Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Jerusalém de ouro

Numa das minhas últimas viagens matinais de boleia até Jerusalém, o generoso motorista de ocasião deixou-me no bairro de Katamon, no centro da Cidade Santa. Na minha caminhada até à Cidade Velha, tive a oportunidade de apreciar uma sucessão de diferentes ambientes na cidade.

Katamon é um dos bairros mais caros do centro da capital israelita. Ao lado, em Talbiye, imperam as vivendas luxuosas de estilo neo-renascentista dos anos de 1930, habitadas originalmente por ricas famílias de Cristãos Árabes. Hoje, muitas albergam sedes de instituições culturais e consulados, como o da Bélgica, que ocupa a notável Villa Salameh. A residência oficial do Presidente da República é outra das marcas de luxo do bairro.

Sem conhecer direito o bairro consegui, logo à primeira, acertar com a direcção do caminho para a Cidade Velha. Para grande alívio do meu sentido de orientação, consegui a certa altura reconhecer no horizonte a torre do sino da Basílica da Dormição, no Monte Sião, ao lado da Cidade Velha. Descendo a Rua Jabotinski, cheguei ao cruzamento junto ao Parque do Sino da Liberdade, um pequeno jardim que contém uma réplica do famoso Liberty Bell de Filadélfia.

Do outro lado da avenida, o bairro de Yemin Moshe. Foi um dos primeiros bairros fora das muralhas da Cidade Velha. Foi fundado no final do século XIX, patrocinado pelo banqueiro judeu inglês Moses (Moshe) Montefiore, com o objectivo de aliviar o sobrepovoamento e as difíceis condições sanitárias existentes dentro das muralhas. Os primeiros habitantes chegaram a ser pagos para aí morar, mas o perigo de viver fora das muralhas – alvo de frequentes ataques de ladrões – nunca atraiu muitos residentes. Uma epidemia de cólera que grassou na Cidade Velha em 1866 levou várias famílias a optarem residir definitivamente no bairro. Porém, recusavam-se a passar aí a noite. Hoje, é uma famosa colónia de artistas, com as suas casas, alamedas floridas e escadarias arborizadas, o seu famoso moinho de vento (que nunca funcionou) e a grandiosa vista para a Cidade Velha e o Monte Sião.

A pouca distância de Yemin Moshe, seguindo a King David Street, o histórico hotel King David. Durante décadas, ainda durante o domínio britânico na região, foi o mais luxuoso e aristocrático hotel de Jerusalém. Em frente, o também histórico e de arquitectura inconfundível edifício do YMCA. Caminhando em direcção à Cidade Velha sucedem-se as galerias comerciais e os condomínios de luxo. Todos com o nome do Rei David: King David Crown, King David Court e King David Residence. Com a promessa do requinte com vista para a Cidade Velha, a marca do Rei salmista vende bem.

No final da rua, o enorme hotel David Citadel. Construído originalmente pela cadeia Hilton antes do ano 2000, de olhos na esperada enchente de turistas na passagem do milénio, o hotel nunca deu os resultados esperados. O Sr. Hilton decidiu vender o gigantesco hotel a um magnata russo, a preço de saldo. Hoje, marca o novo topo do luxo de Jerusalém.

Mas não será por muito tempo. Mesmo em frente, no antigo edifício da Alfândega Turca, abandonado há vários anos, já está em construção o futuro hotel Palace da cadeia Waldorf-Astoria. Será um dos poucos hotéis no mundo a exibir o luxuoso nome do famoso hotel da Quinta Avenida de Nova Iorque. No quarteirão ao lado, há anos que se fala da construção do Museu da Tolerância e Centro da Dignidade Humana, da responsabilidade do Centro Simon Weisenthal de Los Angeles. O controverso projecto (no arrojado estilo do Museu Guggenheim de Bilbau) parece entretanto ter ido por água abaixo. A razão: os protestos pela escolha do lugar para a sua construção: um antigo e degradado cemitério islâmico.

Actualmente, o lugar da moda em Jerusalém é o novo Shopping Mamilla. Estendendo-se numa antiga rua do bairro de Mamilla, foi inicialmente apenas uma estação de autocarros e um parque de estacionamento subterrâneos. O resto do projecto esteve 16 anos parado. Até que há poucos anos, os planos foram retomados para reabilitar a área. O mesmo bilionário russo dono do antigo Hilton investiu centenas de milhões de dólares no complexo, que inclui o centro comercial, um novo hotel de cinco estrelas e um condomínio de luxo. Em Maio de 2007, as primeiras lojas do centro comercial foram abertas. Marcas internacionais como Versace, Tommy Hilfiger, Mango ou The Body Shop, rivalizam com as cadeias locais. Às lojas de roupa de luxo sucedem-se as joalharias e a vários cafés de estilo, com agradáveis esplanadas.

Na praça a meio da avenida comercial é costume haver pequenos concertos e entretenimento ao ar livre. Nas paredes, entre as montras das lojas, encontram-se com frequência quadros pendurados. Uma galeria de arte improvisada. Clientela endinheirada não falta. No final da rua, o supra-sumo do luxo, a loja de jóias da cadeia brasileira H. Stern. Em frente, subindo um pequeno lanço de escadas, a Porta de Jaffa.

A pouca distância da recém montada pompa internacional, o centenário shuq (o mercado árabe), onde se vende toda a espécie de traquitana, numa mistura sui-generis. Numa mesma loja é possível encontrar kippot judaicas empilhadas junto a imagens de santos e crucifixos, ao lado de keffies (os típicos lenços estilo Arafat), e terços de oração muçulmanos. Almofadas em motivos garridos, T-shirts com slogans para turista. Trajes de lantejoulas para a dança do ventre e narguilas, os cachimbos de água do Médio Oriente. Mercearias dispõem, bem ordenados, montinhos de cheirosas e coloridas especiarias e servem sumos de romã, laranja ou cenoura feitos na hora.

Hotéis baratos para o turista 'mochileiro' onde, por cerca de 10 dólares por noite, é possível dormir num colchão no telhado, debaixo do céu estrelado de Jerusalém. Dispostas ao longo da rua, bandejas de objectos alegadamente arqueológicos. E toda a espécie de mercadoria de aparência tipicamente local, mas com a inevitável etiqueta "Made in China". Aqui, ao contrário do shopping moderno e elitista, tudo pode, e deve, ser regateado. E os experientes vendedores não hesitam em fazer uso dos seus dotes para línguas estrangeiras. E tão-pouco de servirem um típico café turco, para convencerem o turista a comprar.

Cruzo o shuq ao som do meu leitor de mp3, passando por entre grupos de turistas (não é raro encontrar grupos de portugueses). Em escassos minutos chego à praça da Rova, o Bairro Judeu. A poucos passos dali, a yeshivá. Para lá da efemeridade do luxo dourado e do aroma das especiarias, a eternidade das palavras dos Sábios. Tenho um dia de estudo de Torá pela frente. Ao final da tarde, farei o caminho do shuq e do shopping no sentido contrário, de regresso a casa.

publicado por Boaz às 20:06
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Jogo da paciência

Depois de cinco meses a morar em Alon Shevut, estamos a pensar em mudar-nos para Jerusalém. Até há um mês e meio, tinha garantido diariamente, uma boleia directa para a Cidade Velha, através de um rabino brasileiro, meu vizinho, que ensina na Yeshivat Hakotel. Com o começo do novo ano de estudos, ele conseguiu uma vaga no edifício do kollel, mesmo ao lado da yeshiva. E eu perdi a minha óptima boleia.

O facto de não termos carro e, tanto eu como a minha esposa termos as nossas ocupações diárias na capital (eu na yeshiva, ela num centro de crianças deficientes), torna-nos dependentes da incerteza do tremping, a boleia. Isto porque, apesar da curta distância que nos separa da Cidade Santa – cerca de 20 quilómetros – a ligação por transporte público não é nada cómoda. O autocarro entra nos vários colonatos até chegar a Jerusalém. A viagem de 20 quilómetros requer quase uma hora. Assim, os autocarros não são opção para a viagem matinal.


Autocarro na Avenida King George, Jerusalém.

É comum a prática dos moradores dos yishuvim (colonatos) oferecerem boleia, tanto para Jerusalém, como entre os vários povoados da região do Gush Etzion. Porém, Alon Shevut não é particularmente famoso pela disponibilidade dos seus moradores em oferecerem um lugar vago no carro. Assim, todas as manhãs, sujeitamo-nos a esperar bastante tempo por uma oferta.

Na maioria dos casos, os poucos motoristas que param nas duas paragens de autocarro – que servem de ponto de aglomeração dos trampistas (os que esperam a boleia) – não vão para a Cidade Velha, ou as proximidades. Shopping Malcha, os vários hospitais da cidade e a zona industrial de Har Hotzvim são a maioria das ofertas. Com as obras do metro de superfície a esburacarem metade de Jerusalém, na chegada à cidade, ainda é preciso tomar um autocarro para a Cidade Velha. As obras atrasam o, já de si penoso, trânsito da capital.

Na melhor das hipóteses, a zona comercial de Talpiot, no Sul da cidade, à a opção. Apeando-me da boleia algures na Estrada de Hebron, a principal via de ligação entre o sul e o centro da cidade, aí apanho um autocarro até ao centro da cidade (não há nenhum para a Cidade Velha). Daí, ainda me resta uma caminhada de 15 minutos até à yeshivá. Um bom exercício matinal, para ajudar a desanuviar o stress para conseguir – todos os dias – chegar ao meu destino.

publicado por Boaz às 22:10
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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Passar ao lado da História

11 de Setembro, por pouco, não passava alheio à histórica data. Sem televisão em casa – bem, na verdade até temos o aparelho, mas há cinco meses que permanece desligado, ainda dentro da própria caixa –, o acesso ao mundo exterior é mais ocasional. Na yeshivá, apesar de ter mais de 100 alunos americanos, não ouvi falar do assunto.

Do jovem de 20 e poucos anos interessado em prosseguir uma carreira jornalística e viciado em telejornais e notícias, sou hoje um fraco consumidor de notícias e dos media. O sonho da carreira jornalística passou e o pouco uso que faço do que aprendi na faculdade é o (bastante útil) olhar crítico em relação às notícias e, obviamente, este humilde blog.

Há 7 anos, nesta altura estava em minha casa, a terminar as férias do Verão. Assistia, como fazia quase todos os dias, aos noticiários matinais no canal de notícias europeu EuroNews. Com noticiários de meia em meia-hora, é fácil estar em cima do acontecimento. Começara a transmitir as primeiras imagens de Nova Iorque, naquela manhã inesquecível. A princípio, os relatos da jornalista informavam a suspeita de que uma avioneta chocara contra uma das torres do World Trade Center. O que, a ser verdade, seria a segunda vez.

Eram quase 13 horas, o tempo dos noticiários de início da tarde nos canais portugueses. Passei a emissão para a SIC, que nessa altura já tinha interrompido o programa matinal de Fátima Lopes para mostrar as imagens da nuvem de fumo, do buraco na Torre Sul do WTC, acompanhada de relatos cheios de dúvidas do que acontecera. Três minutos depois do início do Jornal da Uma, em directo para a minha sala de estar – e para todo o mundo – o segundo avião chocou contra a Torre Sul.


Uma pessoa salta do World Trade Center depois da Torre Norte
ter sido atingida por um dos aviões sequestrados (AP Photo/Richard Drew).

Naquele momento, deixara de ser um estranho acidente, para passar a ser um macabro e terrível ataque terrorista. Naquela tarde, segui a emissão televisiva com um ávido apetite por notícias. Todos os programas foram suspensos e, em suspenso também eu fiquei, durante todo o dia, até às 2 da manhã do dia seguinte, quando o último dos canais nacionais (em minha casa em Portugal não havia, nem hoje existe, televisão por cabo) regressou à programação normal.

O auge do êxtase foi a inacreditável queda da primeira torre. Mesmo no conforto da minha sala, senti-me gelar de terror. Logo depois, a segunda torre a cair. Nem a mais demente produção de Hollywood poderia conceber um cenário daqueles. As imagens das pessoas trancadas nos edifícios a saltarem para a morte, foram algumas das mais sinistras experiências visuais a que assisti. Em que pensariam as pessoas no último momento antes de se lançarem? Era impossível não se interrogar...

No dia seguinte, apesar da continuação do tempo de férias, acordei cedo. A avidez de notícias – uma noite inteira de coisas a acontecer um pouco por todo o Mundo depois de uma tragédia daquelas! – despertou-me bem cedo e fez-me correr para a frente da televisão. Não conseguia deixar-me ficar sem saber o que se passava...

Os meses passaram, tiraram-se conclusões acerca das origens do ataque. Os EUA começaram uma guerra global que, há muito começara, mas que passara até então despercebida para a maioria das pessoas. Os muçulmanos ganharam um infame herói, Osama Bin Laden, auto-proposto salvador da sua civilização. O "choque de civilizações" retomava a sua sangrenta e imparável cavalgada. Muitos, mesmo depois de tantas mortes que causou, mantêm-no como o seu modelo. Triste, muito triste.

Invasão do Afeganistão, atrocidades e queda dos talibãs, Bali, 11 de Março em Madrid, Metro de Londres, Istambul, invasão do Iraque, falência de companhias aéreas. Foram apenas algumas das manchetes que surgiram nos meses e anos seguintes, relacionadas com o 11 de Setembro de 2001. Habituámo-nos à repetição de atentados: muda a geografia, mas a marca é a mesma. Rendemo-nos às novas regras de segurança nos aeroportos: depois do bombista dos sapatos obrigaram-nos a descalçar; com o terrorista da bomba-líquida proibiram-nos de levar mais de 100ml do que quer que fosse na bagagem de mão.

O nosso Mundo é hoje muito diferente daquele que existia em 2001. Porém, acostumámo-nos às mudanças. Cada um à sua maneira. Daí que, até eu, outrora um ávido consumidor de notícias, quase me tornei indiferente à data. Do lema: "Nunca esqueceremos", nesta como noutras tragédias, virou pouco mais que um slogan. Quase tudo daquilo que entrou na nossa vida após o 9/11 simplesmente já faz parte da nossa normalidade.


publicado por Boaz às 00:33
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

A ilha dos helicópteros


Kinneret, Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades. Imagem de satélite.

Ao voltar da viagem de duas semanas de férias em Portugal, a primeira impressão que tive ao sair do aeroporto de Tel Aviv foi o calor extremo. Eram 4 horas da manhã, mas os termómetros marcavam quase 30ºC. Até à altura da minha saída para Portugal, o Verão israelita, nomeadamente em Jerusalém, tinha sido relativamente ameno. Nada de temperaturas extremas ou ondas de calor. Porém, à chegada, o céu de Jerusalém apresentava-se cinzento-acastanhado. Não por via dos incêndios florestais, os quais felizmente, são desastres raros de em Israel, mas pelo Hamsin, uma onda de calor vinda do deserto da Arábia, marcada pelos ventos carregados de areia.

Uma das primeiras notícias que recebi foi sobre o estado de gravidade da principal reserva de água doce de Israel, o Kinneret, ou Mar da Galileia. Tão grave que actualmente é visível uma ilha numa zona do lago anteriormente coberta de água. A sua área é suficiente para albergar seis helicópteros.

Há anos que o nível de água no lago está alguns metros abaixo da quota máxima. Em Tiberias (ou Tiberíades), a principal cidade da região, situada na margem ocidental do Mar da Galileia, uma escultura moderna situada na margem do lago, informa da altura da água. Há um ano, quando estive na cidade, indicava que a altura da água se encontrava mais de 2 metros abaixo do normal. Hoje a situação é ainda de maior penúria. A falta de chuvas abundantes nos últimos Invernos e a permanente captação de água do Kinneret – para ser distribuída pelo Aqueduto Nacional para todo o país –, levaram o lago a uma situação grave.

A sul do Mar da Galileia, no local onde o Rio Jordão sai do lago e inicia a sua descida até ao Mar Morto, a parede de uma barragem parece uma estrutura totalmente obsoleta. Foi construída para regular o nível da água do lago. A abertura das comportas da barragem serviria para evitar as inundações na cidade de Tiberias e das povoações limítrofes do Kinneret, em caso de subida acentuada do nível das águas. Há mais de 20 anos que as comportas não são abertas.

publicado por Boaz às 22:34
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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Viagens na minha (outra) terra

Na última Sexta-feira regressei de mais uma viagem a Portugal. Foi o meu terceiro regresso, desde que vim para Israel, em Setembro de 2005. Desta vez, porém, havia um elemento novo na viagem: Nicole, a minha esposa, de visita pela primeira vez ao meu país de origem. Ficámos pouco mais de duas semanas. Vida de casado e compromissos de estudo obrigaram à constrição das férias.


Arco da Rua Augusta, Lisboa; Sítio da Nazaré
São Pedro de Alcântara, Lisboa; Óbidos.

À partida, o obstáculo da língua estava praticamente ultrapassado – sendo brasileira e convivendo comigo há mais de um ano –, as nuances do português que o tornam intrincado para o ouvinte brasileiro, foram superadas com facilidade. Ainda assim, até mesmo eu, de vez em quando, esbugalhava os olhos, a pensar no que pensaria a Nicole acerca de algumas expressões portuguesas.

A alimentação, pela dificuldade em conseguir comida casher em Portugal (tirando a limitada variedade existente numa minúscula secção num supermercado lisboeta) foi a maior das contrariedades. Com antecedência, contactei uns amigos judeus em Portugal, a fim de conseguir a lista de produtos casher, para nos precavermos na ida ao supermercado. Cortámos a carne da dieta e aderimos em força às frutas, ao leite de soja e ao peixe. Como é abençoado o mar de Portugal! (Nem a propósito, a nossa primeira visita turística foi ao Oceanário de Lisboa.) Na bagagem de volta acabámos por trazer dois quilos de bacalhau, os quais ficarão guardados até voltar o desejo do "fiel amigo", depois de comermos bacalhau durante as duas semanas, quase dia-sim-dia-sim.

A inédita experiência da sardinhada não deixou boas memórias à minha cara-metade. Assadas inteiras, com tripas e tudo, com o consequente trabalho de tirar essa parte não comestível do peixe, foi um episódio desagradável. Já os joaquinzinhos fritos ficaram aprovados. E ainda mais, o arroz de grelos a acompanhá-los.

Com pouco tempo disponível, praticamente todos os dias tínhamos de ter uma coisa que só poderíamos fazer uma vez. Visitar a minha irmã e as minhas sobrinhas, antes que abalassem de férias para o distante Algarve, foi uma das primeiras tarefas. Sentia-me, diariamente, como que a marcar um xis numa lista de tarefas a cumprir, ao ritmo da sua execução: visitar a minha irmã, ver os amigos do antigo Grupo de Jovens, visitar a família de Alcobaça e de Lisboa. Cada coisa encaixada num horário apertado.

Consegui reunir a maioria dos amigos de infância após o Shabbat que passámos em minha casa. Reunimo-nos à volta do álbum das fotos do casamento. No geral parece estar quase tudo na mesma. Os mesmos empregos, os mesmos amores, e as mesmas eternas piadas que só nós entendemos.

Sem carro próprio, usámos o carro da minha mãe, com o compromisso de a ir buscar à sua hora de saída do trabalho. Assim, nos nossos passeios, estávamos limitados às proximidades da vila da Batalha. A cidade de Tomar e a sua modesta sinagoga (a precisar de algum restauro), Óbidos e a enchente de turistas italianos – e a ginjinha casher que serviremos aos nossos convidados no Shabbat –, Nazaré e a maravilhosa vista do Sítio, o castelo de Leiria.

Em Lisboa, estivemos menos tempo do que desejaríamos. Ainda assim, na Sexta-feira anterior ao Shabbat que passámos na capital (para termos algum contacto com a comunidade judaica local) aproveitámos para passear. As longas tardes de Verão deram-nos tempo para fazermos um dos mais típicos passeios lisboetas: uma viagem no eléctrico 28. Apanhámos o histórico “bonde” amarelo frente à Basílica e ao Jardim da Estrela. Apinhado, apesar de ter iniciado a sua viagem apenas duas estações antes, em Campo de Ourique. Turistas italianos, espanhóis e americanos compunham a maioria dos passageiros. Tivemos de ir em pé a maior parte da viagem, até à Avenida Almirante Reis.

São Bento, Bairro da Bica, Chiado, Baixa Pombalina, Sé, Alfama, Graça, Anjos, Martim Moniz. Uma delicia! Terminada a viagem de eléctrico, fomos a pé até à Praça da Figueira, descemos toda a Baixa até à Praça do Comércio. Subimos até ao Rossio pela Rua Augusta, eternamente alegrada pelos artistas de rua. Gostei especialmente das pinturas com os eléctricos de Lisboa em milhentas opções.

Fomos ao Chiado e aproveitámos o ar condicionado do Centro Comercial para recuperar o fôlego e arrefecer um pouco o corpo, naquela tarde quente. Continuámos pelo Bairro Alto até São Pedro de Alcântara, um dos mais privilegiados miradouros de Lisboa, agora mais limpo e cuidado do que da última vez que lá apreciei a sua magnífica vista. Pelo Rato chegámos ao ponto de partida do passeio. Alimentámos os atrevidos patos e os pombos do Jardim da Estrela com bolachas de água e sal.

O Shabbat foi muito especial. Hospedados em casa de uma família de amigos alemães, judeus ortodoxos, fomos recebidos como reis. A generosidade foi farta, com a mesa da família partilhada por mais sete pessoas: todos de Israel e de passagem por Lisboa. Voltámos à capital mais uma vez, de regresso do nosso passeio a Sintra. Fomos de comboio – foi a primeira vez que viajei na Linha de Sintra.

Dois dias depois regressámos a casa, a Israel. Não sei quando voltaremos. Esta será, possivelmente, em muitos anos, a única viagem que faremos apenas os dois, em casal. Em breve chegarão os filhos e aí as dificuldades de transporte, assim como as prioridades familiares, serão outras. Poderemos dizer que esta foi a nossa lua-de-mel não oficial.

publicado por Boaz às 22:08
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