Domingo, 30 de Agosto de 2009

Duas medidas

Em Israel, há poucos anos, um programa da televisão israelita foi considerado ofensivo para a comunidade cristã. Estoirou na altura uma polémica com o Vaticano. O então Primeiro-Ministro Ehud Olmert criticou o programa, sem prejuízo para a liberdade de expressão.

Alguém comentou assim o último artigo: "É que, na Suécia, a liberdade de expressão e publicação é direito sagrado. Não cabe a nenhuma autoridade criticar a publicação de um artigo de jornal. Da mesma forma que o Primeiro-Ministro da Dinamarca se recusou a pedir perdão pela publicação das caricaturas de Maomé, também as autoridades suecas têm o dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam. Simples assim!"

Na verdade, não é tão "simples assim". No episódio das caricaturas de Maomé na Dinamarca, depois de um boicote islâmico, das ameaças de morte e de bombardeio de negócios e embaixadas dinamarquesas, de centenas de manifestações que fizeram dezenas de mortes por esse mundo (islâmico) fora, o governo do país tentou limpar a cara pela afronta à dignidade muçulmana, anunciando que iria patrocinar a construção de uma enorme mesquita em Copenhaga, a capital do país.

Na Suécia, as autoridades do país, que reclamam que a liberdade de imprensa tem de ser absoluta, exatamente na altura do caso dos cartoons de Maomé, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia enviou uma carta especial a um líder religioso do Iémen (um país islâmico), pedindo desculpas pela publicação das ofensivas caricaturas ao profeta. Talvez tenha havido alguma brecha no "dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam"?

Ou seja, existe do lado sueco uma clara dualidade de critérios. Sejamos francos, porquê esta dualidade de critérios? Os suecos – representados pelos seus media e a sua classe política – sabem que não precisam de ter medo dos Judeus (apesar do eterno mito de que os Judeus controlam todo o planeta, desde os media ao comércio). Não precisam de temer que os Judeus bombardeiem as suas embaixadas. Que estoirem os seus hotéis, restaurantes e sistemas de transporte. Que os seus aviões sejam desviados e sejam derrubados os seus arranha-céus. Que os seus turistas e jornalistas em Israel sejam raptados e assassinados. Tudo como represália de algum caso de anti-semitismo que aconteça no seu país. O medo, esse, eles têm-no dos muçulmanos. E o medo é uma força muito poderosa.

Como disse um comediante norueguês, depois de queimar ao vivo algumas páginas do Antigo Testamento: "Eu só não queimei o Corão porque quero sobreviver mais do que uma semana". É de mau gosto, mas talvez valesse a pena pensar nas palavras do artista...

PS – Alguns dias depois da publicação da notícia, o próprio editor do jornal disse que a peça não apresentava qualquer fonte credível. Ainda assim, disse haveria razão para Israel investigar as "suspeitas". Benny Dagan, o embaixador israelita em Estocolmo, respondeu: "Tenho uma sugestão para si. Porque você não investiga porque a Mossad e os Judeus estiveram por detrás do atentado às Torres Gémeas? Porque não investigamos porque os Judeus estão a espalhar SIDA nos países árabes? Porque não investigamos porque os Judeus mataram crianças cristãs para fazer matzot (pão ázimo) na Páscoa?".

publicado por Boaz às 00:01
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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Libelos de sangue e conspirações

Na Idade Média, durante a epidemia da Peste Negra na Europa, em muitos lugares do continente, os Judeus foram acusados de envenenar os poços. Na altura pensava-se que a doença era transmitida pela água, quando na verdade era através das pulgas dos ratos. A cada acusação, em cada local, as autoridades civis e religiosas cristãs prendiam um certo número de Judeus que eram mortos. Nos episódios mais “misericordiosos”, perante a ameaça da morte, os detidos tinham a opção da conversão à fé cristã.


Pintura que retrata o martírio de Simão de Trento, 1475 |
Capa de uma edição em espanhol de Os Protocolos dos Sábios de Sião
(a capa retrata que os Judeus controlam o dinheiro, a Igreja, a Maçonaria, o Comunismo e... o Nazismo) |
Embate do 2º avião no World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, outra "obra da Mossad".

Também na época medieval surgiram acusações de assassínios rituais judaicos. Neles, inocentes criancinhas cristãs eram degoladas e o seu sangue aproveitado para fazer a matzá, o pão ázimo de Pessach, a Páscoa Judaica. Um dos casos mais famosos foi o de Simão de Trento, que seria depois canonizado. Acusações deste teor propagaram-se por toda a Europa ao longo dos séculos, incluindo no século XX, com o famoso caso Beilis, em 1911, na Rússia Czarista. A acusação dos assassínios rituais está tão enraizada na sociedade russa que ainda há poucos anos, o próprio patriarca da Igreja Ortodoxa Russa fez referências e esses libelos de sangue, acreditando fielmente na veracidade das acusações.

Ainda hoje, é possível encontrar abundante literatura que defende histórias deste teor em muitos países árabes, além de numerosos filmes e séries de televisão onde os mitos são encenados. Além destas, a fantasia do plano judaico para dominar o Mundo – que atingiu o seu apogeu na obra Os Protocolos dos Sábios de Sião – continuam a ter aceitação em muitas sociedades, da populaça árabe a alguns intelectuais europeus. A Internet, obviamente possibilitou a dispersão global deste tipo de delírio, havendo milhares de sites e blogs sobre o assunto, ligados desde a canalha neo-nazi europeia e americana, até aos islamo-fascistas. Lojas online vendem CDs e livros sobre o assunto.

Em 2001, após os ataques do 11 de Setembro, depressa apareceram teorias da conspiração que ligavam a Mossad (os Serviços Secretos israelitas) ao planeamento e realização do ataque terrorista. De nada valeram os vídeos divulgados por Osama bin Laden e seus compadres a vangloriar-se pela sua estrondosa “vitória contra o Satã americano”. Ainda hoje, qualquer sondagem num país árabe sobre a autoria dos ataques dará como resposta vencedora a Mossad ou uma aliança desta com a sua congénere americana, a CIA. Bin Laden, esse é o herói mais popular dos mesmos questionados.

Esta semana, na Suécia, o jornal sensacionalista Aftonbladet, um dos mais vendidos do país, publicou um artigo onde acusava Israel de raptar palestinianos e os matar a fim de traficar os seus órgãos. Alegadas testemunhas contaram histórias de familiares que após alguns dias desaparecidos, reapareceram mortos e com marcas de lhes terem sido retirados órgãos. Oportunamente, a história era relacionada com a recente prisão de um judeu americano acusado de traficar órgãos a partir de Israel (pagava 10 mil dólares a um dador em Israel e vendia-os por um valor muito mais alto nos EUA).

Escandalizado por este novo libelo de sangue, o governo de Israel exigiu uma tomada de posição do governo sueco, "uma condenação formal e não um pedido de desculpas" pelas alegações publicadas pelo jornal. A resposta sueca foi peremptória: "não interferimos na liberdade de expressão". Ou seja, não interessa aquilo que o tal jornaleco escreveu, já que a liberdade de expressão e da imprensa é algo absoluto e ilimitado.

Face à posição sueca, começaram a ser tomadas algumas medidas. O ministro do Interior israelita, Eli Yishai, disse que atuaria no sentido de evitar que jornalistas do diário sueco recebessem permissões de trabalhar em Israel. Nem a propósito, logo no Domingo, dois jornalistas do mesmo Aftonbladet dirigiram-se ao Gabinete de Imprensa do Governo (GIG) em Jerusalém requerendo acreditação de imprensa. O diretor do GIG instruiu os seus empregados para atrasar o maior tempo possível previsto na lei – até 3 meses – para rever o pedido dos jornalistas suecos.

De acordo com o diretor do GIG, Danny Seaman, os tais jornalistas reagiram mal quando foram informados de que coisa iria demorar mais do que é costume. Os jornalistas receberem uma explicação da demora: há uma série de verificações a serem feitas, incluindo – disse em tom de piada – testes de sangue, para verificar os tipos de sangue dos repórteres e a sua elegibilidade para transplante de órgãos. Outros apelaram a um boicote a companhias suecas como a IKEA (que tem apenas uma mas bem sucedida loja em Israel) ou a Volvo. Esqueceram-se dos eletrodomésticos Electrolux, dos carros Saab, dos telemóveis Ericson, da farmacêutica AstraZeneca ou das roupas H&M.

Podem alegar que a reação israelita terá sido exagerada. Afinal, quantas barbaridades e mentiras são escritas diariamente nos jornais do mundo inteiro? Até admito que nós, Judeus, somos um pouco histéricos quando falam mal de nós. Porém, há que lembrar que as feridas causadas ao longo dos séculos por acusações como estas são muitas e bem profundas.

PS – Mais uma vez, depois do infeliz episódio do jogo de ténis da Taça Davis há poucos meses em Malmö, a Suécia escreve uma triste página na sua história recente. Sintomático de um futuro promissor...

publicado por Boaz às 20:35
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Domingo, 23 de Agosto de 2009

...Quem vier por bem

Quando abri o Clara Mente, há quase 5 anos (cinco anos!), não tinha ideia como iria correr esta pequena aventura pelo mundo dos blogues. Nem pensei que durasse tanto. A única propaganda que fiz do blog foi incluir o seu endereço no final dos meus e-mails, em tom de assinatura. O boca-a-ouvido fez o resto. Ao longo dos anos e dos artigos, fui ganhando alguns fãs.


A faixa original do Clara Mente.

Alguns anos passados, quando já havia deixado Portugal e o Clara Mente ter passado a ser quase exclusivamente sobre Israel e assuntos judaicos (ainda vou escrevendo um pouco de Portugal, nem que seja em termos de comparação com a minha realidade de outrora), o blog chegou a ser recomendado por duas vezes no portal de blogues do Sapo, o maior portal de Internet em Portugal. Na altura tive centenas de visitas inesperadas. É claro que a maior parte delas nunca mais voltaram. Afinal, tinham aqui entrado por engano, seguindo apenas o link no Sapo. Ainda assim, é possível que poucas tenham mesmo regressado...

Curioso em saber o que trazia os leitores desconhecidos até ao Clara Mente e de onde vinham, adicionei um pequeno componente na estrutura do blog que permite saber o país de cada pessoa que o visita. Não apenas detecta o país como também a cidade do visitante. De grandes cidades como São Paulo, Lisboa ou Londres, até lugares mais remotos como Chapecó (Santa Catarina, Brasil), Felgueiras (norte de Portugal) ou Sprinckange, no Luxemburgo. E, se chegou aqui através de uma busca em algum motor de busca, como o Google, o Sapo ou o UOL, consigo saber o que andou à procura.

Que mundo estranho!

Depois de analisar os dados que o tal componente me informa (só a mim), fico cada vez mais admirado com as coisas estranhas que as pessoas procuram na Internet. E ainda mais como é que elas chegam aqui procurando tais coisas!

Uma busca em temas judaicos e israelitas é absolutamente natural indicar o Clara Mente. Afinal, são esses os principais assuntos do blog. À cabeça das buscas nesta área estão as expressões "marrano", "blog marrano" e a angustiante pergunta "como saber se sou marrano?". O que não faltam são descendentes de anussim (conhecidos em português e espanhol pelo termo pejorativo "Marranos", que significa porco) a tentar descobrir as suas origens e como reencontrá-las. Chegaram ao artigo "Mais um (suposto) marrano". À procura de informação sobre o "hino de Israel", encontraram "Raízes portuguesas no hino de Israel". Até agora, básico.

A língua portuguesa e as suas diferenças entre os dois lados do Atlântico suscitam dúvidas. E toca a procurar no Google. A "diferença facto e fato", e o que é um "terno de portugual"? Quê? (Ah, só escreveram mal o nome atual da Lusitânia...) Os inquiridores saberão a resposta exata em "Facto é fato que é terno". A misteriosa expressão portuguesa "ora pois" intriga muitas mentes brasileiras e entram no blog por um artigo que eu espero que os esclareça, "Ora pois". Nem mais.

As coisas complicam-se quando alguém quer saber o que significa "tremor nas pernas" e encontram um artigo que nada tem a ver com tal sintoma de... alguma coisa. O mesmo se passa para quem padece de "dedos inchados e roxo", que encontra a história de uma queda por ter aleijado "O meu pé esquerdo". Começo a questionar-me seriamente sobre o método de busca do Google quando me deparo que alguém procurou "autocarro união do s´tão". Sim, de novo, assim mal escrito. E, estranhamente, um dos primeiros resultados é "Um autocarro para Moscovo" porque o artigo menciona autocarro, União Soviética e tem algures a palavra tão. Parece suficiente para ser encontrado.

A minúcia de quem quer achar uma agulha no palheiro que é a Internet é evidente em "estrutura e organizacão da polícia e seguranca publica na suéca e países escandinávos em 2009". Desculpe, deseja algo mais específico? Acho que não ficou muito informado sobre o assunto com o que escrevi em "Beleza escandinava", mas a verdade é que o indagador entrou por aí. Mais ainda em "blogs dos portugueses estudantes em roma de agosto de 2009". Sim, há gente interessada em encontrar algum estudante bloguista português que anda pela capital italiana. Não sou nem nunca fui estudante em Roma – ainda que a Cidade Eterna me fascine e gostasse de a visitar – e além disso passei o mês de Agosto de 2009 entre Alon Shevut e Jerusalém, tal como Julho, Junho, Maio, Abril...

Que há muita gente estranha no mundo, isso ninguém duvida. Que muita dessa gente estranha surfa na Internet também é sabido. O pior é constatar o que esta gente anda à procura. Exemplos: "como esvaziar a bagagem no perfect world ?" e "como preparar a mesa para uma sessao dos tov". Pois, eu também não entendi, mas foi isso mesmo que alguém procurou. No caso da bagagem, o Clara Mente aparece em primeiro lugar na lista dos resultados. No segundo, aparece em sexto. Houve ainda uma pesquisa por "oraçao para calar boca de falador". O anseio de uma alma desesperada por um milagre contra o tagarela encontrou o Clara Mente como o resultado mais promissor. Não perguntem como.

A minha curiosidade de saber quem aqui vem é genuína. Apesar de não ter muito feedback dos leitores, gosto de saber o que os traz por cá. A paixão – desde a infância – pela Geografia, leva-me a querer saber de que lugares deste nosso pequeno mundo chegam as pessoas que me vão lendo.

PS – Não se assustem os leitores que desejam o anonimato. O tal programinha que deteta de onde vêm e que buscas fazem, não permite saber quem são exatamente. E ainda menos lhes tira uma foto e a envia para a minha caixa de correio. Ainda.

publicado por Boaz às 20:30
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Domingo, 16 de Agosto de 2009

Chegou a vez do filho do chefe

Há poucas semanas, Yair, de 18 anos, o filho mais velho do Primeiro-ministro israelita Benyamin Netanyahu foi incorporado na Tzavá, o Exercito de Israel. Como todos os israelitas, também o filho do chefe de governo são obrigados a começar o serviço militar aos 18 anos. Os homens servem por três anos; as mulheres – sim, elas também – por dois anos. Tirando o facto do jovem Yair ser o único soldado do exército israelita com um guarda-costas, em tudo o resto ele será igual aos seus colegas de pelotão. No início terá de ultrapassar três semanas de treino militar básico. Como em todos os exércitos, começará de "soldado raso". A partir daí, poderá escolher o ramo das forças armadas que deseja integrar, de acordo com a classificação que adquiriu na altura da inspecção militar.


Soldado no porto de vigia no telhado da yeshiva de Hevron, Outubro de 2006.

A experiência militar é parte fundamental da vida em Israel e fonte de prestígio. As altas patentes militares usam as suas medalhas como credenciais para ascender na carreira política. Muitos políticos adquiriram fama no campo militar: Yitzhak Rabin tomou parte na conquista de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, Ariel Sharon liderou as tropas no Sinai na mesma guerra, Ehud Barak participou na operação antiterrorista de Entebbe, e o próprio Netanyahu foi membro de uma unidade de elite.

Ao contrário de Portugal, onde há já alguns anos a tropa é opcional, em Israel, poucos escapam à incorporação. À partida, todos os israelitas judeus são obrigados a cumprir o serviço militar. Dos não-judeus, apenas os Drusos e os Beduínos têm a mesma obrigação. Os Árabes israelitas – os Drusos e os Beduínos não são árabes – estão isentos de servir no Exército. No entanto alguns alistam-se de forma voluntária.

As mulheres cumprem um serviço militar mais curto que os homens e não integram unidades de combate, mas já podem ser piloto de aviões. A discussão mantém-se sobre o papel das mulheres na hierarquia e na realidade militar em Israel. Há anos uma jovem que tinha ganho o concurso de Miss Europa foi alistada como soldado. Obviamente foi notícia. Como comentou na altura o correspondente da SIC na sua reportagem: "Israel é o país onde a Miss Europa vai à tropa".

Apesar de obrigadas à incorporação, as mulheres podem optar por fazer aquilo a que se chama de "serviço nacional". A maioria das jovens judias religiosas escolhe esta opção, substituindo a tropa regular pela realização de trabalhos voluntários nas mais diversas áreas. Da assistência em hospitais, escolas ou lares de idosos até guias turísticos, trabalhos de arqueologia e proteção ambiental ou mesmo secretária dos serviços secretos, na maioria dos casos as jovens elegem funções relacionadas com a sua futura profissão. O “serviço nacional” é uma oportunidade preciosa de formação profissional e de pesquisa de mercado de trabalho.

Uma realidade recente são os refuseniks. Uns são “objectores de consciência”, os que por razões ideológicas são contra o uso de armas. Outros, mais problemáticos, são soldados que apesar de pertencerem ao exército, se recusam a cumprir ordens específicas como participar na evacuação de colonos (como aconteceu em Gaza), ou no extremo oposto, recusam-se a servir nos chamados Territórios Palestinianos.

Desde a fundação do Estado de Israel, os haredim ou judeus ultra-ortodoxos estão também isentos de ir à tropa, desde que estudem numa yeshiva. Porém, na última década foi fundada uma nova unidade de elite do exército, o Nahal Haredi, composta exclusivamente por soldados religiosos. Tirando a inexistência de mulheres nas suas bases e um maior tempo para rezar e estudar Torá, esta unidade segue as mesmas exigências do exército regular. Por ajudar a integrar os jovens na vida ativa pós-tropa, o Nahal Haredi passou a ser uma opção aceite para jovens de famílias ultra-ortodoxas normalmente hostis à entrada no serviço militar.

Para os judeus religiosos que não são ultra-ortodoxos, é também possível conciliar a experiência militar e os estudos judaicos, através do programa yeshivat hesder. Os jovens que escolhem este modo, estudam dois anos numa yeshiva, fazem pelo menos 18 meses de tropa e voltam mais um ano para a yeshiva. Algumas yeshivot têm já no seu currículo classes de preparação dos seus alunos para o exército, ensinando em especial os desafios de cumprir Shabbat durante a tropa.

Outra das particularidades de ser soldado em Israel é que, após a conclusão do longo serviço militar, todos os homens são considerados na reserva. Em Portugal, nos tempos idos do serviço militar obrigatório, "ficar na reserva" praticamente significava "livrar-se da tropa". Pelo contrário, em Israel a "reserva" obriga à prestação de um período de serviço militar extra, chamado miluim, que pode chegar a um mês por ano. Isto, até aos 40 anos. Num país com uma situação de segurança tão delicada "fazer miluim" é a oportunidade de melhorar o treino e atualizar as capacidades dos soldados após o final da tropa.

Existe o costume que os jovens recém saídos da Tzavá façam uma longa viagem pelo Mundo no ano seguinte ao final da tropa. Os destinos favoritos são o Oriente, com as praias de Goa e as trilhas de montanha do Nepal e de Caxemira, a Tailândia e o Cambodja pejadas de mochileiros israelitas. A América Latina, com o Brasil, a Patagónia, o Peru e a Colômbia são destinos cada vez mais populares.

Imigrado para Israel aos 30 anos, fiquei automaticamente isento de cumprir o serviço militar. Com essa idade, se me alistasse com voluntário, teria de fazer uns 6 meses de tropa. Tenho de confessar que, por um lado, me arrependi de não o ter feito. Além de ser uma experiência importante em termos de integração no país, um reconhecimento da contribuição dos militares para a existência de Israel, ainda me ajudaria imenso a desenvolver o meu hebraico.

Porém, tenho de recordar-me que, em 26 de Junho de 2007, imediatamente antes de tomar o autocarro na Batalha rumo ao aeroporto, para viajar como imigrante para Israel, na hora da despedida prometi à minha mãe que não iria à tropa. Cumpri a minha promessa.

publicado por Boaz às 01:19
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

O lado certo

A situação de segurança entre Israel e o Líbano nunca é muito garantida. Apesar da presença de mais de dez mil soldados das Nações Unidas com a missão de patrulhar a região fronteiriça e evitar as escaramuças, a conjuntura permanece tensa. Em especial para os habitantes da região.

Um dos casos mais bicudos é o da aldeia de Ghajar, situada nos montes Golan. Conquistada por Israel na Guerra dos Seis Dias, junto com a restante região dos Golan, os seus habitantes aceitaram ser cidadãos de Israel. A aldeia cresceu em direção ao norte durante a ocupação israelita do Sul do Líbano incorporando na sua área território libanês. Com a retirada do exército de Israel em 2000, as Nações Unidas determinaram que a fronteira entre os dois países passaria pelo meio da aldeia.


 Ghajar, vista do parque de Tel Dan no norte de Israel. 

Desde a retirada israelita, o local transformou-se num ponto de contrabando de artigos roubados em Israel e da entrada de mercadoria proibida, em especial drogas. Após a Segunda Guerra do Líbano, Israel manteve uma presença militar na área e construiu uma cerca em redor da parte norte da aldeia. Há poucos meses, o governo de Israel planeou a retirada da parte norte da aldeia, reconhecida como território libanês.

Face à retirada israelita, os habitantes locais temem as represálias do Hezbollah. Nas palavras do líder muçulmano da aldeia: “Nós não queríamos ser refugiados em Israel, por isso recebemos sobre nós a cidadania israelita com a Lei do Golan, e agora nós não estamos dispostos a ser refugiados no Líbano e ser massacrados pelo Hezbollah. A divisão da aldeia de Ghajar é uma pena de morte para nós, é o equivalente a sermos apanhados para ser mortos no meio da praça”. É sabido como a guerrilha terrorista libanesa trata os traidores, por isso, o mais provável é que pouco tempo após a retirada israelita e consequente divisão da aldeia, uma boa parte da população, ou pelo menos os homens, fossem massacrados.

Esta atitude de retaliação não é exclusiva do Hezbollah. Aquando do assalto do Hamas à Faixa de Gaza, em 2007, houve centenas de mortos em confrontos entre membros da Fatah e do Hamas. (Aliás, alguém ouviu falar disto nas notícias? Alguém viu protestos em frente às embaixadas da Palestina nessa Europa tão humanista?) Face à superioridade numérica e militar do Hamas, os militantes da Fatah – o movimento do presidente da Autoridade Palestiniana – correram para os postos de fronteira da Faixa, a fim de serem socorridos por Israel.

O que não deixa de ser uma tremenda ironia. Ainda esta semana, num congresso da organização, a Fatah declarou não aceitar a existência de Israel como um estado judaico; não desistir da questão do regresso dos refugiados palestinianos, a qual a realizar-se significaria o fim de Israel (ou não fosse essa a principal razão da insistência nessa questão).

Quando as coisas estão calmas, os Árabes tentam de tudo para destruir Israel e negar o seu direito a existir. Porém, quando a briga estala entre árabe e árabe, perante a morte certa às mãos dos seus irmãos palestinianos, não têm vergonha de buscar a providencial ajuda do grande inimigo sionista.

publicado por Boaz às 17:40
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Domingo, 2 de Agosto de 2009

Crónicas da crise III: E constrói Jerusalém

Três vezes ao dia, durante os serviços religiosos, os judeus rezam pela reconstrução de Jerusalém. É o desejo de retomar a antiga glória perdida da cidade, antes da destruição pelos Romanos. Vemos que, mesmo em tempo de crise, as bênçãos têm funcionado. Pelo menos aparentemente. Em Jerusalém, as obras de grande envergadura não param. A maior delas é a mal-fadada rakevet kalá, o "metro ligeiro de superfície". Há mais de três anos, vem esburacando a cidade de ponta a ponta, deixando o centro em estado caótico e, por toda a capital o trânsito à beira do impossível.

A polémica, megalómana, mas linda ponte de Santiago Calatrava para a passagem do tal "metro ligeiro" foi inaugurada há um ano. Ainda que se mantenham as dúvidas em relação ao final das obras e início do funcionamento da rakevet. Apesar de pronta, hoje serve apenas como novo local de fotos de turista e de passagem de peões e ciclistas num dos cruzamentos principais da Cidade Santa. O orçamento da obra já foi várias vezes multiplicado em relação ao valor inicialmente estimado. As derrapagens nas obras públicas não são só em Portugal...

Bendito és Tu, Eterno, que reconstrói Jerusalém.

Também fora dos cálculos – e dos carris – está a obra do comboio rápido Jerusalém-Tel Aviv. Destinada a aproximar as duas principais cidades do país e inverter assim a saída de habitantes e trabalhadores da capital em direção à costa, a obra enfrenta as dificuldades do terreno montanhoso, dos arrojos arquitetónicos necessários para vencer vários lanços de túneis e viadutos e a desconfiança dos ecologistas.

Ainda assim, mesmo em frente à Gare Central de Jerusalém, e ao lado de uma das bases da ponte de Calatrava, prossegue a escavação da futura estação de comboio. Para compensar a localização elevada da cidade e evitar que a linha de comboio tenha um declive demasiado acentuado para as altas velocidades a que pretende funcionar, a solução foi descer a localização da estação. Ou seja, será uma enorme obra subterrânea: a 80 metros de profundidade.

Outra das obras polémicas é a nova residência oficial do Primeiro-Ministro. É um monumental projeto de dezenas de milhões de dólares junto à Kiryat Hamemshala, a Cidade do Governo, o complexo dos novos edifícios governamentais construídos nos últimos anos em redor da Knesset, o Parlamento de Israel. Depois de tanta discussão pelos gastos excessivos na palacial obra para servir de domicílio oficial e local de trabalho do chefe de governo, o tamanho da casa vai ser reduzido.

Envolta em controvérsia está também um novo museu na capital, o Museu da Tolerância. Baseado no museu homónimo de Los Angeles, a sucursal de Jerusalém já promete discussão. Não tanto pelo audacioso projecto arquitectónico de Frank Gehry (autor do famoso Museu Guggenheim de Bilbau), mas mais pela localização da obra: sobre um antigo cemitério islâmico desativado. Para um museu destinado a promover a convivência dos povos, o facto de a sua construção implicar a remoção de campas de um dos povos envolvidos no conflito na região é, no mínimo, falta de tacto...

A poucos metros da projectada obra do Museu da Tolerância, avançam as obras do luxuoso Hotel Waldorf-Astoria e, do lado oposto do mesmo cruzamento, foi inaugurado há poucas semanas o exclusivo Hotel Mamilla. O turismo israelita, apesar da crise internacional, parece não ter sentido um retrocesso acentuado, pelo menos em Jerusalém.

Um dos mais eloquentes exemplos da transformação de Jerusalém – um autêntico renascimento das cinzas – é a reconstrução da antiga sinagoga de Rabbi Yehuda Ha'Hassid. Arrasada, junto com a quase totalidade do Bairro Judeu da Cidade Velha, pelo exército jordano na Guerra da Independência de Israel, foi apenas um monte de ruínas durante a ocupação jordana de Jerusalém Oriental, entre 1949 e 1967. Após a reunificação israelita da cidade em 1967, foi reconstruído um dos arcos da fachada. Ficou conhecida como Ha'Hurva, "a Ruína". Em 2005, foram iniciadas as obras de reconstrução seguindo o antigo aspeto da sinagoga. Situada junto à Yeshivat HaKotel, tenho seguido, dia-a-dia, a progressão da obra daquela que já foi a maior sinagoga do país.

Na cidade mais pobre de Israel – que é Jerusalém, acredite-se ou não – a construção de prédios de habitação de luxo não pára. Destinados a milionários judeus estrangeiros, urbanizações de alto nível avançam em praticamente todos os cantos da cidade. Porém, serão deixadas vazias na maior parte do ano, uma vez que os seus donos têm residência fixa em Nova York, Miami ou Londres. O apartamento de Jerusalém, por mais luxuoso que seja, será só para umas curtas semanas de férias, de vez em quando.

Um dos mais recentes espaços cobiçados pelos imobiliários é o Vale da Gazela, um espaço semi-abandonado próximo ao shopping Malcha, entre o estratégico cruzamento Pat e a via-rápida Begin. É o habitat de uma outrora numerosa manada de gazelas – daí o seu nome. Hoje só restam quatro animais, já que o bando tem sido sucessivamente dizimado por matilhas de cães selvagens ou atropelamentos fatais na via-rápida vizinha. Os ecologistas e parte da opinião pública querem preservar o espaço como área natural, um dos poucos grandes espaços ainda intactos no território da cidade. Os empreiteiros, obviamente, querem aproveitar a localização estratégica para erguer um novo bairro.

Alguns projetos polémicos têm sido erigidos em bairros de população maioritariamente árabe. Um deles é o tão falado Hotel Shepard, um edifício originalmente pertença do antigo mufti (líder religioso muçulmano) Amin al-Husseini, apoiante de Hitler e instigador das revoltas anti-judaicas na antiga Palestina Britânica que causaram a morte de centenas de judeus antes da independência. Há vários anos, o edifício foi adquirido por um milionário americano defensor da colonização judaica na Terra Santa e hoje pretende transformá-lo num novo condomínio judaico.

Ainda que as gruas de construção civil sejam uma visão comum em toda a cidade, os preços das casas não têm parado de aumentar. A solução para muitos jovens tem sido procurar casa nos arredores. A falta de habitação para as classes média e baixa é evidente e a solução para os menos abonados é deixar a capital. A cidade perdeu dezenas de milhar de habitantes na última década. Esta sangria de habitantes é agravada pela falta de empregos. Daí os planos anunciados para desenvolver o ramo da indústria farmacêutica e da alta-tecnologia na capital.

A bênção pela reconstrução de Jerusalém parece não ser correspondida pelas ações dos empreiteiros. Preocupados mais com a promoção do luxo para domicílio ocasional de forasteiro do que com a fixação dos que desejam fazer de Jerusalém o seu lar. A cidade vai apresentando uma cara nova – um verdadeiro lifting – mas é mais para estrangeiro ver.

publicado por Boaz às 20:09
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