Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

Shabbat Shalom

Desde que estou em Israel tenho tentado usufruir o mais possível dos Sábados, os únicos dias da semana em que (aparentemente) posso descansar. No entanto, apesar das inúmeras coisas interditas durante aquele que é o dia sagrado por exscelência do Judaísmo, o Shabbat está longe de ser um mero dia para deixar a rotina normal.

Uma das melhores formas para receber toda a riqueza do Shabbat, é passá-lo, o mais possível - total ou parcialmente - com pessoas diferentes, para assim conhecer as várias tradições associadas ao dia. Em Efrat, cheguei a passar a ceia de Shabbat (na noite de Sexta-feira) em casa de várias famílias. Agora que me mudei para Jerusalém, estou mais por "conta própria".

O meu primeiro Shabbat desde que entrei para a yeshiva, decidi passá-lo fora, com a família do meu rabino, em Mitzpe Yeriho. Mitzpe é um colonato no meio do deserto da Judeia, com uma vista espectacular sobre as montanhas estéreis que o rodeiam, o Mar Morto, o Vale do Jordão e a cidade palestiniana de Jericó, situada a poucos quilómetros de distância.

A terra é pequena, com pouco mais de mil habitantes. Tão pequena e distante dos principais povoados que o autocarro que a liga a Jerusalém demora mais de uma hora a cumprir a viagem, já que para que esta renda, passa antes por vários colonatos mais importantes.

Apesar de pequena Mitzpe tem, pelo menos, oito sinagogas. O meu rabino quis partilhar a riqueza do Judaísmo, levando-nos - a mim e ao amigo uruguaio do ulpan giur e da yeshiva que me acompanhou - a rezar os quatro serviços religiosos em três sinagogas diferentes, entre elas uma sinagoga teimani (de rito iemenita), cujas orações são quase todas cantadas e entoadas num sotaque muito particular.

Pela manhã, caminhámos durante meia hora até uma sinagoga improvisada, situada numa caravana no alto de uma colina desértica, posto avançado com vista expansão planeada para o colonato nos próximos dois anos. Aí, fomos convidados para ler a Torá. Durante a oração da tarde, desta vez numa pequena sinagoga recém-construída no centro de Mitzpe, o convite repetiu-se. Sendo forasteiros e acompanhando um ilustre habitante da terra, sempre nos era oferecida a honra de subir à Torá.

Não pudemos aceitar tamanha honra. Estamos ambos - ainda - em processo de conversão e, por isso, não contamos para o minyan e, logo não podemos ler da Torá. Convites destes não se recusam, mas nós temos de os recusar. Por mais que custe.

publicado por Boaz às 21:03
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2005

Yeshiva boy

Quando cheguei a Israel, há quase dois meses, pensei que o ulpan guiur onde estou a estudar para a conversão, seria uma escola de estudo intenso de Judaísmo. No entanto, as aulas são de quatro horas, dois dias por semana. Acho manifestamente pouco, já que é apenas o dobro do que havia estado a estudar, durante um ano, em Lisboa. E não me mudei de Portugal para Israel para ter somente o dobro das horas de estudo que tinha antes.

Por isso, desde a semana passada, comecei a assistir às aulas matinais na yeshiva Machon Meir, em Jerusalém. Alguns dias antes de começar as aulas, ajudei um amigo e companheiro de casa e de ulpan a mudar a sua bagagem para lá, uma vez que já havia conseguido vaga. O choque foi imediato. Não que estivéssemos habituados a luxos ou a confortos especiais na casa onde estávamos a morar, mas o que encontrámos fez-nos pensar “no que nos fomos meter...”

Chegado ao quarto que lhe coube, pareceu-me estar perante uma cela dd uma prisão brasileira. Pequeno, escuro, sujo. À hora de almoço, depois da oração da tarde (minchá), descemos à cantina. A comida pareceu-me horrível. A primeira impressão da yeshiva, excluindo no que toca os estudos, foi de repulsa.

Todavia, as coisas não estavam a correr bem na casa onde vivia em Efrat, pelo que, apesar de as condições na yeshiva me terem chocado, me esforcei para lá conseguir uma vaga e, finalmente deixar a casa onde vivia há dois meses.

E foi assim que, ontem, carreguei a tralha para o meu quarto na yeshiva. O choque inicial passou. A comida até se revelou aceitável. Parece que as coisas não haviam corrido muito bem na cozinha nos dias em que lá comi. Pelo que vejo do meu amigo que me mudou há pouco mais de duas semanas, a comida de cá engorda. Bom sinal. É que me disseram, há dias, que estava mais magro desde que cheguei.

E afinal, os quartos não são assim tão maus. É verdade que têm de ser partilhados entre quatro ou cinco pessoas, o que, caso os companheiros sejam limpos e calmos, não é um problema de maior. Claro, para quem não se importe de abdicar da sua privacidade.

O ambiente parece-me estupendo. As classes são diárias – no meu caso em espanhol, mas também as há em hebreu, inglês russo e francês. Passamos os dias imersos na Torá, no Shulchan Aruch e no Talmude.

Eu sou o único português entre os mais de 300 estudantes e residentes, mas há um grande número de brasileiros e latino-americanos. Dois dos meus companheiros de quarto são brasileiros, o que ajudou a não estranhar tanto a mudança.

publicado por Boaz às 22:22
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

It's the American stupid, stupid!

No último Sábado, após o fim do Shabbat (que acaba ao pôr-do-sol), fui a Jerusalém. (Efrat é uma terra um bocado chata para quem é jovem e solteiro como eu). Fui de boleia, como habitualmente. No regresso, tomei um autocarro das carreiras regulares que ligam Jerusalém aos vários colonatos de Gush Etzion.

Apesar da hora tardia, onze da noite, o autocarro estava cheio. E, incrivelmente, cheio de jovens americanos, de ambos os sexos. A língua que se escutava era o inglês e não o habitual hebreu. Pela disposição notava-se que eram novatos nestas andanças israelitas. De tal modo descontraídos que mais parecia uma viagem de miúdos de liceu à Disneylândia, que uma normal viagem de Jerusalém para Gush Etzion.

Assim que se sai da cidade, o condutor desliga todas as luzes interiores do autocarro, a fim de melhor proteger os passageiros, ao dificultar a visibilidade dos alvos a eventuais atiradores furtivos ao longo da estrada, que passa junto a povoações palestinianas, até ao Gush.

Ignorantes desse facto, e assim que a escuridão se instalou, por todo o autocarro se esticaram dedos para ligar as luzes situadas por cima de cada assento. E de novo se fez luz.

Entretanto, o autocarro saiu da estrada principal e atravessou Beit Jala, detendo-se antes do portão eléctrico que cerra o único acesso à primeira paragem. Ao meu lado, um dos americanos perguntou surpreso: "Onde estamos?". "Har Gilo", respondi-lhe.

Pensei em acrescentar-lhe, maldosamente: «É um minúsculo colonato judeu construído numa colina rodeada de uma cidade hostil, palestiniana. Sim, eles também vivem por aqui...» Achei melhor não o fazer.

Coitado do rapaz. Muito provavelmente, havia chegado há dois dias a Israel (alguns dos jovens ainda tinham nas mochilas autocolantes da EL-AL) e passara o Shabbat, calmamente, com alguma família em Jerusalém, antes de rumar à yeshiva onde irá viver e estudar nos próximos meses, algures num colonato. Nos "Territórios".

Deixei-o viver no sonho dele mais um bocadinho.

publicado por Boaz às 14:58
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

Ao próximo como a ti mesmo?

Caricatura publicada no jornal egípcio Al-Sha'ab, em 30 de Maio de 1989, num artigo que apelava a uma guerra total contra Israel.
Um detalhe: o globo terrestre aparece envolto num kaffiyeh.

Em 1944, o intelectual judeu Maxim Kahn, que escapara da Alemanha Nazi para a Argentina, escreveu, a respeito do anti-semitismo: "a morte dos judeus é, talvez, a mais enigmática das mortes; certamente é a mais acusadora. Durante dois mil e quinhentos anos se vem matando judeus em vez de permitir que morram... começou-se a matar judeus com tanto êxtase que a morte natural já não lhes causa temor... os judeus se agarraram à morte natural como se fosse vida, como se fosse luz do sol, canto de pássaros, fragrância de flores ou amor. Nada lhe pareceu tão apetecível como poder morrer sem marcas de homicídio no corpo. Sua vida se converteu em esperar a morte. É de estranhar que a palavra judeu não se tenha tornado sinónimo de moribundo... o judaísmo é uma saúde incurável."

Estas palavras constam de "Amarás Teu Próximo? - A Judeofobia na Cultura Universal", título brasileiro da obra "La Judeofobia". Conheci há dias o autor, o argentino de nascimento Gustavo Daniel Perednik, que fez questão em oferecer-me uma exemplar da edição brasileira e que prontamente autografou.

O seu primeiro capítulo, por si só, merece uma análise profunda: porquê chamar judeofobia ao fenómeno conhecido comummente por anti-semitismo? Ao longo da obra o autor tenta encontrar as origens de uma fenómeno quase ininterrupto nos últimos 2500 anos; as suas manifestações desde a época grega à actualidade, quando se mostra indistintamente da extrema-esquerda à extrema-direita, dos movimentos anti-globalização aos activistas pró-Palestinianos, da intelectualidade engravatada na Europa, à catrefa fundamentalista islâmica.

Não que eu ache que tenhamos um problema de anti-semitismo - perdão, de judeofobia, em Portugal, mas não era má ideia a edição da obra no nosso português. Para que se perceba mais profundamente aquele que é o ódio mais antigo do mundo.

PS - A ler: um excelente artigo sobre o tema, na Rua da Judiaria.

publicado por Boaz às 10:02
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