Sábado, 30 de Abril de 2005

Páscoa, sentido de liberdade

Este ano aqui, para o ano em Jerusalém!

Este ano tive a primeira experiência da Pessah (Páscoa Judaica) vivida em comunidade. Nos outros anos costumava lembrar-me do dia, com a ajuda de um calendário, e pensava, no meu cantinho, naquilo que inúmeras famílias e comunidades do mundo inteiro poderiam estar a fazer naqueles dias.

Na semana anterior desenrolei-me em tarefas comuns em cada casa judaica nesta época do ano. A principal das quais é a eliminação de todo o género de comidas feitas a partir de cereais fermentados, antes do início da Páscoa. Fermento (hametz) é coisa proibida nesta época do ano, pelo que bolachas, cereais e massas foram desaparecendo ao ritmo das refeições e o stock não foi renovado. Estando eu habituado a petiscar umas bolachinhas a qualquer hora - sou viciado em bolachas de aveia! - e a comer uma tigela de cereais antes de dormir, ter de me livrar de todas estas coisas durante uma semana, levantou-me o problema de não saber o que comer...

A Páscoa propriamente dita começou no Sábado à noite. Cheguei a pensar que ia passar o jantar pascal sozinho, apenas com a visita do Profeta Elias*, mas acabei por ser convidado para o jantar da sinagoga. (Obrigado Ana). Depois do serviço religioso - nunca tinha visto a sinagoga tão cheia, mas gente mais conhecedora disse-me que nunca ali vira tantos lugares vagos durante a Páscoa - fui ajudar a ultimar a preparação do jantar, ou seder.

A Páscoa é, por excelência, a festa judaica em que o espírito familiar é mais forte. A refeição da primeira e segunda noite da Páscoa - a festa dura oito dias - requer participação de toda a família, com especial destaque para as crianças. Durante o jantar é lida a Hagadah, onde se relata a história de Moisés que tenta convencer o faraó a libertar os escravos, os episódios das pragas que se abateram no Egipto e finalmente o Êxodo.

Eu não estava em família - com a minha família - mas o ambiente era visivelmente familiar, o que ajudou a superar a estranheza perante muitas coisas que ainda desconheço. Entre as canções e orações, comem-se diversas comidas com um significado específico. Ervas amargas lembram a dor da escravatura; um doce de maçãs, amêndoas e nozes recorda a argamassa com que os escravos hebreus construíram as cidades faraónicas; o pão ázimo, a pressa na preparação da saída do cativeiro...

Uma das mensagens da Páscoa é que devemos recordar a libertação do Egipto como se nós próprios tivéssemos sido libertados e que, ainda hoje devemos libertar-nos dos "Egiptos" que nos escravizam. É esta transposição para o presente que faz com que a tradição se mantenha e torne a Pessah tão actual.

* A tradição judaica diz que o Profeta Elias visita cada casa durante a noite da Pessah. Por isso é costume, após o jantar, deixar na mesa um copo de vinho, que o profeta tomará quando passar.

publicado por Boaz às 23:14
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2005

10000 imagens!

A minha colecção de imagens com motivos judaicos atingiu a magnífica cifra de dez mil exemplares. Há anos que as procuro pela Internet, legendo e arquivo no meu computador.

Esta foi uma das primeiras fotos da colecção. E continua a ser uma das minhas favoritas.
Judeu Polaco, 1921

Inclui desde fotos de monumentos e lugares judaicos de todo o Mundo - em especial de Israel, com destaque para Jerusalém - acontecimentos históricos, cenas religiosas ou do quotidiano judaico, até paisagens de Israel e pinturas.

A variedade de fontes é de tal modo vasta - da maioria já nem me lembro da proveniência - que aqui ficam apenas algumas das fontes: National Photo Collection (Colecção Nacional de Fotografia de Israel), Israel Images, International Survey of Jewish Monuments, Zchor (daí é possível ir para centenas de outros sítios), Beyond the Pale - History of the Jews of Russia (História dos Judeus da Rússia, e não só), Shtetl Links; sites de notícias, como o Yahoo! News, World Photos, arquivos fotográficos de jornais e revistas on-line: New York Times, The Washington Post, Time Magazine e inúmeros sites das comunidades judaicas.

Se uma imagem vale mais que mil palavras, fazendo as contas, preciso de mais de 10 milhões de palavras para descrever a colecção que já juntei. A senda continua.

publicado por Boaz às 15:56
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2005

Uma folha solta

Decidi passar toda esta semana na cidade, a fim de me preparar para a Pessach (Páscoa Judaica, a original) que começa neste fim de semana. Assim aproveitei a oportunidade e na terça-feira, excepcionalmente, assisti à aula de Cabala - foi a minha primeira e será a única nos tempos mais próximos, por problemas logísticos. Adiante...

Depois de outras actividades que se realizaram na sinagoga e que duraram até quase depois das 23 horas, regressei a casa de metro e, ousadia das ousadias, fiz toda a viagem de kippá na cabeça, até a prendi com um gancho, não fosse ela cair. Pelo adiantado da hora achei que a confusão no metro não me traria problemas.

Achei que nessa altura tinha erguido uma barreira entre mim e o mundo exterior, era um ser à parte. Não gostei muito da sensação. Apesar de, normalmente, o metro não ser para mim um local para socializar. Não houve desacatos, tudo correu com a normalidade esperada de qualquer passageiro anónimo.

Você é dju?

A surpresa chegou numa estação onde tive de fazer uma mudança de linha. Pelo canto do olho vi aproximar-se um indivíduo. Era africano. Perguntou-me se falava português (de barretinho na cabeça, deve ser estrangeiro, terá pensado). E depois: "Você é dju?". Deve ser judeu em crioulo, pensei eu. Respondi que sim. "A sua família é de Israel? De que parte de Israel?". Disse-lhe que era português. Aí, apresentou-se: Fernando. E contou-me que o avô dele era judeu, descendente de judeus portugueses que tinham ido para Cabo Verde. Que ele mesmo, se fosse mais novo - estava nos trintas e tais - ia para Israel e alistar-se-ia como voluntário no Exército. Porque gosta muito de Israel, mesmo havendo guerra. E que Israel precisa de apoio.

Alertou-me do problema em usar a kippa na rua. É que "há por aí muito árabe". "Eu tenho um símbolo (presumi que fosse uma estrela de David) que cheguei a levar para o trabalho, na lapela. Só que no meu trabalho há 17 paquistaneses. Quando eles me viram com aquilo perguntaram-me com má cara: 'O que é isso? Porque é que usas isso?'. Eu fingia que não sabia. 'Então tira. Isso não é bom'. E eu deixei de o levar para não ter problemas. Mas um dia destes volto a usá-lo."

Achei aquele encontro extraordinário. Vi nele a típica atitude de um marrano*. Apesar de ter perdido muitas referências e tradições, várias coisas se mantiveram muito vivas. A identificação e o amor pela Terra de Israel e pelos símbolos judaicos, o receio em relação aos "de fora". Há amores que nunca se esquecem e dores que o tempo não cura.

Foi inspirador. Para mim e certamente também para Fernando. Para mim, porque encontrei mais uma folha solta no grande livro da história do povo judeu. Para ele porque talvez lhe tenha dado mais um pouco da coragem necessária. Para que um dia destes ele volte a usá-lo...

* Marrano: termo, com carga depreciativa - literalmente significa porco - que designa os cripto-judeus ou judeus secretos, e descendentes que durante a Inquisição e até recentemente - em alguns pontos ainda se mantém - continuaram a praticar o Judaísmo às escondidas.

publicado por Boaz às 11:31
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

Mais um "suposto marrano"

Nos meus contactos com pessoas que - como eu - estão a passar por num processo de conversão ao Judaísmo, encontrei diferentes tipos de motivações. De um modo geral, ou é um caminho que já vem da própria experiência da família, (cripto-judeus, marranos), ou então são pessoas que, de alguma forma se foram aproximando do Judaísmo, sem qualquer interferência familiar. É o meu caso.

Em nenhum dos casos é fácil a resolução do "problema". Para além das diversas fases que é preciso cumprir - quase os 12 trabalhos de Hércules - há que lidar ainda com a pouca receptividade da própria comunidade judaica, mais ainda do que com "os de fora". Recebi recentemente este comentário revelador:

Você é mesmo judeu? Ou é mais um suposto marrano? Tem provas documentais como processos da Inquisição? Descende por linha matrilinear de judias? Se não, não é judeu. Jaime Cohen

Gostava de ter respondido em privado, por e-mail, mas como o autor não deixou qualquer contacto, e eu não o conheço de todo, aqui fica a resposta. (Talvez ele volte entretanto para o ler.)

"Mesmo judeu". O que é um judeu? Esta é uma pergunta que permanentemente se ouve nos meios judaicos. De acordo com a definição da Halachá (a lei judaica), é judeu todo o descendente de mãe judia ou por conversão. A minha mãe não é judia de todo, nem a minha avó. Eu até sou daqueles que desde pequeno costumava ouvir termos como judeu, rabino, judiar ou judiaria, com sentido bem distante do seu real significado.

Não sei o que é um "suposto marrano". Um fantasma? Um mito da família do unicórnio, do judeu de cauda ou do Adamastor? Uma ilusão de óptica? Nem creio que todos os marranos tenham provas documentais da sua condição. Nem todos foram apanhados pela Inquisição, pelo que nem todos têm essas provas. Têm, acima de tudo memória, porque foi pela memória, para lá da descendência, que perpetuaram a sua identidade. A própria condição do marrano (realmente a Joana tem razão, esta é uma palavra muito feia) pressupõe secretismo. Um secretismo cultivado desde tenra idade, para iludir os de fora, possíveis denunciantes ao Santo Ofício. E é preciso ter provas? Afinal, ambos os casos, cripto-judeus ou não, são tratados de igual modo. E as comunidades, pelo menos cá no "Rectângulo", costumam ser igualmente avessas aos dois.

Juntando as peças: não descendo de judeus pela linha matrilinear, não tenho provas documentais de como sou marrano, porque, como disse, não sou marrano. No fundo estou num limbo, um estranho em qualquer lado, um sin papeles. Tal como aos outros, os que têm ascendência pela linha matrilinear e os que têm provas dos seus antepassados presos pela Inquisição, o que me falta é o papel. A "carteirinha", como dizem alguns.

Nunca vi diferenças de legitimidade entre eu e eles. Estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 18:24
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2005

Que música para esta casa?

Finalmente! Com quatro anos e 60 milhões de euros de atraso, lá abriu a Casa da Música, no Porto. No entanto há muitas dúvidas que se levantam - quer dizer, se ninguém as levanta, levanto-as eu.

Primeiro um detalhe. O projecto previa a existência de vários órgãos de tubos. No entanto, dois deles não foram instalados na totalidade. Por falta de verba. Então derrapam-se, assim sem mais nem menos, 60 milhões de euros e a obra fica incompleta? Podia faltar uma fila de cadeiras em cada sala, ou um dos elevadores, haver apenas um restaurante (há um que é só para os artistas, esses pindéricos), não haver uma máquina de cigarros ou de bebidas na recepção ou papel higiénico de folha dupla nos lavabos... mas não, tinham de faltar os órgãos. Logo os órgãos... E se são órgãos vitais?

Segundo, apesar de ser uma "Casa da Música", de toda a música, a mesma não tem fosso de orquestra, o que impossibilita a realização de espectáculos de ópera. Agustina Bessa Luís, interrogada sobre a sua opinião em relação à obra desabafou: "pelo preço que custou, daria para ser a casa para a música das esferas". Whatever that means. Mas deve ser realmente uma boca bem mandada, que a mulher não é de se ficar por falinhas mansas. Alguns dos manda-chuvas lá do sítio já vieram dizer que sim senhor, dá para fazer espectáculos de ópera, "com algumas adaptações". É o bem português espírito do desenrasca. Estamos safos.

Como sempre, ninguém vai saber a razão da derrapagem. Afinal, nas obras públicas portuguesas, com chuva ou sem chuva, o piso é sempre escorregadio. São coisas que acontecem...

O que me intriga ainda mais é o que se vai fazer agora com aquilo? É tão moderno, tão caro e tão vistoso que, se eu mandasse, até tinha medo de lhe dar uso. "Ai não toque aí, que estraga!"

Depois da festa de inauguração, como é que a Casa da Música vai funcionar? Será que o Porto não tinha espaços culturais suficientes? Está tudo a abarrotar de público? O Teatro Nacional de São João tem ópera all year round (é por isso que a Casa da Música não precisa do fosso de orquestra para nada). O Coliseu tem concertos diários agendados para os próximos 10 anos. Na cidade do Porto, ainda mais do que em Lisboa, a cultura é uma coisa para a elite e a elite não enche todos os espaços que já existem. Muito menos o resto do povo. Obviamente, muito por culpa da péssima gestão pública desses espaços. Em Lisboa, veja-se o caso do Teatro Nacional de São Carlos, que ficou com a temporada de ópera a menos de meio, "por falta de verba". O cinema São Jorge, que pertence à Câmara, tem uso quando há algum festival de cinema, seja ele gay/lésbico ou indie.

Assim sendo, ou muito me engano ou aquilo não vai passar de um mamarracho desperdiçado como o Centro Cultural de Belém que, para não destoar do rol das obras públicas construídas neste país desde a entrada da CEE, também teve uma derrapagem e peras. Tal como o CCB o mais provável é que vá ter uso ocasional.

Mas como diz a outra, "isso agora não interessa nada". O que interessa é que o povão está contente com mais um brinquedo. O pão está caro, mas há um circo novo na cidade.

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Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

Comove-me

Nestes dias foi impossível ficar indiferente à gigantesca procissão que passou diante do corpo de João Paulo II na Basílica de São Pedro. É certo que muitos entre os peregrinos, não passavam de turistas curiosos aproveitando a ocasião deste acontecimento histórico para estar ali, tirar uma foto com o seu telemóvel e poder dizer "eu estive lá".

Porém, a grande maioria era sem dúvida gente movida por uma forte consciência espiritual. É que esperar 15 horas de pé, sem protestar, numa fila que culmina com um breve olhar sobre um cadáver, não é para aventureiros ou gente impelida por uma curiosidade mórbida. A resistência dessas horas passadas a rezar e a cantar - para manter firme o espírito e desse modo também o corpo - entre pessoas desconhecidas é impressionante.

Fé

Sempre me comoveram as manifestações públicas de fervor religioso. Seja de que fé for. É óbvio que me comove uma multidão que reza em frente ao Muro Ocidental (também chamado das Lamentações). Eu próprio já vivi essa experiência. Estar sozinho, sem conhecer ninguém, na Western Wall Plaza apinhada de judeus a rezar no local mais sagrado para o Judaísmo, em que todos são estranhos, mas ao mesmo tempo existe uma comunhão de identidade que aproxima as pessoas, é qualquer coisa de sublime.

Mas também me impressiona a ideia de dois milhões de muçulmanos em Meca, aguentando o calor sufocante do deserto da Arábia Saudita, rumando por todos os meios possíveis ao vale de Mina para cumprir os rituais da Hajj, um dos pilares do Islão. Ou as multidões de hindus nas margens do Ganges e nas enormes peregrinações do Kumbha Mela, que chegam a juntar mais de 12 milhões de pessoas! Os tibetanos que percorrem a pé centenas de quilómetros, prostrando-se a cada passo, rumo a Lassa. Impressiona-me Fátima, mesmo que desaprove a mortificação física e um certo alarde daqueles que, de joelhos, percorrem o santuário. No entanto respeito.

Impressiona-me especialmente porque vivemos num tempo em que são poucos os que se afirmam crentes. Em que a crença se limita a vivências privadas, seja por detrás dos muros dos templos, seja nas próprias casas. "O meu minyan", como lhe chama Francisco José Viegas. O exemplo extremo é a França, onde, por decreto, se esconde a manifestação da identidade religiosa, sob a obrigatoriedade da laicidade do Estado e a sombra da igualdade. Como se alguém por não usar a cruz, a kippa ou o véu em público se tornasse igual ao seu vizinho. Há dias, nas Cortes espanholas, os deputados da esquerda republicana da Catalunha, do Partido Comunista e alguns do PSOE (no governo) recusaram-se a cumprir em pé o minuto de silêncio pela morte do Papa. Invocaram a regra da separação da religião e do Estado para justificar a sua atitude.

Os europeus desdenham dos americanos por andarem sempre a falar em Deus, por não se coibirem de se afirmarem publicamente como crentes. Uma das mais importantes festividades nos EUA é o Dia de Acção de Graças que tem um cariz nacional e religioso, mas multi-confessional, unindo todas as comunidades. Eu também acho um bocado hipócrita quando Bush termina o seu discurso perante o Congresso com um God bless America, depois de defender a invasão e ocupação do Iraque, num tom quase messiânico. Mas isso é a maneira de ser americana, em que os símbolos da religião entram na política, porque afinal os americanos são religiosos.

Deste lado do oceano a moda é ser ateu, ou no mínimo "agnóstico". Os portugueses engelhavam o nariz quando o então primeiro-ministro Guterres se afirmava como católico praticante e mais recentemente com as repetidas manifestações católicas de Paulo Portas. Conversão oportunista, diriam alguns.

Estamos no tempo do ser "não praticante", esse estatuto religioso que não é carne nem é peixe, em que cada um vive, obviamente, a religião à sua maneira, mas sem se deixar comprometer. "Eu cá tenho a minha fé"...

É por isso que me comove ver tanta gente empenhada em demonstrar publicamente a sua identidade e fazer disso uma festa, mesmo num tempo em que estão de luto.

publicado por Boaz às 17:13
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Sábado, 2 de Abril de 2005

Um justo entre as Nações

João Paulo II em Israel
Imagem histórica: O Papa coloca uma oração entre as pedras do Muro Ocidental, 26 de Março de 2000

"Mediante a surpreendente pluralidade das religiões, que se dispõe entre elas quase em círculos concêntricos, chegamos à religião mais próxima de nós: a do povo de Deus da Antiga Aliança. (...)

«A Igreja não pode (...) esquecer que foi por meio desse povo, com o qual Deus se dignou, na sua inefável misericórdia, estabelecer a antiga Aliança, que ele recebeu a revelação do Antigo Testamento e se alimenta da raiz da oliveira mansa, na qual foram enxertados os ramos da oliveira brava, os gentios (...).»

Por trás das palavras da declaração conciliar [Nostra aetate, do Concílio Vaticano II] está a experiência de muitos homens, quer hebreus, quer cristãos. Está também a minha experiência pessoal, desde os primeiros anos da minha vida na cidade natal. Recordo, antes de mais, a escola primária de Wadowice onde, na minha classe, pelo menos um quarto dos alunos era composto por rapazes hebreus. E devo agora mencionar a minha amizade, nos tempos de escola, com um deles, Jerzy Kluger. Amizade que continuou, desde os bancos da escola até hoje. Tenho viva diante dos olhos a imagem dos hebreus que todos os Sábados se dirigiam à sinagoga, situada por detrás da nossa escola. Ambos os grupos religiosos, católicos e hebreus, estavam unidos, suponho, pela consciência de invocar o mesmo Deus. Não obstante a diversidade da linguagem, as orações na igreja e na sinagoga baseavam-se, em considerável medida, sobre os mesmos textos."

Estas palavras constituem uma parte do capítulo dedicado ao Judaísmo do livro "Atravessar o Limiar da Esperança", escrito por João Paulo II em 1994. De facto, este Papa merece, ser lembrado como um homem de gestos de conciliação entre a Igreja Católica e as outras religiões, nomeadamente, com o Judaísmo.

Para lá de certas posições em questões doutrinais, cuja discussão cabe, a meu ver, apenas aos católicos, e, apesar dos seus desejos de beatificação ou canonização de figuras de santidade questionável como Pio XII e Isabel a Católica, ficou uma série de atitudes exemplares pelas quais merece (também) ser lembrado. Visitou Auschwitz na sua primeira viagem à Polónia. Foi o primeiro Papa a visitar uma sinagoga, em Roma, em 13 de Abril de 1986. Foi o Papa que reconheceu o Estado de Israel e visitou Jerusalém, incluindo o Yad Vashem e o Muro Ocidental, em Março de 2000. Pediu perdão pelos pecados da Igreja contra os Judeus, os Muçulmanos e os Protestantes.

Não foi um homem perfeito – nem o poderia ser, sendo humano – mas foi, sem dúvida um homem de bem e de coragem. O Jerusalem Post chamou-lhe o Papa do Tikkun Olam (melhorar o mundo, em hebraico). Não tenho problemas em dizê-lo, já que não é preciso ser católico, nem sequer cristão para o reconhecer. Um homem para a eternidade. Abençoada seja a sua memória.

NOTA: O título do artigo encerra uma feliz coincidência. "Justo entre as Nações" é também um título atribuído pelo Yad Vashem aos não-judeus que ajudaram judeus durante a II Guerra Mundial. Já durante as notícias de hoje (3 de Abril) soube-se que o Yad Vashem estuda a possibilidade de conceder esse título a Karol Wojtyla, devido à sua recusa em baptizar uma criança que ele sabia ser judia, e que fora adoptada por uma família cristã polaca.

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Sexta-feira, 1 de Abril de 2005

Acerca da morte

Túmulos do cemitério judeu do Monte das Oliveiras, JerusalémNesta altura em que se fala tanto da morte, hoje especialmente fala-se da morte do Papa João Paulo II, estando ele ainda vivo, gostaria de deixar uma passagem do Talmude que aprecio especialmente.

«Numa baía, havia dois navios: um saindo para uma viagem e outro chegando ao porto. Todos aplaudiam o navio que partia, mas o que chegava mal era notado. Sobre isto observou um sábio homem: "Não vos alegreis com um navio que parte, pois não se pode saber que terríveis tempestades ele terá de enfrentar, e que perigos ameaçadores poderá ter de passar. Alegrai-vos antes com o navio que chegou ao porto em segurança e que trouxe os seus passageiros de volta em paz.

E é assim o mundo: quando nasce uma criança, todos se alegram; quando alguém morre, todos choram. Deveríamos fazer o contrário. Pois ninguém pode prever que provas e sofrimentos esperam uma criança recém-nascida; mas, quando um homem morre em paz, deveríamos alegrar-nos, pois ele completou uma longa jornada, e não há maior dádiva que deixar este mundo com a indestrutível coroa de um bom nome.»

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publicado por Boaz às 17:22
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