Por via do blog e de um dos assuntos que trata: a conversão ao Judaísmo, muita gente me contacta pedindo informações sobre esse tema. Aqui fica uma lista dos passos do processo, com a explicação de cada um deles. Não é uma receita, nem um kit de montagem, mas talvez dê algumas dicas a quem procura assistência neste caminho às vezes tão complicado.

Jimmy e Pamela Harris são parte de um novo fenómeno americano:
negros convertidos ao Judaísmo.
0 – Porquê?
É o passo "0", porque antes de partir para o primeiro degrau, há que ter a mínima consciência do que implica uma conversão ao Judaísmo. As razões que levam cada pessoa a enveredar por este caminho variam e são pessoais. Do gosto pelo humor judaico (Porque não? É interessante poder contar piadas em nome próprio, por exemplo), reunião com as raízes familiares, busca espiritual, etc.
Na maior parte dos casos, são pouco mais que irrelevantes para o sucesso da empreitada. Como ouvi uma vez o meu rabino dizer: "Não me interessam as razões das pessoas. Só me interessa que sejam honestas". É apenas o ponto de partida.
1 – Contactar um rabino.
Obviamente, recomendo um rabino ortodoxo. As conversões das linhas reformista e conservadora não são reconhecidas pela linha ortodoxa. Apesar de as conversões não-ortodoxas darem o direito a emigrar para Israel, levantam problemas para quem desejar casar em Israel, pois apenas a linha ortodoxa é reconhecida para efeitos de casamento. Os rabinos ultra-ortodoxos (como os da linha Chabad) normalmente são mais hostis ao assunto da conversão, mas nem sempre.
O Judaísmo ortodoxo moderno é mais tolerante neste campo. As comunidades judaicas sírias (Nova Iorque e México, por exemplo) são completamente avessas ao assunto das conversões, considerando inválidas as conversões realizadas para efeito de casamento, por exemplo.
2 – Estudo de Judaísmo.
Depois de conseguir contactar com um rabino que aceite tratar do assunto da conversão, o candidato deve passar a estudar com ele. A maioria – se não todas – as comunidades têm classes de conversão. Normalmente, os rabinos não cobram qualquer quantia pelas aulas de conversão. Ensinar faz parte das funções normais do rabino. Podem ser cobradas despesas com fotocópias ou livros de estudo mas mais do que isso será, a meu ver, abusivo.
Além do estudo em classes, é importante estudar sozinho. Hoje há muita literatura sobre o assunto, seja em inglês como em português. A Internet também é uma ferramenta preciosa, mas a ser usada com cuidado. Nem todas as fontes são confiáveis.
3 – Contacto com a comunidade judaica.
Durante o período de estudo, que pode estender-se de alguns meses a vários anos, é muito importante ir mantendo um contacto com a comunidade, a par da frequência das aulas de conversão. Conhecer o ciclo anual judaico, como o Shabbat e as festas (Pessach, Shavuot, Rosh Hashaná, Yom Kippur, Succot, Chanuka, Purim) só se consegue com um contacto com a comunidade. Além de ser uma experiência preciosa, atesta o interesse do candidato no Judaísmo. Também ajuda a ter uma melhor relação com o rabino.
4 – Recomendação a um Bet Din (Tribunal Rabínico).
Dependendo do progresso do candidato na prática do estudo e da sua prática das tradições judaicas, o rabino fará uma recomendação a um Tribunal Rabínico. A maior parte dos países não têm Bet Din. Isso implica contactar com um Tribunal Rabínico noutro país. A melhor opção será Israel.
A falta de Bet Din pode implicar que a pessoa, pura e simplesmente, não possa terminar o processo no seu próprio país sem integrar um ulpan (curso) de conversão em Israel. É o que se passa na maioria dos casos de Portugal. Normalmente, o Tribunal Rabínico não facilita os processos de pessoas vindas de comunidades com poucas estruturas judaicas (como o caso de Portugal). Pode acontecer o Bet Din impor como condição a permanência em Israel (foi o meu caso).
5 – Reunião no Bet Din.
É um procedimento relativamente simples, apesar de ser o mais ansiado. Afinal, esta é a “grande prova”. Com as devidas diferenças, quem já passou um exame oral na escola pode ter ideia do tipo de acontecimento que é uma reunião de um Tribunal Rabínico. Três juízes rabínicos fazem várias perguntas ao candidato. Primeiro de apresentação, para saber a origem, como chegou ao Judaísmo, quanto tempo estudou, qual a prática que o candidato tem, etc.
Normalmente, o candidato vai acompanhado de alguém, seja o seu próprio rabino ou um professor do ulpan de conversão, ou alguém que conhece bem o candidato. São pedidas cartas de recomendação, do rabino que acompanhou o processo, da família adoptiva, de professores de yeshiva ou do ulpan, etc. São feitas várias perguntas sobre o Judaísmo: bênçãos sobre mitzvot (mandamentos judaicos) e alimentos, aspectos e leis das festas judaicas, etc.
É comum perguntarem sobre as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo, para atestar a segurança das crenças do candidato à conversão, já que na maioria provêm de um ambiente cristão.
6 – Aprovação pelo Bet Din.
No final da reunião, que normalmente não dura mais de uma hora, no caso de o candidato ser aprovado como novo membro do Povo de Israel, o converso tem de enunciar a oração de Shemá Israel. É a profissão de fé judaica, na qual declara a fé no Deus Único e a aceitação da Torá e das mitzvot.
Nesta altura, o converso é obrigado ao cumprimento de todas as mitzvot. Apenas está excluído temporariamente de contar para um minyan – o número mínimo de 10 homens necessário para as cerimónias públicas judaicas.
7 – Brit Milá ou Circuncisão (só para homens).
Esta que é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo é uma das fases cruciais do processo. Quem estuda o fenómeno da conversão ao Judaísmo explica que a enorme predominância de mulheres em relação aos homens como candidatos à conversão, se deve à obrigação da circuncisão. Nem todos os homens estão dispostos a passar por esta operação.
No caso dos adultos, a operação é realizada num hospital, mas sempre por um mohel, um homem formado especialmente na realização da circuncisão de acordo com a lei judaica. Se o candidato já é circuncidado, é feita uma revisão por um rabino, para saber se está de acordo com a Halachá. Pode ter se ser realizada uma nova operação de correção, mas na maioria dos casos é apenas realizada uma pequena cerimónia em que é retirada uma gota de sangue, simbolizando que a circuncisão foi feita de acordo com a lei judaica.
8 – Tevilá ou Banho ritual
A Tevilá ou banho ritual consiste na imersão num mikve, que é um tanque de águas especial, construído de acordo com regras específicas e que se destina à purificação ritual. Para que a imersão seja completa, não pode existir qualquer barreira entre o corpo da pessoa e a água, por isso é a pessoa entra completamente nua na água.
A imersão é verificada por três rabinos (que são como um novo Bet Din). Estes, porém, não vêm a pessoa nua, já que apenas entram na sala de imersão quando a pessoa já está dentro da água. No caso das mulheres que passam pela tevilá, é uma mulher quem verifica que a imersão foi integral e apta. Neste caso os três juízes encontram-se num local onde não vêm a mulher dentro da água. Tudo é feito com discrição. No caso de o candidato tiver de passar pela circuncisão, a ferida da operação terá de curar completamente antes de poder ir ao mikve, o que pode demorar cerca de um mês.
A partir da imersão, a pessoa pertence oficialmente ao Povo Judeu, em todos os assuntos. As únicas limitações são a proibição de uma mulher convertida se casar com um cohen, um membro da antiga tribo sacerdotal judaica.
Todas estas fases, cada uma com as suas complicações, apenas pretendem garantir que a pessoa está realmente comprometida com o Judaísmo. Afinal, o Judaísmo não é uma religião missionária. Não procura converter os demais, nem impor-lhes a Torá, nem considera os não-judeus como "infiéis contra os quais há que travar uma guerra santa" ou "condenados ao fogo do Inferno".
Quaisquer que sejam as motivações para a conversão, é essencial que todos os que entram no Povo de Israel o fazem com fé clara e consciência da responsabilidade de cumprimento da Torá.
Diz-se em Portugal: “Não há fome que não dê em fartura”. Em Israel, a braços com uma grave situação de seca há vários anos, teve nos últimos dias fortes chuvas. Algumas cidades ficaram alagadas na região central, próxima de Tel Aviv. Apesar de abundantes – ou melhor, demasiadas para tão curto espaço de tempo – estas chuvadas pouco ajudam na situação de carência de água no país.
O país tem poucas fontes de água doce. A maior é o Lago Kineret, ou Mar da Galileia, abastecido pelo rio Jordão, que nasce no Líbano. As outras são os dois aquíferos principais: o Ocidental, na planície costeira, e o das montanhas, na região de Jerusalém. Porém, todas estas fontes dependem da chuva, e essa tem sido escassa na última década.

Há anos que se idealizam planos para resolver a questão da falta de água. No início do século XXI, a solução estava na construção de várias centrais de dessalinização da água do mar. Duas centrais foram construídas, mas a sua capacidade é insuficiente para compensar a crescente procura de água e a decrescente oferta das fontes existentes, já de si escassas. Planos saíram das gavetas dos ministérios e os estudos fizeram-se. No ano 2000, o Inverno foi generoso e voltou-se a arquivar o plano de dessalinização em larga escala. A seca regressou nos anos seguintes e de novo se voltou a falar nas centrais. Mais alguns estudos, mais alguns orçamentos, mas obras… nada. Em 2004, a chuva foi de novo abundante e o plano multimilionário foi novamente abandonado. Um tira e põe na gaveta ao sabor dos Invernos secos ou chuvosos. E o problema continuou.
Nas últimas semanas, o governo de Israel reabilitou uma ideia já antes apresentada para resolver a míngua do precioso líquido: importar água da Turquia. É um plano arriscado além de pouco eficiente. Em termos económicos é uma solução dispendiosa, implicando a construção de navios próprios para o transporte de água e das infra-estruturas para armazenar a água importada. Além de representar a dependência de um recurso estratégico como a água numa fonte estrangeira. E para piorar a questão, a relação com a Turquia, o principal aliado de Israel no Médio Oriente, já viu dias melhores.
Desde que os islamistas moderados assumiram o governo turco, a relação com Israel deteriorou-se. Após a “Operação Chumbo Fundido” em Gaza, em Janeiro último, algumas declarações do Primeiro-Ministro turco contra Israel foram consideradas ofensivas pelas autoridades e pelos cidadãos israelitas. Como reação, os turistas israelitas – uns dos principais clientes do turismo turco – escolheram outros destinos para as férias. Exatamente na mesma semana em que foi reabilitada a ideia da importação de água da Turquia, a polémica voltou a abalar as relações entre os dois países. Um canal de TV turco transmitiu uma série que retratava os soldados de Israel como assassinos de crianças árabes. De novo, os turistas israelitas se vingaram da Turquia e desmarcaram as férias nos resorts da Anatólia.
A questão da falta de água é uma questão de tal modo grave que se propõem as soluções mais ousadas. A mais impressionante de todas é a construção de um canal entre o Mediterrâneo e o Lago Kinneret. A água produzida por algumas centrais dessalinizadoras na costa mediterrânica seria canalizada para o Lago Kinneret. Isso significaria voltar a encher o lago, cujo nível de água foi reduzido a um nível alarmante. O excesso de água do Kinneret seria deixado fluir para o Rio Jordão, que sai do lago em direção ao sul, até ao Mar Morto. A abundância de água no Kinneret e no Jordão permitiria voltar a abastecer o Mar Morto que há décadas vê o seu nível decrescer, mais de um metro por ano.
Porém, para concretizar este plano megalómano – mas talvez o único que resolva a situação e que não implique a dependência nas fontes dos vizinhos de Israel – é preciso mais do que muitos milhões de dólares. Para começar, mais do que o livro de cheques em mão, é preciso muita vontade política. Nos grandes projetos nacionais realizados ou idealizados nas últimas décadas, o avança e recua têm sido a regra, não interessa que lado do espectro político manda nos destinos da nação: os sistemas de Metro Ligeiro de Tel Aviv e Jerusalém, o comboio rápido para Jerusalém e claro, as centrais de dessalinização de água.
De acordo com a tradição judaica, Deus criou a Terra de Israel sem fontes de água para que o Povo Judeu rezasse pedindo pela chuva. Para que soubesse que, independentemente do engenho humano e das decisões dos governos de carne e o osso, é o Governo Lá de Cima quem determina quanta água chega às torneiras israelitas.

Duas notícias do dia no Público:
Portugal assume 40 por cento do orçamento da candidatura (conjunta com Espanha ao Mundial de Futebol de 2018 ou 2022).
Jovens à procura do primeiro emprego e trabalhadores precários são os mais vulneráveis à pobreza
Alguém consegue ver uma relação de causa-efeito entre as duas notícias? Ao longe, parece-me mais uma manifestação da eterna e tão portuguesa mania das grandezas a funcionar. E os respetivos resultados. O zé-povinho nem se dá conta do engodo, desde que a bola continue a rolar. Ou talvez esteja tudo bem e seja eu que, ao fim de quatro anos, já não conheça o país.
Nesta última semana de intervalo nos estudos da yeshiva tive uma pequena mas interessante proposta de trabalho: ser guia de um grupo de jovens sul-americanos em visita a Gush Etzion, o bloco de colonatos a sul de Jerusalém e onde vivo há quase ano e meio. Fui substituir um brasileiro residente – tal como eu – em Alon Shevut e mais acostumado a estas andanças de guia turístico.
Nas vésperas, avisaram-me por e-mail que deveria falar da região de Gush Etzion, a sua situação política e estratégica, o modo de vida dos colonos, as diferenças entre os vários colonatos do "Bloco" e um pouco da história da região. Uma pesquisa noturna à pressa pela Internet, com as páginas da Wikipédia a encabeçarem as opções na busca de informação, deu-me alguns dados para completar aquilo que já sabia de cabeça. O episódio da "caravana dos 35" – que, nem por coincidência deu nome à minha rua, foi um dos pontos que mais destacaram que eu deveria falar. Encontrei-me com o grupo às 11:45 junto ao alon ha'boded, o carvalho solitário que é o símbolo da zona. Tinham-me avisado que os jovens do grupo não eram religiosos. Bem, "não religiosos" seria uma definição algo branda para aquele bando. Membros da organização judaica de inspiração socialista, HaBonim Dror, os jovens eram na verdade mais do género "anti-religioso". De qualquer forma, sempre se mostraram respeitosos pela minha presença. A kippá grande, as longas peyot e os tzitzit à mostra não os assustaram. Eu também não me senti intimidado pelos grandes decotes e calções de verão das meninas e pelos penteados estranhos e os piercings dos rapazes. (Eu também já fui da "malta moderna". E até já usei um piercing! Vidas passadas.) Depois da breve visita à histórica árvore, fomos para o kibbutz vizinho de Kfar Etzion, o mais antigo colonato da região, palco de um massacre exatamente no dia anterior à declaração de Independência de Israel. Era já hora de almoço e sentámo-nos à sombra de umas árvores num parque. Aí, tive a oportunidade de conversar com alguns dos outros guias, do Brasil e da Argentina.
Depois, dividimo-nos e metade do grupo foi visitar a yeshivá de Alon Shevut. Uma explicação – talvez demasiado longa – sobre alguns achados arqueológicos no jardim da yeshivá. Subimos até à ala das mulheres, com uma vista soberba do Beit Midrah, o lugar de estudos principal da yeshivá. Imagine-se aquela gente que nunca tinha entrado numa yeshivá – possivelmente muitos nem sequer entraram alguma vez numa sinagoga. Só nessa altura, os outros guias se lembraram que não tinham avisado as meninas para se vestirem de forma "composta", um pouco mais tapadas. Explicámos como é a vida na yeshivá e o modo de vida dos estudantes. Cinco minutos de explicação e voltámos aos autocarros.
Há que voltar daqui a pouco até "à base", onde metade do grupo tem outras atividades e nos espera para também fazerem este giro. Ainda temos alguns minutos para passar por Efrat, o maior colonato de Gush Etzion. Assim que chegámos à primeira rotunda de Efrat, o autocarro deu meia volta e voltou para trás. Não há mais tempo. Este meio-grupo não viu nada do local. Temos de mudar a estratégia para a próxima vez. Troquei de autocarro e tomei o microfone. Há que aproveitar os breves minutos da viagem entre os vários colonatos para ir falando.
Apesar de se identificarem como judeus – ainda que pelo talvez metade não o sejam de acordo com a lei judaica, filhos de pai judeu, mas não de mãe judia ou apenas netos de algum judeu – e imaginando que estão habituados a uma imagem de Israel muito desfocada pelos meios de comunicação social e pela ideologia de extrema-esquerda do Dror – a imagem do colono judeu fanático, sedento de sangue árabe, que come criancinhas palestinianas ao pequeno-almoço – tentei passar-lhes a ideia de que essa é uma ideia errada e que nem sequer todos os colonos são iguais. Que, tal como no resto do povo judeu no mundo inteiro, há judeus de todos os tipos e até seculares que habitam esta região.
Depois de 10 minutos de palestra, apercebi-me que o autocarro ainda não tinha saído do lugar. Ah, eu não tinha dado a ordem de largada! Bem, não me imaginava o líder da comitiva, mas apenas o que provê alguma informação. Fomos para Alon Shevut com quase 15 minutos de atraso. À chegada ao parque de estacionamento da yeshivá, uma vista sobre o enorme colonato de Beitar Illit, uma cidade habitada exclusivamente por judeus ultra-ortodoxos. Ao subirmos as escadas para a yeshiva, avisto o Rabino Aharon Lichstenstein, o director da yeshiva. "Aquele velhinho ali à frente é, apenas, um dos rabinos mais famosos do mundo", informo. Noto olhares impressionados entre os jovens. Não devem ter visto muitas vezes um rabino, ao vivo.
No andar de cima do Beit Midrash deixo-os fazer perguntas. "Porque está um aluno a dormir?" Explico como é cansativo estudar Torá o dia inteiro. "Aqui não estudam mulheres?" Falo da midrashá do kibbutz vizinho de Migdal Oz, com uma versão feminina da yeshivá de Alon Shevut, onde as mulheres estudam a Torá e outras fontes judaicas a fundo, a um nível raro a nível mundial e num ambiente judaico ortodoxo. Aproveito para explicar a evolução da perspetiva judaica em relação às mulheres e os avanços da Halachá (Lei Judaica) com a ajuda da ciência. Aponto o jovem no Beit Midrash que usa um computador e os dois jovens que estudam juntos por um volume da Guemará. As duas faces do estudo da Torá.
Ainda há tempo de ir a Efrat. Ali, temos 10 minutos até ao regresso. Uma visita ao belo miradouro ladeado de buganvílias e pinheiros. Observam o vale onde passa a estrada para Jerusalém e Elazar, o pequeno colonato do outro lado do vale. Mostro-lhes a tranquilidade da vida em Efrat. "E os Territórios Palestinianos, onde são?" Explico que, de acordo com a comunidade internacional, ali já são os "Territórios".
Antes de regressarmos, peço perguntas, mesmo as difíceis. Um rapaz pergunta: "Recebes alguma ajuda do governo para viver aqui?". E uma menina observa: "Isto é tudo muito lindo e tranquilo mas, e do outro lado da cerca, como vivem os Palestinianos?" A guia não me deixa responder ali. Temos de voltar para o autocarro. As respostas têm de ficar para a curta viagem de regresso. Explico que não tenho qualquer ajuda especial para viver ali. É certo que as casas são mais baratas naquela região do que numa qualquer cidade do país, mas apenas por uma questão das leis de mercado. E com a falta de casas os preços têm subido bastante. Ajudas? Eu pago 200 shekels – cerca de 40 euros – por mês, apenas para a empresa de segurança privada do colonato onde vivo.
A cerca... Achei bem explicar a "grande cerca", o Muro. É ruim, é feio, é injusto, mas é necessário. O facto de podermos viajar hoje de autocarro em Israel sem grandes receios, devemo-lo ao malfadado muro. Comparo com outro muro, igualmente caro e feio, mas bem menos polémico, e que ninguém condena: o muro construído com dinheiro da União Europeia em redor de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos, para impedir a onda de imigrantes africanos de chegar à Europa. Se as intenções dos Palestinianos em relação a Israel fossem as daqueles imigrantes que apenas querem trabalhar, será que precisávamos do "nosso" muro?
Sei que não vai com alguns minutos de conversa que eles serão conquistados para apoiarem Israel. Pelo menos espero que entendam um pouco melhor a posição das pessoas que vivem aqui. E que tenha ajudado a destruir alguns estereótipos.
Nota: "Pardal" é a outra tradução possível de Dror, o nome pelo qual é conhecido do movimento a que pertenciam os jovens, HaBonim Dror, os "Construtores da Liberdade".

Freud ficou famoso pelas suas teorias sobre a interpretação de sonhos. Suspeita-se que o Comité Nobel tenha lido a literatura freudiana nessa matéria de cabo a rabo e assim premiou o maior fabricante mundial de sonhos. Já foram Brad Pitt e Tom Cruise, mas hoje Barack Obama é o homem de quem se fala, com quem toda a gente sonha.
Jovem, bem vestido, bem falante, sorriso Colgate de estrela de cinema. Ele próprio cheio de sonhos e o mundo anda encantado por todos eles. É um prémio às boas intenções do príncipe encantado - ahhhh! (suspiro), mas vazio de substância. É que provas dadas das suas numerosas intenções ainda não há nenhumas.
Como disse Saramago - e eu não me consigo desculpar a mim próprio por citar tal personagem, outro sonhador desbocado: "É possível que comece a dizer-se que o Prémio Nobel da Paz [a Obama] foi prematuro, mas não o é se o tomarmos como um investimento".
PS – Se a escolha do Comité Nobel tivesse recaído sobre a Miss Universo, ninguém notaria a menor diferença. Afinal, tal como as misses – que também fazem sonhar meio-mundo – o presidente americano é uma bela combinação de sorriso fotogénico, acenos estudados à multidão de fãs e algumas palavras vagas sobre a paz mundial. Torço para que no próximo ano, o Nobel seja entregue a alguma fulana venezuelana em bikini.
Atenção a estes dois factos do dia aqui neste cantinho do planeta:
Em Israel, uma mulher cientista, Ada Yohath, ganhou o Prémio Nobel da Química de 2009. (Foi a primeira mulher a ganhar o Nobel da Química em mais de 40 anos.)
Enquanto isso em Gaza, o Hamas baniu as mulheres de andarem de mota, a fim de conservar as "tradições árabes".
O cientista político Samuel Phillips Huntington chamou-lhe uma vez "choque de civilizações". As feministas dos anos 60 chamavam-lhe "queimar sutiãs". No caso de Gaza, as donas dos sutiãs são queimadas com os respetivos.
Na última sexta-feira, foi divulgado um vídeo do soldado israelita Gilad Shalit, raptado em Gaza há mais de 3 anos. Durante todo este tempo de cativeiro, esta foi a primeira vez que o Hamas – os raptores – deixou passar um claro sinal de vida de Gilad para Israel.
Foi um breve vídeo de dois minutos de duração, que mostra Shalit dirigindo-se aos seus pais Noam e Aviva e ao Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu. Disse que tem sido bem tratado pelo Hamas e está de boa saúde, mas que anseia pelo dia em que verá de novo a sua família.
Todavia, o vídeo não chega de forma gratuita. Vinte prisioneiras palestinianas condenadas por ações terroristas foram libertadas em troca de 2 minutos de prova de vida de Gilad Shalit. Esta tem sido uma estratégia dos sucessivos governos de Israel: libertar um grande número de condenados por terrorismo em troca de sinais de vida dos seus sequestrados ou, mais estranho ainda, em troca de cadáveres de soldados caídos em território inimigo.
Foi o que aconteceu o ano passado, com a libertação de quatro membros do Hezbollah e do famoso assassino Samir Kuntar em troca dos cadáveres dos soldados Ehud Goldwasser e Eldad Regev, cuja captura pelo Hezbollah desencadeou a Segunda Guerra do Líbano em 2006. Até poucas semanas antes da troca, o governo de Israel nem sequer sabia se os soldados ainda estavam vivos.
No passado, outros prisioneiros libertados de prisões israelitas regressaram a atividades terroristas. De acordo com algumas fontes, as ações de ex-prisioneiros libertados causaram a morte a mais de 100 israelitas. Ou seja, não é um bom prenúncio. O saldo não joga a favor de Israel nesta forma de negociação com o inimigo.
Ainda assim, a divulgação do vídeo de Gilad Shalit é uma ótima notícia. Os pais do soldado e milhares de apoiantes da causa da libertação de Gilad em todo o Mundo tentam manter a opinião pública alerta sobre o cativeiro forçado do jovem soldado. Em Jerusalém, em frente à residência do Primeiro-Ministro, há muitos meses que uma tenda de protesto é mantida em permanência. Muitas vezes passo em frente ao local e vejo que sempre alguém se mantém de vigília, às vezes uma pessoa apenas. Uma placa dentro da tenda indica a passagem dos dias em cativeiro. Já são mais de mil e duzentos.
Também em Alon Shevut, o colonato onde moro, na praça do bairro antigo, entre a mercearia e o centro médico, um pequeno cartaz mostra o número de dias da clausura de Gilad Shalit. Diariamente, alguém muda o fatídico número. Para que ninguém esqueça.
O vídeo recente de Gilad Shalit. E as várias faces da campanha a favor da sua libertação.
Com frequência, falo com amigos em Israel sobre os erros da política externa de Israel. Em regra, a atitude tem sido a de lamentar a incompreensão da ONU e do resto do Mundo, e ainda mais a oposição sistemática face às acções militares de Israel, em especial a última operação em Gaza. Isto, sem nunca confrontar as acusações com a perspectiva israelita sobre os factos. E sem apontar a dualidade de critérios na permanente condenação de Israel e o injusto silêncio dos diplomatas face à situação em outros pontos do globo. Ou o silêncio quando as vítimas são israelitas.

A ONU realizou na semana passada a sua Assembleia-Geral. Dezenas de chefes de Estado e de governo discursaram no palanque da ONU. O presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad fez um discurso pejado de ataques a Israel. Dias antes, ainda em Teerão declarou-se orgulhoso de negar o Holocausto, como tem feito desde que foi eleito presidente pela primeira vez. No dia seguinte ao vergonhoso discurso de Ahmadinejad, foi a vez do Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu discursar. E que discurso!
No seu brilhante discurso, Benjamin Netanyahu fez exactamente isso. Como mencionou o PM israelita, a ONU foi fundada após a II Guerra Mundial precisamente para prevenir a ocorrência de tais eventos. "Nada minou mais essa missão, nada a impediu mais, que o assalto sistemático à verdade. Ontem o presidente do Irão esteve neste pódio vomitando o seu mais recente discurso anti-semita. Há uns dias, ele reivindicou que o Holocausto é uma mentira.", disse.
Apontou o dedo a Ahmadinejad, por repetir as habituais diatribes anti-semitas, ainda mais no palco da ONU. Elogiou os países que não compareceram na sala para escutar o ditador iraniano e os que abandonaram a sala quando ele começou a exibir o seu ódio. Foram apenas 12 países. Só doze. (A ONU tem quase 200 estados membros.)
"Não têm vergonha? Não têm decência?", Netanyahu interpelou os representantes dos países que testemunharam o discurso do presidente do Irão. Mostrando uma cópia da acta da Conferência de Wannsee, ocorrida em 20 de Janeiro de 1942, e a planta original da construção do campo de concentração de Auschwitz, perguntou "Isto são mentiras?". Mencionou os números tatuados nos braços dos sobreviventes: "São também mentira?".
A presença dos diplomatas e o seu silêncio durante o discurso de Ahmadinejad legitimaram as eleições fraudulentas que o reelegeram, deram a razão ao violento regime que matou dezenas de manifestantes que apelavam à democracia e à transparência após as eleições.
Netanyahu e Israel não são, nem podem pretender ser, embaixadores dos que anseiam pela democracia nos países muçulmanos. Não são uma voz aceite para falar em seu nome. Dos opositores encarcerados nas prisões dos Irão, do Egipto ou da Síria. Das mulheres brutalizadas, excisadas e segregadas como cidadãos de segunda classe ou, pior que isso, como animais. Das minorias religiosas perseguidas, como os xiitas e os cristãos na Arábia Saudita, os cristãos em Gaza ou os bahá'ís no Irão.
Porém, todas estas vítimas olham para as democracias ocidentais com esperança. Que os diplomatas e políticos das nações livres se indignem quando os inocentes são atacados, que defendam as suas causas na arena internacional. O "silêncio dos bons" perante um ditador descarado ladrão de eleições, assassino e mentiroso é uma desgraça no panorama da democracia mundial.
Durante mais de 20 anos, Portugal foi a única voz que falou em nome do povo de Timor-Leste, que defendeu os seus interesses e direitos na ONU. Contra todas as diplomacias do Mundo – incluindo a poderosa América – interessadas nas riquezas petrolíferas da Indonésia e na sua influência no mundo árabe.
Uma democracia reconhecida, com um assinalável registo de direitos humanos a nível internacional, Portugal não foi um dos países que se recusaram a dar o aval à ditadura iraniana e à sua doutrina. Dos 27 estados da União Europeia, apenas seis viraram as costas a Ahmadinejad. Da América, além dos EUA e Canadá, apenas a pequena Costa Rica teve a ousadia de ser corajosa.
O Brasil teve uma das mais desprezíveis demonstrações de falta de moral. O presidente brasileiro Lula da Silva, hoje considerado como um dos mais influentes líderes dos países em desenvolvimento, apertou a mão do ditador iraniano. Em Nova Iorque fez-se história. A ONU assistiu apática ao espezinhar dos valores da sua carta fundadora. Valeu Netanyahu, que teve a coragem de enfrentar o touro pelos cornos.
Apesar de não ter votado nele nas últimas eleições em Israel, senti um grande orgulho na sua frontalidade. Ainda que saiba que, de qualquer forma, não se esperará grande compreensão do resto do Mundo às suas palavras - a maior parte delas são demasiados inconvenientes. Ao menos que a estratégia diplomática israelita mude daqui em diante.
PS - Quem quiser assistir ao discurso de Netanyahu (em inglês, sem legendas), clique aqui.
Nos meus tempos de católico, um dos momentos mais difíceis da minha prática religiosa era a ida à confissão. A primeira vez que passei por esse ritual foi nas vésperas da "Primeira Comunhão", por volta dos 7 anos. Como o nome indica, era a primeira vez que iria "comungar", por isso, a lei mandava que deveria estar "livre de pecado".
Lembro-me de ter ido em grupo, com todos os meus colegas de catequese. Nas semanas anteriores, uma parte das dominicais aulas de catequese foi dedicada à preparação de tal momento, em especial sobre o que dizer quando chegasse a hora de me ajoelhar ou sentar em frente do sacerdote.
Começava com uma breve declaração de arrependimento: o "acto de contrição". Se não soubesse dizê-la de memória, o padre até ajudava. Menos mal. Seguia-se uma revelação dos pecados que vinha confessar. Era a parte mais complicada. "Não obedeci aos meus pais. Briguei com
a minha irmã e não lhe emprestei os meus brinquedos..." Que grandes pecados se têm aos 7 anos. Ainda assim, era difícil ter de discorrer a lista de máculas perante um desconhecido. (E não acho que seria mais fácil se a confissão fosse feita a um conhecido). Depois de tal prova, o padre mandava rezar um certo
número de "pais-nossos" e "avé-Marias". Podia rezá-los logo ali, na igreja. Assim, já liberto da obrigação do ritual, voltava para casa com algum descanso. No dia seguinte, poderia comungar pela primeira vez, sem culpa.
Este ritual repetiu-se algumas vezes, sobretudo na altura dos feriados religiosos católicos, como a Páscoa ou o Natal. No resto do ano, ainda que fosse semanalmente à missa, eram raras as vezes em que comungava. Porém, assim que fazia algo que eu achasse que devia
ser confessado, deixava de comungar. Nos meus anos de católico comprometido, conhecedor da importância da comunhão, mantive a coerência de não "tomar o corpo de Cristo" sem cumprir as regras prescritas. As reticências face ao ritual da confissão faziam adiar a ida ao confessionário. Nem era por não confiar no
segredo da confissão que o padre jurara, pois ainda hoje vejo-o como um "segredo profissional" como outro qualquer. O problema era o acto de confissão em si e a forma de penitência. Demasiado forçado o primeiro, demasiado automática, a segunda.
Não via como revelar os meus erros a uma pessoa que não tinha nada a ver com eles, me poderia ajudar a ultrapassá-los. A conta de "pais-nossos" e "avé Marias" também me parecia pouco convincente. Durante os meus anos de católico praticante, ouvi várias explicações do significado e da função da confissão. A mim, nenhuma delas me
convenceu. Aceito que algumas – muitas – pessoas as tomem como válidas e sintam naquela forma de confissão uma forma de restabelecimento espiritual.
No Judaísmo também existe confissão. Ela é, porém, individual e privada. Não existem intermediários na oração ou na salvação. Diariamente, nas orações matinais, uma das partes do serviço é o vidui (confissão em hebraico). De pé, com solenidade, em voz baixa, cada um lê do livro de rezas uma lista de transgressões. Só Deus e cada um saberão quais delas se aplicam a si mesmo. Cada uma das transgressões é enunciada na primeira pessoa do plural. "Fomos culpados, atraiçoámos, roubámos, falámos calúnias..." Cada judeu é responsável por si mesmo e, ao mesmo tempo por todo o Povo de Israel.
No calendário hebraico, esta altura do ano é o período especial da reconciliação e da introspeção. Estamos entre Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico que se celebra em festa durante dois dias, e Yom Kippur, o grande Dia do Perdão, um dia de jejum absoluto. Cada um deve procurar emendar as suas falhas, mesmo as aparentemente insignificantes. Deus é a única testemunha da confissão particular, só Ele sabe os sentimentos de culpa – e de que culpa – que passam pelo coração daquele que se confessa. Em
silêncio.
Pequei... douh!

Quase famoso.
Apesar de ser licenciado em Comunicação Social, em poucas ocasiões apliquei o que estudei nos 4 anos do curso. Agora, nem tenho televisão em casa – e não o lamento. O contacto com o Mundo faz-se pela Internet. Ainda antes do sonho da carreira na Comunicação Social, tinha tido algum contacto com o mundo jornalístico na escola. Aos 13 ou 14 anos, entrei quase por acaso para o Clube de Jornalismo da Escola Secundária da Batalha. A experiência durou apenas algumas semanas, mas ainda me lembro de escrever alguns textos que seriam publicados no jornal da escola. E de fazer desenhos para ilustrar as peças.
Na mesma altura, ou poucos anos depois, o Jornal da Batalha teve a ideia de dedicar uma das suas páginas a uma das turmas da escola local. Os alunos escreveriam textos e a turma apareceria numa foto de grupo. Ainda guardo numa mala de documentos a página que foi feita pela minha turma… Ainda que seja difícil ver onde estou no meio da foto de turma, foi a primeira vez que "saí no jornal".
A segunda vez que "fui para as bancas" foi já nos anos da faculdade. Ao contrário de uma pacífica e sóbria foto nos idos anos do ensino secundário, a notícia da época universitária dizia respeito a uma "invasão". Os revolucionários alunos do ISCSP, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a minha faculdade em Lisboa, decidiram tomar de volta e à força o andar de cima do secular Palácio Burnay onde funcionava a faculdade. Havia sido "nosso" até à extinção temporária do ISCSP algumas décadas antes, mas aí funcionavam alguns dos serviços de outra instituição, o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Era a parte mais nobre do palácio e era uma vergonha que estivesse a ser usado por "eles".
Na cobertura jornalística da invasão – como é que chegaram tão rápido? Estavam avisados? –, um fotógrafo do Jornal de Notícias apanhou-me com um maço de livros arrancados de uma das prateleiras dos cientistas ocupantes. Eu nem dei por ele. Só soube quando vi a foto no diário! Em termos de processo judicial, nunca se fez nada contra a nossa "medida radical" e, passadas algumas semanas, metemos o rabinho entre as pernas e voltámos a ter apenas "o andar de baixo". E foi assim, como um anónimo criminoso fotografado em "flagrante delito" que saí numa das páginas da secção de Sociedade do JN em 2000 e picos.
No final do curso consegui – com ajuda da indispensável cunha, por supuesto – um precioso estágio. O meu padrinho falou com um amigo que tinha um outro amigo e que, sem acaso, era o responsável pelos estagiários da rádio de notícias TSF, uma das mais importantes estações de rádio de Portugal. Depois de uma entrevista para apurar capacidades, comecei a trabalhar logo no dia seguinte. Trabalhar não era bem o termo certo: o estágio era, apesar de bem-vindo, "não remunerado". Comecei por fazer o turno da manhã.
Saía bem cedo do apartamento onde morava junto ao Largo do Rato e tomava dois autocarros até chegar à redacção no Braço de Prata, quase a chegar ao Parque das Nações. O termo "não remunerado" era absoluto, e significava que eu tinha de pagar o meu transporte – a não ser as deslocações em trabalho – e nem incluía almoço. Valiam-me as bolachas e o iogurte trazidos de casa, e a máquina de café para ser usada à discrição. Depois passei para o turno da tarde.
Ao contrário do que se pensa no mundo fora do círculo jornalístico, nem todos os jornalísticas "aparecem". Nem todos são "estrelas". Antes pelo contrário, a profissão de jornalista é muito menos romântica. O meu trabalho era mais de apoio. Depois de escolher uma historia para cobrir, telefonava para aqui e acolá à cata de depoimentos de alguém com quem interessava falar por algum assunto. Por vezes fazia "trabalho de campo": saía da redacção para algum lugar em Lisboa para assistir a impossivelmente chatas conferências de imprensa, como reuniões de centrais sindicais. Entrevistei um ex-ministro da Ciência sobre o aniversário de Albert Einstein. Num seminário da Associação Luso-Americana entrei pela primeira e única vez no Sheraton de Lisboa, onde estaria o ministro do Trabalho. Eu não falei com ele, mas um jornalista de TV encontrou-o e rapidamente lhe fez uma pergunta pertinente. Tão rápido que eu nem tive tempo de ligar o meu microfone! Desastres de principiante.
A visita do presidente do Governo Regional dos Açores levou-me ao Palácio de Belém, a residência do Presidente da República. O líder açoriano falou alguma coisa que era importante, mas eu não entendi o interesse da coisa. No dia seguinte, à chegada à redacção, levei uma reprimenda quando me disseram que ele realmente tinha dito algo que era notícia. E que a TSF tinha deixado fugir. Outra rádio noticiou em primeira-mão. Aprenderam a não enviar um novato para cobrir assuntos de Estado. A única vez que a minha voz foi ouvida nas ondas hertzianas foi numa peça sobre uma "Feira do Livro Usado" realizada no Mercado da Ribeira. Com Carlos Paredes como música de fundo construí uma peça em linguagem poética. Foi "para o ar" nessa noite, a uma hora em que pouca gente ouve rádio. Repetiram-na de manhã cedo, ao início da hora de ponta do trânsito lisboeta.
Na altura estalou o escândalo de pedofilia na Casa Pia. Todos os dias apareciam revelações cada vez mais escabrosas. Na redacção, ouviam-se boatos implicando pessoas que, só semanas ou meses mais tarde, seriam trazidos a público. Ou nunca foram mencionadas "cá fora". Não imaginamos o podre que corre na antecâmara das notícias até fazermos parte de uma redacção.
Eram as vésperas da invasão americana do Iraque. A guerra estava iminente. Todos os dias, Bush e companhia revelavam outra razão para mandar Saddam Hussein para fora do poleiro. Era preciso saber o que diziam a CNN e a BBC e gravar o que noticiavam. Várias vezes traduzi e dobrei em estúdio declarações de Bush, Dick Cheney, Tony Blair e outros "peixes graúdos". A estação planeava quem iria mandar para o Médio Oriente, cobrindo os países mais importantes da região. "Armas de destruição maciça" era o termo mais usado nos media da altura. O Mundo não parece ter mudado muito desde essa altura...
Poucos dias depois de terminar os meses de estágio, assisti no meu quarto ao início da guerra em directo na RTP, a 20 de Março de 2003. Um providencial directo do jornalista Carlos Fino apanhou as primeiras bombas a cair em Bagdad. Aquela já não era a minha guerra. Eu estava de fora, a imaginar o reboliço que deveria ser a redacção da TSF. Ao todo foram apenas 4 meses. Aprendi alguma coisa, em especial o cuidado que temos de ter quando escutamos, vemos ou lemos algo nos media. As palavras cuidadosamente usadas para causarem polémica, para darem nome à casa, para a própria casa ser notícia por ter noticiado tal coisa, é mais importante do que revelar a notícia em si.
Alguns meses depois, trabalhei durante apenas um mês num semanário católico da diocese de Leiria. A coisa mais interessante na enfadonha rotina semanal era a montagem das notícias do jornal, às segundas e terças-feiras. Era interessante ver nascer o jornal que vai aparecer, dias depois, nas bancas. Organizar o enorme e desinteressante arquivo fotográfico do jornal ou escolher folhas de papel de impressão que ainda podiam ser usadas, foram outras coisas que eu fiz, nos dias em que não havia nada para fazer na sala onde funcionava o jornal, com apenas três funcionários.
No ano seguinte, passei para a televisão. Não, apesar das minhas tentativas e dezenas de currículos enviados não consegui ter outro estágio, nem mesmo "não remunerado" e ainda menos um emprego certo. Na altura, já começara a tomar forma o meu processo de conversão e foi nessa condição que apareci num programa de informação religiosa da RTP 2. Foram entrevistar os alunos que frequentavam as classes de conversão na sinagoga de Lisboa.
Com a ajuda do blog, fui entrevistado duas vezes sobre o assunto da minha conversão ao Judaísmo. Um leitor chileno entrevistou-me em inglês e publicou a notícia num jornal online do Canadá. O mês passado, foi a vez de uma jornalista brasileira, de um jornal judaico do Rio de Janeiro se interessar pela minha história.
Há meses, um amigo português (nascido em Moçambique) residente em Jerusalém foi descoberto pelo jornalista Henrique Cymerman, correspondente da SIC em Israel. A história de um português de origem "marrana" (em hebriaco anussim, os judeus obrigados a converterem-se ao Catolicismo e mantidos judeus em segredo), hoje 100% judeu, a trabalhar no Jardim Botânico de Jerusalém deu origem a uma reportagem de televisão. Depois da realização da reportagem, o meu amigo avisou-me que o jornalista estava interessado em conhecer outros portugueses em Israel e que por isso, lhe tinha dado o meu contacto.
Até hoje, alguns meses depois, espero o tal telefonema do Henrique Cymerman. Ainda não foi desta que apareci na SIC!
Há 40 anos, um coronel do exército da Líbia tomou o poder no país por uma Revolução a que chamam "o Grande Al-Fateh". Quatro décadas depois, Muammar Khadafi, o coronel ainda controla os destinos da Líbia. Foram 40 anos marcados pela mais feroz doutrina laica alguma vez a tomar o poder num país muçulmano. O único avanço civilizacional a avançar na sociedade líbia - ao contrário da regra islâmica - foi mesmo a instauração de igualdade entre mulheres e homens. Ao menos isso temos de agradecer ao coronel. Porém...
Apoio ao terrorismo internacional, com a causa palestiniana à cabeça. Um atentado contra uma discoteca alemã onde morreram militares americanos e a bomba no avião da companhia PanAm que se despenhou em Lockerbie, na Escócia são outras das marcas do anti-americanismo militante que marcou o isolamento internacional da Líbia.
A exemplo de outros regimes ditatoriais em final de existência, como a União Soviética de Gorbatchov, a Líbia tenta a aproximação ao Ocidente. É um dos mais influentes países na diplomacia africana com um ou outro caso de sucesso na mediação de conflitos.
As suas reservas enormes de petróleo e gás tão apetecidas pela Europa parecem tornar os políticos e ainda mais as empresas europeias completamente cegas aos abusos cometidos pela Líbia. Ainda esta semana, o autor do atentado de Lockerbie foi recebido na capital líbia Tripoli por milhares de pessoas, depois de ter sido libertado de uma cadeia inglesa (alegadamente para facilitar um negócio multimilionário da petrolífera inglesa BP). Dai que as monumentais celebrações dos 40 anos da Revolução Líbia contem com a presença de altos dignitários europeus. O Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, de Itália – a Líbia foi colónia italiana – e o português Luís Amado são alguns dos amigos de Khadafi.
É vergonhoso que um país democrático como Portugal se faça representar ao mais alto nível para festejar a ascensão ao poder de um ditador. Como a Líbia não é a única ditadura que merece ser celebrada, espera-se que Luís Amado ou até o Primeiro-Ministro José Sócrates estejam no próximo 9 de Setembro, em Pyongyang entre milhares de alegres criancinhas norte-coreanas – bem alimentadas para a ocasião – que exultarão pela gloriosa independência do país e subida ao poder do antigo "Grande Líder" Kim il-Sung.
A 7 de Outubro estarão na China, para festejar os 59 anos do início da invasão chinesa do Tibete. Como a vergonha não combina com os negócios e tantas vezes faz esquecer a história, até é possível que no próximo 7 de Dezembro se reúnam na Indonésia a lembrar a gloriosa a patriótica invasão de Timor-Leste, ocorrida há 34 anos. E por aí sucessivamente.
Em Israel, há poucos anos, um programa da televisão israelita foi considerado ofensivo para a comunidade cristã. Estoirou na altura uma polémica com o Vaticano. O então Primeiro-Ministro Ehud Olmert criticou o programa, sem prejuízo para a liberdade de expressão.
Alguém comentou assim o último artigo: "É que, na Suécia, a liberdade de expressão e publicação é direito sagrado. Não cabe a nenhuma autoridade criticar a publicação de um artigo de jornal. Da mesma forma que o Primeiro-Ministro da Dinamarca se recusou a pedir perdão pela publicação das caricaturas de Maomé, também as autoridades suecas têm o dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam. Simples assim!"
Na verdade, não é tão "simples assim". No episódio das caricaturas de Maomé na Dinamarca, depois de um boicote islâmico, das ameaças de morte e de bombardeio de negócios e embaixadas dinamarquesas, de centenas de manifestações que fizeram dezenas de mortes por esse mundo (islâmico) fora, o governo do país tentou limpar a cara pela afronta à dignidade muçulmana, anunciando que iria patrocinar a construção de uma enorme mesquita em Copenhaga, a capital do país.
Na Suécia, as autoridades do país, que reclamam que a liberdade de imprensa tem de ser absoluta, exatamente na altura do caso dos cartoons de Maomé, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia enviou uma carta especial a um líder religioso do Iémen (um país islâmico), pedindo desculpas pela publicação das ofensivas caricaturas ao profeta. Talvez tenha havido alguma brecha no "dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam"?
Ou seja, existe do lado sueco uma clara dualidade de critérios. Sejamos francos, porquê esta dualidade de critérios? Os suecos – representados pelos seus media e a sua classe política – sabem que não precisam de ter medo dos Judeus (apesar do eterno mito de que os Judeus controlam todo o planeta, desde os media ao comércio). Não precisam de temer que os Judeus bombardeiem as suas embaixadas. Que estoirem os seus hotéis, restaurantes e sistemas de transporte. Que os seus aviões sejam desviados e sejam derrubados os seus arranha-céus. Que os seus turistas e jornalistas em Israel sejam raptados e assassinados. Tudo como represália de algum caso de anti-semitismo que aconteça no seu país. O medo, esse, eles têm-no dos muçulmanos. E o medo é uma força muito poderosa.
Como disse um comediante norueguês, depois de queimar ao vivo algumas páginas do Antigo Testamento: "Eu só não queimei o Corão porque quero sobreviver mais do que uma semana". É de mau gosto, mas talvez valesse a pena pensar nas palavras do artista...
PS – Alguns dias depois da publicação da notícia, o próprio editor do jornal disse que a peça não apresentava qualquer fonte credível. Ainda assim, disse haveria razão para Israel investigar as "suspeitas". Benny Dagan, o embaixador israelita em Estocolmo, respondeu: "Tenho uma sugestão para si. Porque você não investiga porque a Mossad e os Judeus estiveram por detrás do atentado às Torres Gémeas? Porque não investigamos porque os Judeus estão a espalhar SIDA nos países árabes? Porque não investigamos porque os Judeus mataram crianças cristãs para fazer matzot (pão ázimo) na Páscoa?".
Na Idade Média, durante a epidemia da Peste Negra na Europa, em muitos lugares do continente, os Judeus foram acusados de envenenar os poços (na altura pensava-se que a doença era transmitida pela água, quando na verdade eram as pulgas dos ratos). A cada acusação, em cada local, as autoridades civis e religiosas cristãs prendiam um certo número de judeus que eram mortos. Nos episódios mais “misericordiosos”, perante a ameaça da morte, os detidos tinham a opção da conversão à fé cristã.

Pintura que retrata o martírio de Simão de Trento, 1475 |
Capa de uma edição em espanhol de Os Protocolos dos Sábios de Sião
(note-se que a capa retrata que os Judeus controlam o dinheiro, a Igreja, a Maçonaria, o Comunismo e... o Nazismo) |
Embate do 2º avião no World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, outra "obra da Mossad".
Também na época medieval surgiram acusações de assassínios rituais judaicos, nos quais inocentes criancinhas cristãs eram degoladas e o seu sangue aproveitado para fazer a matzá, o pão ázimo de Pessach, a Páscoa Judaica. Um dos casos mais famosos foi o de Simão de Trento, que seria depois canonizado. Acusações deste teor propagaram-se por toda a Europa ao longo dos séculos, incluindo no século XX, com o famoso caso Beilis, em 1911.
A acusação dos assassínios rituais está tão enraizada na sociedade russa que ainda há poucos anos, o próprio patriarca da Igreja Ortodoxa Russa fez referências e esses libelos de sangue, acreditando fielmente na veracidade das acusações. Ainda hoje, é possível encontrar abundante literatura que defende histórias destas em muitos países árabes, além de numerosos filmes e séries de televisão onde são os mitos são encenados. Além destas, a fantasia do plano judaico para dominar o Mundo – que atingiu o seu apogeu na obra Os Protocolos dos Sábios de Sião – continuam a ter aceitação em muitas sociedades, da populaça árabe a alguns intelectuais europeus. A Internet, obviamente, possibilitou a dispersão global deste tipo de delírio, havendo milhares de sites e blogs sobre o assunto, incluindo lojas online que vendem Cds e livros sobre o assunto, ligados desde a canalha neo-nazi europeia e americana, até aos islamo-fascistas.
Em 2001, após os ataques do 11 de Setembro, depressa apareceram teorias da conspiração que ligavam a Mossad (os Serviços Secretos israelitas) ao planeamento e realização do ataque terrorista. De nada valeram os vídeos divulgados por Osama bin Laden e seus compadres a vangloriar-se pela sua estrondosa vitória contra o Satã americano. Ainda hoje, qualquer sondagem num país árabe sobre a autoria dos ataques dará como resposta vencedora a Mossad ou uma aliança desta com a sua congénere americana, a CIA. Bin Laden, esse é o herói mais popular dos mesmos questionados.
Esta semana, na Suécia, um dos jornais mais vendidos do país, o sensacionalista Aftonbladet publicou um artigo onde acusava Israel de raptar palestinianos e os matar a fim de traficar os seus órgãos. Alegadas testemunhas contaram histórias de familiares que após alguns dias desaparecidos, reapareceram mortos e com marcas de lhes terem sido retirados órgãos. Oportunamente, a história era relacionada com a recente prisão de um judeu americano acusado de traficar órgãos a partir de Israel (pagava 10 mil dólares a um dador em Israel e vendia-os por um valor muito mais alto nos EUA).
Escandalizado por este novo libelo de sangue, o governo de Israel exigiu uma tomada de posição do governo sueco, "uma condenação formal e não um pedido de desculpas" pelas alegações publicadas pelo jornal. A resposta sueca foi peremptória: "não interferimos na liberdade de expressão". Ou seja, não interessa aquilo que o tal jornaleco escreveu, já que a liberdade de expressão e da imprensa é algo absoluto e ilimitado.
Face à posição sueca, começaram a ser tomadas algumas medidas. O ministro do Interior israelita, Eli Yishai disse que atuaria no sentido de evitar que jornalistas do diário sueco recebessem permissões de trabalhar em Israel. Nem a propósito, logo no Domingo, dois jornalistas do mesmo Aftonbladet dirigiram-se ao Gabinete de Imprensa do Governo (GIG) em Jerusalém requerendo acreditação de imprensa. O diretor do GIG instruiu os seus empregados para atrasar o maior tempo possível previsto na lei – até 3 meses – para rever o pedido dos jornalistas suecos.
De acordo com o diretor Danny Seaman, os tais jornalistas reagiram mal quando foram informados de que coisa iria demorar mais do que é costume. Os jornalistas receberem uma explicação da demora: há uma série de verificações a serem feitas, incluindo – disse em tom de piada – testes de sangue, para verificar os tipos de sangue dos repórteres e a sua elegibilidade para transplante de órgãos.
Outros apelaram a um boicote a companhias suecas como a IKEA (que tem apenas uma mas bem sucedida loja em Israel) ou a Volvo. Esqueceram-se dos eletrodomésticos Electrolux, dos carros Saab, dos telemóveis Ericson, da farmacêutica AstraZeneca ou das roupas H&M.
Podem alegar que a reação israelita terá sido exagerada. Afinal, quantas barbaridades e mentiras são escritas diariamente nos jornais do mundo inteiro? Até admito que nós, Judeus, somos um pouco histéricos quando falam mal de nós. Porém, há que lembrar que as feridas causadas ao longo dos séculos por acusações como estas são muitas e bem profundas.
PS – Mais uma vez, depois do infeliz episódio do jogo de ténis da Taça Davis há poucos meses em Malmö, a Suécia escreve uma triste página na sua história recente. Sintomático de um futuro promissor...
Quando abri o Clara Mente, há quase 5 anos (cinco anos!), não tinha ideia como iria correr esta pequena aventura pelo mundo dos blogues. Nem pensei que durasse tanto. A única propaganda que fiz do blog foi incluir o seu endereço no final dos meus e-mails, em tom de assinatura. O boca-a-ouvido fez o resto. Ao longo dos anos e dos artigos, fui ganhando alguns fãs.

A faixa original do Clara Mente.
Alguns anos passados, quando já havia deixado Portugal e o Clara Mente ter passado a ser quase exclusivamente sobre Israel e assuntos judaicos (ainda vou escrevendo um pouco de Portugal, nem que seja em termos de comparação com a minha realidade de outrora), o blog chegou a ser recomendado por duas vezes no portal de blogues do Sapo, o maior portal de Internet em Portugal. Na altura tive centenas de visitas inesperadas. É claro que a maior parte delas nunca mais voltaram. Afinal, tinham aqui entrado por engano, seguindo apenas o link no Sapo. Ainda assim, é possível que poucas tenham mesmo regressado...
Curioso em saber o que trazia os leitores desconhecidos até ao Clara Mente e de onde vinham, adicionei um pequeno componente na estrutura do blog que permite saber o país de cada pessoa que o visita. Não apenas detecta o país como também a cidade do visitante. De grandes cidades como São Paulo, Lisboa ou Londres, até lugares mais remotos como Chapecó (Santa Catarina, Brasil), Felgueiras (norte de Portugal) ou Sprinckange, no Luxemburgo. E, se chegou aqui através de uma busca em algum motor de busca, como o Google, o Sapo ou o UOL, consigo saber o que andou à procura.
Que mundo estranho!
Depois de analisar os dados que o tal componente me informa (só a mim), fico cada vez mais admirado com as coisas estranhas que as pessoas procuram na Internet. E ainda mais como é que elas chegam aqui procurando tais coisas!
Uma busca em temas judaicos e israelitas é absolutamente natural indicar o Clara Mente. Afinal, são esses os principais assuntos do blog. À cabeça das buscas nesta área estão as expressões "marrano", "blog marrano" e a angustiante pergunta "como saber se sou marrano?". O que não faltam são descendentes de anussim (conhecidos em português e espanhol pelo termo pejorativo "Marranos", que significa porco) a tentar descobrir as suas origens e como reencontrá-las. Chegaram ao artigo "Mais um (suposto) marrano". À procura de informação sobre o "hino de Israel", encontraram "Raízes portuguesas no hino de Israel". Até agora, básico.
A língua portuguesa e as suas diferenças entre os dois lados do Atlântico suscitam dúvidas. E toca a procurar no Google. A "diferença facto e fato", e o que é um "terno de portugual"? Quê? (Ah, só escreveram mal o nome atual da Lusitânia...) Os inquiridores saberão a resposta exata em "Facto é fato que é terno". A misteriosa expressão portuguesa "ora pois" intriga muitas mentes brasileiras e entram no blog por um artigo que eu espero que os esclareça, "Ora pois". Nem mais.
As coisas complicam-se quando alguém quer saber o que significa "tremor nas pernas" e encontram um artigo que nada tem a ver com tal sintoma de... alguma coisa. O mesmo se passa para quem padece de "dedos inchados e roxo", que encontra a história de uma queda por ter aleijado "O meu pé esquerdo". Começo a questionar-me seriamente sobre o método de busca do Google quando me deparo que alguém procurou "autocarro união do s´tão". Sim, de novo, assim mal escrito. E, estranhamente, um dos primeiros resultados é "Um autocarro para Moscovo" porque o artigo menciona autocarro, União Soviética e tem algures a palavra tão. Parece suficiente para ser encontrado.
A minúcia de quem quer achar uma agulha no palheiro que é a Internet é evidente em "estrutura e organizacão da polícia e seguranca publica na suéca e países escandinávos em 2009". Desculpe, deseja algo mais específico? Acho que não ficou muito informado sobre o assunto com o que escrevi em "Beleza escandinava", mas a verdade é que o indagador entrou por aí. Mais ainda em "blogs dos portugueses estudantes em roma de agosto de 2009". Sim, há gente interessada em encontrar algum estudante bloguista português que anda pela capital italiana. Não sou nem nunca fui estudante em Roma – ainda que a Cidade Eterna me fascine e gostasse de a visitar – e além disso passei o mês de Agosto de 2009 entre Alon Shevut e Jerusalém, tal como Julho, Junho, Maio, Abril...
Que há muita gente estranha no mundo, isso ninguém duvida. Que muita dessa gente estranha surfa na Internet também é sabido. O pior é constatar o que esta gente anda à procura. Exemplos: "como esvaziar a bagagem no perfect world ?" e "como preparar a mesa para uma sessao dos tov". Pois, eu também não entendi, mas foi isso mesmo que alguém procurou. No caso da bagagem, o Clara Mente aparece em primeiro lugar na lista dos resultados. No segundo, aparece em sexto. Houve ainda uma pesquisa por "oraçao para calar boca de falador". O anseio de uma alma desesperada por um milagre contra o tagarela encontrou o Clara Mente como o resultado mais promissor. Não perguntem como.
A minha curiosidade de saber quem aqui vem é genuína. Apesar de não ter muito feedback dos leitores, gosto de saber o que os traz por cá. A paixão – desde a infância – pela Geografia, leva-me a querer saber de que lugares deste nosso pequeno mundo chegam as pessoas que me vão lendo.
PS – Não se assustem os leitores que desejam o anonimato. O tal programinha que deteta de onde vêm e que buscas fazem, não permite saber quem são exatamente. E ainda menos lhes tira uma foto e a envia para a minha caixa de correio. Ainda.
Há poucas semanas, Yair, de 18 anos, o filho mais velho do Primeiro-ministro israelita Benyamin Netanyahu foi incorporado na Tzavá, o Exercito de Israel. Como todos os israelitas, também o filho do chefe de governo são obrigados a começar o serviço militar aos 18 anos. Os homens servem por três anos; as mulheres – sim, elas também – por dois anos. Tirando o facto do jovem Yair ser o único soldado do exército israelita com um guarda-costas, em tudo o resto ele será igual aos seus colegas de pelotão. No início terá de ultrapassar três semanas de treino militar básico. Como em todos os exércitos, começará de "soldado raso". A partir daí, poderá escolher o ramo das forças armadas que deseja integrar, de acordo com a classificação que adquiriu na altura da inspecção militar.

Soldado no porto de vigia no telhado da yeshiva de Hevron, Outubro de 2006.
A experiência militar é parte fundamental da vida em Israel e fonte de prestígio. As altas patentes militares usam as suas medalhas como credenciais para ascender na carreira política. Muitos políticos adquiriram fama no campo militar: Yitzhak Rabin tomou parte na conquista de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, Ariel Sharon liderou as tropas no Sinai na mesma guerra, Ehud Barak participou na operação antiterrorista de Entebbe, e o próprio Netanyahu foi membro de uma unidade de elite.
Ao contrário de Portugal, onde há já alguns anos a tropa é opcional, em Israel, poucos escapam à incorporação. À partida, todos os israelitas judeus são obrigados a cumprir o serviço militar. Dos não-judeus, apenas os Drusos e os Beduínos têm a mesma obrigação. Os Árabes israelitas – os Drusos e os Beduínos não são árabes – estão isentos de servir no Exército. No entanto alguns alistam-se de forma voluntária.
As mulheres cumprem um serviço militar mais curto que os homens e não integram unidades de combate, mas já podem ser piloto de aviões. A discussão mantém-se sobre o papel das mulheres na hierarquia e na realidade militar em Israel. Há anos uma jovem que tinha ganho o concurso de Miss Europa foi alistada como soldado. Obviamente foi notícia. Como comentou na altura o correspondente da SIC na sua reportagem: "Israel é o país onde a Miss Europa vai à tropa".
Apesar de obrigadas à incorporação, as mulheres podem optar por fazer aquilo a que se chama de "serviço nacional". A maioria das jovens judias religiosas escolhe esta opção, substituindo a tropa regular pela realização de trabalhos voluntários nas mais diversas áreas. Da assistência em hospitais, escolas ou lares de idosos até guias turísticos, trabalhos de arqueologia e proteção ambiental ou mesmo secretária dos serviços secretos, na maioria dos casos as jovens elegem funções relacionadas com a sua futura profissão. O “serviço nacional” é uma oportunidade preciosa de formação profissional e de pesquisa de mercado de trabalho.
Uma realidade recente são os refuseniks. Uns são “objectores de consciência”, os que por razões ideológicas são contra o uso de armas. Outros, mais problemáticos, são soldados que apesar de pertencerem ao exército, se recusam a cumprir ordens específicas como participar na evacuação de colonos (como aconteceu em Gaza), ou no extremo oposto, recusam-se a servir nos chamados Territórios Palestinianos.
Desde a fundação do Estado de Israel, os haredim ou judeus ultra-ortodoxos estão também isentos de ir à tropa, desde que estudem numa yeshiva. Porém, na última década foi fundada uma nova unidade de elite do exército, o Nahal Haredi, composta exclusivamente por soldados religiosos. Tirando a inexistência de mulheres nas suas bases e um maior tempo para rezar e estudar Torá, esta unidade segue as mesmas exigências do exército regular. Por ajudar a integrar os jovens na vida ativa pós-tropa, o Nahal Haredi passou a ser uma opção aceite para jovens de famílias ultra-ortodoxas normalmente hostis à entrada no serviço militar.
Para os judeus religiosos que não são ultra-ortodoxos, é também possível conciliar a experiência militar e os estudos judaicos, através do programa yeshivat hesder. Os jovens que escolhem este modo, estudam dois anos numa yeshiva, fazem pelo menos 18 meses de tropa e voltam mais um ano para a yeshiva. Algumas yeshivot têm já no seu currículo classes de preparação dos seus alunos para o exército, ensinando em especial os desafios de cumprir Shabbat durante a tropa.
Outra das particularidades de ser soldado em Israel é que, após a conclusão do longo serviço militar, todos os homens são considerados na reserva. Em Portugal, nos tempos idos do serviço militar obrigatório, "ficar na reserva" praticamente significava "livrar-se da tropa". Pelo contrário, em Israel a "reserva" obriga à prestação de um período de serviço militar extra, chamado miluim, que pode chegar a um mês por ano. Isto, até aos 40 anos. Num país com uma situação de segurança tão delicada "fazer miluim" é a oportunidade de melhorar o treino e atualizar as capacidades dos soldados após o final da tropa.
Existe o costume que os jovens recém saídos da Tzavá façam uma longa viagem pelo Mundo no ano seguinte ao final da tropa. Os destinos favoritos são o Oriente, com as praias de Goa e as trilhas de montanha do Nepal e de Caxemira, a Tailândia e o Cambodja pejadas de mochileiros israelitas. A América Latina, com o Brasil, a Patagónia, o Peru e a Colômbia são destinos cada vez mais populares.
Imigrado para Israel aos 30 anos, fiquei automaticamente isento de cumprir o serviço militar. Com essa idade, se me alistasse com voluntário, teria de fazer uns 6 meses de tropa. Tenho de confessar que, por um lado, me arrependi de não o ter feito. Além de ser uma experiência importante em termos de integração no país, um reconhecimento da contribuição dos militares para a existência de Israel, ainda me ajudaria imenso a desenvolver o meu hebraico.
Porém, tenho de recordar-me que, em 26 de Junho de 2007, imediatamente antes de tomar o autocarro na Batalha rumo ao aeroporto, para viajar como imigrante para Israel, na hora da despedida prometi à minha mãe que não iria à tropa. Cumpri a minha promessa.
A situação de segurança entre Israel e o Líbano nunca é muito garantida. Apesar da presença de mais de dez mil soldados das Nações Unidas com a missão de patrulhar a região fronteiriça e evitar as escaramuças, a conjuntura permanece tensa. Em especial para os habitantes da região.
Um dos casos mais bicudos é o da aldeia de Ghajar, situada nos montes Golan. Conquistada por Israel na Guerra dos Seis Dias, junto com a restante região dos Golan, os seus habitantes aceitaram ser cidadãos de Israel. A aldeia cresceu em direção ao norte durante a ocupação israelita do Sul do Líbano incorporando na sua área território libanês. Com a retirada do exército de Israel em 2000, as Nações Unidas determinaram que a fronteira entre os dois países passaria pelo meio da aldeia.

Ghajar, vista do parque de Tel Dan no norte de Israel.
Desde a retirada israelita, o local transformou-se num ponto de contrabando de artigos roubados em Israel e da entrada de mercadoria proibida, em especial drogas. Após a Segunda Guerra do Líbano, Israel manteve uma presença militar na área e construiu uma cerca em redor da parte norte da aldeia. Há poucos meses, o governo de Israel planeou a retirada da parte norte da aldeia, reconhecida como território libanês.
Face à retirada israelita, os habitantes locais temem as represálias do Hezbollah. Nas palavras do líder muçulmano da aldeia: “Nós não queríamos ser refugiados em Israel, por isso recebemos sobre nós a cidadania israelita com a Lei do Golan, e agora nós não estamos dispostos a ser refugiados no Líbano e ser massacrados pelo Hezbollah. A divisão da aldeia de Ghajar é uma pena de morte para nós, é o equivalente a sermos apanhados para ser mortos no meio da praça”. É sabido como a guerrilha terrorista libanesa trata os traidores, por isso, o mais provável é que pouco tempo após a retirada israelita e consequente divisão da aldeia, uma boa parte da população, ou pelo menos os homens, fossem massacrados.
Esta atitude de retaliação não é exclusiva do Hezbollah. Aquando do assalto do Hamas à Faixa de Gaza, em 2007, houve centenas de mortos em confrontos entre membros da Fatah e do Hamas. (Aliás, alguém ouviu falar disto nas notícias? Alguém viu protestos em frente às embaixadas da Palestina nessa Europa tão humanista?) Face à superioridade numérica e militar do Hamas, os militantes da Fatah – o movimento do presidente da Autoridade Palestiniana – correram para os postos de fronteira da Faixa, a fim de serem socorridos por Israel.
O que não deixa de ser uma tremenda ironia. Ainda esta semana, num congresso da organização, a Fatah declarou não aceitar a existência de Israel como um estado judaico; não desistir da questão do regresso dos refugiados palestinianos, a qual a realizar-se significaria o fim de Israel (ou não fosse essa a principal razão da insistência nessa questão).
Quando as coisas estão calmas, os Árabes tentam de tudo para destruir Israel e negar o seu direito a existir. Porém, quando a briga estala entre árabe e árabe, perante a morte certa às mãos dos seus irmãos palestinianos, não têm vergonha de buscar a providencial ajuda do grande inimigo sionista.
Três vezes ao dia, durante os serviços religiosos, os judeus rezam pela reconstrução de Jerusalém. É o desejo de retomar a antiga glória perdida da cidade, antes da destruição pelos Romanos. Vemos que, mesmo em tempo de crise, as bênçãos têm funcionado. Pelo menos aparentemente. Em Jerusalém, as obras de grande envergadura não param. A maior delas é a mal-fadada rakevet kalá, o "metro ligeiro de superfície". Há mais de três anos, vem esburacando a cidade de ponta a ponta, deixando o centro em estado caótico e, por toda a capital o trânsito à beira do impossível.
A polémica, megalómana, mas linda ponte de Santiago Calatrava para a passagem do tal "metro ligeiro" foi inaugurada há um ano. Ainda que se mantenham as dúvidas em relação ao final das obras e início do funcionamento da rakevet. Apesar de pronta, hoje serve apenas como novo local de fotos de turista e de passagem de peões e ciclistas num dos cruzamentos principais da Cidade Santa. O orçamento da obra já foi várias vezes multiplicado em relação ao valor inicialmente estimado. As derrapagens nas obras públicas não são só em Portugal...
Também fora dos cálculos – e dos carris – está a obra do comboio rápido Jerusalém-Tel Aviv. Destinada a aproximar as duas principais cidades do país e inverter assim a saída de habitantes e trabalhadores da capital em direção à costa, a obra enfrenta as dificuldades do terreno montanhoso, dos arrojos arquitetónicos necessários para vencer vários lanços de túneis e viadutos e a desconfiança dos ecologistas.
Ainda assim, mesmo em frente à Gare Central de Jerusalém, e ao lado de uma das bases da ponte de Calatrava, prossegue a escavação da futura estação de comboio. Para compensar a localização elevada da cidade e evitar que a linha de comboio tenha um declive demasiado acentuado para as altas velocidades a que pretende funcionar, a solução foi descer a localização da estação. Ou seja, será uma enorme obra subterrânea: a 80 metros de profundidade.
Outra das obras polémicas é a nova residência oficial do Primeiro-Ministro. É um monumental projeto de dezenas de milhões de dólares junto à Kiryat Hamemshala, a Cidade do Governo, o complexo dos novos edifícios governamentais construídos nos últimos anos em redor da Knesset, o Parlamento de Israel. Depois de tanta discussão pelos gastos excessivos na palacial obra para servir de domicílio oficial e local de trabalho do chefe de governo, o tamanho da casa vai ser reduzido.
Envolta em controvérsia está também um novo museu na capital, o Museu da Tolerância. Baseado no museu homónimo de Los Angeles, a sucursal de Jerusalém já promete discussão. Não tanto pelo audacioso projecto arquitectónico de Frank Gehry (autor do famoso Museu Guggenheim de Bilbau), mas mais pela localização da obra: sobre um antigo cemitério islâmico desativado. Para um museu destinado a promover a convivência dos povos, o facto de a sua construção implicar a remoção de campas de um dos povos envolvidos no conflito na região é, no mínimo, falta de tacto...
A poucos metros da projectada obra do Museu da Tolerância, avançam as obras do luxuoso Hotel Waldorf-Astoria e, do lado oposto do mesmo cruzamento, foi inaugurado há poucas semanas o exclusivo Hotel Mamilla. O turismo israelita, apesar da crise internacional, parece não ter sentido um retrocesso acentuado, pelo menos em Jerusalém.
Um dos mais eloquentes exemplos da transformação de Jerusalém – um autêntico renascimento das cinzas – é a reconstrução da antiga sinagoga de Rabbi Yehuda Ha'Hassid. Arrasada, junto com a quase totalidade do Bairro Judeu da Cidade Velha, pelo exército jordano na Guerra da Independência de Israel, foi apenas um monte de ruínas durante a ocupação jordana de Jerusalém Oriental, entre 1949 e 1967. Após a reunificação israelita da cidade em 1967, foi reconstruído um dos arcos da fachada. Ficou conhecida como Ha'Hurva, "a Ruína". Em 2005, foram iniciadas as obras de reconstrução seguindo o antigo aspeto da sinagoga. Situada junto à Yeshivat HaKotel, tenho seguido, dia-a-dia, a progressão da obra daquela que já foi a maior sinagoga do país.
Na cidade mais pobre de Israel – que é Jerusalém, acredite-se ou não – a construção de prédios de habitação de luxo não pára. Destinados a milionários judeus estrangeiros, urbanizações de alto nível avançam em praticamente todos os cantos da cidade. Porém, serão deixadas vazias na maior parte do ano, uma vez que os seus donos têm residência fixa em Nova York, Miami ou Londres. O apartamento de Jerusalém, por mais luxuoso que seja, será só para umas curtas semanas de férias, de vez em quando.
Um dos mais recentes espaços cobiçados pelos imobiliários é o Vale da Gazela, um espaço semi-abandonado próximo ao shopping Malcha, entre o estratégico cruzamento Pat e a via-rápida Begin. É o habitat de uma outrora numerosa manada de gazelas – daí o seu nome. Hoje só restam quatro animais, já que o bando tem sido sucessivamente dizimado por matilhas de cães selvagens ou atropelamentos fatais na via-rápida vizinha. Os ecologistas e parte da opinião pública querem preservar o espaço como área natural, um dos poucos grandes espaços ainda intactos no território da cidade. Os empreiteiros, obviamente, querem aproveitar a localização estratégica para erguer um novo bairro.
Alguns projetos polémicos têm sido erigidos em bairros de população maioritariamente árabe. Um deles é o tão falado Hotel Shepard, um edifício originalmente pertença do antigo mufti (líder religioso muçulmano) Amin al-Husseini, apoiante de Hitler e instigador das revoltas anti-judaicas na antiga Palestina Britânica que causaram a morte de centenas de judeus antes da independência. Há vários anos, o edifício foi adquirido por um milionário americanos defensor da colonização judaica na Terra Santa e hoje pretende transformá-lo num novo condomínio judaico.
Ainda que as gruas de construção civil sejam uma visão comum em toda a cidade, os preços das casas não têm parado de aumentar. A solução para muitos jovens tem sido procurar casa nos arredores. A falta de habitação para as classes média e baixa é evidente e a solução para os menos abonados é deixar a capital. A cidade perdeu dezenas de milhar de habitantes na última década. Esta sangria de habitantes é agravada pela falta de empregos. Daí os planos anunciados para desenvolver o ramo da indústria farmacêutica e da alta-tecnologia na capital.
A bênção pela reconstrução de Jerusalém parece não ser correspondida pelas ações dos empreiteiros. Preocupados mais com a promoção do luxo para domicílio ocasional de forasteiro do que com a fixação dos que desejam fazer de Jerusalém o seu lar. A cidade vai apresentando uma cara nova – um verdadeiro lifting – mas é mais para estrangeiro ver.
Israel não é exceção à regra mundial da recessão económica. Também aqui se fazem sentir os abalos da crise mundial, resultado de uma economia moderna e com fortes ligações ao estrangeiro. Uma das áreas mais afetadas é o negócio dos diamantes, do qual Tel Aviv é um dos principais centros mundiais de lapidação e de comércio.
As principais empresas israelitas têm participação de empresas estrangeiras, em especial americanas. Ao mesmo tempo, boa parte dos negócios das companhias locais é feito em outros países. De acordo com as estatísticas, Israel será, após os EUA e o Canadá, o país com mais empresas cotadas no NASDAQ, o índice das empresas tecnológicas da Bolsa de Nova Iorque. Basta este dado para perceber a exposição do país à influência da situação económica internacional.
O recente escândalo financeiro realizado por Bernard Madoff afectou com especial severidade inúmeras fundações filantrópicas judaicas americanas, as quais por sua vez patrocinavam outras instituições em Israel. Yeshivot, organizações de caridade e de desenvolvimento de projectos no país foram especialmente afectados pela bancarrota de Madoff.
Milhares de famílias em Israel, em especial as famílias numerosas dos judeus ultra-ortodoxos, são mantidas em grande parte com ajudas de organizações de caridade. Muitos dos habituais doadores para causas israelitas, falidos pelo esquema de Madoff ou simplesmente afetados pelo panorama sombrio nas finanças mundiais, reduziram as suas contribuições.
Depois da crise nos têxteis – também por cá a mão-de-obra mais barata do Oriente cortou postos de trabalho –, e nas empresas de produção agrícola, até o outrora robusto sector das novas-tecnologias – principal base da economia de Israel – foi afectado pelo recuo económico internacional. Milhares de trabalhadores dispensados, redução das horas de trabalho e do respetivo salário e congelamento das contratações foram a regra durante os últimos meses.
As universidades e centros de investigação da área tecnológica deixaram de parecer tão atrativos para os jovens que escolhem uma futura carreira profissional. Ao contrário do que vinha acontecendo nos últimos anos. Ainda assim, a área das novas tecnologias, como a bioquímica e as novas energias são apostas de muitos jovens. A crise (como a bonança) não é eterna.
Há anos que a moeda israelita, o novo shekel, se tem valorizado progressivamente em relação ao dólar e ao euro. Até ao ano passado, as rendas das casas eram cobradas em dólares, mas face à acentuada desvalorização da moeda dos EUA, passaram a ser cobradas diretamente em shekels. A moeda forte – ainda mais depois de o shekel ter passado a integrar o grupo de divisas que podem ser cambiadas em todo o mundo – é boa para as centenas de milhar de israelitas que passam férias no estrangeiro. Porém, é má para as exportações israelitas.
Morar em Israel esteja cada vez mais caro. Tel Aviv é mesmo a cidade mais cara do Médio Oriente. Mais ainda do que as metrópoles dos petrodólares e da megalómana arquitectura futurista de Abu Dhabi e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. E a nível mundial é a 17ª cidade mais cara, ao nível de Roma e Nova Iorque.
Em Jerusalém, com crise ou sem ela, a verdade é que os mercados de rua, os supermercados, os cafés e restaurantes e os centros comerciais estão sempre bem apinhados. Os turistas enchem a Cidade Velha. O principal clube de futebol da capital, o Beitar, recebeu uma lufada de ar fresco de um milionário brasileiro. A Macabíada, uma espécie de Jogos Olímpicos Judaicos realizados em Israel a cada 4 anos, realizou-se com pompa e milhares de atletas, apesar dos apertos nas finanças e do receio da gripe A. Ou seja, a crise bate às portas, mas não as deita abaixo. Pelo menos a todas.
O ministério da Educação de Israel, preocupado em incutir uma maior identificação com os símbolos nacionais nos estudantes do país, renovou o currículo sobre a história e o significado do Hatikvá, o hino nacional de Israel.
Para ser distribuído nas escolas seculares e religiosas do estado - mas não nas escolas ultra-ortodoxas e árabes, pouco recetivas àquilo que consideram "propaganda sionista" - a nova informação sobre o hino israelita deverá ser incorporada nas matérias das diferentes disciplinas. Novas pesquisas foram feitas sobre a origem da letra e da melodia do hino nacional israelita.
Até agora era aceite que a melodia tem origem numa balada do folclore da Roménia. No entanto, foi descoberta uma fonte mais antiga, num texto de 1330 escrito com as anotações musicais da época, numa antiga sinagoga portuguesa.
Da próxima vez que cantar o hino de Israel vou tomar mais atenção à melodia. Talvez até consiga detectar nele algum tom de fado.
Os colonatos judaicos ainda são uma opção mais económica em relação ao crescente preço das casas nas principais cidades de Israel. Na região de Jerusalém, as opções são Gush Etzion, Maale Adumim ou Beitar e outras dezenas de colonatos mais pequenos. Porém, até aí os preços das casas têm aumentado. Por exemplo Beitar Illit, um gigantesco colonato de população ultra-ortodoxa, tradicionalmente bem mais barato que Jerusalém, já começa a ser demasiado caro para as novas famílias. Muitos casais jovens apenas conseguem arrendar uma cave apertada, com a perspetiva de terem de viver aí com as suas famílias que crescem rapidamente.

Nuvens ao pôr-do-sol sobre o colonato de Efrat, 2006.
Numa época de recessão generalizada nos preços imobiliários, o aumento dos valores das casas nos arredores de Jerusalém deve-se em grande parte às crescentes pressões americanas de congelamento da construção nos colonatos. Os colonatos dos arredores, assim como o recente bairro de Har Homa no sudeste de Jerusalém, eram as opções ideais para quem procurava casas espaçosas e baratas.
Todavia, a gravidade da crise nos EUA que fez aumentar em 15% a imigração de judeus americanos para Israel e a chegada em massa de imigrantes franceses – por via da vaga de anti-semitismo que tem assolado a França na última década –, ambos com maior poder de compra que o israelita médio, fizeram agravar os preços. As leis de mercado são claras: com pouca oferta e muita procura, o resultado foi o disparo do preço das casas em toda a região de Jerusalém.
O ritmo da construção nos colonatos abrandou após a eleição de Obama para a presidência americana, o qual não tem parado de pressionar Israel para congelar toda e qualquer colonização dos territórios disputados com os Palestinianos, incluindo o "crescimento natural da população". Ou seja, os filhos de colonos que se casem, não poderão viver junto aos pais, porque qualquer nova construção – na mente de Obama e da nova administração americana – é ilegal. No fundo, o que se pretende é abolir o mandamento "crescei e multiplicai-vos".
Ainda assim, desafiando as pressões, algumas ordens de novas construções foram emitidas pelo governo para os colonatos de Maale Adumim, Adam e Modi'in. A população local exige do governo que se preocupe mais com os seus cidadãos do que com as pressões oportunistas do "amigo americano".
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