Sexta-feira, 15 de Março de 2013

Habemus "chaver" no Vaticano

Março de 2013, Papa Francisco na capa da revista Time.

Dezembro de 2012, o arcebispo Bergoglio acende uma vela de Chanucá numa sinagoga de Buenos Aires.

Com a eleição do novo Papa, é possível pensar na questão do ecumenismo e o diálogo entre Católicos e Judeus. Várias autoridades judaicas felicitaram o escolhido no conclave de 13 de Março. O entusiasmo pela escolha dos cardeais é visível nos círculos judaicos. A começar pelo presidente da República de Israel, Shimon Peres, que convidou o Papa Francisco a visitar Israel o mais breve possível. Ressalvou que as relações do Vaticano com a comunidade judaica estão agora “no melhor nível dos últimos 2000 anos”.

O Rabinato-Chefe de Israel declarou-se satisfeito com a escolha do novo líder da Igreja Católica, expressando os desejos que com o “Papa Francisco, cujas boas relações com o Povo Judeu são bem conhecidas, manterá o mesmo espírito e fortalecer e desenvolver as ligações da Igreja Católica com o Estado de Israel e o Povo Judeu”.

Jorge Mario Bergoglio, até agora Arcebispo de Buenos Aires tem sido uma figura ativa no ecumenismo na América Latina e notado pela relação amistosa com a comunidade judaica, a maior do continente sul-americano. Em Novembro passado, Bergoglio acolheu na catedral de Buenos Aires uma cerimónia evocativa da Kristallnacht, a Noite de Cristal. E em Dezembro, durante a celebração judaica de Chanuká, foi convidado para acender a quinta vela do candelabro numa sinagoga de Buenos Aires.

O Rabino David Rosen, diretor dos assuntos inter-religiosos do Comité Judaico Americano e que tem desempenhado a função de interlocutor do Rabinato-Chefe de Israel para as relações com o Cristianismo, relevou que “o Povo Judeu não poderia ter pedido uma escolha melhor em termos de relações Judaico-Católicas. Nenhum papa antes tinha sido um cardeal com tão próximas relações com uma comunidade judaica”.

Há menos de dois anos, participei numa palestra apresentada pelo tal Rabino David Rosen. Ele destruiu alguns mitos das relações judaico-cristãs. Os quais, de uma perspectiva judaica parecem piores do que são... Na ocasião, questionei-o sobre uma notícia recente que lera num influente diário israelita sobre uma reunião de bispos católicos do Médio Oriente. Na notícia, constava que uma das conclusões dessa reunião fora uma acusação contra Israel pela alegada perseguição aos cristãos (o que seria uma enorme injúria, uma vez que Israel é o único país da região onde existe plena liberdade de culto e onde a comunidade cristã tem crescido). O Rabino veementemente condenou o conteúdo da notícia, negando que essa declaração tenha existido nesses termos.

Ó, a nossa tendência de pintar de negro a nossa própria realidade. Como alguém disse, quando o judeu se esquece que é judeu, o anti-semita faz o favor de o lembrar. Em boa medida, nós parecemos alimentar a nossa identidade judaica à custa do anti-semitismo. (Ou não fosse o anti-semitismo em geral, e o Holocausto em particular, um pilar da atual identidade e mentalidade judaica. Mas isso é um assunto que merecia um artigo à parte).

As coisas parecem ser melhores entre Judeus e Cristãos do que nos parece. E ainda bem. Mas, porque será que apenas parece? Porque, apesar de haver um diálogo ecuménico permanente entre as autoridades religiosas judaicas e o Vaticano, essa boa relação não é ensinada aos leigos, ao povo de cada um dos lados? Muitos católicos mantêm opiniões anti-semitas. E muitos judeus continuam a perpetuar a histórica inimizade entre as duas religiões. Haverá alguma vergonha em destruir pela raiz os mitos e ódios mútuos que foram alimentados durante séculos?

Nota: Para os menos literados na língua hebraica, chaver significa amigo. Esperamos realmente que "Assim seja".

publicado por Boaz às 10:05
link do artigo | Comente | ver comentários (1) | favorito
Sábado, 17 de Novembro de 2012

Quando a sirene toca, de verdade

As velas de Shabbat estavam acesas há poucos minutos. Com a minha filha mais velha, de quase 4 anos, saí de casa para a sinagoga, a menos de 500 metros de distância. O céu azul do final da tarde, pontilhado de nuvens, tinha uns tons alaranjados no Ocidente. Senti uma gota de sorte por estarmos longe de Gaza. Pensei como iriam passar o Shabbat os habitantes da região costeira de Israel, entre a Faixa de Gaza e Tel Aviv.

Há dois dias, uma nova guerra começara na região de Gaza e do sul de Israel. Quer dizer, a guerra nunca tinha realmente terminado. Desde a retirada militar israelita da Faixa, no Verão de 2005, as cidades israelitas nas proximidades do território palestiniano eram atingidas com frequência por mísseis lançados por terroristas palestinianos. Primeiro os mísseis eram artesanais e com fraca precisão. Com o passar dos anos e o aumento do tráfico de armas iranianas, líbias e sudanesas para a Faixa, o arsenal do Hamas tornou-se mais sofisticado, atingindo cidades cada vez mais distantes.

Na sexta-feira, pela primeira vez em mais de 20 anos, as sirenes de alarme soaram em Tel Aviv, desde que Saddam Hussein retaliou a invasão americana com uma chuva de Scuds sobre Israel. Na tranquilidade de Gush Etzion, lugares como Tel Aviv, Ashdod ou Ashkelon – onde o soar das bombas e das sirenes eram agora realidades presentes –, esta nova guerra parecia, mais uma vez, remota. Um vizinho brasileiro tinha sido chamado para a base. Um dos 16 mil soldados reservistas convocados para uma possível operação militar em Gaza. A esposa, com os dois filhos ficou em casa sem saber a data de regresso do marido. Tanto podem ser alguns dias, como semanas.

Na sinagoga, como habitualmente era a hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que marca o início do Shabbat. Sem paciência para ficar sentada no banco da sinagoga, a minha filha pediu para voltar para casa. Deixei-a ir, avisando que não podia ir para outro lugar. A congregação levanta-se para entoar o cântico Lechá Dodi. A meio da segunda estrofe, o uivo da sirene de alarme soa por toda a aldeia. Não é um simulacro, como os que acontecem pelo menos uma vez por ano, mas uma sirene de alarme verdadeira. Alguns dos congregantes continuam a cantar, outros param sem saber o que fazer. O gabai, responsável pelo funcionamento da sinagoga, interrompe o serviço e pede para todos descermos para o andar inferior da sinagoga, conforme indicações do Serviço de Emergência Civil.


Habitantes de uma cidade do Sul de Israel observam os rastos dos mísseis lançados de Gaza.
Ao soar a sirene de alarme, os habitantes devem abrigar-se num lugar coberto.
Quem está demasiado longe deve deitar-se no chão.

“Onde está a minha filha? Agora mesmo a mandei para casa e ela está na rua sozinha!”, pensei alarmado. Olhei para o hall de entrada da sinagoga. Fiquei um pouco aliviado ao ver que ela ainda não tinha saído. Corri a pegá-la ao colo e abracei-a forte. O aperto do abraço foi mais para mim do que para ela, que felizmente não entendia o que se passava. Descemos as escadas para o andar de baixo, mais seguro e longe das janelas do hall.
– “Porque nós temos de descer as escadas”?, perguntou a menina.
– Este som forte significa que é perigoso, temos de ir para o abrigo. Tentei explicar-lhe a situação.
– O barulho da ambulância?
– Não, chama-se azaká (sirene, em hebraico). Parece o som de uma ambulância, mas não é.

Na escuridão, alguns homens continuavam a entoar Lechá Dodi. Tive vontade de chorar, uma ou duas lágrimas escorreram-me pelo rosto. A sensação de incerteza é avassaladora. Apertei ainda mais a minha filha. Alguns minutos depois, ainda um velhinho descia as escadas amparado por um braço caridoso, a maioria da congregação decidiu voltar para o santuário da sinagoga. “O Serviço de Emergência Civil diz que devemos esperar 10 minutos antes de voltarmos”, avisou um homem. Ninguém o ouviu. Como os israelitas gostam de desafiar as regras… O serviço religioso prosseguiu (quase) como se nada tivesse acontecido. No final, rezámos um salmo especial, em honra dos soldados israelitas e dos residentes das cidades sob a mira dos mísseis do Hamas.

Durante quase todo o Shabbat, despertava-me a cada vez que o vento soprava com mais força nas árvores das redondezas, pensando tratar-se do início do uivo de mais uma sirene de alarme. Em todas as casas, o assunto na mesa de Shabbat foi obviamente a inédita azaká que soara em Gush Etzion. Uma senhora, que deixara o rádio ligado para poder receber informações de segurança durante o Shabbat, informou que ouvira que o míssil tinha caído a Norte de Jerusalém.

Na manhã seguinte, outros informaram que o míssil caiu na região de Nokedim, apenas alguns quilómetros a Oriente, no deserto da Judeia. Vários vizinhos relataram terem visto o rasto de fumo do míssil a cruzar os céus nas redondezas. No final do Shabbat, busquei nas notícias informações mais precisas sobre o ocorrido. Confirmou-se a caída do míssil no deserto da Judeia. Achei inacreditável o ataque. Toda a região fica rodeada de cidades árabes! Hebron, com 150 mil habitantes fica 25 km a sul. Belém, com 50 mil, e Jerusalém, onde residem mais de 200 mil Árabes, ficam a menos de 10 km do local atingido.

Não sabemos o que se vai passar nos próximos dias. Entretanto, outros 75 mil soldados reservistas foram convocados. Uma operação terrestre em Gaza com infantaria ligeira e pesada é algo extremamente arriscado. O risco de baixas numerosas no Exército de Israel e o possível sequestro de soldados é algo que pesa nas decisões dos líderes israelitas. Na região costeira do país, num raio de até 40 km de Gaza, amanhã não haverá aulas. Aqui em Gush Etzion, tal como em Tel Aviv, ao contrário de outras guerras no passado, ninguém pensará desta vez que tudo acontece lá longe. Afinal, estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 20:27
link do artigo | Comente | ver comentários (3) | favorito
Terça-feira, 10 de Julho de 2012

Morto e envenenado (por esta ordem)

Quase oito anos depois da sua morte, Yasser Arafat é ressuscitado. Apenas nas notícias (Alá seja louvado).

Uma investigação divulgada pela rede de televisão Al-Jazeera revelou que altos níveis do elemento radioativo polónio-210 foram encontrados em alguns objetos pessoais de Arafat. Os objetos estavam na posse de Suha Arafat, a viúva do histórico líder palestiniano e foram analisados pelo Instituto de Física Radiactiva de Lausanne, na Suíça. A morte de Arafat, num hospital de Paris a 11 de Novembro de 2004, continua a ser fonte de muita especulação, aumentada pela não realização de uma autópsia. A divulgação do relatório médico integral foi sempre recusada tanto pela viúva como pela Autoridade Palestiniana. As teorias acumulam-se.


Guarda de honra no túmulo de Yasser Arafat, na Muqata, o complexo governamental
da Autoridade Palestiniana, em Ramallah (Tristam Sparks, Wikipedia)

O médico pessoal de Arafat durante 18 anos, Ashraf al-Kurdi, que o assistia permanentemente, mesmo em caso de um simples resfriado, não teve qualquer acesso ao líder palestiniano quando o seu estado de saúde se deteriorou gravemente em Novembro de 2004. A viúva Arafat proibiu-o até de visitar Arafat no hospital francês onde estava a ser tratado e, posteriormente, de inspeccionar o cadáver. Apesar das opiniões dos médicos franceses que foram divulgadas não terem sido conclusivas para apurar a causa de morte de Arafat, Suha também recusou a realização de uma autópsia. Haveria algo a esconder? Decerto, se fosse algo que facilmente incriminasse Israel, uma autópsia teria sido feita sem demora...

Resultados divulgados em 2005 indicaram que Arafat morrera de um acidente vascular cerebral desencadeado por uma doença desconhecida. Análises desses resultados sugeriram como causa de morte uma infecção, envenenamento ou até Sida. Apesar dos seus numerosos rivais entre o aparelho político palestiniano, suspeitas de um envenenamento recairiam sempre sobre Israel. (Quem mais?)

A suspeita de morte devido a Sida foi uma das mais difundidas em várias investigações dos relatórios médicos parciais. De acordo com fontes do governo americano, a CIA tinha conhecimento da doença de Arafat, e recomendou a Israel não assassinar o líder palestiniano. Ao falecer com a doença, Arafat ficaria irremediavelmente desacreditado pelos rumores relacionando a Sida à homossexualidade. Aliás, a alegada homossexualidade de Arafat foi documentada em 1987, no livro Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief, ("Horizontes Vermelhos: Crónicas de um chefe espião comunista") de Ian Mihai Pacepa, um antigo general da Securitate, o serviço secreto da Roménia comunista. O livro, que descreve entre outros assuntos a relação próxima entre o KGB, a Securitate e a OPL, relata que durante as suas visitas a Bucareste (Arafat era um protegido do regime de Ceausescu e fora treinado pelo KGB nos anos de 1970-80) o quarto do líder da OLP estava sob escuta. As orgias entre Arafat e os seus guarda-costas alemães-orientais eram gravadas e foram relatadas detalhadamente por Constantin Munteaunu, o general romeno destacado para a OLP.

Mas voltando ao polónio descoberto nos bens pessoais de Arafat. Esse elemento radioativo tem uma "meia-vida" de 138 dias, o que significa que metade da substância se degrada a cada quatro meses e meio. Porém, oito anos após a morte de Arafat, o relatório dos cientistas suíços refere níveis altos da substância. Ely Karmon, especialista em terrorismo nuclear, biológico e químico do Instituto de Contra-terrorismo de Herzlyia, explicou que "Se tivesse sido usado para envenenamento, níveis mínimos seriam encontrados nesta altura. Todavia, níveis muito mais altos foram encontrados. Alguém colocou o polónio muito mais tarde." O mesmo investigador questionou-se sobre alguns dados da investigação da Al-Jazeera. "Se Suha Arafat guardou estes objetos contaminados, porque sete anos depois ela não foi também envenenada? Ela tocou estes pertences de Arafat no hospital". A profundidade da investigação da televisão Al-Jazeera foi também questionada, entre outros pontos, por não ter sido verificada a existência de polónio nas casas de Suha em Paris e Malta. Além disso, as informações divulgadas pelos médicos franceses que trataram Arafat não coincidem com um envenenamento com polónio.

O governo de Israel negou qualquer envolvimento nos novos rumores sobre a morte do líder palestiniano. Paul Hirschon, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mostrou-se céptico em relação às novas suspeitas, gracejando: "De repente, Suha estava a verificar o seu cesto de roupa suja e descobriu coisas que não foram lavadas há oito anos. Subitamente, umas peças de roupa aparecem; são testadas e pronto! Têm polónio!"

Como se nada de mais grave acontecesse no Médio Oriente, a Liga Árabe convocou uma reunião para debater as novas alegações sobre a misteriosa morte de Arafat. Os milhares de mortos na guerra civil da Síria; a insegurança no Iraque, Iémen e Bahrain; o fanatismo islâmico e o terrorismo que daí provém; o Irão em trajetória nuclear; as mulheres tratadas como objectos; os cristãos, bahaí’is e opositores políticos perseguidos; os jovens desempregados e sem futuro; a corrupção dos regimes e milhões de cidadãos sem direitos, todos podem esperar pelas decisões dos xeques e ditadores árabes.

Agora, como há mais de 50 anos, os árabes esperam pela resolução dos seus problemas. E, agora como há mais de 50 anos, os seus líderes adiam a discussão desses mesmos problemas, até que a Palestina e os seus mitos sejam resolvidos. Onde quer que esteja, Yasser Arafat estará exultante, com mais uma das suas bem montadas encenações.

publicado por Boaz às 22:57
link do artigo | Comente | favorito
Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

A onda africana

Durante os dois últimos anos que estudei na yeshivá, um dos empregados da limpeza era um africano, não judeu. Um dia, a caminho de casa ao final da tarde, encontrei-o no autocarro. Sentei-me ao seu lado. Devido ao seu limitado hebraico, tentei comunicar com ele em inglês. Ao saber que era da Eritreia, mencionei o primeiro nome do presidente do seu país: "Isaias" [Afwerki]. Fez uma cara de desaprovação e comentou "Mau, muito mau". Pouco mais falámos, ele desceu pouco depois do autocarro.

Nas últimas semanas, a atualidade israelita foi marcada pela questão dos africanos ilegais no país e o que fazer com eles. Esta semana, o governo decidiu levar a cabo uma acção de prisão de centenas de residentes ilegais e posterior deportação para o Sudão do Sul. Pagando a viagem de regresso ao seu país, que obteve a independência há cerca de um ano, e entregando 1000 euros por adulto e 500 por cada criança, o governo pretende resolver, ou pelo menos minorar, o problema dos residentes ilegais em Israel.


Israelitas manifestam-se contra os imigrantes ilegais africanos num bairro de Tel Aviv. No cartaz:
"E regressarão os sudaneses ao Sudão", um jogo de palavras baseado no versículo "E regressarão os filhos às suas fronteiras".

Infiltrados, refugiados, sudaneses, africanos, são várias as denominações destes imigrantes ilegais. É um fenómeno que começou há alguns anos. Fugindo da guerra, da perseguição étnica e da miséria, dezenas de milhar de africanos têm entrado em Israel pela fronteira egípcia. A maioria provêm da Eritreia, do Sudão e do recém-independente Sudão do Sul. Todos chegaram a Israel depois de uma longa e perigosa saga pelo deserto do Egito. Incontáveis imigrantes são baleados pelo exército egípcio para evitar que cruzem a fronteira com Israel.

Ao atravessarem o Sinai, última etapa antes da chegada à fronteira israelita, muitos são capturados por gangues de Beduínos. Às mãos destes traficantes de gente, e encerrados semanas ou meses em campos de prisioneiros montados a poucos quilómetros da fronteira, são sujeitos a violências de vária ordem, incluindo tortura e violação. Para serem libertados, são obrigados a contactar familiares ou amigos já residentes em Israel, para tentar angariar dinheiro para o seu resgate. Os que falham na colecta do dinheiro, que ascende a vários milhares de dólares, são mortos. Em alguns casos, os seus órgãos são extraídos e vendidos para redes internacionais de tráfico de órgãos. O caos político e social no Egipto; o vazio de poder na península do Sinai, transformada numa “Terra Sem Lei” dominada por traficantes de armas, gente e drogas; o pouco interesse que o assunto merece nas esferas do poder no Cairo e menos ainda entre os diplomatas internacionais, perpetua este negócio de tortura e escravidão de milhares de africanos.

A libertação às mãos dos traficantes Beduínos do Sinai não garante a entrada em Israel. Ainda resta atravessar a fronteira. Até há pouco mais de um ano, a fronteira com o Sinai era pouco mais de uma cerca ferrogenta, coberta pelas dunas em vários pontos. Atravessada livremente por camelos selvagens, traficantes de droga e imigrantes ilegais. Porém, com a crescente atividade terrorista na península do Sinai desde a queda do governo de Mubarak e o imparável fluxo de imigrantes africanos, o governo israelita decidiu reforçar a segurança na extensa fronteira com o Sinai. Uma moderna e bem vigiada cerca está em contrução nos mais de 200 quilómetros entre Eilat e Gaza. Até ao final deste ano estará completa.

Sabendo desta porta que se fecha no acesso a Israel, recentemente alguns migrantes africanos têm atravessado de barco o estreito Golfo de Aqaba, entre o Sinai e a Jordânia, entrando em território israelita pela fronteira oriental. Aí, além da cerca fronteiriça terão de evitar alguns campos minados. O desespero da fuga à miséria e violência diária nos seus países de origem leva os imigrantes a uma empreitada quase suicida.

Na pequena cidade turística de Eilat, no extremo sul de Israel, os africanos são já cerca de 5000, mais de 10% da população da cidade, trabalhando na indústria hoteleira e na construção civil. Porém, a maioria ruma a Tel Aviv, estebelecendo-se no sul da cidade. Há apenas 5 anos, os “sudaneses” em Tel Aviv eram cerca de 1000. Os bairros pobres de Shapira e Hatikva, na zona mais degradada da cidade em redor da Estação Central de Autocarros, têm experimentado uma verdadeira invasão africana. Ao longo dos últimos anos, têm chegado à cidade entre 1000 e 2000 africanos por mês. De acordo com algumas fontes, habitam atualmente estes bairros cerca de 40 mil infiltrados africanos, e 25 mil israelitas.

Até encontrarem um lugar para morar, durante os primeiros meses após a chegada a Tel Aviv, a maioria dos africanos dorme na rua, na entrada dos prédios ou parques da cidade. Outros dormem em casotas miseráveis. Sem casa de banho ou chuveiro, fazem as suas necessidades na rua e tomam banho com as mangueiras anti-incêndio. Ainda que apenas uma minoria esteja envolvida em atos criminosos, o número de queixas contra imigrantes ilegais africanos apresentadas na polícia aumentou mais de 50% no último ano. O clima de insegurança nos bairros do sul de Tel Aviv tem crescido, alimentado pelos casos relatados pelas notícias. Devido à atenção mediática que o tema tem alcançado em Israel, quase diariamente são noticiados casos de violência envolvendo os imigrantes: roubo, vandalismo, violação ou o abandono de dois recém-nascidos no hospital, no próprio dia em que nasceram, na semana passada.

A "invasão" de infiltrados africanos levou a vida dos residentes dos bairros a uma situação insuportável. É impossível sairem sozinhos à noite e a sensação de medo – real ou imaginário – é permanente. Em várias zonas da cidade, o parques infantis, os jardins públicos e até os pátios das escolas foram transformados em lugar de pernoita, ou mesmo residência fixa dos africanos. Todas as noites, grupos de jovens e adultos israelitas jogam nos parques públicos, numa atitude desafiadora – para marcar território – a fim de reconquistarem o espaço onde os seus filhos já não podem brincar em segurança. Os atos de violência contra os imigrantes também têm aumentado. Alguns locais onde se reunem foram incendiados por populares.

Neste triste panorama, o governo israelita decidiu começar a prender os imigrantes ilegais e repatriá-los para os seus países de origem. Esta operação apresenta uma série de problemas. Em primeiro lugar, por agora, apenas os naturais do Sudão do Sul serão repatriados. Depois de proclamar a independência no ano passado, o Sudão do Sul tem estreitado relações diplomáticas com Israel (que foi um dos primeiros países a reconhecer o novo país africano). Tendo terminado a guerra civil vivida na região durante mais de 30 anos, os sudaneses do sul poderão voltar para casa. O país é um dos mais miseráveis do planeta, apesar da enorme riqueza natural, incluindo grandes reservas de petróleo. Várias famílias de imigrantes sul-sudanesas voltaram para casa, com os filhos, alguns já nascidos em Israel e cuja língua materna é o hebraico. Aos jornalistas israelitas que acompanharam o repatriamento, as crianças desabafavam que queriam poder ir à escola, como em Israel.

Porém, os imigrantes naturais do Sudão do Sul, que começaram a ser repatriados a semana passada, são apenas uma pequena parte dos mais de 60 mil africanos ilegais em Israel. Mais de 30 mil provêm da Eritreia, uma das mais brutais ditaduras do Mundo, onde os emigrantes são considerados traidores ao regime e poderão ser perseguidos. Outros 15 mil chegaram do Sudão, incluindo a região de Darfur, onde há anos se desenrola um genocídio que, de acordo com algumas fontes internacionais, já causou a morte a quase meio milhão de pessoas. Nestes dois casos, a difícil situação dos países de origem dos imigrantes ilegais, torna impossível o seu repatriamento. Apesar de Israel ter relações diplomáticas com a Eritreia, o Sudão é considerado um “país inimigo”.

Membros da oposição ao governo e ativistas de direitos-humanos (que por vezes são uma e a mesma coisa) têm-se manifestado contra a decisão do governo de expulsar os ilegais. Ou pelo menos pela forma como está a ser feita. Porém, não parecem manifestar a mesma preocupação pelos residentes israelitas dos bairros onde os africanos ilegais são já a maioria. Alguns protestos de residentes contra os imigrantes tiveram a participação de políticos, em especial de direita. Em discursos inflamados alguns apelidaram os imigrantes como "um cancro na sociedade israelita", "um virus", e outras expressões marcadamente racistas.

A intervenção dos poucos políticos que estiveram nas manifestações não resolveu nenhum problema dos residentes dos bairros, e causou grande prejuízo tanto à defesa dos direitos dos moradores israelitas como dos imigrantes ilegais. As infelizes manifestações racistas deram novo alento aos comentadores de tudo o que se passa em Israel, que como é hábito, se apressaram a gritar slogans como "Estado racista", "Estado apartheid" e outros apodos do género. Incluindo alguns judeus americanos associados à causa palestiniana que não dispensam qualquer oportunidade para caluniar Israel. As expressões clichés de comparação com o Holocausto, a "falta de compaixão dos que foram perseguidos" e outros termos de auto-flagelação da consciência judaica foram abundantemente usadas pelos "ativistas". Dos humanistas estrangeiros ou dos nacionais, não se ouviram manifestações de apoio aos moradores dos bairros.

Para ter êxito nesta missão, a luta terá de ser feita de forma pacífica, sem violência e manifestações racistas. Não se pode legitimar ódio ou quaisquer ações violentas contra os estrangeiros. Esta não é uma campanha contra os africanos, mas contra a falta de acção das autoridades que pela sua inação, deixaram chegar a situação a um nível gravíssimo. A preocupação primordial terá de ser pelos próprios cidadãos israelitas e isso não é racismo. Não há nada de sábio ou razoável em querer ser "humanista" e generoso com os estrangeiros, se dessa forma se causa prejuízo aos cidadãos do próprio país. Afinal, como ensina a sabedoria judaica "os pobres da tua cidade estão primeiro".

Ao mesmo tempo que as autoridades israelitas procedem à repatriação dos ilegais africanos – até agora foram repatriados menos de 300 sudaneses do sul – desde o início do mês entraram em Israel pelo menos 800 imigrantes ilegais, que se encontram atualmente detidos.

publicado por Boaz às 10:15
link do artigo | Comente | favorito
Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Vêm aí os Persas?

Tal como em Israel, também no resto do Mundo Ocidental os diplomatas têm andado agitados com a questão nuclear iraniana. O assunto aparece nas notícias todos os dias. Desde as crescentes sanções contra o regime iraniano, às declarações dos políticos. Mais do que factos, transmitem-se especulações sobre o estado do programa nuclear iraniano e o vai-não-vai de um ataque israelita contra os centros atómicos dos ayatollahs. O anúncio de sanções pela comunidade internacional, em especial a União Europeia que declarou um embargo à compra de petróleo iraniano para o próximo Verão, levou a mais uma subida do preço do petróleo. Mais um fator a fazer piorar a crise económica internacional.

De um lado, o presidente iraniano Ahmadinejad continua a aparecer em propagandísticos eventos que promovem os avanços imparáveis das suas forças armadas e do seu programa nuclear – que alega ser apenas para produção elétrica, algo estranho para um país cujo solo é ensopado de petróleo e gás natural. Do outro, o Primeiro-Ministro israelita Benyamin Netanyahu e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman desenrolam-se em encontros com Obama e outros líderes ocidentais para alertar sobre os perigos de um Irão dotado de armas nucleares.

Para lá das fronteiras de Israel, entre as restantes nações do Médio Oriente, também há preocupação com a perspectiva de um Irão atómico. Esse é um dos pontos mais destacados pela diplomacia israelita: um Irão dotado de armas nucleares não é somente uma ameaça para Israel, mas para toda a região e o resto do Mundo. Numa região em constante conflito, uma nova potência militar desequilibraria as frágeis relações entre os vários países e complicaria a influência americana na região.

A questão nuclear iraniana entrou na ordem do dia com a subida de Mahmud Ahmadinejad ao poder. A retórica populista, o fanatismo militante, o declarado anti-israelismo que declara a vontade de “apagar Israel do mapa”, tornaram-no um espalha-brasas na arena internacional. Ainda que seja admirado por alguns elementos da extrema-esquerda europeia e sul-americana. Sem a menor vergonha, organizou conferências destinadas a negar o Holocausto, convidando a Teerão pseudo-especialistas, adeptos do mais danado revisionismo histórico. Ninguém sabe muito bem o que poderá fazer o maníaco de Teerão, com o militarismo lunático de quem se considera o mensageiro que trará o Mahdi (o messias islâmico) após uma guerra apocalíptica contra os Infiéis, nem que para isso arruine o seu próprio país. Ahmadinejad parece seguir à letra a ideologia destruidora do falecido ayatollah Khomeini, o ideólogo da República Islâmica: “Deixem esta terra [o Irão] ser queimada, desde que o Islão desponte triunfante no resto do Mundo”. Pelo menos, entre o aparelho político iraniano, o parlamento parece mais moderado do que o atual presidente, limitando em parte os seus delírios.


Imagens com esta mensagem (sem o sarcasmo final) têm sido publicadas na Internet,
provenientes de Israel. Do Irão a resposta tem sido idêntica.

Além da ameaça declarada contra Israel, Ahmadinejad é uma ameaça também para os seus vizinhos árabes. Apesar das proximidades culturais, o Irão não é um país árabe, mas persa. As inimizades entre persas e árabes são antigas. A minoria árabe no Irão é altamente descriminada. A tradição islâmica iraniana é maioritariamente xiita, ao contrário da maioria dos muçulmanos árabes que seguem a tradição sunita. Os xiitas, seguidores da tradição de Ali, o sobrinho de Maomé e seu herdeiro espiritual de acordo com o Islamismo Xiita, são vistos como hereges pela maioritária corrente sunita. A secular descriminação dos xiitas pela maioria sunita deixou cicatrizes por sarar entre as duas maiores correntes do Islão.

Com o seu poder militar, as receitas do petróleo e a influência política, o Irão tem apoiado ativamente os movimentos xiitas nos países árabes. Do Iraque – onde os xiitas são a maioria, dominados e massacrados pela minoria sunita durante a ditadura de Saddam Hussein –, ao Líbano, onde o Hizbollah é um verdadeiro posto avançado dos ayatollas na fronteira norte de Israel. Na pequena ilha-estado do Bahrain, no Golfo Pérsico, a maioria xiita tem reclamado maiores direitos, face ao domínio sunita da dinastia reinante.

O temor dos países do Golfo face ao expansionismo atómico dos ayatollahs tem-se manifestado em rumores de um possível apoio de alguns países a um ataque de Israel às centrais nucleares iranianas. Rumores publicados nos jornais indicaram que a Arábia Saudita permitiria aos aviões de combate israelitas sobrevoarem o seu território a caminho de um ataque ao Irão. Obviamente que este apoio não é, nem pode ser declarado publicamente. Isso seria considerado uma traição dos muçulmanos árabes face aos seus irmãos iranianos, mesmo que sejam vistos como hereges. Ainda mais cooperando com o odiado inimigo sionista. Aos olhos do mundo ocidental e muçulmano, a unidade da Umma, a Comunidade dos Crentes Muçulmanos, continua a ser um mito propagado. Um apoio declarado dos países árabes a um ataque ocidental contra o Irão, seria prontamente explorado pela propaganda iraniana para incendiar ainda mais o mundo islâmico contra os EUA e Israel, chamados na terminologia iraniana de “Grande e Pequeno Satã”.

Israel tem aumentado as relações com o Azerbeijão, uma ex-república soviética, de maioria muçulmana mas secular, que faz fronteira a norte do Irão. Um artigo recente da revista “Foreign Policy” afirmou que o governo azeri teria autorizado o exército de Israel a usar as suas bases militares próximas da fronteira iraniana, num eventual ataque israelita ao Irão. O Azerbeijão tem um diferendo com o vizinho Irão no controle do Mar Cáspio, rico em petróleo.

Apesar do nervosismo dos diplomatas, dos repetidos simulacros de ataques, dos testes de novos mísseis para o exército, das recorrentes notícias alarmantes sobre um possível ataque nuclear contra o país e de uma possível operação militar israelita contra o Irão, em Israel o povo parece estar alheio a toda esta agitação pré-apocalíptica. As preocupações diárias do comum israelita prendem-se com a falta de casas ou o preço proibitivo das rendas nas principais cidades, o custo de vida em ascensão, o aumento dos combustíveis (ninguém poderá negar a relação entre a subida do preço do petróleo com a corrente vaga de sanções contra o Irão, um dos maiores exportadores mundiais de petróleo). As manifestações gigantescas ocorridas durante meses no Verão passado não tiveram a ver com a ameaça iraniana, mas com as dificuldades internas.

O preço elevado do queijo cottage – uma das paixões nacionais – tornou-se uma desculpa para protestos contra as dificuldades económicas. Depois da campanha para reduzir o preço do queijo, vieram os outros laticínios. Motivados pela sensação de poder nas mãos, a campanha popular virou-se para o preço das casas. Armaram-se tendas em todas as cidades de Israel, que permaneceram ativas todo o Verão e uma boa parte do Inverno. Depois, a revolta popular virou-se para o elevado custo da educação. E o governo instituiu a educação gratuita desde os três anos de idade. “O povo exige justiça social!”, o slogan gritado nas ruas e que fez estremecer o governo de Netanyahu no último Verão – e promete regressar nos próximos meses – nada tinha a ver com a ameaça iraniana (ou a eterna questão palestiniana).

Em evidente contra-mão às preocupações do quotidiano nacional, os militares e políticos israelitas insistem em manter a questão nuclear iraniana na sua agenda diária. Face à incerteza do que poderá resultar da Guerra Civil na Síria, até à perspetiva de um crescente armamento do Hezbollah no Líbano – o Irão não quererá perder os seus únicos aliados no Médio Oriente – o aparelho militar israelita tem insistido em aumentar o orçamento da Defesa, que já consome algumas dezenas de biliões de shekels do orçamento de Estado. Em geral, o orçamento militar em Israel é algo sagrado que nenhum governo se atreve a controlar, mas o governador do Banco de Israel e o próprio Ministro das Finanças têm tentado controlar as ânsias gastadoras dos generais.

Na verdade, ninguém saberá quando e se o ataque acontecerá. Mais incertas são as consequências de um bombardeamento israelita: desde a real eficácia de uma acção militar para travar o programa nuclear iraniano, à dispersão de materiais radioativos no território iraniano e até aos países vizinhos. E claro, a resposta dos ayatollahs a um ataque. Certo é que, não ficaria sem resposta. E o Irão tem um poderoso exército, dotado de mísseis de longo alcance. Com ou sem armas nucleares, um contra-ataque iraniano contra Israel seria catastrófico.

A mensagem da ameaça iraniana (real ou exagerada) não está a passar como os líderes israelitas desejariam. Ou talvez os israelitas, com o seu pragmatismo natural, considerem que não faz sentido preocupar-se com cenários hipotéticos de guerra – ainda que alguns incluam a perspetiva do extermínio – se não podem garantir confortos básicos imediatos como casa própria e queijo barato. Numa recente campanha na Internet, que se tornou viral, israelitas publicaram fotos suas em forma de cartaz, declarando que amam os Iranianos e que Israel não bombardeará o seu país. Do outro lado, houve uma reação no mesmo sentido, mas mais comedida, dadas as limitações à liberdade de expressão com que vivem os iranianos.

Antes de tentar convencer o mundo da importância de um ataque militar para deter o programa nuclear iraniano, parece que o governo israelita precisa de convencer a própria população israelita que essa é uma prioridade nacional. Para lá da habitação acessível, a educação grátis e as guerras do queijo cottage.

publicado por Boaz às 22:25
link do artigo | Comente | ver comentários (2) | favorito
Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Jihad casher? – os fanáticos estão entre nós

Desde há alguns meses que uma das questões mais discutidas na sociedade israelita é a relação com o público haredi, ou ultra-ortodoxo. É uma comunidade fechada, com as suas próprias leis e que se opõe a muitas regras da sociedade moderna e secular. Particularmente controversa é a situação das mulheres nestas comunidades. O assunto invadiu as notícias e as conversas de rua após uma série de acontecimentos na cidade de Beit Shemesh, perto de Jerusalém.

Há anos que esta cidade mista – secular, ortodoxa-moderna e haredi – tem vivido episódios de conflito entre as suas várias comunidades. Para albergar a crescente população haredi, com uma das mais altas taxas de natalidade do mundo, novos bairros têm sido construídos em Beit Shemesh, alguns deles exclusivos para os ultra-ortodoxos. O município é acusado pelos membros de outras comunidades de favorecer o público haredi. Nos bairros vizinhos, ou nas poucas zonas em que as populações se misturam, têm ocorrido actos de violência.

O conflito subiu de tom em Setembro de 2011 com a abertura da escola de meninas Orot Banot, destinada ao público sionista-religioso, situada numa zona limítrofe com um bairro ultra-ortodoxo. Com frequência, grupos de fanáticos haredim ofendiam as alunas em frente à escola, por considerarem o seu modo de vida menos religioso e logo, desprezível. A polícia fez algumas detenções, mas os atos de intimidação continuaram. Liderada por alguns ultra-ortodoxos anti-sionistas mais radicais, uma manifestação foi organizada em frente à escola.


"Mulheres talibã" em Beit Shemesh | Onde está Hillary Clinton?, apagada por Photoshop.
Ativista na secção masculina de um autocarro separado | A histórica foto de Rosa Parks

Clamavam pela "manutenção da pureza dos bairros heredim contra os estrangeiros que conspiram para os profanar, apoiados pelo regime maléfico", numa referência clara ao Estado de Israel, desprezado por várias correntes no Judaísmo Haredi. Em Dezembro do ano passado, a vergonhosa situação em Beit Shemesh atingiu o auge, quando Naama Margolese, uma menina de 8 anos, apareceu na televisão descrevendo como alguns fanáticos a cuspiram e chamaram "prostituta" por frequentar a escola Orot Banot. Uma onda de choque percorreu a sociedade israelita, levando à intervenção das autoridades políticas, civis e religiosas.

Linhas de autocarro segregadas

Esta polémica das relações da sociedade haredi com o resto da população de Israel não é recente. Já nos primeiros anos da independência, eram comuns conflitos em alguns bairros de Jerusalém devido à violação do Shabbat. As “Guerras do Shabbat” tinham lugar num cruzamento do bairro de Mea Shearim, desde então chamado Praça do Shabbat. A polémica aumentou em 1997, com o aparecimento de linhas de autocarro em que homens e mulheres viajam em secções separadas. Os homens adiante. As mulheres atrás. Estas linhas de autocarros ligam cidades e bairros com numerosas populações de haredim, como Jerusalém, Bnei Brak, Ashdod, Arad ou Elad. São conhecidas como Linhas "Mehadrin", usando (indevidamente) uma expressão na Lei Judaica – normalmente usada nas regras da alimentação judaica – e que significa o nível mais estrito da lei, sem leniências. Várias autoridades rabínicas declaram-se contra a segregação – ainda mais sendo forçada, mas muitos mostraram-se compreensivos ou simplesmente calaram-se perante a situação.

De tempos a tempos, eram noticiados casos de mulheres maltratadas por fanáticos por se sentarem na “área masculina”. Algumas faziam-no por mero engano, pensando tratar-se de um autocarro como qualquer outro. Outras de propósito, por não concordarem com a descriminação, tentando desafiá-la. Quando estourou a polémica em Beit Shemesh, movimentos feministas – em especial liderados por não-religiosos – organizaram "invasões das linhas mehadrin". Grupos de mulheres apanhariam os malfadados autocarros segregados, sentando-se na parte da frente, e enfrentando a fúria dos opositores. Porém, avisados da planeada ação de protesto, os utilizadores ultra-ortodoxos dos autocarros, mantiveram a compostura.

Dos autocarros, a campanha de separação dos sexos passou para os lugares públicos. Em Mea Shearim, o mais famoso bairro haredi da Cidade Santa, e em alguns bairros de Bet Shemesh, há já muito tempo que nas principais ruas são visíveis sinais que alertam as mulheres – em especial as turistas – para se vestirem de forma "modesta": saias e mangas longas, blusas fechadas até ao pescoço, roupas folgadas que não revelem as formas do corpo. É com frequência que mulheres que não cumprem as regras de vestuário estipuladas nos cartazes são atacadas – verbal ou fisicamente – ao passar por estas áreas. As sortudas são alvo de cuspidelas ou insultos, mas não faltam casos de mulheres atingidas por sacos com urina ou lixívia, atirados de uma janela por algum vigilante.

Uma vez por ano, durante semana do festival de Succot, as ruas de Mea Shearim enchem-se de fiéis e turistas, para assistir às festividades de Simchat Beit Hashoeva, num dos dias da festa. A confusão e o enorme fluxo de pessoas nas ruas, levaram os fanáticos a impor mais uma das suas "regras de decência": separação das ruas. Um lado para os homens, outro para as mulheres. Com uma barreira a separá-los. Para manter as mulheres, ainda que vestidas de forma modesta, longe da vista dos homens, e salvá-los de eventuais pensamentos lascivos.

Talibanismo judaico

No mesmo bairro de Mea Shearim, um gangue de fanáticos conhecido por Sikrikim (em homenagem aos Sicários, um grupo de guerrilheiros judeus que aterrorizaram os Romanos durante a ocupação da Terra Santa, há dois milénios) começou a ameaçar os lojistas, caso não introduzissem medidas de separação dos sexos nas suas lojas. Filas separadas para pagamento, ou exclusão de mulheres a trabalhar nas caixas registradoras, foram algumas das medidas impostas. Em nome de algo que consideram ser "a moral". Uma das lojas resistentes, uma loja de livros e artigos judaicos especialmente popular entre os turistas, foi várias vezes vandalizada, por resistir a cumprir as ordens dos Sicários. Para além das "regras da modéstia" era imposta a exclusão de venda de livros em inglês, e de alguns autores proscritos pelos Sicários, incluindo todos os escritores sionistas-religiosos. Até que, farto dos prejuízos e da inoperância da polícia, o dono cedeu à maioria das demandas dos fanáticos.

De vez em quando, face à crescente reclamação contra o fanatismo em Mea Shearim, a polícia prendia um ou outro membro dos Sikrikim, para os soltar pouco tempo depois. Não deixa de ser irónico que a polícia de Jerusalém consegue entrar em força nos bairros árabes da zona oriental da cidade para prender (suspeitos ou confirmados) terroristas e toda a espécie de criminosos, ao mesmo tempo não se atreva a impor a ordem no bairro judeu de Mea Shearim. Aí, protestos organizados pelos fanáticos resultam frequentemente na vandalização de propriedade pública, como paragens de autocarro, contentores do lixo, e raramente, a destruição de montras de lojas e queima de carros.

A paranóia sexual haredi que impõe o desaparecimento forçado das mulheres da esfera pública chegou também aos jornais. Ao folhear qualquer jornal haredi, não se encontra qualquer imagem feminina, por mais discreta que esteja vestida. Num dos casos famosos, uma foto de Hilary Clinton durante a operação de captura de Osama bin Laden, foi publicada num jornal haredi de NY. Esta tendência, até há pouco exclusiva dos jornais ultra-ortodoxos, parece estar a alastrar também a alguns sectores do público sionista-religioso. Numa enorme crise de identidade e uma liderança gravemente débil, vários sectores do público sionista-religioso tendem a aproximar-se da ideologia ultra-ortodoxa, que muitos começam a ver como “mais religiosa, pura, judaica”.

Das imposições de vestuário aos não-aderentes às tradições dos locais, à separação nos autocarros, lojas e ruas, não demorou muito até ao surgimento de uma seita local de mulheres de burka. Mal vistas pela generalidade da população e dos líderes religiosos, as “mulheres taliban” não serão mais do algumas dezenas. São insultadas na rua e excluídas de entrar nas lojas, por aderirem a uma indumentária vergonhosa e sem qualquer base na tradição judaica. Cartazes afixados nas paredes de Mea Shearim condenavam a seita talibã como epikoros, hereges. A Eda HaCharedit, a maior organização haredi em Israel, juntando as principais correntes ultra-ortodoxas, emitiu um decreto declarando as burkas como um “fetiche sexual”, tão depravado como a roupa indiscreta ou a nudez. Todavia, comandadas por alguns fanáticos manipuladores, as “mulheres talibãs” resistem à oposição geral, mesmo após a prisão da líder do grupo.

Hilul Hashem, profanação do nome de Deus

É importante ressalvar que, nenhuma destas infâmias tem qualquer suporte na Halachá, a Lei Judaica. Apesar de existirem regras de modéstia estipuladas, estas são muito mais lenientes do que os cartazes de Mea Shearim ou os abusivos líderes das "mulheres talibã". E, tal como noutras coisas na Halachá, nenhuma regra pode ser imposta à força. E muito menos, mediante a humilhação. Neste rol de vergonha e enorme profanação do nome de Deus, várias perguntas saltam para a discussão: porque não se manifestam os próprios religiosos contra este fanatismo? Em especial as mulheres ultra-ortodoxas, que são as primeiras vítimas? E os rabinos, que são a maior autoridade nestas comunidades?

Para responder a estas questões, é preciso entender a sociedade ultra-ortodoxa. As suas regras de autoridade não são as mesmas para a sociedade em geral. Os problemas raramente são denunciados às autoridades civis, vistas como anti-religiosas e hereges. Praticamente todas as controvérsias se discutem ou resolvem através da influência dos grandes rabinos, sem qualquer discussão pública ou debate aberto. Em inquéritos de rua feitos por jornalistas em bairros ultra-ortodoxos, a maioria das mulheres preferia não falar da separação nos autocarros, nas clínicas ou na rua. Outras, falavam do assunto, mostrando a sua concordância com a situação, mas de forma visivelmente pouco convincente.

Numa sociedade onde as mulheres têm um papel secundário, são poucas as que se atrevem a desafiar a crescente exclusão dos seus direitos e desaparecimento forçado da vida pública. Mesmo os homens ultra-ortodoxos que discordam destes ditames do fanatismo mantêm-se em silencio, na maioria dos casos. Ser considerado "liberal" ou "moderno" é um anátema na sociedade haredi. Essa etiqueta implicaria marcar a família de forma fatídica, podendo os filhos ser excluídos do acesso às melhores escolas, prejudicar as hipóteses de conseguir um bom casamento, até à expulsão da comunidade. Mesmo aguentando a custo a situação vigente, poucos se atrevem a enfrentar tal perspetiva. Praticamente isolados do resto do Mundo, desconhecedores ou opositores das regras da sociedade secular e moderna, a exclusão da comunidade da qual dependem seria uma punição insuportável.

Inclusive os líderes religiosos haredim, supostamente todo-poderosos, demonstram ter pouco poder, dominados pelo crescente polvo originado em meia dúzia de lunáticos como os Sikrikim. Também eles receiam ser apelidados de “liberais”, afrontando o modo de vida fechado da comunidade. Os "guardiães da tradição", com o seu silêncio agem contra essa mesma tradição, contrariando o mandamento da Torá: "Não ficarás em silêncio enquanto o sangue do teu irmão é derramado" (Levítico/Vaicrá 19:16). A barreira de separação foi sendo aumentada pouco a pouco, e ninguém se atreve a derrubá-la, ou pelo menos a descê-la a um nível sensato. Salvo algumas excepções. Como o rabino Ovadia Yosef, uma das mais respeitadas autoridades rabínicas atuais, que emitiu uma eloquente condenação do fanatismo; o rabino Haim Amsalem, líder de um novo movimento cívico que une seculares e religiosos, ou o Rabinato-Chefe de Israel. Porém, estas autoridades, ainda que citando fontes irrefutáveis da Lei Judaica nas suas posições, são olhadas como modernistas dentro da ortodoxia, não sendo aceites pelos mais radicais.

Mais do que uma luta pelas regras da modéstia, esta controvérsia prende-se com uma luta pelo controle da própria sociedade haredi. Alguns sectores mais conservadores sentem que o seu modo de vida está ameaçado. Pelo secular Estado de Israel. Pela modernidade imparável que aos poucos começa a ameaçar algumas das suas tradições. A crescente influência da Internet e outros meios de comunicação possibilitou a troca de ideias fora dos círculos fechados das cortes rabínicas, a discussão de temas até agora mantidos debaixo do pano e a publicação de opiniões dissidentes. Não é de admirar que alguns líderes haredim tenham banido o uso da Internet, mesmo as páginas ortodoxas. Porém, as ordens dos líderes são cada vez menos escutadas pelos fiéis, em especial os jovens. Páginas como “Kikar Hashabbat” ou “Chaderei charedim” discutem abertamente temas tabus dentro da sociedade haredi e têm milhares de leitores e comentadores. Assim, face à crescente liberalização, alguns sectores reagem com o extremismo.

Procura-se Vered Ganim

Falta alguém de dentro da própria sociedade haredi, ou alguém de fora, que se oponha ao fanatismo sem provocações desnecessárias. Nos anos 60, para lutar contra a descriminação dos Negros no Sul dos EUA, uma mulher simples recusou sentar-se nos bancos traseiros dos autocarros, destinados aos passageiros "de cor", símbolos do seu estatuto de "segunda classe". Rosa Parks desafiou a descriminação de forma não violenta, mas determinada. Em Israel procura-se uma mulher desse género, uma Vered Ganim (tradução literal do nome Rosa Parks).

O caminho para a harmonia social entre os vários sectores da sociedade judaica em Israel ainda é longo. É precisa uma coragem cautelosa para tomar medidas que resolvam a situação. Às forças de autoridade para deter ações criminosas dos fanáticos, demonstrando que o crime não compensa. Aos políticos, preocupados em manter as frágeis coligações políticas que juntam ideologias opostas em nome da conveniente maioria parlamentar. Aos líderes religiosos, temerosos de parecerem "liberais", preocupam-se mais com a sua própria imagem de "guardiães da tradição" do que do bem e a unidade do povo. Aos seculares, pela sua geral falta de entendimento da sociedade haredi e profundos preconceitos contra ela, que muitas vezes tentam enfrentar os problemas de forma declaradamente provocatória, aumentando as ofensas mútuas.

publicado por Boaz às 16:35
link do artigo | Comente | favorito
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Passerelle de Jerusalém

Na maior parte das sociedades que integram o chamado Mundo Ocidental, seguidoras fiéis das regras da moda que mudam a cada estação, quase todas as pessoas se vestem de forma idêntica. Apesar da abundância de estilos, de preços e marcas, a roupa não será um ponto central na identificação das pessoas. Tirando talvez os integrantes das consideradas "sub-culturas".

Pelo contrário, em Israel, a maneira de vestir pode dizer muito mais sobre uma pessoa do que somente o seu lado estético. Em muitos casos, as mudanças sazonais das passerelles de Paris, Milão ou Nova Iorque não afetam minimamente os roupeiros locais. Obviamente, esta regra não inclui os habitantes seculares. Atentos às modas mundiais, estes vestem-se como qualquer pessoa (dita) moderna em qualquer lugar do mundo. As lojas das grandes marcas internacionais estão presentes nos centros comerciais das principais cidades e as marcas locais seguem as tendências ditadas pelos gurus da moda.

Entre as 613 mitzvot (mandamentos) da Torá encontram-se algumas sobre a forma de vestir. Desde a proibição de uso de shaatnez – a mistura de lã e linho num mesmo tecido, que era exclusiva para as roupas sacerdotais; à obrigação de todas as peças de vestuário masculinas com quatro cantos terem tzitzit– uns fios presos nos cantos da roupa com uma série de nós. Vagamente, é mencionada a obrigação das mulheres casadas cobrirem o cabelo. O valor do recato das mulheres é citado em vários versículos por todas as Escrituras.


Haredi reza no Muro Ocidental, com shtreimel,
o estimado chapéu de pele usado por algumas correntes hassídicas no Shabbat e Festas.

As peças de vestuário que mais servem de identificação em Israel são as coberturas de cabeça. Kipáou chapéu para os homens. Lenço, chapéu ou peruca para as mulheres. Em cada um destes elementos, há inúmeras variações que, para os conhecedores são quase um cartão de apresentação pessoal e um símbolo de identificação ideológica. Curiosamente, ainda que seja um dos mais reconhecidos símbolos judaicos, não existe nas Escrituras e nas fontes antigas da Lei Judaica qualquer menção à obrigação de os homens cobrirem a cabeça permanentemente. Porém, nas fontes haláchicas mais recentes, este costume passou a obrigação.

De acordo com a tradição judaica atual, um homem judeu que não cobre a cabeça fora da sinagoga, declara-se dessa forma como "não religioso". Pode ser que seja o chamado massorati, o tradicionalista que cumpre Shabbat e Cashrut (as regras alimentares judaicas), mas que não se integra na maioria das regras da "ortodoxia". Para ele o uso da kipáestará reservado às rezas na sinagoga e às refeições festivas.

O estilo da kipá pode definir a aderência a uma ou outra ideologia política ou corrente religiosa. As kipot tricotadas identificam os sionistas religiosos ou ortodoxos modernos. As kipot de tecido preto, os ultra-ortodoxos. Se forem de pano liso, divididas em seis "gomos", indicarão os adeptos da corrente Chabad; em veludo, outras corrente hassídicas. As kipot tricotadas de grande tamanho são emblemas dos judeus mais nacionalistas, residentes em alguns colonatos específicos na Judeia e Samaria. Se forem parecidas com um gorro e com um pompom no topo, as kipot tricotadas identificam os fiéis (ou meros simpatizantes) do místico rabino hassídico do século XVIII, Nachman de Breslev. Muitas das kippot dos "Nachmans" têm bordado o mantra do grupo: "Na Nach Nachma Nachman MeUman". Todavia, a identificação através da kipánão é 100% garantida, já que alguns homens usam modelos normalmente usadas por membros de outras correntes. Por vezes, por uma questão de “moda”.

Os ortodoxos modernos vestem-se praticamente como qualquer pessoa em outras sociedades ocidentais. Porém, ainda que seguindo em certa medida as regras da moda, elas são combinadas com os preceitos judaicos. Ao contrário, os homens ultra-ortodoxos vestem-se invariavelmente de branco e preto. Branco para as camisas. Preto para o resto do roupeiro. Os chapéus negros são outros elementos de identificação entre as várias escolas do judaísmo ultra-ortodoxo. Existem dezenas de modelos, alguns com pequenas diferenças entre si, que somente um especialista em indumentária hassídica saberá distinguir. Os partidários da corrente Chabad usam o fedora, um modelo de chapéu popular na Europa no início do século XX, usado pelos seguidores desta corrente hassídica desde que o seu último Rebbe (o líder espiritual Chabad) adotou esse modelo de chapéu.

Ao contrário de muitas outras correntes do Judaísmo hassídico, os judeus Chabad não usam os chapéus de pele nos dias festivos. Estes chapéus – chamados em íidiche shtreimel ou spodik, conforme os modelos – são altamente apreciados pelos judeus hassídicos. Em geral, o primeiro shtreimel é usado no dia do casamento, oferecido pela família da noiva. Em algumas escolas hassídicas, os rapazes começam a usar shtreimeldesde a cerimónia de Bar Mitzvá, aos 13 anos, quando atingem a maioridade religiosa.

Feitos com a pele de coelho, marta, arminho ou cauda de raposa, podem custar vários milhares de dólares. Há poucos meses, o governo de Israel decidiu banir a importação de peles, consciente da crueldade a que são sujeitos os animais criados para a indústria de peles. Porém, a lei manteve uma cláusula de excepção para as peles usadas nos shtreimels. Houve agitação entre as hostes hassídicas perante a possibilidade de ser banido o seu estimado costume peludo. Todavia, existem hoje alternativas em pele sintética que custam somente algumas centenas de dólares. Poupa-se no chapéu e no sofrimento animal.

Em conjunto com os seus chapéus negros ou shtreimels, os judeus hassídicos usam largas capotas negras. Tal como os chapéus de pele, eram um vestuário típico no clima agreste Europa Oriental, parecendo totalmente deslocados do calor estival de Israel. Os modelos usados nos dias da semana são austeros e lisos, enquanto os de Shabbat podem ter belos padrões. Alguns Rebbes hassídicos, respeitados como soberanos absolutos, costumam usar magestosas capotas bordadas com motivos dourados.

A maior parte destes elementos do vestuário dos judeus ultra-ortodoxos aplicam-se tanto aos adultos como aos rapazes, que desde tenra idade começam a vestir-se como os seus pais, das capotas aos chapéus negros. A indumentária hassídica, é marcada pela aderência estrita às regras da modéstia, excluindo as cores vistosas. Porém, honestamente, é difícil parecer modesto quando se ostenta um enorme chapéu de pêlo valendo centenas ou milhares de dólares e uma longa capota, ainda que seja de austera cor negra.

Entre as mulheres judias, existem as mesmas diferenças de vestuário, de acordo com o nível de religiosidade e a corrente judaica a que pertencem. Não é costume uma mulher religiosa usar calças, consideradas vestuário exclusivamente masculino. Ainda assim, nos últimos anos surgiram modelos de calças de modelos folgados, adotados por algumas mulheres mais liberais dentro da ortodoxia.

De acordo com a Lei Judaica, uma mulher casada deve cobrir o cabelo. O espectro da cobertura de cabeça feminina vai dos lenços às perucas, passando por uma grande variedade de barretes e chapéus. As mulheres sionistas religiosas (ou da ortodoxia moderna) são as que cobrem a cabeça com a maior variedade de estilos. Algumas usam apenas uma bandana que deixa a maior parte do cabelo descoberto. As residentes em alguns colonatos da Judeia e Samaria – esposas e mães dos tais homens de largas kipottricotadas – usam vistosos lenços amarados das mais diversas formas. Algumas combinam vários lenços entrelaçados, construindo turbantes que variam entre a elegância alegre e o absurdo carnavalesco.

Entre as mulheres ultra-ortodoxas, as seguidoras do movimento Chabad destacam-se por cobrirem a cabeça somente com perucas. Noutras correntes chassídicas são comuns as toucas, algumas de modelos medonhos. Algumas mulheres casadas, mais jovens ou mais modernas, combinam com elegância a peruca com um pequeno barrete. É bem provável que Israel seja hoje o maior mercado mundial de perucas femininas e chapéus masculinos.

Entre os árabes, a forma de vestir também é um símbolo da sua religiosidade. Em termos de vestuário, os cristãos são indistintos dos judeus não-religiosos. Ainda assim, por uma tradição do Médio Oriente, não é costume ver uma mulher árabe, mesmo não-muçulmana, com um decote pronunciado ou uma micro-saia. Os homens muçulmanos vestem-se maioritariamente como qualquer homem moderno. Somente entre os mais velhos, ou os mais tradicionalistas, alguns usam abayas, as túnicas brancas, cinzentas ou castanhas típicas da Arábia e cobrem a cabeça com um barrete (muito parecido com uma kipá branca tricotada) ou o keffiyeh, o lenço típico dos beduínos do deserto popularizado por Arafat. Uma moda entre os jovens árabes é o uso de quantidades industriais de gel no cabelo, para manter impecáveis os seus penteados estranhos.

Os hijabs, lenços usados pelas mulheres e raparigas muçulmanas que cobrem o cabelo, tendem a ser coloridos, com lantejoulas ou bordados. Muitas famílias tradicionais muçulmanas começam a cobrir o cabelo das filhas assim que atingem a puberdade, ou ainda antes. Apesar de ocultarem a maior parte do corpo, muitas mulheres muçulmanas religiosas usam calças, por vezes justíssimas. As mais modestas usam casacos enormes, até aos pés, mesmo no Verão. E, o que os homens árabes exageram no uso de gel de cabelo, as suas mulheres exageram na maquilhagem. Contradições das leis do recato.

Em Israel, e mesmo nos Territórios Palestinianos, é muito raro encontrar mulheres completamente cobertas com o niqab, o véu islâmico que deixa apenas os olhos à mostra. Apesar das manifestações de fanatismo islâmico entre os Palestinianos, estes contam-se entre os muçulmanos mais seculares do Médio Oriente. A cultura ocidental também se manifesta na sociedade islâmica e, apesar dos movimentos que tentam evitar essa crescente influência, hoje em dia muitas jovens muçulmanas já dispensam o uso do véu e da túnica, vestindo-se ao estilo ocidental.

Quem visite Israel poderá encontrar toda a espécie de estilos e tendências de vestuário. Em cidades como Jerusalém ou Haifa, onde se misturam judeus e árabes, religiosos e seculares, a variedade nas formas de vestir dos residentes despertam a curiosidade dos turistas. Decidi escrever este artigo depois de verificar como algumas pessoas chegam ao Clara Mente. Quase todas as semanas, alguém procura em algum motor de busca da Internet pela expressão "O que vestir em Jerusalém". Os turistas portugueses podem usar as roupas da mesma estação que usam em Portugal. Aqui em Israel, o Verão também é quente (por vezes, muito quente) e o Inverno é ameno na costa e mais agreste nas montanhas, como em Portugal.

Espero que os leitores tenham entendido que podem vestir o que quiserem. Apenas tenham atenção ao visitarem um bairro ortodoxo como Mea Shearim, em Jerusalém, onde grandes letreiros em hebraico e inglês pedem para o respeito das regras da modéstia dos residentes. Estão avisados.

publicado por Boaz às 21:55
link do artigo | Comente | favorito
Domingo, 25 de Dezembro de 2011

A Cruz nas terras do Crescente

O turismo cristão é uma das maiores fontes de receitas para a Autoridade Palestiniana. As quadras do Natal e Páscoa, as maiores festividades do Cristianismo, trazem à Terra Santa dezenas de milhares de turistas de quase todo o Mundo. (Digo "quase", porque os nacionais de países sem relações diplomáticas com Israel, dificilmente passarão a fronteira).

Belém é o ponto principal da romagem cristã. A “Missa do Galo” à meia-noite de 25 de Dezembro, na mais que milenar Igreja da Natividade, é concorrida pelos turistas e pelos Cristãos locais. Numa manifestação de ecumenismo, os líderes da Autoridade Palestiniana assistem também à missa, mesmo sendo muçulmanos. Porém, este é um ecumenismo-para-consumo-estrangeiro. Ainda que em teoria a Autoridade Palestiniana se comprometa a garantir a igualdade dos Cristãos, na prática, atos de violência são cometidos pelas facções radicais palestinianas e as próprias forças de segurança palestinianas. Em Gaza, a única livraria cristã da Faixa foi destruída à bomba, pouco depois da chegada ao poder do Hamas. Pelo menos um dos líderes da pequena comunidade cristã de Gaza foi assassinado por terroristas.


Igreja russa de Maria Madalena, no Jardim de Getsemani,
Monte das Oliveiras, Jerusalém.

Os Cristãos de Belém são uma minoria em rápido declínio. Em 1948, ano da Independência de Israel, compunham 85% da população da cidade. Em 1998, eram 40%. Desde então, pelo menos 10% dos Cristãos abandonaram a cidade. A diminuição do turismo cristão durante a Segunda Intifada levou muitas famílias cristãs à ruína económica. Eles são os principais proprietários das lojas e hotéis que servem os turistas. O panorama de diminuição demográfica cristã é geral em todos os Territórios Palestinianos, não apenas em Belém. Dos 173.000 Cristãos que viviam na Cisjordânia e Gaza nos anos de 1990, hoje restarão entre 40 mil a 50 mil. As baixas taxas de natalidade, comparadas com os seus vizinhos muçulmanos, as dificuldades da insegurança militar durante a Segunda Intifada, e o maior nível educacional da comunidade levaram muitos à imigração.

Ironicamente, nos últimos 60 anos, o único país do Médio Oriente e Norte de África onde a população cristã tem aumentado é Israel. Para lá dos Cristãos Árabes israelitas, aparentados com os seus correligionários da Cisjordânia e Gaza, a população cristã aumentou com o fluxo de Cristãos russos, ucranianos ou romenos, chegados a Israel com os seus parentes judeus após o colapso da União Soviética. E mais recentemente, milhares de imigrantes das Filipinas, Gana e Eritreia em busca de trabalho. Pelo contrário, no resto do Médio Oriente, o panorama das comunidades cristãs tem piorado nas últimas décadas.

Na Síria, a braços com uma revolução sangrenta que dura quase há quase um ano, os Cristãos são uma minoria importante. Membros da Igreja Ortodoxa Síria e Grega e do ramo maronita do Catolicismo oriental, na altura do census do 1960, os Cristãos eram pouco menos de 15% da população do país, com 1.2 milhões de pessoas. Hoje, sem um census mais recente que confirme os dados, apesar de o seu número ter crescido para perto de 2 milhões, a percentagem terá descido para cerca de 10% da população da Síria. O decréscimo nas estatísticas é explicado pelas menores taxas de natalidade (associadas a um mais elevado nível económico), e também pela maior taxa de emigração dos Cristãos, em relação à maioria muçulmana.

Entre os países Árabes, o Líbano é o que detém a maior proporção de Cristãos. Porém, tal como na generalidade dos estados da região, esttes têm escapado em grande número à instabilidade política, a falta de liberdade política e em alguns casos a perseguição religiosa. Até à longa Guerra Civil Libanesa (1975-1990) os Cristãos compunham mais de 2/3 da população. Travada entre a Falange cristã e a OLP apoiada pela Síria, os 15 anos de guerra destruíram um país promissor e moderno – conhecido até então por "Suíça do Médio Oriente" – e deixou feridas praticamente impossíveis de sarar na população da nação. No pós-guerra, grande parte da liderança política cristã foi forçada ao exílio, presa ou assassinada pela nova ordem instaurada no Líbano.

Hoje porém, de acordo com alguns cálculos, os Cristãos serão cerca de metade da população do País dos Cedros. E isto, apenas excluindo os refugiados palestinianos (que serão mais de meio milhão no país) e os imigrantes muçulmanos. Nenhum censo da população é realizado no Líbano desde os anos de 1930. A fragilidade do status quo do sistema político libanês, com os Cristãos a obterem por determinação constitucional o cargo de presidente da República e metade dos ministérios (com a outra metade dividida pelos Muçulmanos Xiitas e Sunitas) preferirá ignorar a crescente diminuição da população cristã no país. Hoje, existirão mais Cristãos libaneses na Diáspora do no próprio Líbano, espalhados em países como Brasil, França, Austrália, Canadá ou Reino Unido.

No início do século XX, os Cristãos compunham 20% da população da Jordânia. O afluxo de Muçulmanos de origem saudita após a Primeira Guerra Mundial, a onda de refugiados palestinianos (quase 90% muçulmanos) depois da Independência de Israel em 1948 e a Guerra dos Seis Dias (1967) fizeram reduzir a sua população para apenas 7% dos habitantes do Reino Hachemita. Porém, os Cristãos jordanos, que integram os níveis mais altos da sociedade, detêm absoluta liberdade de culto, estão representados (inclusive acima da sua quota demográfica) no parlamento e nas forças armadas.

A Arábia Saudita é, oficialmente, 100% muçulmana. Porém, a visão oficial do regime de Riade não deixa esconder a realidade: existem vários milhões de cristãos no país. Em princípio, todos estrangeiros. Além dos diplomatas, existe uma grande população de trabalhadores domésticos das Filipinas, Índia e outros países asiáticos. Sem igrejas onde praticar a sua religião, os cristãos reúnem-se clandestinamente em casas particulares. A prática religiosa não-muçulmana é severamente punida. Mesmo a prática muçulmana é estritamente controlada pelo regime, que apenas permite o Wahabbismo, a fanática corrente islâmica praticada pelos Saud, a tribo da família real saudita. Nos últimos anos, vários cristãos foram condenados à morte e decapitados em execuções públicas, por se atreverem a praticar a sua religião, mesmo clandestinamente, na Terra Santa do Islão.

O Iraque contava mais de um milhão de cristãos em 1980. A antiga comunidade cristã esteve bem integrada nos negócios, na cultura e na política nacional. O cristão assírio Tarik Aziz foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante o regime de Saddam Hussein. Nas últimas décadas, quase metade dos cristãos abandonaram o Iraque, em especial após a invasão americana, em 2003. As numerosas comunidades cristãs de Bagdad e Mossul têm buscado refúgio no norte do país, onde alguns distritos do Curdistão Iraquiano são povoados por uma maioria de Cristãos Assírios. O fanatismo religioso xiita e as ações terroristas da Al-Qaeda que têm agitado o país desde 2003, têm atingido fortemente os cristãos. Vários atentados contra igrejas, em datas significativas do calendário cristão, têm assolado as principais cidades do centro e sul do país causando dezenas de mortos. Tal como noutros países da região, o futuro dos cristãos iraquiano passa pela imigração.

Tal como no Iraque, também no Egipto os cristãos (conhecidos como Coptas) estiveram bem integrados na sociedade local durante séculos. De acordo com fontes cristãs, a comunidade copta conta com 12 a 16 milhões de membros, a maior comunidade cristã do Mundo Árabe. Porém, uma vez que não existem estatísticas oficiais da população do Egito, o seu número é apenas especulativo. O governo egípcio reclama que a população cristã é bastante inferior aos números apresentados pela própria comunidade, entre os 6 e os 11 milhões.

A Primavera Árabe e as suas consequências na população cristã do Egito, bem podem dar razão às reclamações das autoridades: os cristãos são muito menos do que os números normalmente apresentados. E atualmente, eles abandonam o país a um ritmo cada vez mais acelerado. O caos instaurado com a queda do regime secular de Mubarak – onde os cristãos gozavam de uma certa proteção –, ataques a igrejas em várias regiões do Egito e a inoperância da polícia perante tais crimes, aliados à perspetiva da ascensão dos islamitas ao poder, assustam os cristãos egípcios. A vitória da Irmandade Muçulmana e dos Salafistas – os dois maiores componentes no novo parlamento egípcio saído das recentes eleições legislativas –, antevêem tempos sombrios para as minorias religiosas e os seculares do país das pirâmides.

O jornalista italiano Guilio Meotti, autor de várias obras os Cristãos no Mundo Árabe, recentemente declarou: “Depois da limpeza étnica dos Judeus dos países árabes em 1948, o fundamentalismo islâmico tenta agora empurrar os Cristãos para fora da região. Eles querem estabelecer um espaço islâmico puro e o êxodo em massa já começou debaixo dos nossos narizes. Na Síria, os Cristãos serão perseguidos depois da eventual queda de Assad, uma vez que eles foram os mais leais aliados do regime. Os Cristãos serão massacrados ou empurrados. Do Cairo a Damasco, a era do Cristianismo Árabe está próxima do seu fim.”

Com este cenário, hoje, provavelmente, o Menino não nasceria em Belém.

publicado por Boaz às 12:03
link do artigo | Comente | ver comentários (1) | favorito
Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Os moicanos de hoje

23 de Março de 2006, por volta das 11 da manhã. Tinha acabado de passar o Bet Din (tribunal rabínico) que tinha julgado a minha conversão ao Judaísmo. O rabino que me aceitara na Comunidade Judaica de Lisboa e com quem tinha começado a estudar, dois anos antes, tinha-me acompanhado naquele momento crucial no processo de conversão. Foi em sua homenagem que escolhi o meu nome hebraico, Boaz.

À saída do edifício, o rabino disse-me, apontando as minhas têmporas: "Agora vais ter de deixar crescer as payot". "Naaa, acho que não", respondi, desinteressado em aceitar aquele costume. Porém, dois ou três meses depois, quando voltei a cortar o cabelo – a primeira vez que cortei o meu próprio cabelo – deixei sem cortar uma área acima das orelhas.


Enrolar as payot. É quase um vício daqueles que seguem este costume judaico.

A Torá proíbe aos homens judeus cortar completamente os cantos da cara – payot, em hebraico, baseada no versículo: "Não cortarás o cabelo dos cantos da vossa cabeça, e não rasparás [com navalha] a tua barba" (Levitico/Vaikrá 19:27). Umas das explicações para esta lei – se é possível explicar completamente os mandamentos da Torá – é distinguir os Judeus dos Gentios. Os judeus iemenitas tinham (e alguns ainda mantém) o costume de usar payot especialmente longas, às quais chamam "simanim" (sinais), exatamente por servirem de sinal de distinção com os não-judeus. Uma consequência desta proibição foi a difusão do costume de deixar crescer o cabelo nos cantos da cara entre alguns sectores judaicos mais ortodoxos. Ainda que esse não fosse o fundamento desta lei. A proibição é o corte completo do cabelo nos cantos da cabeça, sem haver qualquer obrigação de deixar crescer as payot.

Antes que os meus caracóis crescessem até poder prendê-los atrás das orelhas, habituei-me às piadas dos colegas da yeshivá. Diziam que as minhas pequenas payot pareciam orelhas de urso. Porém, nos meses seguintes, os tufos de cabelo junto às orelhas foram crescendo e foi possível "adestrá-los" atrás das orelhas. Acabaram-se aquelas piadas. Começariam outras.

Em algumas ocasiões, usava os "canudos" bem enroladinhos e presos atrás das orelhas, quase impercetíveis. Assim os usei em 2007, da segunda vez que voltei a Portugal depois da minha mudança para Israel. Por alturas do meu casamento, as minhas payot já quase alcançavam a altura dos ombros. Para as fotos na boda, usei-as enroladas e metidas atrás das orelhas. O balanço das danças depressa as fizeram saltar para fora do esconderijo. Alguns meses depois de casar, passei a usar os caracóis sem estarem colocados atrás das orelhas. Isso, junto com a minha barba ruiva, podia dar-me um ar marcadamente ultra-ortodoxo, ainda que essa não seja a corrente judaica que eu sigo.

No meu quarto regresso a Portugal, em 2009, em nenhum momento escondi as payot atrás das orelhas ou debaixo da kippá. Fosse no encontro com os amigos ou nas idas ao supermercado em Leiria ou na Batalha, a vila onde cresci, ou nos passeios em Lisboa. Se havia olhares de estranheza pelo meu aspecto tão incomum nas ruas portuguesas, nunca os percebi como hostis. Noutras paragens na Europa, por razões de segurança – inclusive por perigo de vida – teria sido recomendável ocultar aquele sinal judaico tão evidente.

Nos princípios de 2011, as minhas payot levaram o primeiro grande corte. Antes de uma entrevista importante sobre uma proposta para trabalhar como líder comunitário e professor de escola judaica numa cidade da Argentina, fui aconselhado a realizar uma séria tosquia. Entendo que o tal aspeto “demasiado ortodoxo” poderia causar uma certa rejeição inicial, em especial numa comunidade pouco religiosa. Por esse valor mais alto, aceitei sacrificar as minhas payot que começara a deixar crescer há quase cinco anos.

Na semana passada, desferi o último golpe no que ainda restava. Fui a uma barbearia de Jerusalém, que frequentara várias vezes, situada no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. Mera provocação: ir justamente ali cometer tamanho sacrilégio! No sofá da barbearia estava sentado um judeu ultra-ortodoxo, amigo do barbeiro. Naquela hora da tarde, sem clientes a quem servir, o barbeiro estava a estudar Torá com o amigo até à minha entrada no estabelecimento.

Ao sentar-me na cadeira do barbeiro pedi: "máquina número 3 de lado e tesoura em cima". Assim que pedi ao barbeiro que cortasse o meu cabelo com a máquina, o seu gesto imediato foi segurar uma das payot e passar a máquina à volta dela. Disse-lhe que poderia cortar também as payot. Parou subitamente, espantado com a minha ordem. "O que se passou?", perguntou ele. Respondi, "Nada, apenas desejo cortar as payot. Já as tive durante muito tempo. Chegou a altura de as cortar."

Nesse momento, iniciou-se uma discussão filosófica entre o barbeiro e o amigo. O barbeiro parecia decepcionado pela minha mudança de aspeto. Conversámos um pouco. Ao saber que eu já tinha saído da yeshivá e entrado no mundo do trabalho, o tal amigo sentado no sofá comentou “o trabalho é que guarda o juízo ao homem!”. Algo surpreendente vindo de alguém que pertence a um público onde muitos dos seus membros olham o trabalho como algo quase desprezível, defendendo que um homem deve apenas estudar Torá.

Curiosamente, o homem do sofá tinha umas payot longas, e uma barba a condizer. Numa declaração que parecia falar contra ele próprio, comentou que o aspeto dos ultra-ortodoxos os torna “os moicanos de hoje”. Com as suas longas (e muitas vezes desgrenhadas) barbas e as payot, são tão extravagantes como as coloridas cristas eriçadas que foram moda entre a juventude rebelde há algumas décadas.

Depois de terminado o trabalho do barbeiro, observou "Olha como ficou bonito! Tem barba, tem as payot que a Torá prescreve, que não precisam de ser longas, kipá e tzitzit à mostra. Abençoado sejas". Desejou-me boa sorte para o trabalho. E que sendo um judeu religioso no mundo do trabalho, que santifique o nome de Deus.

Este é um desafio dos judeus religiosos: manterem a prática religiosa no seu contacto com o mundo não-religioso. Muitos aspetos da “vida moderna” são contrários a certas determinações da Lei Judaica. Se do lado secular, existe uma certa aversão às manifestações exteriores de religiosidade, do lado religioso existe também a insistência em afirmar essa identidade religiosa. Ambos os lados se sentem ofendidos pela atitude do lado contrário.

Um judeu religioso, no seu trabalho, tem a dupla responsabilidade de ser um bom profissional e um bom cumpridor da Halachá. O seu aspeto exterior pode criar a aversão dos não-religiosos não só à sua pessoa, mas a todos os judeus religiosos. No caso em que ele seja o único judeu observante entre os colegas, ele será um embaixador de todo o público religioso. Um representante da tradição milenar judaica e um testemunho de que a Torá tem lugar e relevância em todas as eras, sem nunca cair em desuso, e muito menos parecer ultrapassada.

publicado por Boaz às 21:50
link do artigo | Comente | ver comentários (6) | favorito
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

De bolha em bolha (de Copacabana aos Campos Elísios)

Há uns tempos, em conversa com um amigo americano sobre o lugar onde moramos, ele comentou que, por eu residir no colonato religioso de Alon Shevut, vivia numa espécie de "bolha". Em jeito de piada eu comentei-lhe que na verdade eu vivia dentro da "bolha brasileira" dentro da "bolha de Alon Shevut". Ele mora no vizinho colonato de Efrat, o melhor exemplo de uma "bolha americana" em Israel.

Desde que cheguei a Israel, há quase 7 anos, que o meu contacto com a sociedade israelita tem sido quase marginal. Eu explico. Vim para estudar num curso de conversão para sul-americanos, em que as únicas línguas usadas eram o português e o espanhol. Daí passei para uma yeshivá, o Machon Meir, estando integrado no grupo de estudos sul-americano. No meu quarto, falava português com os companheiros brasileiros e, pela falta do hebraico, usava o inglês com os dois companheiros israelitas. Apenas com um deles, de origem russa e com um inglês escasso, tentava falar um pouco em hebraico, à medida que ia aprendendo nas aulas do ulpan ivrit (curso oficial de hebraico).

Ao passar para a Yeshivat Hakotel, de novo para um programa de sul-americanos, o hebraico era apenas a quarta língua usada no meu dia-a-dia. Antes da língua sagrada, estavam o português, o espanhol e o inglês, usado com os muitos colegas americanos da yeshivá. O hebraico limitava-se às orações e os livros de estudo, mas não às discussões talmúdicas com os meus companheiros de estudo, que eram sempre brasileiros.

O mesmo aconteceu depois de entrar no grupo de alunos do kollel, a classe dos alunos casados, que estudam Torá num nível avançado. Na altura, tinha aberto um kollel para sul-americanos na yeshivá e eu integrei o grupo estreante. Apesar de estudarmos as fontes da Halachá (a Lei Judaica) na sua forma original em hebraico e aramaico, as duplas de estudo e discussão e as classes de semanais de revisão e desenvolvimento da matéria eram feitas exclusivamente em português.

Depois de casar, com uma brasileira, fomos viver para Alon Shevut, um pequeno colonato religioso 20 quilómetros a sul de Jerusalém, na região de Gush Etzion. A razão para a escolha da morada foi simples: a referida "bolha brasileira". Estar com pessoas que falam a mesma língua, e as quais já conhecíamos antes de casar, seria uma boa forma de nos integrarmos na vida local.

Conhecemos e somos próximos de quase todas as famílias brasileiras do povoado. É comum partilharmos a mesa de Shabbat, quer recebendo visitas ou sendo visitantes em suas casas. As crianças das famílias brasileiras são também bastantes próximas, se bem que muitas vezes brinquem em hebraico – a língua do infantário e da escola – e não tanto em português.

A língua sagrada, ainda que se fosse desenvolvendo naturalmente, era relegada para as ocasionais conversas de rua, no supermercado e no autocarro ou com os vizinhos israelitas. Mas sempre com a sensação de ser ainda uma língua estrangeira. Consigo pensar em português e mesmo em inglês ou espanhol, mas ainda não em hebraico.

Ao entrar no curso de preparação para shelichut, o meu nível de hebraico foi forçado a aumentar. Todas as classes, e praticamente todas as conversas com os companheiros de curso, eram exclusivamente em hebraico. Ainda que, no início, tenha perdido um pouco do conteúdo das aulas pelas dificuldades do idioma, o meu nível de hebraico melhorou consideravelmente com o tempo.

Há uns meses, chegou a hora de deixar a yeshivá e procurar trabalho "lá fora". Depois de algumas semanas de procura, encontrei um emprego numa empresa de call-center. A empresa é israelita, mas trabalha exclusivamente para o mercado internacional, em especial a França. No meu caso, sou o encarregado do serviço de atendimento aos clientes de uma empresa de material informático francesa que tem negócios em Portugal e Espanha. Mesmo a calhar. Por e-mail ou pelo telefone, trabalho exclusivamente nos idiomas ibéricos. Com os colegas de trabalho, todos franceses, falo em hebraico e começo a recuperar o idioma de Voltaire, abandonado desde que deixei de o estudar, no 9º ano da escola.

Apesar de ter encontrado trabalho, e de não me queixar das condições, continuo à procura de outro lugar. Ainda penso ser possível encontrar algum lugar onde possa por em prática aquilo que aprendi na faculdade. Se não for ao serviço do negócio da comunicação, que fosse ao serviço do Estado de Israel. Possivelmente, ainda demorará algum tempo até conseguir sair da bolha brasileira (e agora francesa) e finalmente integrar plenamente a sociedade israelita. Porém, como alguém me disse uma vez: "apesar de viver há mais de 30 anos em Israel, a dupla identidade – israelita e estrangeira – é algo que nunca nos larga".

publicado por Boaz às 22:03
link do artigo | Comente | ver comentários (8) | favorito
Domingo, 11 de Setembro de 2011

9/11 – A década

Lembro-me como se tivesse sido ontem, pensarão muitos, que terão ainda bem vivo na memória o abalo daquele dia. Para aqueles que presenciaram – mesmo pela televisão – o desenrolar do mais delirante ataque terrorista de sempre, o 11 de Setembro de 2001 é um dia inesquecível. Poderei dizer que será o dia mais negro deste ainda curto século XXI. O mais marcante, pelo menos.

Até hoje, sentimos as repercussões do embate dos dois aviões e a consequente queda das majestosas Torres Gémeas do World Trade Center. (Sem esquecer o ataque ao Pentágono e a queda do 4º avião num campo da Pensilvânia, heroicamente despenhado pelos próprios passageiros). A guerra ao terror, com todos os seus erros e más decisões, não tornou o mundo mais seguro depois do 9/11. Pelo contrário.

A invasão do Afeganistão e perseguição de Bin Laden – finalmente morto há poucos meses, depois de quase uma década de busca pelos americanos – não eliminou a ameaça dos Talibãs e do seu fanatismo. A sinistra al-Qaeda está ativa. Apesar de ferozmente acossada pelo exército americano, continua a espalhar o medo e a morte. Mesmo morto, Bin Laden continua a inspirar seguidores, dispostos a matar e morrer em nome da sua doutrina. Como uma sanguinária divindade pagã, a cujo culto devem ser sacrificados todos os que ousem recusar o seu tirânico domínio.


Segurança nos aeroportos | Prisão de Guantanamo, em Cuba | Abu Hamza al-Mazri, líder da mesquita de Finsbury Park, em Londres, um dos focos do radicalismo islâmico na Europa
Embate do segundo avião no World Trade Center, em NY | A queda da Torre Norte
Soldado americano ferido no Iraque | Jovens afegãs de burka numa cerimónia de graduação

O Afeganistão, para lá das principais cidades controladas pelo regime central apoiado e guardado pelo Ocidente, continua a ser um imenso campo de treino terrorista como era nos tempos em que a canalha de Bin Laden dominava o país. Espantados em parte do Afeganistão, os terroristas da al-Qaeda pululam hoje no Paquistão, na Somália, no Iraque e (suspeita-se) em Gaza. Ou onde quer que a confusão reine pelo mundo muçulmano.

A invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein provou-se um desaire militar e de relações públicas para os EUA. E um sorvedouro de dinheiro dos impostos americanos: de acordo com alguns cálculos, mais de 3 triliões (!) de dólares já foram gastos com a invasão e os quase oito anos de ocupação do Iraque. As armas de destruição maciça não passavam de uma boa desculpa para derrubar um ditador anti-americano e brutal, mas inocente em relação ao que se passou naquela manhã de Setembro. O Iraque é hoje um campo de treino e o maior palco de ação de organizações terroristas. Tirando o Curdistão Iraquiano, o resto do país é marcado pelos ataques às tropas ocupantes, as autoridades locais e a perseguição às minorias religiosas. Carnificinas diárias matam indiscriminadamente dezenas de pessoas, em atentados contra estações de polícia, mesquitas e mercados. O número de refugiados iraquianos nos países vizinhos e dentro do próprio país atinge os 4 milhões.

As invasões do Afeganistão e Iraque até poderiam ter sido "justas", ou no mínimo justificadas, se tivessem resultado numa pacificação desses países. Poderiam ter tornado o mundo num local mais seguro. Porém, o perpetuar da ocupação militar já custou alguns milhares de mortos entre as tropas americanas e britânicas. E entre os iraquianos, o número de mortos desde a invasão e bombardeamentos iniciais aos milhares de atentados que aconteceram desde então, varia entre algumas centenas de milhar e mais de um milhão, dependendo das fontes. Tudo isto fez rapidamente perder a simpatia pela "Guerra ao Terror", em especial na Europa, onde a imagem dos EUA é cada vez mais negativa. Nos EUA, o aparelho de segurança, apesar de consumir um orçamento astronómico de dezenas de biliões de dólares anualmente, continua a ser pouco eficiente. Nisto, Israel tem muito a ensinar aos Estados Unidos e a qualquer outro país.

Logo a seguir ao 11 de Setembro, as autoridades entenderam a necessidade de limitar os direitos individuais em nome da segurança coletiva. Hoje, essa concepção parece estar a perder apoio, tanto entre o povo, como entre os políticos. Por exemplo, enquanto radicais islâmicos propagam abertamente a sua doutrina nas ruas e mesquitas da Europa, as autoridades permanecem, em muitos cais, sem qualquer reação. Também, ou talvez sobretudo, por medo da retaliação violenta dos fanáticos.

Um ensinamento do Midrash (uma forma de explicar a narrativa bíblica) diz: "Aquele que é misericordioso com os cruéis, acabará sendo cruel com os misericordiosos" (Midrash Tanhuma, Parashat Mezorá, 1). Esta expressão poderia ser entendida e recebida, ainda que a contra-gosto, por muitos políticos e cidadãos comuns no seguimento dos ataques de Setembro de 2001. Hoje porém, a sua aceitação será menos unânime. Em nome da supremacia da "liberdade de expressão" e dos "direitos humanos".

O fanatismo islâmico, apesar de todos os apelos a uma auto-análise e reforma islâmica, também não diminuiu de força. Para lá das iniciais reações de júbilo pelos ataques de 11 de Setembro entre alguma populaça muçulmana, a opinião pública no mundo árabe e islâmico não se tornou mais pró-americana ou anti-fundamentalista. A verdade é que tampouco foram educados para tal pelos seus governantes e líderes religiosos. Tirando algumas cosméticas operações de caça a terroristas e seus apoiantes na Arábia Saudita, Iémen ou Paquistão, pouco foi feito para combater o radicalismo islâmico na sua origem. E mesmo estas operações destinaram-se mais a defender a permanência dos próprios regimes face à ameaça da oposição destes fundamentalistas, do que a combater os agentes armados do Islão radical.

Apesar de todas as discussões sobre os perigos do crescente radicalismo islâmico e a urgência de uma reforma social, política e religiosa no mundo islâmico, pouco mudou dentro do Islão desde 2001. Bin Laden e a sua ideologia fanática ainda alimentam paixões e fervoroso apoio populares. Os líderes políticos árabes continuam tão corruptos e fanáticos como antes. Até as revoltas populares que têm alastrado um pouco por todo a região, apesar das enormes esperanças da instauração da democracia, correm o risco de se transformarem em oportunidades de tomada do poder pela via democrática pelas forças radicais, como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Na Líbia, até agora um dos mais liberais regimes árabes em termos de igualdade entre os sexos, já se nota o aumento do número de mulheres que usa o véu publicamente, um sinal da crescente influência do Islão tradicional, depois do derrube do regime secular de Kadhafi. Os líderes da oposição líbia que tomaram o poder em Tripoli já anunciaram que a Sharia (a Lei Islâmica) deve ser a base da futura constituição da Líbia pós-Kadhafi. A esperança da "Primavera Árabe" poderá transformar-se num tempestuoso Inverno islâmico no Médio Oriente e Norte de África.

Os líderes religiosos muçulmanos, em especial no mundo árabe, tirando algumas figuras fora do mainstream, seguem a retórica da jihad contra o Ocidente. O Wahhabismo, a doutrina mais fanática dentro do Islão atual – apesar de ser considerada uma heresia por algumas das escolas islâmicas mais influentes – continua em forte expansão. Os abundantes petrodólares sauditas que patrocinam a construção de centenas de mesquitas dos EUA ao Brasil e a toda a Europa e África, patrocinam também os respetivos imãs, doutrinados de acordo com a corrente islâmica wahhabi, a única permitida na Arábia Saudita.

A Europa, com a sua cada vez mais alienada juventude muçulmana, dividida entre a sociedade europeia onde reside e a sua origem cultural, tem sido um fértil campo de recrutamento para o terrorismo. Os próprios autores do 11 de Setembro tinham sido estudantes em universidades europeias. E alguns dos mais ousados ataques (ou tentativas de ataque) desde o 11 de Setembro foram cometidos por muçulmanos europeus, como o "terrorista do sapato", o inglês Richard Reid.

Em termos políticos, a União Europeia tem sido cronicamente incapaz de ter uma voz única em termos de diplomacia, seguindo perigosa e estupidamente impotente face ao avanço do Islão radical dentro das suas fronteiras. O anti-americanismo doentio de alguns setores da política europeia tem minado uma completa cooperação em termos de segurança entre os dois lados do Atlântico que é indispensável para os desafios que se nos apresentam. A expressão "guerra ao terror" tornou-se quase inócua 10 anos passados do mais mortal atentado terrorista da história. As mudanças ao nível da segurança já caíram na rotina de muitos cidadãos.

Como comentou Uri Bar Lev, um especialista israelita em terrorismo: "Precisamos de começar a preparar-nos para a próxima guerra, em vez de para as guerras que já travámos. Estamos numa nova era, inteiramente diferente e mais perigosa do que a era passada. Não podemos dar-nos ao luxo de vacilar em face desta nova realidade."

publicado por Boaz às 13:00
link do artigo | Comente | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Kiddush com tequila (Em todos os lugares se encontram judeus)

Cumprem-se hoje cinco meses desde o dia em que embarquei na mais longa viagem que fiz até hoje: Cancún, no México. Fui visitar a kehilá (comunidade judaica) local. A frequentar o curso de preparação de shelichut¹, recebemos uma proposta séria para a pequena comunidade judaica no Caribe mexicano. Depois de algumas conversas via Internet e troca de emails, fui convidado a passar uma semana com a kehilá. Apenas eu iria viajar para Cancún. Nesta fase inicial de contacto com a comunidade, decidiram que era prematuro que a restante família me acompanhasse.

O programa da visita foi um pouco complicado de gerir. Acima de tudo, por ser a primeira vez que passava por uma experiência deste género. Nas semanas anteriores à viagem tive de preparar várias classes, discursos a serem proferidos na sinagoga durante o Shabbat e atividades para as crianças. Contactei rabinos que tinham trabalhado na América Latina, incluindo no México, para saber que assuntos abordar nas classes, para manter as pessoas interessadas. Uma das classes seria para as mulheres. Aconselharam-me a falar sobre o Amor. Além disso organizaria uma “conferência” com um tema à minha escolha.


Praia de Cancún | Espetáculo de um mimo israelita no shopping Kukulcan Plaza.
Pequeno-almoço comunitário | Vitral maia, cúpula do Kukulcan Plaza.

Porém, o que me levantou mais dúvidas foi a convivência com a débil prática religiosa dos judeus locais. Como comer kosher durante uma semana? Se houvesse alguma atividade na praia ou na piscina – ambientes comuns no dia-a-dia dos judeus locais – como ficaria a questão de tzeniut² (ou modéstia feminina)? E, com alguns membros da comunidade não sendo judeus de acordo com a Lei Judaica (por via de conversões não-ortodoxas) como poderia organizar as rezas na sinagoga?

As conversas com o diretor da organização onde estudei dois anos para a preparação da shelichut deixaram-me bem mais descansado. Era preciso, antes de mais, “aliviar um pouco a cabeça” habituada à estrita ortodoxia da vida judaica de Israel. A comida seria providenciada pela cozinha da comunidade, que é kosher, e pelas famílias que respeitam as regras alimentares judaicas em suas casas, como havia comprovado o próprio diretor numa visita a Cancún, alguns meses antes. Na questão da tzeniut, as opiniões que consultei divergiam. Uma dizia para tentar fixar as atividades de forma que evitasse totalmente esse problema. Outra opinião, que me surpreendeu pela complacência, foi simplesmente um peremtório: “Não olhes”.

Quanto aos possíveis não-judeus que integram as rezas na sinagoga (neste caso, convertidos por correntes não-ortodoxas, que não aceitam todas as regras da Lei Judaica), fui aconselhado a ignorar esses casos e organizar as rezas da maneira regular. Existem inclusive algumas razões haláchicas para esta leniência, por isso durante a minha visita não deveria abordar estes casos problemáticos.

A viagem de avião para Cancún foi difícil de aguentar. O horário do voo, saído de madrugada de Tel Aviv, estragou-me a noite de sono. O frio, o barulho dos motores, das dezenas de pessoas a roncar e tossir e o choro das crianças tornaram o longo voo de 12 horas até Filadélfia uma tormenta. A paranóia de segurança dos EUA iria fazer-me correr na curta escala entre os voos. Nem mesmo para quem está habituado à apertada máquina de segurança em Israel, as regras praticadas nos EUA são fáceis de suportar.

Cheguei a Cancún quase 24 horas depois de sair de casa. Passei do fresco início de Primavera de Gush Etzion para o escaldante e interminável Verão das Caraíbas. À saída do aeroporto, a rajada sufocante dos mais de 30 graus e da imensa humidade. O ar condicionado seria o meu melhor amigo naquela semana. Fui recebido pelo presidente da comunidade. Antes de me levar ao hotel, no centro da cidade, passámos pelo pequeno centro comunitário judaico para conhecer as instalações, a dois quarteirões de distância do meu hotel.

Teria algumas horas para descansar, depois de um duche. Antes de me deitar, ainda mandei uma mensagem para casa, pela Internet. Sete horas de diferença em relação a Israel significavam um quase absoluto desencontro de horários para marcar uma conversa com a família. Uma pessoa da comunidade tinha mandado entregar dois cestos com comida kosher (fruta, sumos e bolachas) para satisfazer o meu apetite no hotel. Depois do duche, da mensagem para o lar, do curto descanso, de comer um pouco – no voo de 4 horas desde Filadélfia não havia comido nada – começava o programa de trabalho daquela semana de visita à comunidade judaica de Cancún. As reuniões foram todas à volta da mesa de jantar, com as famílias dos líderes da comunidade.

Antes do primeiro almoço de trabalho, fui levado a um breve passeio para apreciar a famosa praia de Cancún. A alguns quilómetros do centro da cidade, percorrendo a avenida onde se situam os gigantescos hotéis, os clubes noturnos e os centros comerciais luxuosos, chegámos a um ponto onde pude admirar o Mar das Caraíbas, de um azul-turquesa indescritível. Perante tal grandiosidade, recitei a bênção: “Bendito És Tu, Eterno Nosso Deus, que fazes a Obra da Criação”. Pela primeira vez, vi o Atlântico do seu lado ocidental.

Num local tão improvável para encontrar vida judaica organizada como a costa caribenha do México encontrei uma comunidade pequena, de apenas 40 famílias. Todos tinham chegado a Cancún vindos de outra região do México, a maioria da cidade do México. Ou de outros países. Sem escola própria, minada pela assimilação e os casamentos mistos, era até então uma comunidade associada ao Judaísmo Conservador. A atuação do último rabino da comunidade tinha sido de tal modo desastrosa, dando uma péssima fama da comunidade de Cancún, que esta decidiu contratar um rabino ortodoxo.

Não que, com a chegada de um rabino ortodoxo, a comunidade se tornaria só por si ortodoxa. Contudo, apercebi-me que as mudanças pretendidas eram mais do que cosméticas. A liderança estava consciente das mudanças profundas necessárias à sobrevivência da pequena congregação. O problema das conversões “expresso” ocorridas na fase “conservadora” era o assunto mais quente da futura atuação do futuro rabino da comunidade. Num fenómeno demasiado corrente na Diáspora, quase todos os homens da comunidade haviam casado com mulheres não-judias. Em alguns casos, elas tinham passado a tal conversão vapt-vupt, em outros nem isso. Isso significava que entre as crianças da comunidade, poucas seriam judias de acordo com a Halachá (a Lei Judaica).

Para uma comunidade tão pequena e tão pouco religiosa – poucas famílias cumprem as regras alimentares judaicas e apenas um membro da comunidade cumpre o Shabat – a participação nas atividades religiosas da sinagoga é bastante elevada. Ao contrário de comunidades maiores (como Lisboa, por exemplo), a sinagoga tem minyan diariamente. Todas as manhãs, após o serviço religioso: o pequeno-almoço comunitário é uma oportunidade de ouro para organizar uma breve sessão de estudo. No Shabat, após o Kabalat Shabat há sempre um jantar da comunidade, frequentado por umas 50 pessoas. E o almoço na manhã seguinte também é partilhado por várias famílias. Cada um sente a sua responsabilidade como membro, para que a restante comunidade possa manter-se ativa. O compromisso com a vida comunitária é fortíssimo e comovedor de testemunhar.

Durante a semana, servi de chazan (oficiante) durante os serviços matinais na sinagoga. Também fui eu que li na Torá. Duas estreias absolutas para mim. Não creio que me saí tão mal, mas precisarei de mais prática. Na manhã de domingo, a ocasião de conhecer algumas crianças e participar nas suas atividades semanais na sinagoga, junto com o animador do grupo de jovens, recém regressado de Israel. Através de algumas brincadeiras didáticas ensinei-lhes um pouco sobre a festa de Pessach, a acontecer daí a algumas semanas.

Por uma questão de cortesia, visitei o emissário Chabad na cidade. Devido à situação dos casamentos mistos e das conversões, ele tinha recusado a oferta de ser o rabino da comunidade. Por isso, tirando algumas aulas com algumas famílias e o abastecimento de alguma comida kosher importada, ele dedicava-se quase exclusivamente a assistir os turistas judeus de visita a Cancún.

Uma das coisas que mais me impressionou na visita foi a simpatia e informalidade dos judeus cancunenses. Apesar de quase todos serem milionários, vivendo em mansões faustosas, não tinham o menor toque de snobismo, tão comum entre os ricos. (E essa é a imagem que tenho dos judeus mexicanos).

Depois de uma semana de visita, apesar de todos os desafios que uma shelichut em Cancún implicaria, imaginei que seria uma comunidade interessante onde trabalhar. Sendo uma comunidade tão pequena e remota, era contudo extremamente unida e interessada na vida comunitária, algo que falta noutras paragens. O local também ajudara a criar uma boa perspetiva de decidir transplantar a família para tão distantes latitudes. As questões económicas nem sequer foram mencionadas. Esse assunto deveria ser relegado para uma etapa mais avançada nas negociações.

Poucos dias após o regresso a Israel recebi a resposta da kehilá. Eu não seria o escolhido para liderar a comunidade. A minha falta de experiência, face às complicadas questões que rodeiam a vida judaica em Cancún, determinara este desfecho. Ainda que um pouco desiludido, reconheço a razão da decisão. As tarefas são hercúleas e o novo shaliach terá de ter um pulso muito forte para aguentar as adversidades. Além de, diplomaticamente ter de engolir alguns sapos e por vezes fechar os olhos, por outro terá de ter coragem de bater na mesa quando seja imprescindível. Só desejo o maior sucesso ao que tomar o cargo que, um dia pensei que poderia ser eu a realizar. De Cancún e dos seus judeus guardo ótimas memórias.

¹ Shelichut – Literalmente, "missão". O termo aplica-se aos rabinos e educadores (sendo estes chamados de shelichim, "enviados"), que vão trabalhar temporária ou definitivamente com as comunidades judaicas da Diáspora. Também é aplicado aos diplomatas.

² Tzeniut – "descrição" ou "modéstia". Refere-se em especial às regras de vestuário feminino para evitar expor demasiado o corpo. Algo especialmente difícil nos 12 meses de verão de Cancún.

publicado por Boaz às 19:35
link do artigo | Comente | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

De olhos na Diáspora

Depois de dois anos, terminámos o curso de preparação para shelichut, para irmos trabalhar em alguma kehilá (comunidade judaica) da Diáspora. No início do curso, as limitações do meu hebraico (que ainda persistem, embora cada vez menos) fizeram-me perder algum do conteúdo de algumas classes.

Nas primeiras semanas, muitas das aulas pretendiam dar-nos uma perspetiva da situação do Povo Judeu no Mundo. Perante a maior experiência e muito maiores conhecimentos de quase todos os meus companheiros de classe, apercebi-me do quanto ainda tinha de desenvolver as minhas aptidões. Porém, também percebi que, apesar das minhas limitações em alguns níveis, a minha capacidade de relacionamento com outras pessoas e diferentes culturas – a tal “cabeça aberta” que falta a muitos judeus religiosos israelitas – ajudavam a ultrapassar alguns desses obstáculos.


Emissário Chabad conversa com um jovem não-religioso.
O movimento Chabad é pioneiro nas iniciativas de aproximação dos 'afastados' às suas raízes judaicas.

Relatos dos diretores do curso, que viajam regularmente para acompanhar o trabalho nas várias congregações, assim como dos próprios emissários de visita a Israel, revelaram uma imagem quase catastrófica do Judaísmo da Diáspora. As altíssimas taxas de casamentos mistos em todos os países (exceto em dois ou três casos muito específicos), níveis de prática religiosa e conhecimentos de Judaísmo muito baixos, crise na identidade judaica entre os jovens e ocorrência de anti-semitismo. A cada semana, a carga de tragédias aumentava e com ela a sensação de total impotência para enfrentar a situação.

Aos poucos, porém, a frustração foi substituída pela consciência de que, apesar das enormes dificuldades no trabalho com as comunidades judaicas, existe muito por onde melhorar e qualquer pequeno progresso faz uma grande diferença. Apesar do desinteresse (ou pura ignorância) pelas tradições dos antepassados, das crescentes taxas de assimilação e abandono da vida judaica, os processos inversos também se verificam.

O renascimento da espiritualidade, o regresso às origens perante a perceção de que o "Mundo Ocidental" não dá todas as respostas nem preenche todos os vazios. Ainda que, por vezes, essa nova espiritualidade não se enquadre propriamente dentro das normas da ortodoxia. Como alguém muito pragmático descreveu o fenómeno: parece não existir nenhuma contradição em “estudar Cabalá numa Sexta à noite, em redor de um prato de camarão”.

Ao longo do curso fomos recebendo algumas propostas de destino de trabalho. Ansiosos por preencher as vagas e enviar o maior número de emissários da própria organização, antes que o lugar seja ocupado “pela concorrência”, recebemos também algumas propostas quase absurdas. A primeira foi para Lisboa, poucos meses após o início do curso. Tendo eu passado por Lisboa na minha caminhada em direção ao Judaísmo, e conhecendo ainda um pouco da kehilá, depressa entendi a proposta como irrealista. Enfrentar uma comunidade pequena mas complicada como Lisboa, com a minha inexperiência, seria um perfeito suicídio. Alguém me avisou: “vão comer-te vivo!”.

O "caso Lisboa" não avançou – na verdade não tinha sequer como avançar logo à partida – e, numa questão de poucos meses, o lugar foi preenchido por alguém muito melhor preparado. Definitivamente, aquela oferta não era para alguém que procura ainda o seu primeiro posto de shelichut.

Alguns meses depois, fomos despertados com a possibilidade de irmos para Madrid. Alguém na comunidade madrilena pretendia abrir um beit midrash – um centro de estudos judaico – e precisavam de um professor. Ao mesmo tempo trabalharia com os jovens no colégio judaico local. Algumas conversas com um intermediário deram-nos detalhes interessantes sobre o trabalho. Porém, algumas semanas depois, de repente, os planos para o beit midrash madrileno esfumaram-se.

Ainda durante o primeiro ano do curso, mais de metade dos colegas de classe encontraram um lugar em comunidades no estrangeiro. A maioria na América do Norte. Outros, por alguma razão, desistiram de sair. Ao longo do segundo ano, o entusiasmo inicial de trabalhar para ajudar o Povo de Israel esmoreceu parcialmente. O panorama de sair de Israel para, daqui a alguns anos, voltar ao país sem ter casa nem trabalho, fizeram-nos distanciar um pouco daquele sonho.

Entretanto recebemos uma proposta para Cancún, no México. O tipo de comunidade pareceu-me bem interessante: pequena mas ativa, sem escoa judaica onde tivesse de ensinar todos os dias “das 9 às 5”. Falei pela Internet com os líderes da comunidade e cheguei mesmo a viajar para o México durante uma semana, a fim de conhecer in loco a comunidade. Apesar da experiência positiva da viagem e do contacto com os judeus de Cancún, acabaram por decidir que eu ainda não tinha a experiência necessária para resolver os graves problemas da comunidade. Não posso dizer que não tenham razão, apesar de lamentar de ter – de certa forma – perdido uma boa oportunidade. Mas, se não é, é porque não tem de ser.

Havíamos decidido, à partida, irmos para algum lugar de língua portuguesa ou espanhola, também por questões de proximidade cultural. Enfrentar a possibilidade de não entendermos as pessoas com quem iríamos trabalhar e ainda forçar as nossas crianças a aprender um idioma adicional, estava fora de questão. Porém, as ofertas para outras latitudes continuaram a chegar. Como o cargo de vice-rabino de Atenas, na Grécia, trabalhando como auxiliar do rabino local e em projetos de educação dos jovens da comunidade. Sem falar grego, a única possibilidade seria comunicar-me em inglês. Contudo, a minha esposa praticamente não fala o idioma de Shakespeare (e menos ainda o de Platão), pelo que isso significaria, nos primeiros meses, até aprender um pouco do idioma local, uma total impossibilidade de comunicação. Por outro lado, as crianças estariam numa escola onde aprenderiam um idioma – neste caso o grego – totalmente desconhecido por nós, e que não seria sequer usado em casa. Proposta idêntica tivemos para Wroclaw, na Polónia. Mas em vez do grego, o polaco. Que se seguirá: coreano?

Poucas semanas antes de terminar o curso soubemos do caso da comunidade de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos. A comunidade pretendia um casal de professores para a escola judaica local. O homem ensinaria os rapazes, a esposa daria aulas às meninas. Pelos dados que recolhi sobre a kehilá – quase ultra-ortodoxa – entendi que não seria o lugar adequado para nós.

Mesmo depois de terminado o curso, as possibilidades de saída continuarão a surgir. Porém, quanto mais tempo passa depois da conclusão do curso, é verdade que diminuem as hipóteses de encontrarmos algum lugar. É algo que ainda queremos fazer, mas não podemos sair precipitadamente. A comunidade certa para os emissários certos. Como num casamento. De outra forma, arriscamo-nos ao fracasso.

publicado por Boaz às 20:00
link do artigo | Comente | ver comentários (13) | favorito
Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Mazal tov!

Ainda que, como instituição o casamento esteja em grave crise, o dia da boda é – depois do nascimento – quase universalmente considerado a mais importante data da vida de alguém. Em todas as culturas, a formação de uma nova família é um evento rodeado de inúmeros rituais, tradições, formalidades e superstições.

As festas de casamento judaicas, apesar de serem ocasiões obviamente intensas e emocionantes, duram apenas algumas horas. Em Israel, pelo menos. Não um dia inteiro, como é normal nas bodas cristãs. Em Israel, o único dia de descanso semanal é o Shabbat, o Sábado. O Domingo, pelo contrário, é um dia de trabalho normal. Porém, de acordo com a Halachá, a Lei Judaica, não se realizam casamentos no Shabbat. Restarão os dias úteis para a realização do matrimónio. Depois do horário de trabalho, ao final da tarde, ou já de noite. Em Israel, a maior parte dos casamentos não se realizam em sinagogas. Toda a boda, incluindo a cerimónia religiosa, realiza-se normalmente num salão de festas. Ou num hotel.


Casamento judaico em Marrocos, de Delacroix. Museu do Louvre.

Tirando os membros mais chegados da família, é normal os convidados chegarem à boda diretamente do trabalho. A informalidade israelita não impõe o uso de gravata ou fato de cerimónia. Nem sequer ao noivo. Entre o público dati leumi, ou ortodoxo moderno israelita, é comum muitos dos homens, em especial os mais jovens, usarem sandálias que noutras paragens seriam consideradas adequadas a uma ida à praia. Se esse é o calçado que eles usam até no Shabbat, porque seriam impróprias para usar num casamento?

Entre os Judeus religiosos, muitos dos casais são unidos por intermédio de um shiduch. Algum intermediário combina o encontro entre o rapaz e uma potencial pretendente. Apesar de o shiduch ter a aparência de "casamento arranjado", a decisão de casar-se é feita exclusivamente pelos noivos e nem sequer pelos seus pais. A Lei Judaica proíbe absolutamente a coerção de uma das partes a casar-se com quem não deseja. Apenas o "empurrão inicial" e alguns conselhos intermédios são feitos pelo shadchan, o tal intermediário.

Após a oficialização do noivado – é comum haver uma pequena cerimónia – são poucos meses, ou mesmo só algumas semanas, até à realização do casamento. Não há tempo a perder, se o casal já deseja a união! Além dos inúmeros detalhes de uma qualquer cerimónia de casamento: a escolha do salão, do fotógrafo, da decoração, da banda ou do vestido de noiva, o casamento judaico implica outros trabalhos extras.

Em Israel não existem casamentos civis. Apenas religiosos. Sejam eles judaicos, muçulmanos, cristãos ou drusos. Para os Judeus, toda a burocracia do casamento tem de passar pelo rabinato local. Uma das dificuldades acrescidas nos últimos tempos é a exigência de uma "prova de Judaísmo". Com a imigração de gente de todo o mundo, com muitas pessoas nascidas de uniões não realizadas de acordo com a Halachá, ou que não possuem documentos que provam os casamentos familiares, torna-se mais difícil provar a cadeia familiar judaica. Sem a certeza de que se trata de duas pessoas judias (nascidas de mãe judia ou que passaram uma conversão ortodoxa), o casamento não pode ser realizado de acordo com a "Lei de Moisés e Israel".

Um dos fenómenos causados por estas exigências de prova de identidade – que por vezes revelam que afinal um dos noivos não é judeu – é a decisão de casar fora de Israel. Isto, no caso de o membro não-judeu do casal não desejar passar um processo de conversão. Desta forma, os noivos viajam para a Grécia ou Chipre e aí realizam um casamento civil. Esta união é reconhecida em Israel.

Depois de ultrapassada a burocracia do rabinato, existe a exigência de estudo das leis familiares judaicas. A separação do casal durante o período menstrual, rodeada de complicadas leis, é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo. Mesmo que não sejam cumpridas – em todo ou em parte –, pela maioria das famílias não-observantes, as futuras noivas judias passam pelo menos por uma classe sobre "as leis de pureza familiar". Entre os judeus religiosos, também os homens passam um período de estudo destas leis antes do casamento. Ao mesmo tempo, são estudados assuntos como a harmonia familiar e formas de a conservar, evitando a discórdia.

Nas vésperas do grande dia, noiva deve passar por uma imersão numa mikve, um tanque de águas usado para a purificação ritual. Também existe o costume de o noivo fazer uma imersão na mikve. Em algumas comunidades ultra-ortodoxas existe o costume de o futuro casal não se encontrar, e muitas vezes nem sequer falaram um com o outro pelo telefone, uma semana antes do casamento. Com isto pretende-se aumentar a saudade entre os dois e a ânsia de realizarem a sua união. No próprio dia do casamento cada um dos noivos costuma ser acompanhado por um "guardião". Alguém que os vigia e se assegura que tudo corre tranquilamente e não se deixam vencer pela ansiedade.

Como nos casamentos ocidentais, também o noivo judeu chega primeiro ao local da cerimónia. Há que tratar da assinatura da ketubá, o contrato matrimonial. Perante o rabino oficiante da cerimónia e duas testemunhas – e normalmente também o pai da noiva –, o noivo assina a ketubá, um documento que atesta os direitos da futura esposa e as obrigações do futuro marido. Nesta altura, enquanto o noivo trata das últimas formalidades legais, noutra parte do salão de festas a noiva encontra-se rodeada das amigas, sentada numa cadeira decorada.

Após a assinatura da ketubá, dá-se início à festa. A banda de música que anima a ocasião e os homens convidados rodeiam o noivo, que inicia um cortejo até ao lugar onde a sua noiva está sentada. Para os que cumprem o costume, esta é a primeira vez que os noivos se vêem numa semana. Aí, cobre-lhe a cabeça com o véu. Daí, o noivo, ladeado pelo pai e o sogro, é seguido pelo mesmo cortejo até à chupá, o pálio nupcial sob o qual será realizada a cerimónia religiosa. A noiva chega pouco depois acompanhada pela mãe e, às vezes, também a sogra.

A cerimónia é bastante simples e rápida. Sete bênçãos são recitadas sobre um copo de vinho. Às vezes, cada uma é recitada por um homem diferente, desde rabinos convidados até amigos e familiares dos noivos. Depois da segunda bênção, o noivo entrega a aliança à noiva, declarando que "Estás consagrada para mim através deste anel, como dita a lei de Moisés e Israel". "Consagrada, consagrada, consagrada!", os convidados declaram em voz alta. A ketubá é lida. Normalmente, este é um "momento morto" da cerimónia, uma vez que o contrato matrimonial está escrito em aramaico, uma língua que muito poucos entendem. Ao final das sete bênçãos, recorda-se Jerusalém: "Se eu te esquecer Jerusalém, que a minha mão direita perca a sua força; que a minha língua se cole ao meu palato se eu não te lembrar; se eu não te elevar ao topo da minha alegria".

O momento mais famoso da festa de casamento judaico é o quebrar do copo de vidro. Apesar de se seguir de um "Mazal tov!" (Boa sorte!) em uníssono, o ato simbólico de partir o copo representa a lembrança da destruição do Templo de Jerusalém e de como a alegria desta festa não pode ser completa, ao sabermos que o Templo continua ausente e o Povo de Israel ainda está distante da sua glória de outrora.

Os convidados invadem a chupá para saudar os noivos. Depois, novamente a barafunda do cortejo de convidados acompanha o casal desde a chupá até a um lugar onde os dois, pela primeira vez, se encontram a sós. É a hora de os convidados poderem sentar-se à mesa e comer. Porém, dentro de alguns minutos, quando os noivos voltarem, a euforia da festa será explosiva.

Nas festas de casamento judaicas ortodoxas, existe uma separação entre homens e mulheres. Ao menos na parte das danças. Homens e mulheres dançam em espaços distintos. E com uma barreira, mais ou menos alta, a separá-los. No caso das comunidades ultra-ortodoxas (e também alguns sionistas religiosos) até as mesas da refeição se encontram separadas por géneros.

O baile do casamento é uma ocasião frenética. É quase milagroso como não acontecem desastres durante a festa, dado o nível do frenesi. De mãos dadas em cadeia, os homens dançam em redor do noivo, cada vez mais rapidamente. O mesmo fazem as mulheres em volta da noiva. Os dançarinos mais enérgicos vão passando das rodas exteriores cada vez mais para o interior do furacão dançante. Um convidado mais entroncado levanta o noivo nos ombros. Outros levantarão o pai do noivo e o sogro. Rodando-os e balançando-os sob os aplausos delirantes dos convidados.

De tempos a tempos, o noivo é deixado sentar numa cadeira no centro da multidão de bailantes para descansar por alguns instantes. Suado e exausto, alguém lhe traz uma bebida. Perante o noivo sentado, alguns dos amigos fazem palhaçadas, acrobacias, exibições de dança ou até números de circo com fogo e malabarismos. Tomados pelo entusiasmo e assumindo a missão de alegrar os noivos, até respeitáveis rabinos se transformam em bobos da festa.

É preciso não esquecer que tudo isto acontece num dia de semana. E amanhã também se trabalha. Pelo que a festa acaba relativamente cedo. No final da refeição, restarão apenas os familiares e os amigos mais chegados. As mesmas bênçãos que foram recitadas sob o copo de vinho na chupá são repetidas após a bênção final da refeição. Ainda que a festa não dure sete dias como as bodas ciganas, as refeições festivas em honra do novo casal repetem-se durante uma semana. O primeiro Shabbat após o casamento é especialmente celebrado. Depois de passada a primeira semana, com o seu ambiente de festa quase diário, os noivos entrarão a sério na vida de casados. Para a maioria das jovens famílias, os filhos chegarão menos de um ano depois do “sim” nupcial.

Nesta altura do ano, o calendário judaico aproxima-se dos chamados yimei bein hametzarim, os "dias entre os sofrimentos". São as três semanas que separam 17 [do mês hebraico] de Tamuz e 9 [do mês] de Av, duas datas marcadas por tragédias na história judaica. Nesta época de luto parcial, não se realizam casamentos. Por isso, até à entrada nas três semanas fatídicas em que não se trocam os votos de casamento, acumulam-se as bodas em Israel.

publicado por Boaz às 00:05
link do artigo | Comente | ver comentários (3) | favorito
Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Seis dias em Junho

Passaram mais de 40 anos, mas os acontecimentos de 5 a 10 de Junho de 1967 têm consequências até à atualidade. Conhecida por "Guerra dos Seis Dias", é um dos mais dramáticos episódios da história de Israel. Desde o dia da sua fundação, em 14 de Maio de 1948, o moderno Estado de Israel foi ameaçado pelos seus vizinhos árabes. Com o cessar-fogo da Guerra da Independência, em 1949, não foi instaurada a segurança e a estabilidade nas fronteiras do jovem Estado Judaico.

A partir do Sinai e da Faixa de Gaza – ocupada pelo Egito em 1949 –, as violações da fronteira de Israel eram constantes. A cada ataque seguiam-se retaliações da parte de Israel. O clima de guerra era permanente e, com a nacionalização do Canal de Suez, o Egito esperava represálias também da França e do Reino Unido, que pretendiam defender os seus interesses no Canal.

Sabendo dos interesses anglo-franceses, Israel decidiu ser o primeiro a atacar. A intenção israelita não ocupar o Sinai permanentemente. O objetivo era impor uma derrota ao beligerante regime de Nasser, que levasse o exército egípcio a terminar com as ameaças às fronteiras de Israel. A “Operação Kadesh” de 1956 causou uma derrota egípcia, mas o ambiente de guerra não abandonou a região. Com a colocação de milhares de soldados da ONU no Sinai para vigiar o cessar-fogo, as incursões árabes em território israelita terminaram durante alguns anos. A confiança israelita nas suas tropas cresceu consideravelmente.

A tranquilidade relativa da fronteira egípcia contrastava com os repetidos ataques na fronteira síria. Povoações no norte da Galileia e nas margens do Kinneret (Mar da Galileia) eram bombardeadas a partir de posições sírias no estratégico planalto de Golan. Em Jerusalém e na fronteira oriental, a ameaça do exército jordano também era crescente. Ainda que o Rei Hussein fosse o mais moderado dos vizinhos de Israel, era pressionado pelos milhares de residentes palestinianos no seu país e pelos restantes líderes árabes.

A situação agravou-se com a ordem do presidente egípcio Abdel Nasser de expulsão das tropas da ONU estacionadas no Sinai e a retoma do controlo militar da península pelo poderoso exército egípcio. No estreito de Tiran, no fundo do Sinai, foi imposto um bloqueio aos navios de Israel, impedindo o seu acesso ao Mar Vermelho. A guerra era de novo eminente.

Os dois blocos da “Guerra Fria” armavam cada um dos lados. Os soviéticos equipavam as forças árabes, enquanto Israel usava armas de fabrico americano, francês e britânico. Em evidente desvantagem numérica e estratégica, a única hipótese de Israel conseguir uma vitória no conflito que estava eminente, seria desencadear um ataque surpresa, rápido e massivo.

Na manhã de 5 de Junho, a aviação israelita atacou as bases aéreas egípcias a partir do Mediterrâneo. Voando a baixa altitude evitaram ser detetados pelos radares. Em algumas horas, a Força Aérea de Israel reduziu a cinzas toda a frota de aviões de Nasser. Simultaneamente, foram atacadas bases na Síria, Jordânia e Iraque. Este ataque fulminante permitiu a Israel o controlo absoluto do espaço aéreo, podendo depois concentrar-se na ofensiva terrestre.

Perante o ataque israelita, as populações árabes reagiram com entusiasmo. Afinal, não haviam sido informadas da pesada derrota aérea pela comunicação social controlada pelos seus regimes. Num esforço propagandístico evidente, a Rádio Damasco difundia a mensagem: “Destruiremos Israel em quatro dias”.

Os combates foram rápidos no Sinai. Em apenas três dias, a maior parte das forças egípcias – o mais poderoso exército árabe – foram derrotadas em batalhas de blindados. O exército de Israel avançou até à margem oriental do canal de Suez. Com a frente egípcia totalmente dominada, Israel concentrou-se na frente oriental. O exército jordano atacava a Cidade Nova de Jerusalém, pretendendo avançar pela cidade rumo ao Mar Mediterrâneo, cortando Israel ao meio.

As tropas israelitas atravessaram a "terra de ninguém"; que se estendia ao longo da fronteira que dividia a cidade desde 1949 e cercaram a Cidade Velha. Após dois dias de combates, o exército jordano foi repelido da Cidade Santa e a cidade foi finalmente reunificada. Pela manhã do dia 7 de Junho, já os fiéis judeus rezavam no Kotel, o Muro das Lamentações, pela primeira vez em 19 anos. O local mais sagrado do Judaísmo havia estado inacessível aos Judeus desde 1948, quando Jerusalém Oriental, incluindo a Cidade Velha, fora capturada pela Jordânia.


Fiéis judeus no Kotel, uma realidade impossível até 1967.

Israel avançou para Oriente, conquistando o território da Judeia e Samaria, que desde 1949 estava sob controlo jordano. Em 1950, esses territórios haviam sido mesmo anexados pelo Reino da Jordânia. Nessa altura, ainda ninguém reclamava a região para fundar um "Estado Palestiniano". Com as vitórias no sul e no leste asseguradas, restava suster a ameaça da Síria. Antes que as Nações Unidas decretassem um cessar-fogo, os blindados israelitas venceram o exército sírio nos Montes Golan. A 10 de Junho foi instaurado o cessar-fogo. A essa altura, as tropas israelitas já haviam avançado até próximo da capital síria, Damasco.

Em menos de uma semana, Israel aumentou mais de três vezes o tamanho do seu território. (A península do Sinai seria devolvida ao Egito em 1981, instaurando o primeiro tratado de paz israelo-árabe, o qual se mantém até hoje, apesar de alguns momentos problemáticos nas relações entre os dois países.) A partir de 20 de Junho foi autorizado a todos os Muçulmanos o acesso à mesquita de Al-Aqsa, no Monte do Templo (ou Esplanada das Mesquitas). Anteriormente, os fieis muçulmanos que viviam do lado israelita da “Linha Verde” também não podiam rezar nos seus santuários da Cidade Velha.

A espetacular vitória israelita causou um fortalecimento sem precedentes da identidade judaica. No espaço dos últimos 2000 anos, nunca as profecias de Redenção pareceram tão reais. Em todo o mundo, milhares de judeus seculares que até então desprezavam a sua origem judaica, passaram a afirmar com orgulho o seu Judaísmo. Milhares de Judeus fora de Israel passaram a usar com orgulho as suas kippot, publicamente. Na União Soviética, onde os Judeus sofriam uma forte perseguição religiosa, mesmo debaixo da opressão do regime despertara um movimento que reclamava o direito de imigrar para Israel.

Desde que Israel unificou Jerusalém, a cidade experimentou uma fase de desenvolvimento sem precedentes. Nunca a cidade se tornara verdadeiramente num local santo para as três religiões monoteístas. Apenas sob o domínio israelita foi instaurada a liberdade religiosa para todos os seus habitantes.

Hoje, o calendário judaico marca o Yom Yerushalaim, o Dia de Jerusalém, que celebra a reunificação da Cidade Santa, ocorrida durante a Guerra dos Seis Dias. Ele simboliza a restauração do domínio do Povo de Israel sobre a sua capital ancestral. O retorno a Sião, base do Sionismo, a ideologia fundadora do Estado de Israel, que é a ânsia dos Judeus de regressarem à sua pátria histórica depois de quase dois mil anos de exílio. A coroa regressou ao seu legítimo soberano.

publicado por Boaz às 15:00
link do artigo | Comente | ver comentários (3) | favorito
Quarta-feira, 2 de Março de 2011

Ecos da Diáspora

Numa das minhas últimas jornadas diárias para Jerusalém, apanhei boleia num carro onde viajavam duas mulheres que conheço vagamente, residentes em Alon Shevut, tal como eu. Mãe e filha conversaram num idioma estranho durante toda a viagem. Percebi imediatamente que não era hebraico. Apesar de ainda um pouco ferrugento na minha boca, o hebraico já não é “um idioma estranho” para mim.

“Talvez seja yiddish”, imaginei, lembrando-me da língua falada pelos Judeus oriundos da Europa Oriental, que é uma mistura de dialetos alemães e eslavos. “Não, também não é”, percebendo pela falta do forte sotaque alemão. Curioso, prestei atenção à conversa, sem entender uma única palavra daquele idioma misterioso. Da lista de possibilidades, fui sucessivamente excluindo as línguas germânicas e eslavas. “Húngaro!” concluí, atendendo à abundância do som “ô”. Aqui e acolá, a filha pontilhava o húngaro com expressões em hebraico e até português. *

Jerusalém, nas línguas do Mundo.

Na década de 1880, o escritor e jornalista Eliezer ben-Yehuda iniciou e reabilitação da língua hebraica como um idioma moderno. Consultando as fontes do Tanach (as escrituras judaicas, que incluem a Torá e os livros dos vários profetas), ben-Yehuda criou palavras novas a partir de velhos termos. Muitas das suas palavras novas são hoje parte do léxico hebraico, mas cerca de 2000 nunca foram adotadas.

Comparando com o português ou o espanhol, o idioma hebraico é bem menos rico em raízes de palavras. Porém, de apenas uma raiz, conseguiram criar-se dezenas de termos. Por exemplo, da palavra avir, “ar” em hebraico, surgiu aviron, “avião”. Porém, este é mais conhecido como matós, proveniente da raiz tas, “voar”. E como este, há dezenas de exemplos de vocábulos do hebraico moderno, com versões diferentes para a mesma coisa, dependendo da raiz que foi usada para nomear pela primeira vez uma coisa nova. Em maior ou menor medida, adotaram-se palavras com sonoridade grega, inglesa ou espanhola.

Porém, este renascimento da língua hebraica não apagou o uso das línguas que os Judeus usaram durante as gerações passadas na Diáspora. Os judeus haredim (ultra-ortodoxos), chegados da Europa Oriental, ainda hoje usam o yiddish como idioma do quotidiano, dos jornais da comunidade e dos pashkevilim, os cartazes afixados nas paredes dos bairros ultra-ortodoxos, contando as novidades, escândalos e alertas da comunidade. Inclusive na yeshivá, a academia de estudos religiosos, a Lei é discutida no idioma dos seus antepassados europeus. O hebraico, a língua sagrada, é reservado para os próprios livros da Lei e para as orações. Na opinião de muitos haredim, usar o hebraico nos assuntos do quotidiano seria misturar o sagrado com o profano. Um sacrilégio, portanto.

Os israelitas de origem russa – mais de um milhão, chegados na década de 1990 depois do colapso do Império Soviético – até hoje falam a sua língua materna. Ainda que aprendam hebraico com uma rapidez impressionante, mantém um fortíssimo sotaque eslavo. O mesmo se passa com os judeus franceses, a imigrar em cada vez maior número para Israel.

Os judeus provenientes do mundo islâmico mantêm o sotaque mais próximo da norma hebraica moderna, mas é normal ouvi-los a falar árabe, turco ou persa. Os mais velhos ainda falam os dialetos típicos dos judeus desses países, como o quase desaparecido haketia ou ladino ocidental, proveniente do Norte de Marrocos. Do mesmo modo, os judeus turcos e gregos guardam ainda o ladino oriental. E os bukharianos, o seu dialeto de origem turca.

Também os judeus imigrados do mundo anglo-saxónico continuam a usar o inglês em abundância. Em Jerusalém e nos colonatos e cidades dos arredores, existem numerosas comunidades de falantes de inglês. Daí que muitos, mesmo depois de vários anos a residir em Israel, continuem com um nível de hebraico muito básico. E, mesmo os que atingiram um nível fluente, quase todos continuam com sotaques inconfundíveis que denunciam a sua origem.

Numerosos empregos, em especial nos negócios e na alta-tecnologia, usam o inglês como língua franca, como em qualquer lugar do mundo. Assim, são muitos os imigrantes que não sentem sequer necessidade de falar o hebraico. Uma piada em Efrat, o principal colonato da região de Gush Etzion, habitado principalmente por americanos, diz que “em Efrat, de vez em quando até é possível escutar hebraico”. De facto, desde os negócios nas lojas até numerosas aulas de Torá, praticamente tudo se pode fazer usando apenas o inglês. Em Israel, hebraico e árabe partilham desde a fundação do Estado o estatuto de idiomas oficiais, apesar das discussões recentes de promover o hebraico a único idioma oficial e passar a considerar o árabe como semi-oficial, como são o inglês e o russo.

Casado com uma brasileira, em minha casa fala-se quase exclusivamente português, ainda que pontilhado por numerosas palavras e expressões hebraicas. Para falar com a família em Portugal, vejo-me por vezes a baralhar os idiomas. Há palavras portuguesas que, pura e simplesmente, desapareceram do meu discurso, substituídas pelas correspondentes hebraicas. Na yeshivá, apesar de usar livros em hebraico, estudo diariamente com brasileiros e outros sul-americanos. Muitos colegas da yeshivá são norte-americanos e ingleses. Assim, num dia normal uso o português, o espanhol e o inglês. O hebraico acaba muitas vezes por ser reservado apenas para breves conversas de autocarro ou para ser atendido no supermercado.

A filha mais velha, de 2 anos, frequenta o infantário local e aprende rapidamente a língua nacional, trazendo palavras novas todos os dias. Muitos nomes de objetos, alimentos, e também as cores e os números são aprendidos originalmente em hebraico. Vejo-me cada vez mais a entremear o idioma de Camões com o idioma de Moisés. Portubraico, digamos.

* A senhora octogenária, natural da Hungria, sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, onde trabalhava na clínica do macabro Dr. Mengele. Depois da guerra imigrou para o Brasil, onde nasceram os seus filhos. As suas memórias estão publicadas em hebraico e português.

publicado por Boaz às 20:20
link do artigo | Comente | ver comentários (7) | favorito
Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

Mais do que um destino de peregrinos

A onda de peregrinos na última quadra natalícia, incluindo as celebrações de alguns cristãos ortodoxos, que ocorrem alguns dias mais tarde que o calendário gregoriano, encheu o país de visitantes estrangeiros. O ano de 2010 foi o melhor de sempre para o turismo israelita. Pela primeira vez, mais de 3 milhões de visitantes estrangeiros entraram em Israel. Não é um número impressionante se comparado com referências no turismo mundial como a França, Espanha ou Itália com mais de 50 milhões de visitantes por ano cada um. Mas “3 milhões” é um marco assinalável.

O turismo cristão representa mais de 50% de todos os visitantes em Israel. Mesmo nos anos negros da Segunda Intifada (2000-2005), os cristãos continuaram a afluir à Terra Santa. A sonhada enchente da Passagem do Milénio foi uma quimera, mas os cristãos (em especial evangélicos), mais até do que os judeus, continuaram a visitar o país. As numerosas igrejas em Jerusalém e Nazaré, a Via Dolorosa, a igreja da Natividade em Belém, uma imersão no Rio Jordão (agora pouco mais é que uma vala imunda, pouco recomendável) em forma de baptismo e um passeio num “barco de Jesus” no Mar da Galileia, estes são os passeios obrigatórios para o peregrino em viagem pela Terra Santa. Porém, ainda que estes locais sejam o destaque de qualquer campanha de promoção turística para Israel, o país tem muito mais para oferecer do que os locais sagrados das Escrituras.


Monte Meron de mochila às costas | Monte Arbel e Mar da Galileia
Cratera de Ramon, no deserto de Negev | Mar Vermelho, junto a Eilat.

Em Haifa, na face norte do Monte Carmelo situa-se um dos melhores postais turísticos de Israel. O Centro Mundial da Fé Bahá'í, com os seus jardins grandiosos construídos em degraus e os seus edifícios de arquitectura neoclássica, é uma das Maravilhas do Mundo. Muito perto de Haifa, a cidade de Akko é um museu de história a céu aberto. As muralhas da Cidade Velha encerram uma fortaleza do tempo dos Cruzados e um mercado árabe muito mais autêntico que o de Jerusalém.

Na capital, ainda que seja impossível ignorar os lugares santos, uma típica peregrinação pode ser complementada com outro tipo de visitas. O Museu de Israel, que recentemente foi aumentado e modernizado, é um paraíso para os apreciadores de arqueologia e de todo o tipo de artes. Num registo bem distinto, o Yad Vashem, o moderno Museu do Holocausto, e o vizinho Monte Herzl, onde fica um cemitério militar e o “panteão nacional”, são lugares imperdíveis. Em Holon, o original Museu das Crianças tem exibições especiais que permitem aos visitantes experimentar o Mundo do “ponto de vista” dos cegos e dos surdos.

Para os apreciadores de arte, em Tel Aviv e Ashdod encontram-se bons museus de arte contemporânea. Em Safed, no norte da Galileia, para lá das muitas sinagogas e as sepulturas dos grandes mestres cabalistas, encontram-se inúmeras galerias de arte. A cidade tem uma numerosa colónia de artistas e mostra uma curiosa fusão entre a excentricidade dos artistas e a tradição dos judeus ortodoxos.

A fortaleza de Massada, situada num planalto próximo do Mar Morto, a pouco mais de uma hora de Jerusalém, é um dos locais históricos mais importantes do Médio Oriente. É o maior símbolo da independência judaica e da resistência contra o domínio estrangeiro. São admiráveis os seus palácios romanos bem preservados, as cisternas gigantescas escavadas na rocha, destoantes num local extremamente seco. Tudo isto num planalto de paredes abruptas entre a paisagem quase lunar do deserto da Judeia, a ocidente, e o profundo azul-cobalto do Mar Morto, a oriente. Com as vermelhas montanhas de Moav, na Jordânia, do outro lado do espelho de águas.

Ali perto, o oásis de Ein Gedi com as suas cascatas de água doce desafia a implacável secura do deserto. A poucas centenas de metros, no fundo da escarpa, jaz o domínio do sal. O Mar Morto, o local mais profundo da superfície terrestre é o mar (na verdade é um lago) mais salgado do Mundo. Dar umas braçadas ou apenas flutuar naquela água espessa e morna é uma das experiências mais originais de uma visita a Israel. A salinidade extrema que impossibilita a vida e impede que os corpos se afundem, fez florescer o turismo com numerosos hotéis e spas e é a base de uma indústria de cosméticos de renome mundial.

Um dos lemas do turismo em Israel são mesmo os seus “quatro mares”. Na verdade, são apenas dois, mas cada um ligado a um oceano distinto, o que é algo de nota num país tão pequeno. Enquanto a costa ocidental é banhada pelo Mediterrâneo, que liga ao Atlântico, a pequena faixa de 12 quilómetros da costa de Eilat, no extremo sul, é banhada pelo Golfo de Aqaba, o ponto mais a norte do Mar Vermelho, uma parte do Oceano Índico. Porém, uma das denominações do Kinneret, um lago de água doce, é Mar da Galileia e o lago salgado conhecido por Mar Morto não tem outro nome. Assim se completam os tais “quatro mares”.

No deserto do Neguev, quem tenha força nas pernas pode aderir a uma das paixões dos israelitas: as caminhadas pela natureza. As inóspitas montanhas do sul de Israel têm um aspeto desolado, mas ao longo dos milénios foram refúgio de profetas e de civilizações há muito desaparecidas. Como os nabateus – os construtores de Petra, na Jordânia – que deixaram marcos também deste lado da fronteira. A gigantesca cratera de Ramon é um dos panoramas mais espetaculares do país. Parece uma cratera vulcânica, mas é um makhtesh, um raríssimo fenómeno geológico exclusivo de Israel. Para lá da visão assombrosa no miradouro sobre a cratera, às primeiras horas da manhã é possível ver os elegantes ibexes da Núbia, uma espécie de cabra do deserto, que sobem a escarpa e se aventuram pelas ruas ermas da pequena cidade de Mitzpe Ramon.

Apreciar a vida selvagem é um dos valores de uma visita a Israel. Desde um mergulho nos corais de Eilat junto com centenas de peixes coloridos, até observação de aves no Vale do Jordão. Israel é um dos principais pontos de passagem na migração de milhões de aves entre o Norte da Europa e a África Oriental. No norte da Galileia, o vale de Hula, com os seus pequenos e numerosos lagos, serve de descanso e refúgio de passagem às aves, durante a longa migração. Nos últimos anos, foram ali reintroduzidos os búfalos de água, outrora extintos. No oásis de Ein Gedi, entre um mergulho junto às cascatas, podem-se avistar as fugidias lebres das rochas, bandos de abutres e, para os mais atentos, até alguns leopardos. Ainda que o país tenha ainda que dar muitos passos em termos de ecologia, uma boa parte do seu território é composto por reservas naturais.

Do lado oriental da Galielia situa-se o Kinneret ou Mar da Galileia. O clima subtropical na maior parte do ano torna-o um agradável destino turístico. As ruínas das antigas termas em Tiberias e Hamat Gader testemunham que já desde a Antiguidade a região atraía a elite romana e mais tarde bizantina e otomana. Outra opção é um passeio de bicicleta nas margens do lago.

Nos Montes Golan, conquistados à Síria na Guerra dos Seis Dias em 1967, situa-se o ponto mais alto de Israel. O monte Hermon é local de esqui durante algumas semanas no Inverno. Nada que se possa comparar com uma qualquer estância de Inverno dos Alpes, dos Cárpatos ou mesmo do Líbano. Ainda assim, a abertura das pistas de esqui do Hermon é ansiada por muitos israelitas assim que caem os primeiros nevões.

Uma piada que revela a exiguidade de Israel, e ao mesmo tempo a sua espantosa variedade diz que, num dia de Inverno é possível esquiar de manhã no Hermon e algumas horas depois apreciar uma praia no ambiente subtropical de Eilat.

publicado por Boaz às 20:35
link do artigo | Comente | ver comentários (7) | favorito
Domingo, 30 de Janeiro de 2011

A revolta dos arredores

Enquanto no Cairo e algumas outras cidades egípcias, o povo se revolta para tombar o regime, em Jerusalém o governo olha, atento ao que se passa com o grande vizinho do sul. Até agora, a palavra de ordem em Jerusalém sobre a crise egípcia é, simplesmente manter o silêncio. Isso e realçar o interesse de Israel em manter os acordos de paz com o Egito, assinados há precisamente 30 anos. Do resto do Mundo, também é evidente a cautela em decretar a morte do regime. Esperar para ver.

Uma das coisas que mais surpreende sobre o que se tem passado na Tunísia, Egito e noutros pontos do Mundo Árabe, para quem assiste a partir de Israel é a ausência de referências ao conflito com os Palestinianos. Entre os gritos dos manifestantes em Tunis e no Cairo não se escutam apelos a "morte a Israel" ou à "Palestina Livre".


Polícia de choque frente a manifestantes anti-Mubarak, Janeiro 2011.

Para aqueles que consideram a questão israelo-palestiniana como o cerne de todos os problemas no Médio Oriente, as revoltas nas capitais árabes provam o contrário. Nos últimos anos, políticos e diplomatas nos EUA, na Europa e nas Nações Unidas repetem o mesmo mantra: "a resolução do problema dos Palestinianos conduzirá à resolução de todos os demais problemas do Médio Oriente". Para apaziguar os ditatoriais governos árabes hostis às mudanças, a diplomacia internacional – interessada em manter boas relações com o poder instituído – raramente refere a necessidade de reformas políticas e económicas a fim de melhorar as condições sociais no Mundo Árabe. Pelo contrário, Israel e a situação dos Palestinianos sempre estão na agenda das visitas oficiais a um qualquer estado árabe.

Ao longo das décadas, em todo o Mundo Árabe o apoio à causa palestiniana é recorrente nos discursos políticos. Na década de 1960, no Egito de Nasser, face à pressão popular pela reforma política (já nessa altura os egípcios queriam mudar de regime), o ditador acenava com a causa palestiniana como o maior objetivo nacional. A resolução dos gravíssimos problemas do Egito: falta de liberdade política e religiosa, analfabetismo, corrupção do governo e desemprego, foi repetidamente adiada sob a demagógica bandeira da "libertação dos irmãos árabes da Palestina".

Porém, os manifestantes da "Revolução de Jasmim" tunisina, tal como aqueles que há uma semana marcham no Egito, e também esporadicamente na Jordânia, Iémen, Marrocos, Argélia, Líbano, Sudão e os que já apelam à mobilização popular na Síria, anseiam pela sua própria liberdade. A questão palestiniana e o ódio contra Israel são distrações recorrentes para a sua própria desgraça. Mais do que sobre israelitas e palestinianos, a instabilidade social e política do Mundo Árabe é sobre os próprios árabes. Sobre o seu desemprego e pobreza (que leva milhões a imigrar para a Europa). Sobre o desespero de quem não vislumbra um bom futuro.

A Palestina está diariamente nas primeiras páginas dos jornais, nas reuniões das Nações Unidas, nos discursos das chancelarias. Israel é repetidamente incriminado na arena internacional. Porém, perante os abusos que se prolongam há décadas e que originaram a explosão popular que se espalha pelo Médio Oriente, a resposta da diplomacia internacional tem sido nula.

A história ensina que em muitas revoluções populares que desejavam a democracia, o resultado foi a tragédia e a brutalidade. Da "mãe das revoluções", a Revolução Francesa, saiu um breve período democrático do qual nasceu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Pouco tempo depois, o ímpeto democrático foi varrido pelo "Reino do Terror" liderado por Robespierre. Em 1979, com a queda do regime do Xá do Irão também surgiram breves ventos democráticos pela mão de Shapour Bakhtiar, mas o fanatismo islâmico do ayatollah Khomeini acabou com as esperanças de democracia. Até aos nossos dias.

Por enquanto, parece um movimento de espontânea revolta popular. Ao contrário das manifestações em Teerão depois das últimas eleições presidenciais fraudulentas, na revolta egípcia não há uma liderança clara dos que pretendem a reforma do regime de Hosni Mubarak. Porém, à espreita nas sombras, os extremistas islâmicos da Irmandade Muçulmana estarão a preparar-se para um assalto ao poder. Israel olha com cautela para as ruas do Cairo.

publicado por Boaz às 19:25
link do artigo | Comente | ver comentários (2) | favorito
Sábado, 1 de Janeiro de 2011

Este não é o meu Deus

Mesmo depois de revelar a minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos católicos, continuei a frequentar com fiel assiduidade o Grupo de Jovens da paróquia local, ao qual já pertencia há alguns anos. Por duas razões: todos os meus principais amigos eram também membros do grupo e os valores aí professados eram mais de natureza ética do que puramente religiosa. Ainda que aos poucos me fui abstendo de participar em certas atividades que estavam para lá da minha "linha vermelha" e eram inconciliáveis com a minha opção. A exclusão mais evidente foi cantar na igreja, mesmo que por uma questão diplomática, tenha aberto excepções pontuais por ocasião de casamentos de amigos. Também continuei a participar no Jantar de Natal, uma das raras ocasiões anuais em que o Grupo se encontrava completo.

Este ano, como em todos os Dezembros, os membros do Grupo (entretanto extinto, mas cujos ex-membros mantêm um contacto mais ou menos próximo) combinaram reunir-se uma vez mais para o encontro natalício. Na troca de e-mails para decidir os detalhes do encontro, surgiram várias opiniões distintas. Ao longe, decidi também intervir numa disputa que se levantava entre dois amigos. Numa tentativa de serenar os ânimos, alguém sublinhou que o grupo era composto de pessoas com opiniões diferentes. E, sem qualquer relação com a discussão, realçou que "seguir Jesus" fora a essência dos ensinamentos do Grupo. Na mesma frase, foi destacado que eu fora o único a sair do caminho de forma evidente.


Igreja e Sinagoga, esculturas na fachada da catedral de Estrasburgo, França.
À direita: 'Igreja', um rei segurando o cálice do sangue do Redentor.
À esquerda: 'Sinagoga', uma mulher vendada, de bastão partido e as Tábuas da Lei ao contrário.

Ainda que tenha dado toda a razão à declaração, decidi dar uma explicação: sim, eu havia deixado de "seguir Jesus", mas que o havia seguido durante bastante tempo durante a minha vida. Afinal, fizera a mesma catequese que todos os outros membros do Grupo. Realcei que não vivera o Cristianismo de forma superficial, e que também não fora de forma superficial que tomara a decisão de abandonar o Cristianismo e aderir ao Judaísmo. A minha declaração levantou uma onda de e-mails de conteúdo teológico e uma certa "militância cristã" como nunca me havia deparado desde a minha separação do Cristianismo. Senti-me a ser alvo de uma tentativa de re-evangelização.

Perante a minha afirmação de "apostasia consciente" recebi uma apaixonada descrição de Jesus como salvador e redentor, afirmando a universalidade da mensagem cristã. Nada de novo: toda aquela descrição condensava os meus anos de catequese e de vivência cristã ativa. O autor da mensagem parecia sugerir uma dúvida na seriedade da minha decisão, perguntando se eu havia dedicado à “busca de Jesus” o mesmo empenho que dedicara ao meu processo de conversão. Expliquei que, mesmo antes da decisão de conversão, existem imensas questões e mudanças não apenas na prática, mas sobretudo em termos de concepção do divino e da sua relação com o mundo. A esta altura percebi – e assim declarei – que obviamente aquela discussão não levaria a lugar algum. Nem eu, um judeu consciente, nem eles, cristãos convictos, iríamos mudar de opinião.

Porém, parece que do outro lado, essa constatação não foi entendida. Antes pelo contrário. E em resposta recebi uma citação da Epístola de Paulo aos Coríntios: “(…)E não fazemos como Moisés, que punha um véu sobre o seu rosto para que os filhos de Israel não vissem o fim do que era transitório. Mas o entendimento deles foi obscurecido, e ainda hoje, quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu continua a não ser removido, pois é só em Cristo que deve ser levantado. Sim, até hoje, todas as vezes que lêem Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Mas, quando se converterem ao Senhor, o véu será tirado. (…)”

Na comparação evidente do Judaísmo com o Cristianismo, entre a riqueza das metáforas desta "Glória da Nova Aliança", encontram-se temas usados em todas as eras pelos teólogos cristãos, na afirmação da nova e radiante fé cristã em contraste com a velha e obsoleta fé judaica. A cegueira judaica que se recusa a ver e aceitar a luz, a ideia da exclusividade na salvação pela via cristã e a desonra dos descrentes. Tive a sensação de estar perante um exaltado pregador medieval, de crucifixo em punho, a tentar convencer os incrédulos, os desgraçados que se recusam a receber "a Glória".

Uma das perguntas clássicas que surgem quando falo acerca da minha conversão ao Judaísmo é: "mas como foi a reação das pessoas à tua decisão?". A curiosidade refere-se em especial à minha família, mas também aos amigos e companheiros cristãos. Ao revelar que nunca recebi qualquer tipo de oposição ou descriminação por parte dos amigos, os ouvintes mostram-se totalmente incrédulos. Cristalizada em muitas mentes judaicas está a ideia que os Cristãos perseguem, oprimem e odeiam os Judeus. Afinal, "Esaú odeia Jacob" ou em outras palavras "Roma odeia Israel". Sob esta ideia, seria inconcebível que um membro abandonasse tranquilamente o "rebanho", sem qualquer reação negativa dos crentes.

Na macabra contabilidade das centenas de milhões de sacrificados no altar das ideologias (sejam religiosas ou seculares), o Cristianismo detém um lugar de destaque. Cruzadas, Inquisições, Expulsões e perseguições implacáveis, conversões forçadas e guerras religiosas. No caso extremo da Shoá (o Holocausto), a atitude cristã, para lá de corajosas exceções, variou entre o silêncio cúmplice e a participação ativa. Estas são algumas das imagens que os cristãos deixaram na História nos últimos dois milénios e são aquelas que ficaram gravadas mais fundo entre os Judeus. É injusto generalizar, mas não é possível negar que o Catolicismo tem um sério “problema de imagem”. E não apenas entre os Judeus.

Na discussão com os meus amigos católicos acerca da minha conversão, evitei todavia referir a questão da tolerância e da aceitação da diferença por parte dos cristãos. Ainda que lemas catequéticos cristãos como "Deus é amor" e princípios éticos como "dar a outra face" tenham sido espezinhados inúmeras vezes ao longo da História, não foi por um conflito ético em aceitar o evidente fosso entre a mensagem apregoada pela Igreja e o comportamento de muitos dos seus líderes e seguidores que me levou a distanciar e por fim abandonar completamente o Catolicismo. Se a razão da minha mudança de religião fosse um desfasamento entre a doutrina e a prática dos fiéis católicos, eu poderia simplesmente ter aderido a uma outra corrente do Cristianismo. Ou até, passar a ser apenas mais um cristão "sem denominação", mantendo a crença em Jesus mas não em qualquer igreja ou religião organizada. Não foi esse o caso.

Ainda que nos últimos 2000 anos o Cristianismo tivesse – ao menos entre os seus próprios aderentes – instaurado a paz, o problema mantinha-se. A minha divergência era com o cerne da crença cristã de que Jesus não só é o Messias, o Salvador, como é o próprio Deus. "Verdadeiro Deus e verdadeiro homem", como foi declarado na referida troca de mensagens. E, apesar da enorme variedade das igrejas e seitas cristãs, esta crença é comum a todas as correntes do Cristianismo.

Reconheço como a crença em Jesus pode ser satisfatória para muita gente, reconfortante até. Tendo sido uma pessoa, com as suas dores, dúvidas e tentações, é extremamente fácil identificar-se com ele. Falando contra a corrupção das elites do seu tempo, proclamando a superioridade da justiça em relação aos rituais, a sua doutrina ética poderia ser apreciada até pelo pacifista ateu mais obstinado. (Aliás, a crítica de Jesus à corrupção e hipocrisia da liderança política e religiosa do seu tempo tampouco é original. Esta acusação foi proferida com veemência por vários profetas das Escrituras Judaicas.)

É muito mais difícil a identificação com uma divindade cuja essência é puramente espiritual e sem qualquer paralelo com algo que exista na natureza. Usando as palavras de Moshe Luzzatto no primeiro capítulo de "O Caminho de Deus", um Deus "cuja verdadeira natureza não pode ser entendida de qualquer forma por ninguém além Dele mesmo. A única coisa que sabemos sobre Ele é que a Sua existência é perfeita em todas as formas possíveis e não existe Nele qualquer deficiência".

Ou, como descreveu o Rabino Joseph Soloveitchik em "O Solitário Homem de Fé": “Deus, como o soberano cósmico, é contemplado na sua infinita majestade reinando supremo sobre a Criação, a Sua vontade cristalizada na lei natural, a Sua palavra determinando os padrões de comportamento da natureza. Ele está em todo o lado, mas ao mesmo tempo, acima e fora de tudo”. O Criador do Universo atua por detrás do "curso natural das coisas" e a Sua Presença acompanha os homens. Mas não é um deles.

A natureza humana de Jesus, em si mesma contradiz a existência da perfeição absoluta da essência de Deus. A natureza humana, por mais elevado que seja o nível que atinja, será sempre limitada, dependente, corruptível. No fundo, não existe nela a perfeição absoluta. Deus é único, indivisível, perfeito e independente de qualquer outra existência. E por isso, não pode ser reduzido a uma existência (mesmo que paralela, se atendermos à crença de duas dimensões da Trindade: o Pai e o Filho) dentro de um corpo humano.

Durante os meus anos de busca espiritual esforcei-me por entender o mistério da dualidade humana e divina de Jesus, assim como o conceito de Salvação defendido pelo Cristianismo. A morte de Jesus – ou seja, a morte do próprio Deus – servindo de perdão definitivo aos pecados de todos os homens. E apenas ela salva. Naquela época, entre as ruínas do meu edifício espiritual, apenas uma crença se manteve inabalável e a salvo do desmoronamento: a crença na existência de Deus.

Alguém que leia estas linhas poderá até considerar-me profundamente enganado em relação às verdades do Cristianismo. Alguém que faça as mesmas perguntas que eu fiz poderá, pelo seu próprio estudo e reflexão, encontrar respostas distintas que o satisfaçam. Poderá até emergir das respostas com uma fé cristã ainda mais fortalecida. Não ponho isso em causa. No entanto, creio que a maioria dos crentes – aliás, de qualquer religião – na verdade nunca se perguntaram a fundo sobre aquilo em que acreditam. Vivem (quando vivem) a sua religião pela força da inércia. A fé não tem de ser racionalmente lógica e, num tempo em que praticamente tudo pode ser explicado pelas teorias científicas, só o ato de acreditar já é um ato de coragem. Mas cada um, se leva a sério a sua fé e a assume de forma consciente, tem de conseguir conciliar os aparentes contrários.

Na altura da revelação da minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos do Grupo de Jovens não revelei os porquês da decisão. Reconheço a delicadeza do tema. Reconheço como a fé em Jesus pode ser algo central na vida daqueles que acreditam nele. Estando num grupo de jovens católico, tive o cuidado de escolher apenas os membros com um Cristianismo mais amadurecido para saberem do meu abandono da fé cristã. Excluí os membros mais novos, há pouco tempo no caminho. Podia simplesmente abandonar o grupo e percorrer sozinho a minha jornada, sem dar satisfações aos meus amigos cristãos. Contudo, por serem amigos, achei importante partilhar a minha mudança com eles. Não me arrependo de o ter feito.

Por fim, afirmo que não existe possibilidade de diálogo teológico entre o Judaísmo e o Cristianismo. O diálogo é apenas possível como forma de trabalhar em conjunto para resolver problemas da Humanidade, em particular nas trágicas relações históricas entre Cristãos e Judeus. A barreira teológica entre ambas as religiões é absolutamente intransponível. Enquanto para os Cristãos, cuja religião se fundamenta na crença de Jesus como o Salvador, o cumpridor das profecias messiânicas judaicas e a própria divindade; para o Judaísmo, as profecias messiânicas ainda não foram cumpridas. Ainda que se fale tanto em "cultura judaico-cristã", o Cristianismo e o Judaísmo possuem na verdade, duas concepções antagónicas do divino.

Nunca me escusei às perguntas dos amigos, quando elas surgiam. A minha conversão foi uma decisão pessoal e eu não tinha a intenção de levar ninguém atrás de mim. Por isso sempre mantive o assunto na maior discrição. Ninguém me verá a pregar na praça ou a bater às portas, armado com a Bíblia Hebraica, tentando convencer os outros a aceitar a verdade judaica. Não é esse o caminho do Judaísmo.

Não espero a compreensão dos cristãos – nem sequer dos meus amigos – pela minha mudança de crença. Menos ainda a sua aprovação. Não peço nem uma nem outra. Só não aceito que ponham em causa a minha seriedade na forma como vivi o Cristianismo e de como o abandonei.

publicado por Boaz às 23:00
link do artigo | Comente | ver comentários (31) | favorito
Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Fé e esforço

A chuva, que tardava neste Outono israelita, chegou ontem. Porém, a situação de seca extrema, que se agrava de ano para ano, não se resolve com um dia de aguaceiros, por muito generosos que sejam (o que nem sequer foi o caso de ontem). Devido à grave seca que se vive em Israel, causada pela extrema falta de chuvas – que até agora haviam caído apenas durante um dia desde a Primavera passada –, e com o Outono quente e seco já quase no fim, o Rabinato-Chefe de Israel apelou às comunidades judaicas para rezarem pelas chuvas. Durante os três serviços religiosos diários – na noite, manhã e tarde, por esta ordem – os fiéis devem incluir na oração principal um excerto pedindo pela misericórdia divina para que se abram as portas do céu e caiam chuvas abundantes. E não apenas isso, foi também decretado um dia de jejum.


Pescadores num cais de Tiberias, nas margens do Kineret, ou Mar da Galileia.
Veja-se o baixo nível das águas, em virtude da seca prolongada em Israel, 2009.

Israel, ao contrário da generalidade dos outros países, não dispõe praticamente de rios. O único que corre o ano inteiro, o Jordão, não é mais de um ribeiro estreito e, durante o Verão, é tão pouca a água que nele corre que não passa de uma vala fétida e lamacenta. As chuvas são portanto essenciais para as reservas de água da nação.

Na Yeshivat HaKotel, onde estudo, antes de Minchá (a oração da tarde), o Rosh (diretor) Yeshivá atual e o anterior falaram perante todos os alunos reunidos no Beit Midrash, a sala de estudos principal que funciona também como sinagoga. Lembraram a gravidade da condição de carência de chuvas e a relação, de acordo com as fontes judaicas, entre as bênçãos do céu e o cumprimento dos preceitos divinos. A seca é um sinal do alto, de que algo vai mal cá em baixo.

Apesar da importância da mensagem dos sábios, faltou referir algo que, ainda que seja simples, talvez não seja compreendido por todos: a necessidade de poupança de água. Nenhuma palavra foi dita nesse sentido. Fiquei espantado pela ausência deste recado nas prédicas dos rabinos. Porém, não totalmente. Afinal, a sociedade israelita em geral e o público religioso em particular, estão em grande medida afastados das questões ambientais.

Na região centro do país, nos arredores de Tel Aviv, a preocupação pela ecologia é algo que começa a fazer-se sentir, em especial nos subúrbios habitados por judeus originários da Europa e América do Norte. Para os judeus religiosos porém, a questão ecológica é relegada para um plano muito inferior na lista das prioridades. Talvez por estas questões estarem tão associadas aos esquerdistas, chilonim, os não-religiosos.

Um dos exemplos do descurar da poupança de água entre os religiosos relaciona-se com o preceito de netilat yadaim, a lavagem ritual das mãos. A Halachá (ou Lei Judaica) prescreve a lavagem das mãos para efeitos rituais assim que a pessoa se levanta, representando uma purificação do corpo que acaba de "renascer do sono". O mesmo se passa antes de comer pão, representando a pureza que deve existir na hora da refeição. A Halachá prescreve que a quantidade mínima de água necessária para netilat yadaim é de um reviit, uma medida de contagem de líquidos equivalente a pouco mais de 90 ml. Outras opiniões defendem que essa medida equivale a 160 ml. Em qualquer dos casos, não é muita água.

Para realizar o ritual de netilat yadaim usa-se uma natlá, uma caneca especial de duas asas. Uma natlá comum comporta cerca de um litro de água, ou até mais, bem acima da quantidade mínima necessária para a ablução das mãos. Porém, como se uma caneca cheia não fosse suficiente, alguns religiosos ainda são mais estritos no cumprimento desta prática, despejando sobre as mãos não apenas uma natlá cheia de água, mas duas. Um verdadeiro exagero, ainda mais nestes tempos de escassez.

A sabedoria judaica ensina que a reza destinada a receber uma bênção divina deve ser acompanhada do esforço pessoal para atingir esse objetivo. A isso chama-se histadelut. E o esforço não é sinal de falta de fé. Afinal, ninguém se questiona se em caso de doença, seja falta de fé ir ao médico e tomar medicamentos, ao mesmo tempo que se reza por saúde. Então, alguém pensará que é falta de fé rezar para que as chuvas caiam em abundância e, ao mesmo tempo esforçar-se para poupar as escassas reservas existentes?

Para além do aumento da reza, das boas ações e do estudo de Torá para receber a misericórdia dos Céus em relação às chuvas, deveria haver um esforço pessoal para não desperdiçar água. Não devemos esperar milagres nem basear a fé na sua eventual ocorrência. Só quando o homem dá o máximo de si mesmo, torna-se merecedor da ajuda divina.

publicado por Boaz às 10:24
link do artigo | Comente | ver comentários (2) | favorito

.Sobre o autor


Página Pessoal
Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente

.Pesquisar no blog

Este blog está registado
IBSN: Internet Blog Serial Number 1-613-12-5771

É proibido o uso de conteúdos sem autorização

.Artigos recentes

. Habemus "chaver" no Vatic...

. Quando a sirene toca, de ...

. Morto e envenenado (por e...

. A onda africana

. Vêm aí os Persas?

. Jihad casher? – os fanáti...

. Passerelle de Jerusalém

. A Cruz nas terras do Cres...

. Os moicanos de hoje

. De bolha em bolha (de Cop...

. 9/11 – A década

. Kiddush com tequila (Em t...

. De olhos na Diáspora

. Mazal tov!

. Seis dias em Junho

.Ligações

.Visitantes

Jewish Bloggers
Powered By Ringsurf

.Arquivos

. Março 2013

. Novembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

.subscrever feeds

Partilhar