semanas que antecedem a partida são de grande ansiedade. A preocupação maior é manter o nível elevado que foi conseguido na yeshivá. Compram livros indispensáveis para continuar os estudos de Torá, livros impossíveis de encontrar fora de Israel (ou quando se encontram à venda são caríssimos!). Estudam como casherizar a cozinha da família, o que se pode ou não pode comer fora de casa, como respeitar o Shabbat quando a família não é religiosa. Fazem-se contatos com rabinos e famílias religiosas nas suas cidades, para que os possam acolher no Shabbat e nas festas.

De volta a casa, uma decisão unânime é dedicar um tempo para trabalhar com kiruv – a ajuda aos jovens judeus para se aproximarem do Judaísmo. (Kiruv significa aproximação, em hebraico). A partilha dos conhecimentos e experiências da yeshivá são uma excelente forma de atrair os jovens para aderir a uma forma de vida comprometida com os valores judaicos.

Em regra, o regresso é apenas temporário. O tempo suficiente para terminar os estudos e ir convencendo a família a deixá-los fazer aliyá. Aquilo que conquistaram com os meses passados na yeshivá é demasiado precioso para se arriscar a deixar perder num ambiente pouco cooperante com a observância judaica.

É um orgulho ver a incomparável metamorfose por que passam os novos alunos que chegam. Como crescem e se desenvolvem humana e espiritualmente. São muitos os milagres produzidos nos bancos da yeshivá.



publicado por Boaz às 22:39
link do artigo | Opine | adicionar aos favoritos

Domingo, 24 de Janeiro de 2010
Voltar a Lisboa?

Desde que decidimos, eu e a minha esposa, frequentar um curso de preparação para "shelichim" – emissários para as comunidades judaicas na Diáspora – pensámos na possibilidade de irmos para Portugal. Brasil, Espanha ou qualquer país de língua espanhola da América são outras possibilidades. Em Portugal, a única comunidade com a qual tive um contacto directo foi a de Lisboa, desde a minha entrada na faculdade.

Desde o início do meu processo de conversão, com melhores ou piores momentos, tivemos uma relação um pouco atribulada. A hostilidade face aos candidatos à conversão, numa altura em que não havia sequer rabino na sinagoga, resultou em alguns momentos amargos. O primeiro contacto, em Fevereiro de 1998, foi desastroso. Tanto que, durante alguns anos, até 2002, não voltei a contactar a comunidade.

Tive o discernimento suficiente para perceber que uma comunidade judaica não faz todo o Judaísmo, ou que alguns judeus não fazem todo o Povo Judeu. Por isso, não desisti. Com a porta de Lisboa aparentemente trancada, continuei a estudar Judaísmo o melhor que conseguia, pela Internet e nos poucos livros que conseguia encontrar nas bibliotecas. Assim que descobri – já não me lembro por que maneira –, que havia chegado um rabino à comunidade, e que ele tinha um endereço de e-mail, apressei-me a tentar essa nova porta. Pensei, se a reacção for negativa, pelo menos não será tão dramática como ao vivo.


Sinagoga de Lisboa, Shaare Tikva, os Portões da Esperança.

Todas as semanas, enviava ao rabino pelo menos um e-mail com perguntas. As respostas eram sempre secas e, pelo menos aparentemente, desinteressadas. (Existe o costume de tentar demover o candidato à conversão, para que este prove o seu real interesse). Tantos e-mails enviei que o rabino deve ter ficado farto de mim e decidiu entregar o meu caso a um membro da comunidade. Esta reviravolta mostrou-se providencial. As respostas aos meus e-mails passaram a ser mais pacientes e atenciosas. Tivemos algumas discussões filosóficas interessantes e acabámos por nos tornar amigos.

Alguns meses depois, em Fevereiro de 2003, fui convidado a visitar a sinagoga. "Uma visita turística", pensei. Não, na hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que dá início ao Shabat! Incrédulo com a ocasião do convite, pedi explicações: "Não seria melhor ir a outra hora?". A resposta, ainda hoje me soa como a um magnífico lema de vida: "Quando se aprende a nadar numa piscina, podes saltar do lado mais baixo ou do lado mais fundo. Eu acho que deverias saltar do lado fundo".

Perante tal encorajamento, decidi aceitar o convite. Até então, ainda não conhecia pessoalmente o paciente judeu que há meses respondia aos meus e-mails. Esperou por mim no portão da sinagoga para facilitar a minha entrada. Foi a minha primeira experiência com a segurança do local.

O primeiro Kabalat Shabat foi estranho. O hebraico, as melodias das rezas, a sinagoga quase vazia, não conhecer ninguém além do meu amigo-por-e-mail-e-agora-também-em-pessoa. Seguia as orações pelo livrinho em hebraico, português e transliteração. Absolutamente lindo, o primeiro Lechá Dodi. No estranho oceano da língua hebraica, as seis palavras da declaração de fé judaica: “Shemá Israel, Hashem Elokeinu, Hashem Ehad” foram a única ilha algo familiar. O cúmulo do meu desnorteio chegou quando, pouco depois, todos se levantaram, viraram-se na direcção da Arca Sagrada (também a direcção de Jerusalém) e ficaram em silêncio, balançando-se como costumam fazer muitos judeus quando rezam. Perdi-me nas páginas do livrinho. “Onde vão?” Folheei, para a frente e para trás a tentar adivinhar o que rezavam em silêncio. Fiquei na minha, sentindo-me meio estúpido, e discretamente tentando o mais possível parecer um deles.

Alguns minutos depois, voltaram a rezar alto. “E onde vão agora?”. Um novo folhear atrapalhado. Foi impossível achar o fio à meada. Uns minutos depois e o serviço terminou. À saída, o meu amigo perguntou: “O que achaste?”. “Estranho, mas bonito”. “Podes voltar na próxima semana, se quiseres”. Obviamente voltei. Desta vez, na entrada não havia ninguém à espera, além do segurança de ocasião. A custo, deixou-me entrar. O meu amigo não estava para confirmar o convite que me fizera. Enquanto esperava para começar a cerimónia, um membro da comunidade perguntou-me se eu era judeu. Precisavam de gente para completar o minyan (conjunto mínimo de dez homens necessário para as orações públicas). "Não, não sou". Fiquei marcado.

Na semana seguinte, o segurança barrou-me a porta. "A sinagoga é só para membros", disse-me, de forma antipaticamente peremptória. Nem valeu a pena invocar o convite do meu amigo. "Se quiser voltar, terá de enviar uma carta para a direcção de segurança da comunidade, a pedir autorização para frequentar a sinagoga". Frustrante. Enviei a carta. Esperei um mês pela resposta. Fui perguntando por e-mail ao meu amigo, se sabia algo da dita carta: onde tinha ido parar, se tinha sido recebida. Decidi enviar outra. "Talvez se tenha extraviado", deduzi. Um mês, dois, três… e nada. Nesta altura já tinha terminado o meu estágio na Rádio TSF e voltara a viver na Batalha, a 120 quilómetros de Lisboa. E a comunidade voltara a ficar sem rabino.

Alguns meses depois voltei a Lisboa por algumas semanas para um curso pós-universitário de jornalismo. Aproveitando a oportunidade do meu regresso à capital, o meu amigo na comunidade voltou a convidar-me para um Kabalat Shabat. Sem ter recebido qualquer resposta em mais de 6 meses, fiquei apreensivo em aceitar o convite. "Eu espero-te do lado de fora do portão e entramos juntos", assegurou-me. Chegámos cedo, o vigilante ainda não tinha chegado. Não tive problemas para entrar. A meio do serviço vi-o entrar na sinagoga. Gelei. Pareceu ignorar-me. Imaginei, "depois de tantos meses talvez nem se lembre de mim".

À saída, ainda no pátio da sinagoga, o segurança provou a sua boa memória. "Você não volta a fazer o que fez! Não tem autorização para entrar aqui!" Da forma colérica como me falou parecia acusar-me de ter arrombado o portão. Encaminhámo-nos para a rua. Tentei defender-me como podia: "Como pode falar assim, se o senhor não estava aqui quando cheguei…" Com o passar do tempo, o jovem estava cada vez mais agitado. Cheguei a temer que me batesse.

Deixei-o falar. Afinal, nada do que eu pudesse dizer iria fazê-lo acalmar-se. "Escreva outra carta! Não há duas sem três. E enquanto não receber resposta, está proibido de entrar aqui!" Num aviso ameaçador, disse-me que se voltasse à sinagoga, seria expulso nem que tivesse de recorrer "à força". É verdade, ele tinha razão, eu não tinha autorização formal, mas também não era preciso fazer tamanho escândalo. Porém, confesso que de todo este episódio vergonhoso, o que mais me custou nem foi o rapazote furioso e malcriado, cumprindo com orgulho o papel que alguém lhe tinha confiado. O pior foi mesmo o silêncio. O silêncio daqueles que iam saindo da sinagoga e ficavam parados à nossa volta durante um minuto ou dois, a admirar tranquilamente aquela luta de galos no meio da rua. Sem nada fazer, ou dizer. (Quem cala, consente?) Humilhado, fui embora, com o meu amigo, que entretanto saíra da sinagoga e levara também ele uma dose de desaforo do tal segurança.

Escrevi a terceira carta, desta vez iria enviá-la registada. Nela, incluí uma linha sobre o memorável episódio da minha última visita à sinagoga. Mais dois meses de espera. Recebi a autorização numa carta breve e seca. Nenhum comentário sobre o comportamento do segurança. E no tempo da espera terminara o meu mini-curso de jornalismo escrito em Lisboa e voltara de novo para casa da família. A resposta chegara tarde demais.

Quase seis meses depois, quando já havia chegado um novo rabino, voltei a ser convidado para a sinagoga, mais propriamente para comer na sucá (cabana que se constrói para a festa de Sucot). Seria uma oportunidade para falar com o rabino sobre o meu caso. Acabei por não falar com ele, já que aquele não era um assunto para discutir à mesa, em frente à família dele e alguns convidados. Alguns dias depois, voltámos a encontrar-nos para uma entrevista formal. No final, convidou-me a juntar-me à classe de conversão da comunidade já na semana seguinte. Que abertura!

Semana a semana, durante 11 meses, fui de propósito a Lisboa apenas para as aulas de conversão na sinagoga. Era um grupo de mais de 20 pessoas, todas da região de Lisboa. Eu era o único "da província". Desde essa altura, deixámos – eu e os outros candidatos à conversão – de ter problemas para entrar na sinagoga. O novo rabino estava "do nosso lado" ainda que tivesse de bater de frente com alguns "hostis". Aos poucos, a comunidade tornou-se mais tolerante connosco.

Voltar a Lisboa seria voltar a muitas recordações. Algumas amargas, outras deliciosas. Foram algumas pedras no longo caminho da minha conversão, mas mesmo as mais aguçadas ajudaram a pavimentar a estrada. Não guardo escoriações pelas quedas, nem rancores.




Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
Esplendor no lixo

Numa das últimas semanas, fui rezar a oração do final de Shabbat numa das sinagogas de Alon Shevut, o colonato onde vivo. Escolhi a sinagoga de rito ashkenazi (europeu oriental), que sempre começa o serviço um pouco mais tarde. Como a oração no santuário da sinagoga já havia começado, o grupo de homens do qual eu fazia parte reuniu-se numa sala lateral onde funciona a biblioteca.

Na biblioteca da sinagoga, junto à arca onde se guardam os rolos da Torá, alguém tinha deixado uma caixa com livros, marcada como "hefker", sem dono. É pegar e levar. Entre os congregantes estava o rabino-chefe de Alon Shevut, o qual, no final do serviço sempre dá algum conselho ou explicação da Lei Judaica sobre um assunto relevante. O rabino inspeccionou-os e descobriu serem traduções para inglês do Sefer ha’Zohar, o Livro do Esplendor, a obra principal da Cabalá. O rabino falou do assunto.

"O que fazer com estes livros sem dono?", alguém perguntou. "Deitá-los ao lixo", foi a resposta do rabino. E explicou: "Quem quiser ter uma cópia do Zohar em casa, eu até recomendo, mas é preciso ter cuidado com esta tradução. Foi feita pelo Kabbalah Center. Agora, sabendo isto, cada um que faça o que quiser."


A Árvore das Sefirot, numa gravura medieval.

O interesse pela Cabalá é um dos fenómenos da nova espiritualidade que atravessa o planeta. Um dos grandes promotores desse interesse é exactamente o Centro de Cabalá. Rodeado de controvérsia dentro e fora do mundo judaico, atraiu gente famosa como as cantoras Madonna e Britney Spears e o futebolista David Beckham. Alegadamente "com fins não lucrativos", a verdade é que a organização vende a bom preço tanto os seus cursos e seminários, como uma série de produtos ditos milagrosos, desde água "benta" que cura até o cancro, até os fios de lã vermelhos que protegem do "mau-olhado". (Em qualquer canto do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém encontram-se charlatães que vendem a turistas os mesmos fios vermelhos por apenas 5 shekels, menos de um euro!)

A promessa da saúde, da riqueza e da felicidade do Centro de Cabalá é passada por líderes carismáticos com ensinamentos de proveniência duvidosa: uma mistura "à la carte" das obras cabalistas tradicionais, com máximas New Age e o que mais der na cabeça dos pregadores. Os seus congressos atraem celebridades a Israel.

Madonna e companhia já vieram a Israel algumas vezes à custa da crença nos poderes do fiozinho escarlate. Durante a sua primeira visita, a cantora tentou encontrar-se com o maior cabalista vivo – entretanto falecido –, o rabino Yitzhak Kaduri. Questionado sobre a possibilidade de se encontrar com a tão ilustre visitante, o santo rabino terá declarado que nunca tinha ouvido falar de Madonna e que nunca se encontraria com ela. A fama, nem sequer a de Madonna, abre todas as portas. Restou à estrela passar pelo Muro Ocidental e visitar um túmulo de um rabino cabalista no Monte das Oliveiras.

Na tradição judaica, a Cabalá está reservada aos homens casados e com mais de 40 anos. Os seus ensinamentos não são para ser tomados de cabeça leve e não prometem a felicidade e o sucesso por via de fios de lã, águas bentas ou a recitação de mantras. Uma evidente sede espiritual, junto com o crescente gosto pela mística – graças a modas como "Harry Potter", "O Código Da Vinci" e "O Segredo" alimentam a máquina da Cabalá light e das suas receitas fáceis.

Quem procurar com seriedade nas fontes cabalísticas, tal como em qualquer outra fonte judaica, descobrirá que é pelo contínuo esforço pessoal que se chega ao aperfeiçoamento, exatamente o oposto daquilo que ensinam os curandeiros do Centro de Cabalá.




Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Os bons ares de Jerusalém

A Cimeira de Copenhaga terminou em nada. A tentativa de chegar a um acordo que dê mais esperança a um futuro mais limpo para o planeta e seus habitantes (humanos, animais e vegetais) chocou com os inconciliáveis interesses dos políticos e do capital num mundo em plena crise económica.

Israel obviamente tem algum trabalho a fazer na área ambiental. É verdade que, em termos globais, Israel é um país muito pequeno e com um impacto mínimo no quadro da degradação ambiental do planeta. Não posso dizer que o país seja muito "limpo". À beira das estradas, é comum ver montes de entulho de obras. As ruas das cidades, em especial Jerusalém, são sujas. A reciclagem de embalagens é coisa nova por estas paragens e a poupança de água ainda tem muito por onde evoluir. Ainda assim, Israel tem dado alguns passos para melhorar o seu próprio registo.

Há cerca de 100 anos, o território de Israel era desértico ou semi-desértico na sua totalidade. Os pioneiros judeus sionistas, ansiosos de erguer nas décadas seguintes um país moderno e desenvolvido, começaram essa tarefa com a plantação de árvores. Milhões de árvores foram plantadas por quase todo o país – incluindo mesmo algumas áreas do inclemente deserto do Neguev. Daí que, Israel seja o único país do mundo que hoje tem uma área florestal superior à que tinha há 100 anos. O desbaste florestal – pela moto-serra ou os incêndios – não atingiu Israel como atingiu a Amazónia, a Indonésia, a Escandinávia ou Portugal.

Para isso contribuíram as campanhas de florestação que persistem até hoje. Todos os anos, no dia 15 do mês hebraico de Shevat – por volta de Janeiro ou Fevereiro – o país festeja o Ano Novo das Árvores. Milhares de crianças de todas as escolas plantam uma árvore. Um dos românticos ideais de vida da sociedade ocidental a par de "ter um filho e escrever um livro". À custa disso, o país conseguiu mudar drasticamente a sua paisagem. O norte e o centro de Israel são hoje verdejantes e Jerusalém, outrora no meio do deserto, é rodeada de florestas.

Na década de 1970, o impulso para aumentar as exportações e o orgulho nacional na produção frutícola, levaram a um abuso dos pesticidas e fertilizantes químicos. O resultado foi óbvio: contaminação das fontes de água. Hoje, a produção de frutas, verduras e flores continuam prósperas, mas o país aderiu em força à agricultura orgânica.

A água foi e continua a ser o caso bicudo da ecologia nacional: é escassa e de má qualidade. Dos rios israelitas, apenas o Jordão corre o ano inteiro. Todos os outros são temporários, fluindo apenas alguns meses durante o Inverno e a Primavera. E isto somente se houver chuvas suficientes. Em redor de Tel Aviv e Haifa, as principais cidades industriais, a poluição transformou ribeiros em valas contaminadas, poluindo as praias. A despoluição do Rio Yarkon em Tel Aviv originou uma nova área de lazer nas margens do rio, com novos parques.

A crónica falta de água levou à adopção de métodos inovadores na gestão da água. O primeiro e mais famoso foi a invenção da "rega gota-a-gota". Outro, a reutilização de água: Israel é o país com maior percentagem de água de esgoto purificada e reciclada, para ser usada na agricultura: 70%. O segundo país da lista, a Espanha, está a uns longínquos 12%. É também um dos líderes nas tecnologias de dessalinização de água do mar.

Uma das grandes potencialidades ecológicas de Israel é o uso da energia solar. O país é pioneiro e líder mundial na tecnologia de aquecimento de água com recurso a painéis solares. Nos telhados israelitas é comum avistar painéis fotovoltaicos com o respectivo tanque de água. Sem petróleo nem barragens hidroelétricas, a energia grátis do sol foi a solução para aquecer a água do banho. A decisão do governo de construir uma nova central eléctrica abastecida a carvão originou protestos de uma sociedade cada vez mais informada e que reclama um ambiente mais saudável.

Os próximos desafios são o uso da energia solar e eólica para produção elétrica em larga escala. No caso das energia solar, o problema principal é a falta de espaço para instalar os parques solares. A principal "área vazia" do país é o Neguev, a região mais ensolarada de Israel. Porém, a maior parte do território é composto por parques naturais e áreas de bases militares de acesso restrito.

O problema com a energia eólica – para lá de o país não ser especialmente ventoso – é o facto de Israel ser um dos principais pontos de passagem de aves migratórias entre a Europa e África. É sabido que pássaros e torres eólicas não são uma combinação de sucesso.

No seu memorável discurso perante a Assembleia-Geral da ONU, há alguns meses, o PM de Israel Binyamin Netanyahu insistiu a vontade de "limpar o planeta". Israel, com todos os seus avanços tecnológicos e desejos de se livrar da dependência do petróleo, tem grandes potencialidades e tem servido como tubo de ensaio para projectos ambientais inovadores. Para lá dos sonhos traçados (e furados) da arena internacional.



publicado por Boaz às 00:10
link do artigo | Opine | adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
Viram? ou Toda a gente estava à espera desta, mas ninguém o disse porque pensavam que o gajo se contentava

Aviso que vou despejar uma bela dose de cinismo nas próximas linhas. Apeteceu-me. Acho que também tenho direito a um pouco de mangação.*

Há poucos dias, o Primeiro-Ministro de Israel, Benyamin Netanyahu revelou uma decisão do governo em congelar durante 10 meses todas as novas construções nos colonatos judaicos na Judeia e Samaria (chamadas pela comunidade internacional Cisjordânia ou Margem Ocidental ou Territórios Palestinianos). Em Israel, essa decisão causou um escândalo. Até mesmos os partidos da oposição de esquerda, mas propensos a cedências ao outro lado, atacaram a decisão de "Bibi" por colocar no mesmo saco os colonatos estratégicos como Gush Etzion e Maale Adumim e os pequenos colonatos clandestinos, compostos de caravanas em locais isolados.

Ninguém sabe bem a intenção do chefe do governo. Uns dizem que, com esta cedência ele quer "colocar a pressão do lado dos Palestinianos" para retomarem as negociações. Outros dizem que quer dar um pequeno empurrãozinho aos "moderados" da Fatah, adversários dos "radicais" do Hamas nas próximas eleições para a Autoridade palestiniana. Uma terceira versão diz que tudo não passa de uma manobra bem calibrada para que Obama e a Senhora Clinton – aflitos para melhorarem a imagem dos States no mundo árabe já que a decisão de mandar mais 10 mil soldados para o Afeganistão e os carros-bomba diários em Bagdad não ajudam nas Relações Públicas e uns puxões de orelhas aos Judeus parecem servir a causa – deixem de enfadar o governo de Israel para retomar o "processo de paz".

Mas, se alguém achava que um congelamento da construção nos colonatos ajudava em alguma coisa – ao pressionado "Bibi" ou à pressionada Fatah – a resposta do outro lado foi simplesmente inventar mais uma desculpa para continuar no mesmo cinismo desde 1991 quando começaram a falar com Israel para ver se lhe arranjarmos um cantinho para montarem mais um curral com pretensões de país para sobreviver às custas da comunidade internacional.

Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, mandou de volta o presentinho de "Bibi" e ainda fez uma exigência para o próximo presente: "não há negociações até que o Mundo – não apenas Israel, estão a ouvir? – reconheça as fronteiras de 1967 para o futuro estado palestiniano."

Sinceramente, até agradeço a sinceridade ao Sr. Abbas. Ao menos um que ponha as cartas em cima da mesa. Assim, ninguém se engana a pensar que ele tem alguma boa vontade nesta coisa do "processo". Os "maus da fita" do Hamas já o fizeram há muito tempo, como em 2005, quando Israel saiu de Gaza. Declararam logo: "hoje Gaza, amanhã Tel Aviv". O Sr. Abbas quis dizer exatamente o mesmo, mas apenas o fez com uma raiva jihadista menos evidente.

Então, pensavam mesmo que conseguiam alguma coisa com a gracinha do congelamento? Eu até imagino que não, mas há que fazer alguma coisa quando se está no poleiro e a coisa ferve. Em Portugal, a silly-season da política é mais para o Verão. Em Israel, parece funcionar em imprevistas intermitências, de Janeiro a Dezembro.

* Foi o melhor sinónimo de "troça" que encontrei no dicionário.



publicado por Boaz às 23:49
link do artigo | Opine | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
O enviado

Desde princípios de Setembro, eu e a minha esposa estamos a frequentar um curso de preparação para trabalhar com comunidades judaicas fora de Israel – aquilo que se chama, em linguagem judaica: a Diáspora. Ao fim de dois anos – nalguns casos ainda no período de estudos – o casal é enviado para uma comunidade onde desempenhará as funções de rabino (e respectiva esposa) ou de professor da escola judaica.

Durante a sua estadia na Diáspora, os alunos do curso tornam-se shelichim, "enviados" ou "emissários". É um modelo executado com sucesso em especial pela corrente judaica ultra-ortodoxa Chabad, que tem milhares de "emissários" em todos os Continentes. Por exemplo, de todos os países na Europa, Portugal é o único com mais de 500 judeus, sem um emissário Chabad. (Por várias razões que não me compete discutir). Porém, enquanto os "emissários" Chabad são incumbidos de uma missão para durar uma vida inteira, ou pelo menos bastantes anos, os "emissários" da organização onde estudo têm uma missão temporária, normalmente de 2 a 3 anos.


O tradicional Kinus, a cerimónia anual de reunião dos "emissários" Chabad.
Frente ao famoso 770, Crown Heights, Nova Iorque, 2009

A organização que ministra este curso está dentro da linha ortodoxa moderna, sionista, o Instituto Amiel-Strauss. É um curso de dois anos, durante o qual, o casal (com a excepção de um aluno solteiro, todos os outros cerca de 20 elementos da turma são casados) é preparado para cumprir funções de liderança na comunidade judaica. Todas as terças-feiras, das 13:45 às 20:30 frequento as aulas do curso. As esposas têm 4 horas de aulas uma vez a cada 15 dias. Os desafios das comunidades judaicas – com os seus dilemas e casos bicudos – como resolvê-los à luz da necessidade com a moldura da Halachá, a Lei Judaica?

Um dos elementos centrais do curso e uma das partes que me foi mais fortemente recomendada, foi a formação na área da Retórica. Como dar uma palestra, aula na sinagoga de uma forma interessante? Que temas explorar e como? Como passar os temas difíceis de uma forma atrativa?

Frequentemente, recebemos a visita de atuais e ex-emissários nas comunidades do mundo inteiro que nos contam as suas experiências: as dificuldades que encontraram, os desafios que passaram, o que conseguiram fazer, o que desejariam ter feito. Tudo isto nos dá indicações como estarmos preparados para enfrentar o mundo judaico "lá fora", fora de Israel.

São realizados contactos com potenciais comunidades para envio dos alunos. Comunidades que estão interessadas em receber um rabino, um professor para a escola judaica, um animador do grupo de jovens, etc. De qualquer forma, as funções acabam por não ser tão fixas e o emissário que fora designado para ser professor da escola judaica poderá acabar por se tornar o rabino da comunidade. Obviamente, em qualquer caso, um rabino desempenha sempre funções de professor.

Ao longo da nossa trajetória judaica, tanto eu como a minha esposa fomos ajudados por "emissários". Eu, vindo de uma família e de um ambiente não-judaico em Portugal, no processo de conversão; ela, crescida numa família pouco religiosa no Brasil, no seu retorno à religiosidade judaica.

Numa altura em que o Povo Judeu se encontra numa situação delicada, ameaçado por níveis de assimilação e um desinteresse (ou pelo menos grande desconhecimento) das novas gerações pela sua herança espiritual e histórica, é uma enorme responsabilidade dar uma ajuda para travar este processo. É a nossa vez de contribuir para este grande esforço. As potencialidades são gigantescas. O terreno, apesar de difícil, é fértil.

A par do fenómeno gravíssimo da assimilação, existem cada vez mais judeus interessados na religiosidade (o que também acontece noutras religiões). Aquilo que chamamos teshuvá, ou "retorno". Jovens e adultos afastados descobrem uma identificação com as suas raízes judaicas. Em muitos casos, essas raízes foram cortadas por "casamentos mistos" dos seus pais ou avós e o "retorno" significa na verdade uma "conversão".

Hoje, como em muitas outras épocas da História, o Povo Judeu encontra-se numa encruzilhada. De um lado, as forças da assimilação que arrancam membros ao Povo Judeu. Do outro, a redescoberta das origens e da espiritualidade pelos "afastados". São fenómenos que se encontram em todas as comunidades no disperso mundo judaico e em todas as famílias judaicas do planeta. Na mesma família, acontece um dos filhos se casar com um não-judeu e o outro tornar-se religioso.

Ainda é cedo para saber par onde iremos depois de terminado o curso. Pela afinidade linguística, Portugal ou Brasil seriam os destinos mais "naturais". Espanha ou a América Latina são outras possibilidades ou, mais remotamente, até algum país de língua inglesa. Porém, admito que voltar a Lisboa na condição de "emissário" seria, no mínimo, estranhíssimo.

PS – É importante ressalvar que os "emissários" não são missionários, dedicando-se exclusivamente aos assuntos das comunidades judaicas. Não existe prática "missionária" no Judaísmo. Existe assistência aos que, eventualmente se desejem converter, mas não existe qualquer acção de propaganda do Judaísmo fora das esferas da comunidade judaica.




Domingo, 29 de Novembro de 2009
Oinc oinc, eles andam aí

É oficial: a gripe A chegou a estes lados. Nada de alarmes. A pequena aguentou-se, apesar dos 40 graus de febre, a tosse, a fraqueza. Durante uma semana, a mãe e o pai revezaram-se para ficar com ela em casa. Na vizinhança soubemos de outros casos. Mais tarde ou mais cedo, chega a todos.

Tenho visto que as notícias são de alarme em Portugal. Escolas fechadas, campanhas de vacinação (e as grávidas que não aderem com receio que com elas se repitam os episódios da morte de fetos de outras grávidas que foram vacinadas). Até a equipa do Estrela da Amadora está "de baixa", com quase toda a equipa infetada.

Em Israel, depois da polémica inicial sobre como chamar à doença: “gripe A” não diz nada, “gripe mexicana” dava má publicidade ao país onde tudo começou e gripe suína tem uma conotação não-casher, decidiram-se mesmo pela "gripe dos porcos". Afinal, o vírus não precisa de ter certificado de cashrut... Hoje, mal se fala do assunto. Ainda assim, contam-se mais de 4000 casos e algumas dezenas de mortes. Nada de alarme. Aliás, para quê? Todos os anos, morre meio milhão de pessoas no mundo só com a gripe comum e ninguém puxa os cabelos por isso.

É preciso de ter medo de alguma coisa. Isso vende muitas notícias. Faz mover governos. E sustenta muitos negócios (quantos milhões de vacinas contra a gripe foram encomendadas à Roche, a empresa que tem a patente do Oseltamivir, o princípio ativo do famoso Tamiflu?). Eu não digo que andem interesses obscuros à solta. Há que confiar nos médicos, ainda que saibamos dos "prémios das farmacêuticas".

Acreditar que tudo não passa de uma grande conspiração é mais perigosos ainda. Um bom exemplo aconteceu com a vacinação contra a poliomielite. Em 2003, durante a campanha de vacinação para erradicação da poliomielite, surgiram rumores no norte da Nigéria que a vacina causava esterilidade nas raparigas. Os chefes tradicionais muçulmanos proibiram a campanha de vacinação, causando um aumento dramático dos casos de polio no país. Nos dez meses de suspensão da vacinação, a epidemia alastrou a toda a Nigéria e a 12 países vizinhos onde já havia sido declarada extinta. Hoje, as guerras no Sudão e a instabilidade na Costa do Marfim são os obstáculos contra a erradicação completa desta grave doença. Só este ano, foram detetados novos casos em 21 países. Tudo por causa de uma mentira sem fundamento.

No caso da gripe A, já andam por aí e-mails a circular, insinuando que é tudo um plano dos Estados Unidos (quem mais, se não o "Grande Satã"?) para reduzir a população mundial em 2/3. É maquiavélico mesmo. Vídeos no YouTube mostram uma respeitosa senhora finlandesa (obviamente, já que a Finlândia é um país tão credível). A senhora é apresentada nos ameaçadores e-mails como ex-ministra da saúde do tal país nórdico.

Na verdade, a fulana não passa de uma louca que apenas foi secretária da saúde de uma província finlandesa. Essas são mesmo as únicas credenciais positivas da criatura. Agora, se soubermos que ela se diz manter contatos com extra-terrestres – reclama já ter sido sequestrada para o espaço algumas vezes e a sua vida já foi salva em três ocasiões pelos sujeitos verdes de olhos grandes – perde toda a credibilidade. Tirando para os crentes das teorias de Ovnis. Ainda reclama que uma boa parte da humanidade tem implantes cranianos para controlo da mente, implantados à nascença. Sinceramente, prefiro a teoria do filme "Matrix".

Não se assustem meus amigos, duas doses ou três diárias de um qualquer anti-inflamatório (iboprufeno ou paracetamol, por exemplo) durante alguns dias são suficientes para aliviar os sintomas. Fiquem em casa durante uma semana. Evitem espaços com muita gente (não só pela gripe, mas também pelos carteiristas, os mendigos e os mercadores de "promoções imbatíveis").

Enquanto isso, ponham a leitura em dia. Bebam muita água e descansem. Depois voltem à rotina e não se ralem, que até o Inverno acabar ainda muito pingo vai cair dos vossos narizes. E para o ano há mais.




Domingo, 22 de Novembro de 2009
Memória dos avós

Recentemente lembrei-me dos meus avós maternos. Por acaso – se realmente existir algo na vida como "um acaso". (Os tempos de viagem de casa para a yeshiva são férteis em pensamentos. Entre alguma atenção às 400 músicas que guardo no leitor de mp3 e umas olhadelas à paisagem tantas vezes passada e repassada, cogitações várias passam pela minha cabeça.)

Alguns anos após a morte dos meus avós maternos – primeiro o avô e poucos meses depois a avó – recordo a sua vida simples e melancólica. Eram um oásis da vida "à moda antiga" numa sociedade moderna e em rápida mudança. Uma amostra de um Portugal desaparecido ou em vias de extinção. Era uma vida marcada pelas estações do ano, dominada pelo cuidado da pequena fazenda, tratada apenas à força de braços. O avô não tinha tractor.


Os avós de alguém.
Casal de judeus camponeses pobres, região de Dubromil, hoje Ucrânia.
Feita por um fotógrafo ambulante, anos 1920.

A vinha – que ocupava metade da fazenda – era o local de reunião das filhas e netos uma vez por ano. A época das vindimas era a altura mais animada na casa dos avós. De balde e tesoura da poda na mão, todos se debruçavam junto às cepas, procurando pelos belos cachos de uvas. Tudo era levado para a velha adega, ao lado da casa. O avô fazia o próprio vinho. A avó aproveitava alguns cachos que secava no sótão da cozinha, para fazer passas.

Nos cantos da vinha havia algumas árvores de fruto que produziam pouco: macieiras, pessegueiros, uma pereira, um pero-sousa. A ameixieira ao lado da coelheira era a única que se carregava de fruta. Na parte de baixo da fazenda, separada da casa e da vinha pela estrada alcatroada, ficava a horta, irrigada com a água do poço cavado pelo próprio avô ou tirada do pequeno ribeiro que limitava o fundo da fazenda e que por vezes secava no auge do Verão. Ao lado do poço, a gigante figueira era o tesouro de toda a herdade. Os deliciosos figos pingo-de-mel eram muito cobiçados. Sem uma escada para alcançar o topo da árvore, os pardais ficavam com a maior parte.

No quintal ao lado da cozinha viviam algumas galinhas. Em volta, as coelheiras, dois quintais dos porcos e o curral das cabras onde quase todos os anos nascia mais um ou dois cabritos. Uma pequena gaiola abrigava uma pacífica família de rolas – pelas quais dei a alcunha da avó: "a avó cu-cu-ru". Era com desenvoltura que a avó matava uma galinha de vez em quando. Alimentadas a milho e couves da horta, as galinhas da avó acabavam numa canja sem igual. Com os anos, a prática "degoladora" da avó foi-se perdendo. Um dos sinais da decadência foi um galo jazendo degolado na bacia que, ao levar com a água a ferver para ser depenado, despertou e correu pelo quintal até chocar com a parede mais próxima.

Os rituais da vida no campo repetiam-se ao sabor das estações. Durante alguns anos, todos os anos, realizava-se a matança do porco. Nunca assisti a esse espetáculo macabro, mas lembro-me de ver depois o animal já estripado, pendurado num gancho no tecto da adega. A carne era guardada numa arca cheia de sal, lembrança das eras anteriores à invenção do congelador. Com uma parte do sangue, alguma carne e gordura, arroz e algumas especiarias, a avó fazia um panelão de morcelas, que eram depois defumadas na larga chaminé da lareira da cozinha.

Uma vez por semana, nas tardes de Sábado, a avó ocupava-se do ritual de fazer o pão. Enchia o tradicional forno da cozinha com ramos da videira aproveitados depois da poda da vinha. Batia à mão vários quilos de farinha na velha e brilhante bacia de barro, a "amassadeira". Apesar do enorme esforço, a avó era desconfiada da batedeira elétrica. Tinha razão, o pão dela não era cheio de buracos como o pão industrial. Uma pequena porção de massa era guardada para a fornada da semana seguinte. Numa taça, coberto com azeite e sal, o "crescente" era o fermento natural que dava o sabor especial ao pão da avó.

Ao Domingo, a caminho da missa, a avó passava por nossa casa, situada ao lado da igreja para deixar um pão cozido na véspera. Transportado no grande cesto de pano azul, onde a avó levava as compras da mercearia e às vezes trazia surpresas para mostrar aos netos. Como o pequeno ouriço-cacheiro encontrado na horta e que, depois de mostrado, foi levado de volta para a sua toca.

Não havia televisão em casa dos avós. Excepto uma semana, quando a avó partiu uma perna e a minha mãe decidiu levar um pequeno televisor a preto-e-branco que tínhamos em casa para lhe animar os dias em que tinha de estar imóvel na cama. Durante aquela semana, a avó deliciou-se com as tramas e paixões das novelas brasileiras – era a época do Roque Santeiro –, até o avô reclamar pelo barulho constante em casa. O rádio era o único contacto com as comunicações. Durante a semana ao final da tarde, com uma fidelidade absoluta, a avó sentava-se a escutar a reza do terço. Enquanto descascava uma tigela cheia de ervilhas ou favas para o jantar, ou costurava as meias do avô. O avô era menos dado a rezas e sempre criticava o padre da aldeia e o seu carro novo.

As suas companhias eram os gatos, ariscos para os de fora e todos com nomes estranhos escolhidos pelo sentido de humor peculiar do avô: as gatas Espilrina e Lina e o gato Zé foram alguns dos últimos bichanos a partilhar o seu colo e a lareira. Era tal a dedicação aos animais, à casa e à fazenda, que os avós eram incapazes de abandonar por mais de um dia a vida no campo. O avô era ainda mais "agarrado" à rotina do quotidiano que a avó. Por isso, quando os dois filhos emigrados no Canadá lhes ofereceram uma viagem ao seu país adotivo para conhecerem os netos, o avô decidiu ficar a cuidar dos animais e da horta. Pelo contrário, sem problemas de consciência, a avó largou a casinha e a vidinha sossegada e aproveitou a viagem – a única vez que saiu de Portugal.

Quase não tenho fotos dos meus avós. Talvez por isso, a minha foto de infância favorita seja aquela em que estou, com menos de três anos, ao colo do avô, tirada numa tarde de Verão durante um piquenique que fizemos na Praia das Paredes, perto da Batalha. A preciosa foto era também uma das favoritas da minha mãe. Levava-a sempre na carteira. Até ao dia em que foi assaltada, à saída da missa, em Fátima. Passados alguns meses, os despojos da carteira foram encontrados na beira de uma auto-estrada, largados pelos ladrões. Porém, a ação dos elementos não poupou a foto. Até que, anos mais tarde, em conversa com uma tia sobre o piquenique em que fora tirada, há mais de 20 anos, lembrou-se que ela própria tinha uma cópia. Hoje tenho uma reprodução grande da foto ao colo do avô, que há meses ando a prometer a mim mesmo pendurar no quarto da minha filha, assim que lhe arranjar uma moldura decente.

Da última vez que estive em Portugal visitei o seu túmulo, no cemitério da aldeia onde viviam e onde a minha mãe ainda vive. Comovi-me ao olhar as fotos que quase já esquecera, anos depois do seu desaparecimento, na pequena laje da cabeceira da sepultura. O avô morreu há oito anos, nesta semana. Talvez seja este o "acaso" que me fez, subitamente, lembrar-me dele. Talvez este seja uma espécie de kaddish.*

É curioso que hoje, graças às inúmeras experiências na vida campestre que partilhei com eles, entendo tantas expressões agrícolas descritas pelo Talmude. Ao contrário dos meus colegas de yeshiva, meninos da cidade, que não fazem ideia do que seja mondar, empar ou joeirar. A memória e as histórias dos avós passarão de geração em geração, como as fotos supostamente perdidas que são reencontradas.

* Kaddish é a oração judaica pelos falecidos, a qual curiosamente, não fala de morte.




Domingo, 15 de Novembro de 2009
Degraus de uma longa escada

Por via do blog e de um dos assuntos que trata: a conversão ao Judaísmo, muita gente me contacta pedindo informações sobre esse tema. Aqui fica uma lista dos passos do processo, com a explicação de cada um deles. Não é uma receita, nem um kit de montagem, mas talvez dê algumas dicas a quem procura assistência neste caminho às vezes tão complicado.


Jimmy e Pamela Harris são parte de um novo fenómeno americano:
negros convertidos ao Judaísmo.

0 – Porquê?
É o passo "0", porque antes de partir para o primeiro degrau, há que ter a mínima consciência do que implica uma conversão ao Judaísmo. As razões que levam cada pessoa a enveredar por este caminho variam e são pessoais. Do gosto pelo humor judaico (Porque não? É interessante poder contar piadas em nome próprio, por exemplo), reunião com as raízes familiares, busca espiritual, etc.

Na maior parte dos casos, são pouco mais que irrelevantes para o sucesso da empreitada. Como ouvi uma vez o meu rabino dizer: "Não me interessam as razões das pessoas. Só me interessa que sejam honestas". É apenas o ponto de partida.

1 – Contactar um rabino.
Obviamente, recomendo um rabino ortodoxo. As conversões das linhas reformista e conservadora não são reconhecidas pela linha ortodoxa. Apesar de as conversões não-ortodoxas darem o direito a emigrar para Israel, levantam problemas para quem desejar casar em Israel, pois apenas a linha ortodoxa é reconhecida para efeitos de casamento. Os rabinos ultra-ortodoxos (como os da linha Chabad) normalmente são mais hostis ao assunto da conversão, mas nem sempre.

O Judaísmo ortodoxo moderno é mais tolerante neste campo. As comunidades judaicas sírias (Nova Iorque e México, por exemplo) são completamente avessas ao assunto das conversões, considerando inválidas as conversões realizadas para efeito de casamento, por exemplo.

2 – Estudo de Judaísmo.
Depois de conseguir contactar com um rabino que aceite tratar do assunto da conversão, o candidato deve passar a estudar com ele. A maioria – se não todas – as comunidades têm classes de conversão. Normalmente, os rabinos não cobram qualquer quantia pelas aulas de conversão. Ensinar faz parte das funções normais do rabino. Podem ser cobradas despesas com fotocópias ou livros de estudo mas mais do que isso será, a meu ver, abusivo.

Além do estudo em classes, é importante estudar sozinho. Hoje há muita literatura sobre o assunto, seja em inglês como em português. A Internet também é uma ferramenta preciosa, mas a ser usada com cuidado. Nem todas as fontes são confiáveis.

3 – Contacto com a comunidade judaica.
Durante o período de estudo, que pode estender-se de alguns meses a vários anos, é muito importante ir mantendo um contacto com a comunidade, a par da frequência das aulas de conversão. Conhecer o ciclo anual judaico, como o Shabbat e as festas (Pessach, Shavuot, Rosh Hashaná, Yom Kippur, Succot, Chanuka, Purim) só se consegue com um contacto com a comunidade. Além de ser uma experiência preciosa, atesta o interesse do candidato no Judaísmo. Também ajuda a ter uma melhor relação com o rabino.

4 – Recomendação a um Bet Din (Tribunal Rabínico).
Dependendo do progresso do candidato na prática do estudo e da sua prática das tradições judaicas, o rabino fará uma recomendação a um Tribunal Rabínico. A maior parte dos países não têm Bet Din. Isso implica contactar com um Tribunal Rabínico noutro país. A melhor opção será Israel.

A falta de Bet Din pode implicar que a pessoa, pura e simplesmente, não possa terminar o processo no seu próprio país sem integrar um ulpan (curso) de conversão em Israel. É o que se passa na maioria dos casos de Portugal. Normalmente, o Tribunal Rabínico não facilita os processos de pessoas vindas de comunidades com poucas estruturas judaicas (como o caso de Portugal). Pode acontecer o Bet Din impor como condição a permanência em Israel (foi o meu caso).

5 – Reunião no Bet Din.
É um procedimento relativamente simples, apesar de ser o mais ansiado. Afinal, esta é a “grande prova”. Com as devidas diferenças, quem já passou um exame oral na escola pode ter ideia do tipo de acontecimento que é uma reunião de um Tribunal Rabínico. Três juízes rabínicos fazem várias perguntas ao candidato. Primeiro de apresentação, para saber a origem, como chegou ao Judaísmo, quanto tempo estudou, qual a prática que o candidato tem, etc.

Normalmente, o candidato vai acompanhado de alguém, seja o seu próprio rabino ou um professor do ulpan de conversão, ou alguém que conhece bem o candidato. São pedidas cartas de recomendação, do rabino que acompanhou o processo, da família adoptiva, de professores de yeshiva ou do ulpan, etc. São feitas várias perguntas sobre o Judaísmo: bênçãos sobre mitzvot (mandamentos judaicos) e alimentos, aspectos e leis das festas judaicas, etc.

É comum perguntarem sobre as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo, para atestar a segurança das crenças do candidato à conversão, já que na maioria provêm de um ambiente cristão.

6 – Aprovação pelo Bet Din.
No final da reunião, que normalmente não dura mais de uma hora, no caso de o candidato ser aprovado como novo membro do Povo de Israel, o converso tem de enunciar a oração de Shemá Israel. É a profissão de fé judaica, na qual declara a fé no Deus Único e a aceitação da Torá e das mitzvot.

Nesta altura, o converso é obrigado ao cumprimento de todas as mitzvot. Apenas está excluído temporariamente de contar para um minyan – o número mínimo de 10 homens necessário para as cerimónias públicas judaicas.

7 – Brit Milá ou Circuncisão (só para homens).
Esta que é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo é uma das fases cruciais do processo. Quem estuda o fenómeno da conversão ao Judaísmo explica que a enorme predominância de mulheres em relação aos homens como candidatos à conversão, se deve à obrigação da circuncisão. Nem todos os homens estão dispostos a passar por esta operação.

No caso dos adultos, a operação é realizada num hospital, mas sempre por um mohel, um homem formado especialmente na realização da circuncisão de acordo com a lei judaica. Se o candidato já é circuncidado, é feita uma revisão por um rabino, para saber se está de acordo com a Halachá. Pode ter se ser realizada uma nova operação de correção, mas na maioria dos casos é apenas realizada uma pequena cerimónia em que é retirada uma gota de sangue, simbolizando que a circuncisão foi feita de acordo com a lei judaica.

8 – Tevilá ou Banho ritual
A Tevilá ou banho ritual consiste na imersão num mikve, que é um tanque de águas especial, construído de acordo com regras específicas e que se destina à purificação ritual. Para que a imersão seja completa, não pode existir qualquer barreira entre o corpo da pessoa e a água, por isso é a pessoa entra completamente nua na água.

A imersão é verificada por três rabinos (que são como um novo Bet Din). Estes, porém, não vêm a pessoa nua, já que apenas entram na sala de imersão quando a pessoa já está dentro da água. No caso das mulheres que passam pela tevilá, é uma mulher quem verifica que a imersão foi integral e apta. Neste caso os três juízes encontram-se num local onde não vêm a mulher dentro da água. Tudo é feito com discrição. No caso de o candidato tiver de passar pela circuncisão, a ferida da operação terá de curar completamente antes de poder ir ao mikve, o que pode demorar cerca de um mês.

A partir da imersão, a pessoa pertence oficialmente ao Povo Judeu, em todos os assuntos. As únicas limitações são a proibição de uma mulher convertida se casar com um cohen, um membro da antiga tribo sacerdotal judaica.

Todas estas fases, cada uma com as suas complicações, apenas pretendem garantir que a pessoa está realmente comprometida com o Judaísmo. Afinal, o Judaísmo não é uma religião missionária. Não procura converter os demais, nem impor-lhes a Torá, nem considera os não-judeus como "infiéis contra os quais há que travar uma guerra santa" ou "condenados ao fogo do Inferno".

Quaisquer que sejam as motivações para a conversão, é essencial que todos os que entram no Povo de Israel o fazem com fé clara e consciência da responsabilidade de cumprimento da Torá.



publicado por Boaz às 00:15
link do artigo | Opine | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
O Grande Canal

Diz-se em Portugal: “Não há fome que não dê em fartura”. Em Israel, a braços com uma grave situação de seca há vários anos, teve nos últimos dias fortes chuvas. Algumas cidades ficaram alagadas na região central, próxima de Tel Aviv. Apesar de abundantes – ou melhor, demasiadas para tão curto espaço de tempo – estas chuvadas pouco ajudam na situação de carência de água no país.

O país tem poucas fontes de água doce. A maior é o Lago Kineret, ou Mar da Galileia, abastecido pelo rio Jordão, que nasce no Líbano. As outras são os dois aquíferos principais: o Ocidental, na planície costeira, e o das montanhas, na região de Jerusalém. Porém, todas estas fontes dependem da chuva, e essa tem sido escassa na última década.


Nahal Keziv, um pequeno ribeiro da Galileia, Março de 2007.

Há anos que se idealizam planos para resolver a questão da falta de água. No início do século XXI, a solução estava na construção de várias centrais de dessalinização da água do mar. Duas centrais foram construídas, mas a sua capacidade é insuficiente para compensar a crescente procura de água e a decrescente oferta das fontes existentes, já de si escassas. Planos saíram das gavetas dos ministérios e os estudos fizeram-se. No ano 2000, o Inverno foi generoso e voltou-se a arquivar o plano de dessalinização em larga escala. A seca regressou nos anos seguintes e de novo se voltou a falar nas centrais. Mais alguns estudos, mais alguns orçamentos, mas obras… nada. Em 2004, a chuva foi de novo abundante e o plano multimilionário foi novamente abandonado. Um tira e põe na gaveta ao sabor dos Invernos secos ou chuvosos. E o problema continuou.

Nas últimas semanas, o governo de Israel reabilitou uma ideia já antes apresentada para resolver a míngua do precioso líquido: importar água da Turquia. É um plano arriscado além de pouco eficiente. Em termos económicos é uma solução dispendiosa, implicando a construção de navios próprios para o transporte de água e das infra-estruturas para armazenar a água importada. Além de representar a dependência de um recurso estratégico como a água numa fonte estrangeira. E para piorar a questão, a relação com a Turquia, o principal aliado de Israel no Médio Oriente, já viu dias melhores.

Desde que os islamistas moderados assumiram o governo turco, a relação com Israel deteriorou-se. Após a “Operação Chumbo Fundido” em Gaza, em Janeiro último, algumas declarações do Primeiro-Ministro turco contra Israel foram consideradas ofensivas pelas autoridades e pelos cidadãos israelitas. Como reação, os turistas israelitas – uns dos principais clientes do turismo turco – escolheram outros destinos para as férias. Exatamente na mesma semana em que foi reabilitada a ideia da importação de água da Turquia, a polémica voltou a abalar as relações entre os dois países. Um canal de TV turco transmitiu uma série que retratava os soldados de Israel como assassinos de crianças árabes. De novo, os turistas israelitas se vingaram da Turquia e desmarcaram as férias nos resorts da Anatólia.

A questão da falta de água é uma questão de tal modo grave que se propõem as soluções mais ousadas. A mais impressionante de todas é a construção de um canal entre o Mediterrâneo e o Lago Kinneret. A água produzida por algumas centrais dessalinizadoras na costa mediterrânica seria canalizada para o Lago Kinneret. Isso significaria voltar a encher o lago, cujo nível de água foi reduzido a um nível alarmante. O excesso de água do Kinneret seria deixado fluir para o Rio Jordão, que sai do lago em direção ao sul, até ao Mar Morto. A abundância de água no Kinneret e no Jordão permitiria voltar a abastecer o Mar Morto que há décadas vê o seu nível decrescer, mais de um metro por ano.

Porém, para concretizar este plano megalómano – mas talvez o único que resolva a situação e que não implique a dependência nas fontes dos vizinhos de Israel – é preciso mais do que muitos milhões de dólares. Para começar, mais do que o livro de cheques em mão, é preciso muita vontade política. Nos grandes projetos nacionais realizados ou idealizados nas últimas décadas, o avança e recua têm sido a regra, não interessa que lado do espectro político manda nos destinos da nação: os sistemas de Metro Ligeiro de Tel Aviv e Jerusalém, o comboio rápido para Jerusalém e claro, as centrais de dessalinização de água.

De acordo com a tradição judaica, Deus criou a Terra de Israel sem fontes de água para que o Povo Judeu rezasse pedindo pela chuva. Para que soubesse que, independentemente do engenho humano e das decisões dos governos de carne e o osso, é o Governo Lá de Cima quem determina quanta água chega às torneiras israelitas.




Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
A moeda tem dois lados

Duas notícias do dia no Público:

Portugal assume 40 por cento do orçamento da candidatura (conjunta com Espanha ao Mundial de Futebol de 2018 ou 2022).

Jovens à procura do primeiro emprego e trabalhadores precários são os mais vulneráveis à pobreza

Alguém consegue ver uma relação de causa-efeito entre as duas notícias? Ao longe, parece-me mais uma manifestação da eterna e tão portuguesa mania das grandezas a funcionar. E os respetivos resultados. O zé-povinho nem se dá conta do engodo, desde que a bola continue a rolar. Ou talvez esteja tudo bem e seja eu que, ao fim de quatro anos, já não conheça o país.


tags:

publicado por Boaz às 23:10
link do artigo | Opine | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
A geração dos 'Pardais'

Nesta última semana de intervalo nos estudos da yeshiva tive uma pequena mas interessante proposta de trabalho: ser guia de um grupo de jovens sul-americanos em visita a Gush Etzion, o bloco de colonatos a sul de Jerusalém e onde vivo há quase ano e meio. Fui substituir um brasileiro residente – tal como eu – em Alon Shevut e mais acostumado a estas andanças de guia turístico.

Nas vésperas, avisaram-me por e-mail que deveria falar da região de Gush Etzion, a sua situação política e estratégica, o modo de vida dos colonos, as diferenças entre os vários colonatos do "Bloco" e um pouco da história da região. Uma pesquisa noturna à pressa pela Internet, com as páginas da Wikipédia a encabeçarem as opções na busca de informação, deu-me alguns dados para completar aquilo que já sabia de cabeça. O episódio da "caravana dos 35" – que, nem por coincidência deu nome à minha rua, foi um dos pontos que mais destacaram que eu deveria falar.

Encontrei-me com o grupo às 11:45 junto ao alon ha'boded, o carvalho solitário que é o símbolo da zona. Tinham-me avisado que os jovens do grupo não eram religiosos. Bem, "não religiosos" seria uma definição algo branda para aquele bando. Membros da organização judaica de inspiração socialista, HaBonim Dror, os jovens eram na verdade mais do género "anti-religioso". De qualquer forma, sempre se mostraram respeitosos pela minha presença. A kippá grande, as longas peyot e os tzitzit à mostra não os assustaram. Eu também não me senti intimidado pelos grandes decotes e calções de verão das meninas e pelos penteados estranhos e os piercings dos rapazes. (Eu também já fui da "malta moderna". E até já usei um piercing! Vidas passadas.)

Depois da breve visita à histórica árvore, fomos para o kibbutz vizinho de Kfar Etzion, o mais antigo colonato da região, palco de um massacre exatamente no dia anterior à declaração de Independência de Israel. Era já hora de almoço e sentámo-nos à sombra de umas árvores num parque. Aí, tive a oportunidade de conversar com alguns dos outros guias, do Brasil e da Argentina.

Depois, dividimo-nos e metade do grupo foi visitar a yeshivá de Alon Shevut. Uma explicação – talvez demasiado longa – sobre alguns achados arqueológicos no jardim da yeshivá. Subimos até à ala das mulheres, com uma vista soberba do Beit Midrah, o lugar de estudos principal da yeshivá. Imagine-se aquela gente que nunca tinha entrado numa yeshivá – possivelmente muitos nem sequer entraram alguma vez numa sinagoga. Só nessa altura, os outros guias se lembraram que não tinham avisado as meninas para se vestirem de forma "composta", um pouco mais tapadas. Explicámos como é a vida na yeshivá e o modo de vida dos estudantes. Cinco minutos de explicação e voltámos aos autocarros.

Há que voltar daqui a pouco até "à base", onde metade do grupo tem outras atividades e nos espera para também fazerem este giro. Ainda temos alguns minutos para passar por Efrat, o maior colonato de Gush Etzion. Assim que chegámos à primeira rotunda de Efrat, o autocarro deu meia volta e voltou para trás. Não há mais tempo. Este meio-grupo não viu nada do local. Temos de mudar a estratégia para a próxima vez. Troquei de autocarro e tomei o microfone. Há que aproveitar os breves minutos da viagem entre os vários colonatos para ir falando.

Apesar de se identificarem como judeus – ainda que pelo talvez metade não o sejam de acordo com a lei judaica, filhos de pai judeu, mas não de mãe judia ou apenas netos de algum judeu – e imaginando que estão habituados a uma imagem de Israel muito desfocada pelos meios de comunicação social e pela ideologia de extrema-esquerda do Dror – a imagem do colono judeu fanático, sedento de sangue árabe, que come criancinhas palestinianas ao pequeno-almoço – tentei passar-lhes a ideia de que essa é uma ideia errada e que nem sequer todos os colonos são iguais. Que, tal como no resto do povo judeu no mundo inteiro, há judeus de todos os tipos e até seculares que habitam esta região.

Depois de 10 minutos de palestra, apercebi-me que o autocarro ainda não tinha saído do lugar. Ah, eu não tinha dado a ordem de largada! Bem, não me imaginava o líder da comitiva, mas apenas o que provê alguma informação. Fomos para Alon Shevut com quase 15 minutos de atraso. À chegada ao parque de estacionamento da yeshivá, uma vista sobre o enorme colonato de Beitar Illit, uma cidade habitada exclusivamente por judeus ultra-ortodoxos. Ao subirmos as escadas para a yeshiva, avisto o Rabino Aharon Lichstenstein, o director da yeshiva. "Aquele velhinho ali à frente é, apenas, um dos rabinos mais famosos do mundo", informo. Noto olhares impressionados entre os jovens. Não devem ter visto muitas vezes um rabino, ao vivo.

No andar de cima do Beit Midrash deixo-os fazer perguntas. "Porque está um aluno a dormir?" Explico como é cansativo estudar Torá o dia inteiro. "Aqui não estudam mulheres?" Falo da midrashá do kibbutz vizinho de Migdal Oz, com uma versão feminina da yeshivá de Alon Shevut, onde as mulheres estudam a Torá e outras fontes judaicas a fundo, a um nível raro a nível mundial e num ambiente judaico ortodoxo. Aproveito para explicar a evolução da perspetiva judaica em relação às mulheres e os avanços da Halachá (Lei Judaica) com a ajuda da ciência. Aponto o jovem no Beit Midrash que usa um computador e os dois jovens que estudam juntos por um volume da Guemará. As duas faces do estudo da Torá.

Ainda há tempo de ir a Efrat. Ali, temos 10 minutos até ao regresso. Uma visita ao belo miradouro ladeado de buganvílias e pinheiros. Observam o vale onde passa a estrada para Jerusalém e Elazar, o pequeno colonato do outro lado do vale. Mostro-lhes a tranquilidade da vida em Efrat. "E os Territórios Palestinianos, onde são?" Explico que, de acordo com a comunidade internacional, ali já são os "Territórios".

Antes de regressarmos, peço perguntas, mesmo as difíceis. Um rapaz pergunta: "Recebes alguma ajuda do governo para viver aqui?". E uma menina observa: "Isto é tudo muito lindo e tranquilo mas, e do outro lado da cerca, como vivem os Palestinianos?" A guia não me deixa responder ali. Temos de voltar para o autocarro. As respostas têm de ficar para a curta viagem de regresso. Explico que não tenho qualquer ajuda especial para viver ali. É certo que as casas são mais baratas naquela região do que numa qualquer cidade do país, mas apenas por uma questão das leis de mercado. E com a falta de casas os preços têm subido bastante. Ajudas? Eu pago 200 shekels – cerca de 40 euros – por mês, apenas para a empresa de segurança privada do colonato onde vivo.

A cerca... Achei bem explicar a "grande cerca", o Muro. É ruim, é feio, é injusto, mas é necessário. O facto de podermos viajar hoje de autocarro em Israel sem grandes receios, devemo-lo ao malfadado muro. Comparo com outro muro, igualmente caro e feio, mas bem menos polémico, e que ninguém condena: o muro construído com dinheiro da União Europeia em redor de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos, para impedir a onda de imigrantes africanos de chegar à Europa. Se as intenções dos Palestinianos em relação a Israel fossem as daqueles imigrantes que apenas querem trabalhar, será que precisávamos do "nosso" muro?

Sei que não vai ser com alguns minutos de conversa que eles serão conquistados para apoiarem Israel. Pelo menos, espero que entendam um pouco melhor a posição das pessoas que vivem aqui. E que os tenha ajudado a destruir alguns estereótipos.

Nota: "Pardal" é a outra tradução possível de Dror, o nome pelo qual é conhecido do movimento a que pertenciam os jovens, HaBonim Dror, os "Construtores da Liberdade".



publicado por Boaz às 23:11
link do artigo | Opine | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Nobel freudiano

Freud ficou famoso pelas suas teorias sobre a interpretação de sonhos. Suspeita-se que o Comité Nobel tenha lido a literatura freudiana nessa matéria de cabo a rabo e assim premiou o maior fabricante mundial de sonhos. Já foram Brad Pitt e Tom Cruise, mas hoje Barack Obama é o homem de quem se fala, com quem toda a gente sonha.

Jovem, bem vestido, bem falante, sorriso Colgate de estrela de cinema. Ele próprio cheio de sonhos e o mundo anda encantado por todos eles. É um prémio às boas intenções do príncipe encantado - ahhhh! (suspiro), mas vazio de substância. É que provas dadas das suas numerosas intenções ainda não há nenhumas.

Como disse Saramago - e eu não me consigo desculpar a mim próprio por citar tal personagem, outro sonhador desbocado: "É possível que comece a dizer-se que o Prémio Nobel da Paz [a Obama] foi prematuro, mas não o é se o tomarmos como um investimento".

PS – Se a escolha do Comité Nobel tivesse recaído sobre a Miss Universo, ninguém notaria a menor diferença. Afinal, tal como as misses – que também fazem sonhar meio-mundo – o presidente americano é uma bela combinação de sorriso fotogénico, acenos estudados à multidão de fãs e algumas palavras vagas sobre a paz mundial. Torço para que no próximo ano, o Nobel seja entregue a alguma fulana venezuelana em bikini.


tags: ,


Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
Terra de (maravilhosos) contrastes

Atenção a estes dois factos do dia aqui neste cantinho do planeta:

Em Israel, uma mulher cientista, Ada Yohath, ganhou o Prémio Nobel da Química de 2009. (Foi a primeira mulher a ganhar o Nobel da Química em mais de 40 anos.)

Enquanto isso em Gaza, o Hamas baniu as mulheres de andarem de mota, a fim de conservar as "tradições árabes".

O cientista político Samuel Phillips Huntington chamou-lhe uma vez "choque de civilizações". As feministas dos anos 60 chamavam-lhe "queimar sutiãs". No caso de Gaza, as donas dos sutiãs são queimadas com os respetivos.



publicado por Boaz às 23:50
link do artigo | Opine | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Enquanto há vídeo, há esperança
Enquanto há vídeo, há esperança

Na última sexta-feira, foi divulgado um vídeo do soldado israelita Gilad Shalit, raptado em Gaza há mais de 3 anos. Durante todo este tempo de cativeiro, esta foi a primeira vez que o Hamas – os raptores – deixou passar um claro sinal de vida de Gilad para Israel.


O vídeo recente de Gilad Shalit. E as várias faces da campanha a favor da sua libertação.

Foi um breve vídeo de dois minutos de duração, que mostra Shalit dirigindo-se aos seus pais Noam e Aviva e ao Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu. Disse que tem sido bem tratado pelo Hamas e está de boa saúde, mas que anseia pelo dia em que verá de novo a sua família.

Todavia, o vídeo não chega de forma gratuita. Vinte prisioneiras palestinianas condenadas por ações terroristas foram libertadas em troca de 2 minutos de prova de vida de Gilad Shalit. Esta tem sido uma estratégia dos sucessivos governos de Israel: libertar um grande número de condenados por terrorismo em troca de sinais de vida dos seus sequestrados ou, mais estranho ainda, em troca de cadáveres de soldados caídos em território inimigo.

Foi o que aconteceu o ano passado, com a libertação de quatro membros do Hezbollah e do famoso assassino Samir Kuntar em troca dos cadáveres dos soldados Ehud Goldwasser e Eldad Regev, cuja captura pelo Hezbollah desencadeou a Segunda Guerra do Líbano em 2006. Até poucas semanas antes da troca, o governo de Israel nem sequer sabia se os soldados ainda estavam vivos.

No passado, outros prisioneiros libertados de prisões israelitas regressaram a atividades terroristas. De acordo com algumas fontes, as ações de ex-prisioneiros libertados causaram a morte a mais de 100 israelitas. Ou seja, não é um bom prenúncio. O saldo não joga a favor de Israel nesta forma de negociação com o inimigo.

Ainda assim, a divulgação do vídeo de Gilad Shalit é uma ótima notícia. Os pais do soldado e milhares de apoiantes da causa da libertação de Gilad em todo o Mundo tentam manter a opinião pública alerta sobre o cativeiro forçado do jovem soldado. Em Jerusalém, em frente à residência do Primeiro-Ministro, há muitos meses que uma tenda de protesto é mantida em permanência. Muitas vezes passo em frente ao local e vejo que sempre alguém se mantém de vigília, às vezes uma pessoa apenas. Uma placa dentro da tenda indica a passagem dos dias em cativeiro. Já são mais de mil e duzentos.

Também em Alon Shevut, o colonato onde moro, na praça do bairro antigo, entre a mercearia e o centro médico, um pequeno cartaz mostra o número de dias da clausura de Gilad Shalit. Diariamente, alguém muda o fatídico número. Para que ninguém esqueça.




Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
Pegar o touro pelos cornos

Com frequência, falo com amigos em Israel sobre os erros da política externa de Israel. Em regra, a atitude tem sido a de lamentar a incompreensão da ONU e do resto do Mundo, e ainda mais a oposição sistemática face às acções militares de Israel, em especial a última operação em Gaza. Isto, sem nunca confrontar as acusações com a perspectiva israelita sobre os factos. E sem apontar a dualidade de critérios na permanente condenação de Israel e o injusto silêncio dos diplomatas face à situação em outros pontos do globo. Ou o silêncio quando as vítimas são israelitas.

A ONU realizou na semana passada a sua Assembleia-Geral. Dezenas de chefes de Estado e de governo discursaram no palanque da ONU. O presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad fez um discurso pejado de ataques a Israel. Dias antes, ainda em Teerão declarou-se orgulhoso de negar o Holocausto, como tem feito desde que foi eleito presidente pela primeira vez. No dia seguinte ao vergonhoso discurso de Ahmadinejad, foi a vez do Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu discursar. E que discurso!

No seu brilhante discurso, Benjamin Netanyahu fez exactamente isso. Como mencionou o PM israelita, a ONU foi fundada após a II Guerra Mundial precisamente para prevenir a ocorrência de tais eventos. "Nada minou mais essa missão, nada a impediu mais, que o assalto sistemático à verdade. Ontem o presidente do Irão esteve neste pódio vomitando o seu mais recente discurso anti-semita. Há uns dias, ele reivindicou que o Holocausto é uma mentira.", disse.

Apontou o dedo a Ahmadinejad, por repetir as habituais diatribes anti-semitas, ainda mais no palco da ONU. Elogiou os países que não compareceram na sala para escutar o ditador iraniano e os que abandonaram a sala quando ele começou a exibir o seu ódio. Foram apenas 12 países. Só doze. (A ONU tem quase 200 estados membros.)

"Não têm vergonha? Não têm decência?", Netanyahu interpelou os representantes dos países que testemunharam o discurso do presidente do Irão. Mostrando uma cópia da acta da Conferência de Wannsee, ocorrida em 20 de Janeiro de 1942, e a planta original da construção do campo de concentração de Auschwitz, perguntou "Isto são mentiras?". Mencionou os números tatuados nos braços dos sobreviventes: "São também mentira?".

A presença dos diplomatas e o seu silêncio durante o discurso de Ahmadinejad legitimaram as eleições fraudulentas que o reelegeram, deram a razão ao violento regime que matou dezenas de manifestantes que apelavam à democracia e à transparência após as eleições.

Netanyahu e Israel não são, nem podem pretender ser, embaixadores dos que anseiam pela democracia nos países muçulmanos. Não são uma voz aceite para falar em seu nome. Dos opositores encarcerados nas prisões dos Irão, do Egipto ou da Síria. Das mulheres brutalizadas, excisadas e segregadas como cidadãos de segunda classe ou, pior que isso, como animais. Das minorias religiosas perseguidas, como os xiitas e os cristãos na Arábia Saudita, os cristãos em Gaza ou os bahá'ís no Irão.

Porém, todas estas vítimas olham para as democracias ocidentais com esperança. Que os diplomatas e políticos das nações livres se indignem quando os inocentes são atacados, que defendam as suas causas na arena internacional. O "silêncio dos bons" perante um ditador descarado ladrão de eleições, assassino e mentiroso é uma desgraça no panorama da democracia mundial.

Durante mais de 20 anos, Portugal foi a única voz que falou em nome do povo de Timor-Leste, que defendeu os seus interesses e direitos na ONU. Contra todas as diplomacias do Mundo – incluindo a poderosa América – interessadas nas riquezas petrolíferas da Indonésia e na sua influência no mundo árabe.

Uma democracia reconhecida, com um assinalável registo de direitos humanos a nível internacional, Portugal não foi um dos países que se recusaram a dar o aval à ditadura iraniana e à sua doutrina. Dos 27 estados da União Europeia, apenas seis viraram as costas a Ahmadinejad. Da América, além dos EUA e Canadá, apenas a pequena Costa Rica teve a ousadia de ser corajosa.

O Brasil teve uma das mais desprezíveis demonstrações de falta de moral. O presidente brasileiro Lula da Silva, hoje considerado como um dos mais influentes líderes dos países em desenvolvimento, apertou a mão do ditador iraniano. Em Nova Iorque fez-se história. A ONU assistiu apática ao espezinhar dos valores da sua carta fundadora. Valeu Netanyahu, que teve a coragem de enfrentar o touro pelos cornos.

Apesar de não ter votado nele nas últimas eleições em Israel, senti um grande orgulho na sua frontalidade. Ainda que saiba que, de qualquer forma, não se esperará grande compreensão do resto do Mundo às suas palavras - a maior parte delas são demasiados inconvenientes. Ao menos que a estratégia diplomática israelita mude daqui em diante.

PS - Quem quiser assistir ao discurso de Netanyahu (em inglês, sem legendas), clique aqui.




Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
Segredo da confissão

Nos meus tempos de católico, um dos momentos mais difíceis da minha prática religiosa era a ida à confissão. A primeira vez que passei por esse ritual foi nas vésperas da "Primeira Comunhão", por volta dos 7 anos. Como o nome indica, era a primeira vez que iria "comungar", por isso, a lei mandava que deveria estar "livre de pecado". Lembro-me de ter ido em grupo, com todos os meus colegas de catequese. Nas semanas anteriores, uma parte das dominicais aulas de catequese foi dedicada à preparação de tal momento, em especial sobre o que dizer quando chegasse a hora de me ajoelhar ou sentar em frente do sacerdote.


Pequei... douh!

Começava com uma breve declaração de arrependimento: o "acto de contrição". Se não soubesse dizê-la de memória, o padre até ajudava. Menos mal. Seguia-se uma revelação dos pecados que vinha confessar. Era a parte mais complicada. "Não obedeci aos meus pais. Briguei com a minha irmã e não lhe emprestei os meus brinquedos..." Que grandes pecados se têm aos 7 anos. Ainda assim, era difícil ter de discorrer a lista de máculas perante um desconhecido. (E não acho que seria mais fácil se a confissão fosse feita a um conhecido). Depois de tal prova, o padre mandava rezar um certo número de "pais-nossos" e "avé-Marias". Podia rezá-los logo ali, na igreja. Assim, já liberto da obrigação do ritual, voltava para casa com algum descanso. No dia seguinte, poderia comungar pela primeira vez, sem culpa.

Este ritual repetiu-se algumas vezes, sobretudo na altura dos feriados religiosos católicos, como a Páscoa ou o Natal. No resto do ano, ainda que fosse semanalmente à missa, eram raras as vezes em que comungava. Porém, assim que fazia algo que eu achasse que devia ser confessado, deixava de comungar. Nos meus anos de católico comprometido, conhecedor da importância da comunhão, mantive a coerência de não "tomar o corpo de Cristo" sem cumprir as regras prescritas. As reticências face ao ritual da confissão faziam adiar a ida ao confessionário. Nem era por não confiar no segredo da confissão que o padre jurara, pois ainda hoje vejo-o como um "segredo profissional" como outro qualquer. O problema era o acto de confissão em si e a forma de penitência. Demasiado forçado o primeiro, demasiado automática, a segunda.

Não via como revelar os meus erros a uma pessoa que não tinha nada a ver com eles, me poderia ajudar a ultrapassá-los. A conta de "pais-nossos" e "avé Marias" também me parecia pouco convincente. Durante os meus anos de católico praticante, ouvi várias explicações do significado e da função da confissão. A mim, nenhuma delas me convenceu. Aceito que algumas – muitas – pessoas as tomem como válidas e sintam naquela forma de confissão uma forma de restabelecimento espiritual.

No Judaísmo também existe confissão. Ela é, porém, individual e privada. Não existem intermediários na oração ou na salvação. Diariamente, nas orações matinais, uma das partes do serviço é o vidui (confissão em hebraico). De pé, com solenidade, em voz baixa, cada um lê do livro de rezas uma lista de transgressões. Só Deus e cada um saberão quais delas se aplicam a si mesmo. Cada uma das transgressões é enunciada na primeira pessoa do plural. "Fomos culpados, atraiçoámos, roubámos, falámos calúnias..." Cada judeu é responsável por si mesmo e, ao mesmo tempo por todo o Povo de Israel.

No calendário hebraico, esta altura do ano é o período especial da reconciliação e da introspeção. Estamos entre Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico que se celebra em festa durante dois dias, e Yom Kippur, o grande Dia do Perdão, um dia de jejum absoluto. Cada um deve procurar emendar as suas falhas, mesmo as aparentemente insignificantes. Deus é a única testemunha da confissão particular, só Ele sabe os sentimentos de culpa – e de que culpa – que passam pelo coração daquele que se confessa. Em silêncio.




Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
No fundo de rodapé da fama


Quase famoso.

Apesar de ser licenciado em Comunicação Social, em poucas ocasiões apliquei o que estudei nos 4 anos do curso. Agora, nem tenho televisão em casa – e não o lamento. O contacto com o Mundo faz-se pela Internet. Ainda antes do sonho da carreira na Comunicação Social, tinha tido algum contacto com o mundo jornalístico na escola. Aos 13 ou 14 anos, entrei quase por acaso para o Clube de Jornalismo da Escola Secundária da Batalha. A experiência durou apenas algumas semanas, mas ainda me lembro de escrever alguns textos que seriam publicados no jornal da escola. E de fazer desenhos para ilustrar as peças.

Na mesma altura, ou poucos anos depois, o Jornal da Batalha teve a ideia de dedicar uma das suas páginas a uma das turmas da escola local. Os alunos escreveriam textos e a turma apareceria numa foto de grupo. Ainda guardo numa mala de documentos a página que foi feita pela minha turma… Ainda que seja difícil ver onde estou no meio da foto de turma, foi a primeira vez que "saí no jornal".

A segunda vez que "fui para as bancas" foi já nos anos da faculdade. Ao contrário de uma pacífica e sóbria foto nos idos anos do ensino secundário, a notícia da época universitária dizia respeito a uma "invasão". Os revolucionários alunos do ISCSP, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a minha faculdade em Lisboa, decidiram tomar de volta e à força o andar de cima do secular Palácio Burnay onde funcionava a faculdade. Havia sido "nosso" até à extinção temporária do ISCSP algumas décadas antes, mas aí funcionavam alguns dos serviços de outra instituição, o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Era a parte mais nobre do palácio e era uma vergonha que estivesse a ser usado por "eles".

Na cobertura jornalística da invasão – como é que chegaram tão rápido? Estavam avisados? –, um fotógrafo do Jornal de Notícias apanhou-me com um maço de livros arrancados de uma das prateleiras dos cientistas ocupantes. Eu nem dei por ele. Só soube quando vi a foto no diário! Em termos de processo judicial, nunca se fez nada contra a nossa "medida radical" e, passadas algumas semanas, metemos o rabinho entre as pernas e voltámos a ter apenas "o andar de baixo". E foi assim, como um anónimo criminoso fotografado em "flagrante delito" que saí numa das páginas da secção de Sociedade do JN em 2000 e picos.

No final do curso consegui – com ajuda da indispensável cunha, por supuesto – um precioso estágio. O meu padrinho falou com um amigo que tinha um outro amigo e que, sem acaso, era o responsável pelos estagiários da rádio de notícias TSF, uma das mais importantes estações de rádio de Portugal. Depois de uma entrevista para apurar capacidades, comecei a trabalhar logo no dia seguinte. Trabalhar não era bem o termo certo: o estágio era, apesar de bem-vindo, "não remunerado". Comecei por fazer o turno da manhã.

Saía bem cedo do apartamento onde morava junto ao Largo do Rato e tomava dois autocarros até chegar à redacção no Braço de Prata, quase a chegar ao Parque das Nações. O termo "não remunerado" era absoluto, e significava que eu tinha de pagar o meu transporte – a não ser as deslocações em trabalho – e nem incluía almoço. Valiam-me as bolachas e o iogurte trazidos de casa, e a máquina de café para ser usada à discrição. Depois passei para o turno da tarde.

Ao contrário do que se pensa no mundo fora do círculo jornalístico, nem todos os jornalísticas "aparecem". Nem todos são "estrelas". Antes pelo contrário, a profissão de jornalista é muito menos romântica. O meu trabalho era mais de apoio. Depois de escolher uma historia para cobrir, telefonava para aqui e acolá à cata de depoimentos de alguém com quem interessava falar por algum assunto. Por vezes fazia "trabalho de campo": saía da redacção para algum lugar em Lisboa para assistir a impossivelmente chatas conferências de imprensa, como reuniões de centrais sindicais. Entrevistei um ex-ministro da Ciência sobre o aniversário de Albert Einstein. Num seminário da Associação Luso-Americana entrei pela primeira e única vez no Sheraton de Lisboa, onde estaria o ministro do Trabalho. Eu não falei com ele, mas um jornalista de TV encontrou-o e rapidamente lhe fez uma pergunta pertinente. Tão rápido que eu nem tive tempo de ligar o meu microfone! Desastres de principiante.

A visita do presidente do Governo Regional dos Açores levou-me ao Palácio de Belém, a residência do Presidente da República. O líder açoriano falou alguma coisa que era importante, mas eu não entendi o interesse da coisa. No dia seguinte, à chegada à redacção, levei uma reprimenda quando me disseram que ele realmente tinha dito algo que era notícia. E que a TSF tinha deixado fugir. Outra rádio noticiou em primeira-mão. Aprenderam a não enviar um novato para cobrir assuntos de Estado. A única vez que a minha voz foi ouvida nas ondas hertzianas foi numa peça sobre uma "Feira do Livro Usado" realizada no Mercado da Ribeira. Com Carlos Paredes como música de fundo construí uma peça em linguagem poética. Foi "para o ar" nessa noite, a uma hora em que pouca gente ouve rádio. Repetiram-na de manhã cedo, ao início da hora de ponta do trânsito lisboeta.

Na altura estalou o escândalo de pedofilia na Casa Pia. Todos os dias apareciam revelações cada vez mais escabrosas. Na redacção, ouviam-se boatos implicando pessoas que, só semanas ou meses mais tarde, seriam trazidos a público. Ou nunca foram mencionadas "cá fora". Não imaginamos o podre que corre na antecâmara das notícias até fazermos parte de uma redacção.

Eram as vésperas da invasão americana do Iraque. A guerra estava iminente. Todos os dias, Bush e companhia revelavam outra razão para mandar Saddam Hussein para fora do poleiro. Era preciso saber o que diziam a CNN e a BBC e gravar o que noticiavam. Várias vezes traduzi e dobrei em estúdio declarações de Bush, Dick Cheney, Tony Blair e outros "peixes graúdos". A estação planeava quem iria mandar para o Médio Oriente, cobrindo os países mais importantes da região. "Armas de destruição maciça" era o termo mais usado nos media da altura. O Mundo não parece ter mudado muito desde essa altura...

Poucos dias depois de terminar os meses de estágio, assisti no meu quarto ao início da guerra em directo na RTP, a 20 de Março de 2003. Um providencial directo do jornalista Carlos Fino apanhou as primeiras bombas a cair em Bagdad. Aquela já não era a minha guerra. Eu estava de fora, a imaginar o reboliço que deveria ser a redacção da TSF. Ao todo foram apenas 4 meses. Aprendi alguma coisa, em especial o cuidado que temos de ter quando escutamos, vemos ou lemos algo nos media. As palavras cuidadosamente usadas para causarem polémica, para darem nome à casa, para a própria casa ser notícia por ter noticiado tal coisa, é mais importante do que revelar a notícia em si.

Alguns meses depois, trabalhei durante apenas um mês num semanário católico da diocese de Leiria. A coisa mais interessante na enfadonha rotina semanal era a montagem das notícias do jornal, às segundas e terças-feiras. Era interessante ver nascer o jornal que vai aparecer, dias depois, nas bancas. Organizar o enorme e desinteressante arquivo fotográfico do jornal ou escolher folhas de papel de impressão que ainda podiam ser usadas, foram outras coisas que eu fiz, nos dias em que não havia nada para fazer na sala onde funcionava o jornal, com apenas três funcionários.

No ano seguinte, passei para a televisão. Não, apesar das minhas tentativas e dezenas de currículos enviados não consegui ter outro estágio, nem mesmo "não remunerado" e ainda menos um emprego certo. Na altura, já começara a tomar forma o meu processo de conversão e foi nessa condição que apareci num programa de informação religiosa da RTP 2. Foram entrevistar os alunos que frequentavam as classes de conversão na sinagoga de Lisboa.

Com a ajuda do blog, fui entrevistado duas vezes sobre o assunto da minha conversão ao Judaísmo. Um leitor chileno entrevistou-me em inglês e publicou a notícia num jornal online do Canadá. O mês passado, foi a vez de uma jornalista brasileira, de um jornal judaico do Rio de Janeiro se interessar pela minha história.

Há meses, um amigo português (nascido em Moçambique) residente em Jerusalém foi descoberto pelo jornalista Henrique Cymerman, correspondente da SIC em Israel. A história de um português de origem "marrana" (em hebriaco anussim, os judeus obrigados a converterem-se ao Catolicismo e mantidos judeus em segredo), hoje 100% judeu, a trabalhar no Jardim Botânico de Jerusalém deu origem a uma reportagem de televisão. Depois da realização da reportagem, o meu amigo avisou-me que o jornalista estava interessado em conhecer outros portugueses em Israel e que por isso, lhe tinha dado o meu contacto.

Até hoje, alguns meses depois, espero o tal telefonema do Henrique Cymerman. Ainda não foi desta que apareci na SIC!




Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
Parabéns amigo ditador

Há 40 anos, um coronel do exército da Líbia tomou o poder no país por uma Revolução a que chamam "o Grande Al-Fateh". Quatro décadas depois, Muammar Khadafi, o coronel ainda controla os destinos da Líbia. Foram 40 anos marcados pela mais feroz doutrina laica alguma vez a tomar o poder num país muçulmano. O único avanço civilizacional a avançar na sociedade líbia - ao contrário da regra islâmica - foi mesmo a instauração de igualdade entre mulheres e homens. Ao menos isso temos de agradecer ao coronel. Porém...

Apoio ao terrorismo internacional, com a causa palestiniana à cabeça. Um atentado contra uma discoteca alemã onde morreram militares americanos e a bomba no avião da companhia PanAm que se despenhou em Lockerbie, na Escócia são outras das marcas do anti-americanismo militante que marcou o isolamento internacional da Líbia.

A exemplo de outros regimes ditatoriais em final de existência, como a União Soviética de Gorbatchov, a Líbia tenta a aproximação ao Ocidente. É um dos mais influentes países na diplomacia africana com um ou outro caso de sucesso na mediação de conflitos.

As suas reservas enormes de petróleo e gás tão apetecidas pela Europa parecem tornar os políticos e ainda mais as empresas europeias completamente cegas aos abusos cometidos pela Líbia. Ainda esta semana, o autor do atentado de Lockerbie foi recebido na capital líbia Tripoli por milhares de pessoas, depois de ter sido libertado de uma cadeia inglesa (alegadamente para facilitar um negócio multimilionário da petrolífera inglesa BP). Dai que as monumentais celebrações dos 40 anos da Revolução Líbia contem com a presença de altos dignitários europeus. O Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, de Itália – a Líbia foi colónia italiana – e o português Luís Amado são alguns dos amigos de Khadafi.

É vergonhoso que um país democrático como Portugal se faça representar ao mais alto nível para festejar a ascensão ao poder de um ditador. Como a Líbia não é a única ditadura que merece ser celebrada, espera-se que Luís Amado ou até o Primeiro-Ministro José Sócrates estejam no próximo 9 de Setembro, em Pyongyang entre milhares de alegres criancinhas norte-coreanas – bem alimentadas para a ocasião – que exultarão pela gloriosa independência do país e subida ao poder do antigo "Grande Líder" Kim il-Sung.

A 7 de Outubro estarão na China, para festejar os 59 anos do início da invasão chinesa do Tibete. Como a vergonha não combina com os negócios e tantas vezes faz esquecer a história, até é possível que no próximo 7 de Dezembro se reúnam na Indonésia a lembrar a gloriosa a patriótica invasão de Timor-Leste, ocorrida há 34 anos. E por aí sucessivamente.




Domingo, 30 de Agosto de 2009
Duas medidas

Em Israel, há poucos anos, um programa da televisão israelita foi considerado ofensivo para a comunidade cristã. Estoirou na altura uma polémica com o Vaticano. O então Primeiro-Ministro Ehud Olmert criticou o programa, sem prejuízo para a liberdade de expressão.

Alguém comentou assim o último artigo: "É que, na Suécia, a liberdade de expressão e publicação é direito sagrado. Não cabe a nenhuma autoridade criticar a publicação de um artigo de jornal. Da mesma forma que o Primeiro-Ministro da Dinamarca se recusou a pedir perdão pela publicação das caricaturas de Maomé, também as autoridades suecas têm o dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam. Simples assim!"

Na verdade, não é tão "simples assim". No episódio das caricaturas de Maomé na Dinamarca, depois de um boicote islâmico, das ameaças de morte e de bombardeio de negócios e embaixadas dinamarquesas, de centenas de manifestações que fizeram dezenas de mortes por esse mundo (islâmico) fora, o governo do país tentou limpar a cara pela afronta à dignidade muçulmana, anunciando que iria patrocinar a construção de uma enorme mesquita em Copenhaga, a capital do país.

Na Suécia, as autoridades do país, que reclamam que a liberdade de imprensa tem de ser absoluta, exatamente na altura do caso dos cartoons de Maomé, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia enviou uma carta especial a um líder religioso do Iémen (um país islâmico), pedindo desculpas pela publicação das ofensivas caricaturas ao profeta. Talvez tenha havido alguma brecha no "dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam"?

Ou seja, existe do lado sueco uma clara dualidade de critérios. Sejamos francos, porquê esta dualidade de critérios? Os suecos – representados pelos seus media e a sua classe política – sabem que não precisam de ter medo dos Judeus (apesar do eterno mito de que os Judeus controlam todo o planeta, desde os media ao comércio). Não precisam de temer que os Judeus bombardeiem as suas embaixadas. Que estoirem os seus hotéis, restaurantes e sistemas de transporte. Que os seus aviões sejam desviados e sejam derrubados os seus arranha-céus. Que os seus turistas e jornalistas em Israel sejam raptados e assassinados. Tudo como represália de algum caso de anti-semitismo que aconteça no seu país. O medo, esse, eles têm-no dos muçulmanos. E o medo é uma força muito poderosa.

Como disse um comediante norueguês, depois de queimar ao vivo algumas páginas do Antigo Testamento: "Eu só não queimei o Corão porque quero sobreviver mais do que uma semana". É de mau gosto, mas talvez valesse a pena pensar nas palavras do artista...

PS – Alguns dias depois da publicação da notícia, o próprio editor do jornal disse que a peça não apresentava qualquer fonte credível. Ainda assim, disse haveria razão para Israel investigar as "suspeitas". Benny Dagan, o embaixador israelita em Estocolmo, respondeu: "Tenho uma sugestão para si. Porque você não investiga porque a Mossad e os Judeus estiveram por detrás do atentado às Torres Gémeas? Porque não investigamos porque os Judeus estão a espalhar SIDA nos países árabes? Porque não investigamos porque os Judeus mataram crianças cristãs para fazer matzot (pão ázimo) na Páscoa?".




.Sobre o autor

Página Pessoal
Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente

Genocide in Sudan

.Pesquisar no blog
 
.Artigos recentes

. A hora de deixar o ninho

. Voltar a Lisboa?

. Esplendor no lixo

. Os bons ares de Jerusalém

. Viram? ou Toda a gente es...

. O enviado

. Oinc oinc, eles andam aí

. Memória dos avós

. Degraus de uma longa esca...

. O Grande Canal

. A moeda tem dois lados

. A geração dos 'Pardais'

. Nobel freudiano

. Terra de (maravilhosos) c...

. Enquanto há vídeo, há esp...

. Pegar o touro pelos corno...

. Segredo da confissão

. No fundo de rodapé da fam...

. Parabéns amigo ditador

. Duas medidas

.Ligações
.Visitantes
Jewish Bloggers
Powered By Ringsurf

contador gratis
.Arquivos

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

.subscrever feeds
blogs SAPO