Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005

Choque permanente

Visitei ontem o Yad Vashem. É um dos locais de visita obrigatória em Jerusalém. Há várias semanas que o planeava fazer com um companheiro de casa e de estudo. Pelo facto de já lá ter estado por três vezes (a primeira em 1999, as outras duas em Maio passado) servir-lhe-ia de guia e tradutor. Fomos com mais duas colegas que, incrivelmente, pouco tinham ouvido falar do Museu do Holocausto de Jerusalém.

O choque é sempre brutal, mesmo depois de três visitas anteriores, bem demoradas e de ter assumido à partida, esta visita não tanto como visitante, mas mais como guia para os meus estreantes companheiros.

O final da visita é arrasador, numa sala com o tecto coberto de fotos do tipo passaporte, aparentemente inócuas, de pessoas que foram assassinadas. Imaginar - só imaginar - sem ter a mínima certeza ou noção, do que pode ter passado cada uma delas... Ainda mais as crianças.

À saída, antes da varanda com uma explêndida vista sobre as florestas a oeste de Jerusalém, há, de cada lado do corredor, livros para quem quiser escrever alguma coisa. Tinha prometido a mim mesmo escrever alguma coisa desta vez. Não fui capaz. De novo.

Que se pode escrever? Não há frio ou calor. A fome e a sede são inadmissíveis. Não há dores de costas nem pernas cansadas ao fim de várias horas de visita. Somente um torbilhão de pensamentos para os quais, no momento, não se conseguem encontrar palavras.

publicado por Boaz às 09:35
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

Uma grande família

Um mês. É o tempo que leva, já, a minha estadia em Israel. Cheguei com planos - por alto, sem qualquer garantia do seu cumprimento - para seis meses. Estou num ulpan guiur, uma escola para candidatos à conversão ao Judaísmo.

A integração no grupo pareceu-me bastante rápida, se considerar que me conheço como uma pessoa tímida e reservada. A verdade é que, quando se conhece gente com uma realidade em comum tão fundamental como a adesão a uma fé - neste caso o Judaísmo -, a convivência torna-se quase automática e a afinidade é natural. Por mais que as diferenças de motivação e experiência existam.

Na sua maioria, os candidatos à conversão são filhos de pai judeu - a lei judaica reconhece, sempre, como judeus os filhos de mãe judia - que querem seguir essa herança familiar. São poucos os casos como o meu. Alguém sem qualquer vínculo familiar com o Judaísmo que, a certa altura da vida, se decidiu pela adesão ao Povo Judeu.

Ainda menos são os que têm experiência e estudo sistemático anteriores à sua chegada a Israel. No meu caso, estudei semanalmente com um rabino durante um ano, em Lisboa e mantive - mais ou menos regular, mais ou menos próximo - contacto com a comunidade judaica. O meu companheiro mais próximo estuda e vive como judeu há já vários anos. Só agora tem a perspectiva de concretizar a convesão. Pouquíssimos são os que, findo o processo de conversão, planeiam voltar aos seus países de origem.

Pela minha parte, vejo a minha estadia em Israel como passageira, mas não posso excluir a hipótese de ficar por cá. Simplesmente não estou em condições de poder cerrar nenhuma porta, excluíndo à partida alguma possibilidade. Contudo, o facto de não ter trabalho em Portugal nem grandes perspectivas para construir uma família judia, não abonam a favor do meu regresso definitivo.

O grupo de estudantes é deveras variado e está em constante mudança. Todas as semanas, alguns se apresentam perante o Bet Din, o tribunal rabínico que, por meio de algumas perguntas averigua da preparação e decide passar ou reprovar o candidato. Estes dão por terminado o seu processo, mas nem por isso deixam, em alguns casos, de frequentar as classes, a fim de aprenderem mais. Todas as semanas chega alguém que está a iniciar a caminhada.

Quase todos os colegas de classe são sul-americanos (mexicanos, colombianos, uruguaios, argentinos, brasileiros) ou espanhóis. Eu e uma jovem portuense somos os únicos portugueses. Por maioria demográfica, as aulas são sempre em espanhol.

Ora, com classes em língua castelhana e companheiros de casa oriundos do Uruguai e Colômbia, pouco uso faço do inglês e do português. (No hebraico ainda estou só começando). O que, por este andar, me vai fazer chegar a Portugal, daqui a uns meses, a falar português com o perfeito sotaque de imigrante na Venezuela.

publicado por Boaz às 09:15
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

Dois anos depois, merecia ser Avenida

Para quem gosta de assuntos judaicos (e não só) escritos na boa língua portuguesa, de um ponto de vista bem fundamentado, de histórias e imagens magníficas, há uma paragem obrigatória na web: a Rua da Judiaria. Faz hoje dois anos.

É uma permanente inspiração para um bloguista modesto como eu (sem falsas modéstias).

Um grande abraço ao Nuno Guerreiro. De Jerusalém para Los Angeles. Mazel tov!

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publicado por Boaz às 13:35
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2005

A estrada de Gush Etzion

A estrada que liga Jerusalém a Gush Etzion - o bloco de colonatos que inclui Efrat - é uma das coisas que mais me continuam a impressionar aqui.

Ao longo dos quase 20 quilómetros há arame farpado na maior parte do caminho. No vale junto ao bairro de Gilo, no sul de Jerusalém, a estrada é ladeada de muros, construídos há poucos anos, no início da Intifada, a fim de proteger os carros dos atiradores furtivos que tinham um forte reduto na vila palestiniana de Beit Jala, do outro lado do vale.

Os autocarros que fazem o trajecto têm vidro duplo e estes são dotados de "desfocagem óptica", a fim de confundir os eventuais atiradores da posição dos passageiros.

Coisas incríveis para quem vem do cantinho do céu que os portugueses julgam ser a nossa terra.

publicado por Boaz às 17:28
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Domingo, 9 de Outubro de 2005

Primeiras impressões

É impossível definir com clareza - para menos para os de fora - a situação em que me encontro. Primeiro, pelo facto de estar a residir, mesmo que temporariamente, num colonato, poder levar a interpretações precipitadas. É claro que, em Efrat, o espírito na sua génese é o de um sionismo militante e o sonho da Grande Jerusalém.

Facilmente, de novo para quem assiste de fora e seguindo os estereótipos vigentes, podia pensar-se que os habitantes da cidade são gente fanática, armada até aos dentes e sedenta de sangue árabe.

A verdade é que, se fosse possível abstermo-nos, ao menos um pouco, da situação entre Israel e os Palestinianos, este bem podia ser o paraíso. As pessoas são hospitaleiras, como nunca imaginei que os israelitas pudessem ser, habitualmente hostis ao primeiro contacto.

Rapidamente nos convidam para as suas casas, nos servem comida e bebida e conversamos como se nos conhecêssemos há anos. Antes do Shabbat, dezenas de famílias, mesmo não nos conhecendo, convidam-nos para passar a ceia de Shabbat com elas. E depois, querem que voltemos.

publicado por Boaz às 14:45
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Domingo, 2 de Outubro de 2005

Shana Tova - Feliz Ano Novo para...

Judeus Modernos, ultra ou apenas ortodoxos,
Judeus Haredim, Mitnagdim, Conservadores, Conservadoxos, Reformados & ConFormados,
Judeus Gartel e Judeus não-Gartel,
Judeus com sheitels & sem, Judeus Tichel,
Judeus Sheitel, tichel & com chapéu,
Adultos & crianças, Frum desde nascença, Baalei Teshuva, Satmar, Agudah,
De chapéu preto, kipa s'ruga,
Mir, Belz, Beta Yisrael, Bobov, Chaim Berlin, Yeshiva University,
Judeus de payos em frente da orelha, Judeus de payos atrás da orelha,
Judeus de kipa só na sinagoga / de chapéu na sinagoga / que nunca vão à sinagoga
Judeus Mizrachi, Judeus por escolha,
Judeus de robe à Sexta à noite, Judeus do Likud, Judeus Trabalhistas,
Judeus Meimad, das Dez Tribos Perdidas, Judeus cardíacos,
Judeus Irlandeses, Negros, Brancos, Judeus 3-dias-por-ano,
Judeus do Rav Nachman, do Rav Shlomo, da Neturei Karta,
Hasidim, Telz, Lakewood & Ner Yisrael,
Judeus Chofetz Chaim, Judeus zaftig, magricelas, Kookies,
Judeus JTS, RJJ, HUC, HTC, MTJ, BMT,
Judeus Celebridades, Judeus da Geração X, Y & Z,
Judeus da NCSY e de Solomon Schechter,
Judeus Chinuch Atzmai, Judeus Fackenheim, Judeus Yitz Greenberg, Judeus Kahane,
Judeus feministas, Judeus chauvinistas, Judeus igualitários, Judeus vegetarianos,
Judeus tradicionais, Judeus Kaddish-zuger,
Judeus políticos, Judeus intelectuais e Judeus ignorantes,
Judeus tomate & Judeus laranja, Judeus Shinui, e Judeus Shas,
Judeus Israelitas, Americanos, Persas e Russos,
Galitzianers, Litvaks, Polacks,
Judeus da birthright, Judeus solteiros, Judeus casados, Judeus quem me dera ser casado,
Judeus Esverdeados, Judeus Avermelhados, Judeus Escandinavos,
Judeus South of the Border, Judeus Italianos, Judeus nas notícias,
Judeus carecas, Judeus cabeludos,
Canadianos, Latinos, Ladinos,
Judeus em kapatas, em T-shirts,
Judeus em sandálias, em sapatilhas, em botas de montar,
Judeus Húngaros, Judeus Checos, Judeus na fronteira Húngaro-Checa,
Judeus Ashkenazitas, Sefarditas e Iemenitas, Judeus Afrikaner, Judeus Romenos,
Sionistas, não-Sionistas, anti-Sionistas, pós-Sionistas,
Judeus com sotaque, Judeus que falam um perfeito Hebraico Inglês do Midwest, Judeus Nativos Americanos,
Judeus Anglo-saxões, Judeus Britânicos, Judeus Escoceses, Judeus Galeses, Judeus Irlandeses,
Bons Judeus, Maus Judeus, Judeus feios, Judeus Hip-hop, Judeus curtidos,
Judeus fumadores, Judeus não-fumadores,
Judeus golfistas, Judeus cantores, Judeus Franceses, Judeus Alemães,
Judeus Gregos, Judeus Indianos, Judeus Chineses, Judeus JWannabee,
Judeus de Teorias da Conspiração, Judeus Japoneses, Judeus Shayna Panim, Judeus Meesekite, Judeus no armário,
Shnorrers, Baalei Tzedaka, Tzadikim, Baynonim, Rashaim,
Judeus Chacham-Tam-Ayni Yodea, kvetching e Guta Neshama,Vizhnitzer, Ger, Gerer, Chabadnik, Kohenim, Levi'im, Yisraelim,
Judeus Machers, Mavens & Pashet...

Todos os tipos de Judeus neste vasto Universo: Que nos unamos todos - sem brigas! – e juntos acendamos a grande luz de D-us. Que tenhamos um doce e abençoado ano, juntos e em verdadeira paz.

Shana Tova Umtuka! Paz em Israel

Nota: Isto é a tradução de um texto originalmente em inglês. Se alguém não entendeu alguma das denominações, não há problema. Para mim, em grande parte, isto também é muito confuso. :)

publicado por Boaz às 14:55
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Sábado, 1 de Outubro de 2005

365 dias

E não é que passou um ano?

Um ano de blogue que me surpreendeu bastante. A princípio bem tímido. Com o tempo, um pouco mais seguro. Parece que quebrei a regra da grande maioria dos blogues. As estatísticas indicam que muitos duram apenas dois meses: o tempo médio até se esgotar a inspiração.

Obrigado a todos os que aqui entraram. Aos fãs. Aos que nem por isso. Aos que cá chegaram por acidente. Aos que depois disso cá voltaram. Aos incógnitos e aos que deixaram comentário. Aos que escreveram emails encorajadores. E aos outros.

Um abraço a todos. Prometo continuar a deixar umas postas.

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publicado por Boaz às 15:22
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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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