Domingo, 31 de Agosto de 2008

O porquê da coisa

Porque é que eu estou há três semanas sem dizer nada?

Estive em Portugal, sem tempo para escrever e além disso, sem internet. (Sim, parece que é mesmo possível viver sem ela durante algum tempo). Brevemente volto a esta casa. Já estou a preparar alguma coisa sobre esse regresso ao Rectângulo.

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publicado por Boaz às 23:51
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Domingo, 10 de Agosto de 2008

1940 anos...

...desde a destruição do Templo de Jerusalém, o Beit Hamikdash. Hoje, passam 1940 anos desde que os Romanos, liderados por Tito, destruíram o Templo de Jerusalém. Na mesma data, 550 anos antes, o exército babilónico de Nabucodonossor, havia destruído o Templo original, mandado construir pelo Rei Salomão. Hoje, dia 9 do mês de Av do calendário judaico, é dia de luto e jejum para o Povo de Israel.


Templo de Herodes no modelo de Jerusalém da Época do Segundo Templo, Museu de Israel

Além da destruição dos dois Templos, outras calamidades se abateram sobre os Judeus ao longo da História, desde então. A fortaleza de Beitar, o último reduto judaico durante a revolta de Bar Kochba contra o domínio de Roma, foi capturada pelos romanos no dia 9 de Av do ano de 135. A sua conquista ditou o exílio dos Judeus da Terra de Israel. No ano seguinte, na mesma data, a cidade destruída de Jerusalém foi arada.

Na era pós-Talmúdica, outras tragédias judaicas ocorreram. A mais catastrófica terá sido a Expulsão de Espanha em 1492 E.C., que marcou a destruição da mais brilhante das comunidades judaicas na Diáspora, pondo fim à Idade de Ouro dos Judeus de Espanha. O decreto dos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, ordenava que, até ao final de Julho desse ano, nenhum judeu seria autorizado a permanecer em solo espanhol: "Qualquer um que viole a nossa ordem, que não saia durante este período e seja depois encontrado onde quer que seja dentro do nosso domínio, será sujeito à morte na forca ou à conversão ao Cristianismo." Uma extensão foi garantida até ao dia 2 de Agosto, a data coincidente com o dia 9 de Av. "Eles foram sem força - 300.000 viajando a pé, incluindo eu. Crianças, os velhos, e as mulheres, apenas num dia, de todas as províncias do rei - para onde os ventos os levaram, eles foram." (Comentário ao Livro dos Reis, Dom Isaac Abarbanel).

A Primeira Guerra Mundial começou na véspera de 9 de Av de 1914, durante a qual morreram milhares de judeus. Além disso, a derrota alemã na guerra serviu de base ao início do Holocausto. Durante a Segunda Guerra Mundial, na véspera do dia 9 de Av de 1942 começou a deportação em massa dos judeus do Gueto de Varsóvia, a caminho do campo de extermínio de Treblinka.

Acompanhada pela lembrança de todas as tragédias ocorridas nesta data, existe também a esperança da reconstrução do Templo e na Redenção de Israel. Afinal, de acordo com a tradição, o Mashiach nascerá no dia 9 de Av. Os sinais do renascimento judaico e da proximidade da Redenção são permanentemente lembrados nos círculos religiosos, um deles é "quando a terra de Israel voltar a dar os seus frutos". Assim como o evidente regresso do Povo de Israel à sua terra e a reconstrução das suas cidades.

Como relatam as Escrituras: "Aproximam-se os dias – diz o Eterno – em que o que semeia encontrará o que ceifa, e o que pisa as uvas com o que lança a semente. E as montanhas destilarão vinho doce, e as colinas se derreterão (em leite). E farei o Meu povo voltar do cativeiro, e reconstruirão as cidades assoladas e as habitarão; plantarão vinhas e beberão o seu vinho; cultivarão pomares e saborearão os seus frutos. Eu os plantarei no seu próprio solo, e não serão mais arrancados da terra que lhes dei – diz o Eterno, seu Deus." (Amós 9:13-15)

publicado por Boaz às 16:22
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Flashes da terrinha

O vento do fim da tarde no arvoredo. O nevoeiro matinal e a neve duas vezes por ano. As estradas sem trânsito no Shabbat. Os garotos que correm, sem preocupações, pelas ruas. Os parques infantis em cada quarteirão, para entreter as numerosas crianças. Os jardins fartos do bairro antigo. Os jardins ainda recentes do bairro novo.


O carvalho solitário que dá nome ao colonato. As famosas vinhas da região.
Um dos muitos parques infantis. A yeshivá Har Etzion.
A nova sinagoga askenazi. A única sinagoga sefardita.

A enorme yeshivá Har Etzion com os seus extensos jardins. Os peixes vermelhos nos lagos do jardim da yeshivá. Os edifícios baixos dos alojamentos dos alunos. Os prédios do kollel*, com apartamentos exíguos, rodeados de árvores e de caminhos cimentados. Os carrinhos de bebé, deixados à porta dos prédios, por falta de espaço em casa. Os choros dos bebés vindos dos apartamentos.

A "sinagoga velha" de 30 anos. As rezas da noite, em tom corrido, às 20, 21, 22 e 23 horas. As reuniões de Sábado à tarde dos grupos juvenis, no relvado ao lado da sinagoga. O salão de festas com a sinagoga dos judeus iemenitas nas traseiras. A mikve* antiga, agora só usada pelos homens. Um caminho ladeado de roseiras ameaçadoramente espinhosas. A nova rampa de acesso à sinagoga para cadeiras de rodas e carrinhos de bebé.

O posto dos correios com horários impossíveis. O corredor ao lado dos correios com centenas de caixinhas de correio. As caixas de correio todos os dias cheias de panfletos publicitários. O enorme contentor aberto para a reciclagem de cartão. A agência bancária, com um horário do género "Fechado 24 horas". O minimercado, chamado por alguns boutique. Os preços inflacionados (daí o apelido). A velhinha que vende flores na praça, durante a tarde. As mesas de venda de doces caseiros às sextas-feiras. O instituto que, misturando lei judaica e ciência, cria inventos "amigos do Shabbat".

Os gatos que trepam às árvores. Os gatos que vasculham os contentores do lixo. A matilha dos cães selvagens que uivam à noite. A ameaça da segurança do povoado de dar caça aos cães selvagens. O bicho misterioso – talvez um pássaro – que pipila de forma estranha, algumas noites, perto da minha janela. Cinco coelhos negros à solta pela rua, na noite de Shabbat. Duas meninas aflitas a correr atrás dos seus coelhos. O canto e o saltitar dos melros nos relvados.

Os hipopótamos de plástico no recreio do centro de crianças deficientes. O crepitar constante dos postes de electricidade. As actuações dos jovens nos feriados, no anfiteatro central. A enorme dupla sinagoga nova com os seus curvos telhados azuis. O – aparentemente – recatado acesso das mulheres ao mikve novo, logo ao lado da sinagoga. O enorme salão de festas, por baixo das sinagogas. As pessoas que esperam uma boleia na paragem do autocarro. Os carros que teimam em não parar para oferecer boleia. A espera ao sol, pela boleia que não chega. A senhora de chapéu de abas largas que todas as manhãs, nas suas caminhadas, nos saúda com um forte "Boker tov!" (Bom dia).

As crianças que aparecem na sinagoga, para receber um chupa-chupa, na manhã de Shabbat. A chuva de rebuçados sobre o jovem de 13 anos, no dia do seu bar mitzva*. A pressa das crianças para apanhar o maior número de doces. O sono que ataca metade da assistência da sinagoga antes da reza nocturna de Shabbat. A voz nasalada do leitor da Torá da sinagoga sefardita. As longas e rimadas bênçãos do oficiante da sinagoga para quem sobe à Torá.

As batidas da música quase em estilo rave e os gritos estridentes das raparigas nas agitadas festas de casamento da aldeia árabe vizinha, numa noite de Shabbat. A videira que sobe o estendal da roupa. Os cachos de uvas maduros que sempre me esqueço de colher. As árvores "de todos" neste ano sabático da terra*. Os anúncios de permissão para colher as frutas, nas árvores que, no próximo ano, voltarão a ter dono.

O pedregoso vale até à colónia de Elazar, cultivado de vinhas e oliveiras e com figueiras abandonadas. Os passeios de bicicleta que eu sonho fazer no vale (quando arranjar a dita bicicleta). Os muros de pedra que separam campos abandonados. O jipe da segurança que percorre dia e noite, as ruas do povoado. Os jovens que fazem a vigilância nos portões de acesso ao lugar, olhando de soslaio para os condutores que entram, antes de abrir a cancela.

Os judeus peruanos de origem inca e os judeus indianos Bnei Menashe, residentes no bairro de caravanas. A longa e sinuosa estrada que liga o povoado ao bairro de caravanas. Os planos sempre adiados de transformar a colina das caravanas num bairro a sério.

Kollel – instituição de estudo religioso ligada normalmente a uma yeshiva, onde estudam a tempo integral, homens casados, recebendo um salário e/ou alojamento.
Mikve – tanque para o banho de imersão ritual, usado principalmente pelas mulheres, para a purificação no final do seu período menstrual. É costume de alguns homens banharem-se no mikve antes de Shabbat, ou todos os dias, antes das orações matinais.
Bar mitzva – literalmente "filho do mandamento". Cerimónia de passagem para os rapazes de 13 anos, que marca a sua entrada na idade adulta em termos de cumprimento dos preceitos religiosos. Consiste na leitura pública do rolo da Torá, na sinagoga.
Ano sabático da terra - ou Shemitá, o sétimo ano do ciclo agrícola de sete anos, ordenado pela Torah para ser de descanso das actividades agrícolas na Terra de Israel. Nesse ano é proibido semear, colher, podar ou lavrar. Apenas algumas actividades de manutenção dos campos são permitidas. Qualquer fruto nascido neste ano é considerado "sem dono" e poderá ser colhido por qualquer pessoa.

publicado por Boaz às 22:51
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Domingo, 3 de Agosto de 2008

Eles que são brancos…

...Que se entendam. É, numa perspectiva cínica, o que se pode dizer da situação em Gaza. Desde que o Hamas, vencedor destacado das últimas eleições legislativas palestinianas, tomou de assalto a Faixa de Gaza, tem imposto a lei do terror. Não só para Israel - qual é a novidade, aí? -, mas acima de tudo, para os próprios palestinianos.

Largas dezenas de apoiantes da Fatah – os principais rivais do Hamas – foram mortos em combates na semana que sucedeu à entrada em força da direcção do Hamas na Faixa. Violência de rua, explosões, tiroteios, torturas. Mas isso passou-se já há mais de um ano.

Agora, os confortos regressam. Para lá dos mísseis Qassam, disparados diariamente sobre as cidades israelitas próximas de Gaza, é na própria Faixa que o Hamas mais faz vítimas.

Apoiantes da Fatah, eles próprios longe de serem meninos de coro, procuraram refúgio em Israel - onde mais poderia ser? - fugindo da vingança do todo poderoso Hamas. Os feridos nos confrontos inter-palestinianos foram tratados num hospital de Ashkelon. Ironicamente, esse hospital foi quase atingido por um míssil Qassam disparado de Gaza, há alguns meses.

Israel devolveu-os à procedência porque afinal, o próprio presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, recusou-se a garantir asilo na Cisjordânia a dezenas de apoiantes do seu próprio partido – ele é um dos líderes da Fatah! - que haviam fugido da Faixa.

O resultado foi a prisão imediata dos "devolvidos", às mãos do Hamas, assim que pisaram de novo o território de Gaza. Espera-se um festim bárbaro na Faixa para os próximos dias.

publicado por Boaz às 22:35
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Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Passaporte diz-se "darkon"


Darkon. Passaporte israelita

Finalmente, pude tirar o passaporte israelita. Em Israel, a lei para os imigrantes recém-chegados apenas permite o pedido de passaporte após um ano de nacionalidade. Até agora, caso precisasse de sair do país, teria de requerer um passaporte temporário. O que não foi necessário.

Consegui contornar a insuportável burocracia do Ministério do Interior, tratando das coisas numa delegação secundária, num bairro periférico de Jerusalém. Foram algumas horas de espera, numa sala exígua. Porém, muita gente, após tirar o papelinho com o número da vez para ser atendido, ao ver que há mais de 20 pessoas à sua frente, desiste da espera. O que acabou por ser mais rápido do que esperava.

Depois de uma semana, recebi o meu darkon em casa.

publicado por Boaz às 15:56
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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