Domingo, 29 de Novembro de 2009

Oinc oinc, eles andam aí

É oficial: a gripe A chegou a estes lados. Nada de alarmes. A pequena aguentou-se, apesar dos 40 graus de febre, a tosse, a fraqueza. Durante uma semana, a mãe e o pai revezaram-se para ficar com ela em casa. Na vizinhança soubemos de outros casos. Mais tarde ou mais cedo, chega a todos.

Tenho visto que as notícias são de alarme em Portugal. Escolas fechadas, campanhas de vacinação (e as grávidas que não aderem com receio que com elas se repitam os episódios da morte de fetos de outras grávidas que foram vacinadas). Até a equipa do Estrela da Amadora está "de baixa", com quase toda a equipa infetada.

Em Israel, depois da polémica inicial sobre como chamar à doença: “gripe A” não diz nada, “gripe mexicana” dava má publicidade ao país onde tudo começou e gripe suína tem uma conotação não-casher, decidiram-se mesmo pela "gripe dos porcos". Afinal, o vírus não precisa de ter certificado de cashrut... Hoje, mal se fala do assunto. Ainda assim, contam-se mais de 4000 casos e algumas dezenas de mortes. Nada de alarme. Aliás, para quê? Todos os anos, morre meio milhão de pessoas no mundo só com a gripe comum e ninguém puxa os cabelos por isso.

É preciso de ter medo de alguma coisa. Isso vende muitas notícias. Faz mover governos. E sustenta muitos negócios (quantos milhões de vacinas contra a gripe foram encomendadas à Roche, a empresa que tem a patente do Oseltamivir, o princípio ativo do famoso Tamiflu?). Eu não digo que andem interesses obscuros à solta. Há que confiar nos médicos, ainda que saibamos dos "prémios das farmacêuticas".

Acreditar que tudo não passa de uma grande conspiração é mais perigosos ainda. Um bom exemplo aconteceu com a vacinação contra a poliomielite. Em 2003, durante a campanha de vacinação para erradicação da poliomielite, surgiram rumores no norte da Nigéria que a vacina causava esterilidade nas raparigas. Os chefes tradicionais muçulmanos proibiram a campanha de vacinação, causando um aumento dramático dos casos de polio no país. Nos dez meses de suspensão da vacinação, a epidemia alastrou a toda a Nigéria e a 12 países vizinhos onde já havia sido declarada extinta. Hoje, as guerras no Sudão e a instabilidade na Costa do Marfim são os obstáculos contra a erradicação completa desta grave doença. Só este ano, foram detetados novos casos em 21 países. Tudo por causa de uma mentira sem fundamento.

No caso da gripe A, já andam por aí e-mails a circular, insinuando que é tudo um plano dos Estados Unidos (quem mais, se não o "Grande Satã"?) para reduzir a população mundial em 2/3. É maquiavélico mesmo. Vídeos no YouTube mostram uma respeitosa senhora finlandesa (obviamente, já que a Finlândia é um país tão credível). A senhora é apresentada nos ameaçadores e-mails como ex-ministra da saúde do tal país nórdico.

Na verdade, a fulana não passa de uma louca que apenas foi secretária da saúde de uma província finlandesa. Essas são mesmo as únicas credenciais positivas da criatura. Agora, se soubermos que ela se diz manter contatos com extra-terrestres – reclama já ter sido sequestrada para o espaço algumas vezes e a sua vida já foi salva em três ocasiões pelos sujeitos verdes de olhos grandes – perde toda a credibilidade. Tirando para os crentes das teorias de Ovnis. Ainda reclama que uma boa parte da humanidade tem implantes cranianos para controlo da mente, implantados à nascença. Sinceramente, prefiro a teoria do filme "Matrix".

Não se assustem meus amigos, duas doses ou três diárias de um qualquer anti-inflamatório (iboprufeno ou paracetamol, por exemplo) durante alguns dias são suficientes para aliviar os sintomas. Fiquem em casa durante uma semana. Evitem espaços com muita gente (não só pela gripe, mas também pelos carteiristas, os mendigos e os mercadores de "promoções imbatíveis").

Enquanto isso, ponham a leitura em dia. Bebam muita água e descansem. Depois voltem à rotina e não se ralem, que até o Inverno acabar ainda muito pingo vai cair dos vossos narizes. E para o ano há mais.

publicado por Boaz às 18:05
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Domingo, 22 de Novembro de 2009

Memória dos avós

Recentemente lembrei-me dos meus avós maternos. Por acaso – se realmente existir algo na vida como "um acaso". (Os tempos de viagem de casa para a yeshiva são férteis em pensamentos. Entre alguma atenção às 400 músicas que guardo no leitor de mp3 e umas olhadelas à paisagem tantas vezes passada e repassada, cogitações várias passam pela minha cabeça.)

Alguns anos após a morte dos meus avós maternos – primeiro o avô e poucos meses depois a avó – recordo a sua vida simples e melancólica. Eram um oásis da vida "à moda antiga" numa sociedade moderna e em rápida mudança. Uma amostra de um Portugal desaparecido ou em vias de extinção. Era uma vida marcada pelas estações do ano, dominada pelo cuidado da pequena fazenda, tratada apenas à força de braços. O avô não tinha tractor.


Os avós de alguém.
Casal de judeus camponeses pobres, região de Dubromil, hoje Ucrânia.
Feita por um fotógrafo ambulante, anos 1920.

A vinha – que ocupava metade da fazenda – era o local de reunião das filhas e netos uma vez por ano. A época das vindimas era a altura mais animada na casa dos avós. De balde e tesoura da poda na mão, todos se debruçavam junto às cepas, procurando pelos belos cachos de uvas. Tudo era levado para a velha adega, ao lado da casa. O avô fazia o próprio vinho. A avó aproveitava alguns cachos que secava no sótão da cozinha, para fazer passas.

Nos cantos da vinha havia algumas árvores de fruto que produziam pouco: macieiras, pessegueiros, uma pereira, um pero-sousa. A ameixieira ao lado da coelheira era a única que se carregava de fruta. Na parte de baixo da fazenda, separada da casa e da vinha pela estrada alcatroada, ficava a horta, irrigada com a água do poço cavado pelo próprio avô ou tirada do pequeno ribeiro que limitava o fundo da fazenda e que por vezes secava no auge do Verão. Ao lado do poço, a gigante figueira era o tesouro de toda a herdade. Os deliciosos figos pingo-de-mel eram muito cobiçados. Sem uma escada para alcançar o topo da árvore, os pardais ficavam com a maior parte.

No quintal ao lado da cozinha viviam algumas galinhas. Em volta, as coelheiras, dois quintais dos porcos e o curral das cabras onde quase todos os anos nascia mais um ou dois cabritos. Uma pequena gaiola abrigava uma pacífica família de rolas – pelas quais dei a alcunha da avó: "a avó cu-cu-ru". Era com desenvoltura que a avó matava uma galinha de vez em quando. Alimentadas a milho e couves da horta, as galinhas da avó acabavam numa canja sem igual. Com os anos, a prática "degoladora" da avó foi-se perdendo. Um dos sinais da decadência foi um galo jazendo degolado na bacia que, ao levar com a água a ferver para ser depenado, despertou e correu pelo quintal até chocar com a parede mais próxima.

Os rituais da vida no campo repetiam-se ao sabor das estações. Durante alguns anos, todos os anos, realizava-se a matança do porco. Nunca assisti a esse espetáculo macabro, mas lembro-me de ver depois o animal já estripado, pendurado num gancho no tecto da adega. A carne era guardada numa arca cheia de sal, lembrança das eras anteriores à invenção do congelador. Com uma parte do sangue, alguma carne e gordura, arroz e algumas especiarias, a avó fazia um panelão de morcelas, que eram depois defumadas na larga chaminé da lareira da cozinha.

Uma vez por semana, nas tardes de Sábado, a avó ocupava-se do ritual de fazer o pão. Enchia o tradicional forno da cozinha com ramos da videira aproveitados depois da poda da vinha. Batia à mão vários quilos de farinha na velha e brilhante bacia de barro, a "amassadeira". Apesar do enorme esforço, a avó era desconfiada da batedeira elétrica. Tinha razão, o pão dela não era cheio de buracos como o pão industrial. Uma pequena porção de massa era guardada para a fornada da semana seguinte. Numa taça, coberto com azeite e sal, o "crescente" era o fermento natural que dava o sabor especial ao pão da avó.

Ao Domingo, a caminho da missa, a avó passava por nossa casa, situada ao lado da igreja para deixar um pão cozido na véspera. Transportado no grande cesto de pano azul, onde a avó levava as compras da mercearia e às vezes trazia surpresas para mostrar aos netos. Como o pequeno ouriço-cacheiro encontrado na horta e que, depois de mostrado, foi levado de volta para a sua toca.

Não havia televisão em casa dos avós. Excepto uma semana, quando a avó partiu uma perna e a minha mãe decidiu levar um pequeno televisor a preto-e-branco que tínhamos em casa para lhe animar os dias em que tinha de estar imóvel na cama. Durante aquela semana, a avó deliciou-se com as tramas e paixões das novelas brasileiras – era a época do Roque Santeiro –, até o avô reclamar pelo barulho constante em casa. O rádio era o único contacto com as comunicações. Durante a semana ao final da tarde, com uma fidelidade absoluta, a avó sentava-se a escutar a reza do terço. Enquanto descascava uma tigela cheia de ervilhas ou favas para o jantar, ou costurava as meias do avô. O avô era menos dado a rezas e sempre criticava o padre da aldeia e o seu carro novo.

As suas companhias eram os gatos, ariscos para os de fora e todos com nomes estranhos escolhidos pelo sentido de humor peculiar do avô: as gatas Espilrina e Lina e o gato Zé foram alguns dos últimos bichanos a partilhar o seu colo e a lareira. Era tal a dedicação aos animais, à casa e à fazenda, que os avós eram incapazes de abandonar por mais de um dia a vida no campo. O avô era ainda mais "agarrado" à rotina do quotidiano que a avó. Por isso, quando os dois filhos emigrados no Canadá lhes ofereceram uma viagem ao seu país adotivo para conhecerem os netos, o avô decidiu ficar a cuidar dos animais e da horta. Pelo contrário, sem problemas de consciência, a avó largou a casinha e a vidinha sossegada e aproveitou a viagem – a única vez que saiu de Portugal.

Quase não tenho fotos dos meus avós. Talvez por isso, a minha foto de infância favorita seja aquela em que estou, com menos de três anos, ao colo do avô, tirada numa tarde de Verão durante um piquenique que fizemos na Praia das Paredes, perto da Batalha. A preciosa foto era também uma das favoritas da minha mãe. Levava-a sempre na carteira. Até ao dia em que foi assaltada, à saída da missa, em Fátima. Passados alguns meses, os despojos da carteira foram encontrados na beira de uma auto-estrada, largados pelos ladrões. Porém, a ação dos elementos não poupou a foto. Até que, anos mais tarde, em conversa com uma tia sobre o piquenique em que fora tirada, há mais de 20 anos, lembrou-se que ela própria tinha uma cópia. Hoje tenho uma reprodução grande da foto ao colo do avô, que há meses ando a prometer a mim mesmo pendurar no quarto da minha filha, assim que lhe arranjar uma moldura decente.

Da última vez que estive em Portugal visitei o seu túmulo, no cemitério da aldeia onde viviam e onde a minha mãe ainda vive. Comovi-me ao olhar as fotos que quase já esquecera, anos depois do seu desaparecimento, na pequena laje da cabeceira da sepultura. O avô morreu há oito anos, nesta semana. Talvez seja este o "acaso" que me fez, subitamente, lembrar-me dele. Talvez este seja uma espécie de kaddish.*

É curioso que hoje, graças às inúmeras experiências na vida campestre que partilhei com eles, entendo tantas expressões agrícolas descritas pelo Talmude. Ao contrário dos meus colegas de yeshiva, meninos da cidade, que não fazem ideia do que seja mondar, empar ou joeirar. A memória e as histórias dos avós passarão de geração em geração, como as fotos supostamente perdidas que são reencontradas.

* Kaddish é a oração judaica pelos falecidos, a qual curiosamente, não fala de morte.

publicado por Boaz às 08:00
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Domingo, 15 de Novembro de 2009

Degraus de uma longa escada

Por via do blog e de um dos assuntos que trata: a conversão ao Judaísmo, muita gente me contacta pedindo informações sobre esse tema. Aqui fica uma lista dos passos do processo, com a explicação de cada um deles. Não é uma receita, nem um kit de montagem, mas talvez dê algumas dicas a quem procura assistência neste caminho às vezes tão complicado.


Jimmy e Pamela Harris são parte de um novo fenómeno americano:
negros convertidos ao Judaísmo.

0 – Porquê?
É o passo "0", porque antes de partir para o primeiro degrau, há que ter a mínima consciência do que implica uma conversão ao Judaísmo. As razões que levam cada pessoa a enveredar por este caminho variam e são pessoais. Do gosto pelo humor judaico (Porque não? É interessante poder contar piadas em nome próprio, por exemplo), reunião com as raízes familiares, busca espiritual, etc.

Na maior parte dos casos, são pouco mais que irrelevantes para o sucesso da empreitada. Como ouvi uma vez o meu rabino dizer: "Não me interessam as razões das pessoas. Só me interessa que sejam honestas". É apenas o ponto de partida.

1 – Contactar um rabino.
Obviamente, recomendo um rabino ortodoxo. As conversões das linhas reformista e conservadora não são reconhecidas pela linha ortodoxa. Apesar de as conversões não-ortodoxas darem o direito a emigrar para Israel, levantam problemas para quem desejar casar em Israel, pois apenas a linha ortodoxa é reconhecida para efeitos de casamento. Os rabinos ultra-ortodoxos (como os da linha Chabad) normalmente são mais hostis ao assunto da conversão, mas nem sempre.

O Judaísmo ortodoxo moderno é mais tolerante neste campo. As comunidades judaicas sírias (Nova Iorque e México, por exemplo) são completamente avessas ao assunto das conversões, considerando inválidas as conversões realizadas para efeito de casamento, por exemplo.

2 – Estudo de Judaísmo.
Depois de conseguir contactar com um rabino que aceite tratar do assunto da conversão, o candidato deve passar a estudar com ele. A maioria – se não todas – as comunidades têm classes de conversão. Normalmente, os rabinos não cobram qualquer quantia pelas aulas de conversão. Ensinar faz parte das funções normais do rabino. Podem ser cobradas despesas com fotocópias ou livros de estudo mas mais do que isso será, a meu ver, abusivo.

Além do estudo em classes, é importante estudar sozinho. Hoje há muita literatura sobre o assunto, seja em inglês como em português. A Internet também é uma ferramenta preciosa, mas a ser usada com cuidado. Nem todas as fontes são confiáveis.

3 – Contacto com a comunidade judaica.
Durante o período de estudo, que pode estender-se de alguns meses a vários anos, é muito importante ir mantendo um contacto com a comunidade, a par da frequência das aulas de conversão. Conhecer o ciclo anual judaico, como o Shabbat e as festas (Pessach, Shavuot, Rosh Hashaná, Yom Kippur, Succot, Chanuka, Purim) só se consegue com um contacto com a comunidade. Além de ser uma experiência preciosa, atesta o interesse do candidato no Judaísmo. Também ajuda a ter uma melhor relação com o rabino.

4 – Recomendação a um Bet Din (Tribunal Rabínico).
Dependendo do progresso do candidato na prática do estudo e da sua prática das tradições judaicas, o rabino fará uma recomendação a um Tribunal Rabínico. A maior parte dos países não têm Bet Din. Isso implica contactar com um Tribunal Rabínico noutro país. A melhor opção será Israel.

A falta de Bet Din pode implicar que a pessoa, pura e simplesmente, não possa terminar o processo no seu próprio país sem integrar um ulpan (curso) de conversão em Israel. É o que se passa na maioria dos casos de Portugal. Normalmente, o Tribunal Rabínico não facilita os processos de pessoas vindas de comunidades com poucas estruturas judaicas (como o caso de Portugal). Pode acontecer o Bet Din impor como condição a permanência em Israel (foi o meu caso).

5 – Reunião no Bet Din.
É um procedimento relativamente simples, apesar de ser o mais ansiado. Afinal, esta é a “grande prova”. Com as devidas diferenças, quem já passou um exame oral na escola pode ter ideia do tipo de acontecimento que é uma reunião de um Tribunal Rabínico. Três juízes rabínicos fazem várias perguntas ao candidato. Primeiro de apresentação, para saber a origem, como chegou ao Judaísmo, quanto tempo estudou, qual a prática que o candidato tem, etc.

Normalmente, o candidato vai acompanhado de alguém, seja o seu próprio rabino ou um professor do ulpan de conversão, ou alguém que conhece bem o candidato. São pedidas cartas de recomendação, do rabino que acompanhou o processo, da família adoptiva, de professores de yeshiva ou do ulpan, etc. São feitas várias perguntas sobre o Judaísmo: bênçãos sobre mitzvot (mandamentos judaicos) e alimentos, aspectos e leis das festas judaicas, etc.

É comum perguntarem sobre as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo, para atestar a segurança das crenças do candidato à conversão, já que na maioria provêm de um ambiente cristão.

6 – Aprovação pelo Bet Din.
No final da reunião, que normalmente não dura mais de uma hora, no caso de o candidato ser aprovado como novo membro do Povo de Israel, o converso tem de enunciar a oração de Shemá Israel. É a profissão de fé judaica, na qual declara a fé no Deus Único e a aceitação da Torá e das mitzvot.

Nesta altura, o converso é obrigado ao cumprimento de todas as mitzvot. Apenas está excluído temporariamente de contar para um minyan – o número mínimo de 10 homens necessário para as cerimónias públicas judaicas.

7 – Brit Milá ou Circuncisão (só para homens).
Esta que é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo é uma das fases cruciais do processo. Quem estuda o fenómeno da conversão ao Judaísmo explica que a enorme predominância de mulheres em relação aos homens como candidatos à conversão, se deve à obrigação da circuncisão. Nem todos os homens estão dispostos a passar por esta operação.

No caso dos adultos, a operação é realizada num hospital, mas sempre por um mohel, um homem formado especialmente na realização da circuncisão de acordo com a lei judaica. Se o candidato já é circuncidado, é feita uma revisão por um rabino, para saber se está de acordo com a Halachá. Pode ter se ser realizada uma nova operação de correção, mas na maioria dos casos é apenas realizada uma pequena cerimónia em que é retirada uma gota de sangue, simbolizando que a circuncisão foi feita de acordo com a lei judaica.

8 – Tevilá ou Banho ritual
A Tevilá ou banho ritual consiste na imersão num mikve, que é um tanque de águas especial, construído de acordo com regras específicas e que se destina à purificação ritual. Para que a imersão seja completa, não pode existir qualquer barreira entre o corpo da pessoa e a água, por isso é a pessoa entra completamente nua na água.

A imersão é verificada por três rabinos (que são como um novo Bet Din). Estes, porém, não vêm a pessoa nua, já que apenas entram na sala de imersão quando a pessoa já está dentro da água. No caso das mulheres que passam pela tevilá, é uma mulher quem verifica que a imersão foi integral e apta. Neste caso os três juízes encontram-se num local onde não vêm a mulher dentro da água. Tudo é feito com discrição. No caso de o candidato tiver de passar pela circuncisão, a ferida da operação terá de curar completamente antes de poder ir ao mikve, o que pode demorar cerca de um mês.

A partir da imersão, a pessoa pertence oficialmente ao Povo Judeu, em todos os assuntos. As únicas limitações são a proibição de uma mulher convertida se casar com um cohen, um membro da antiga tribo sacerdotal judaica.

Todas estas fases, cada uma com as suas complicações, apenas pretendem garantir que a pessoa está realmente comprometida com o Judaísmo. Afinal, o Judaísmo não é uma religião missionária. Não procura converter os demais, nem impor-lhes a Torá, nem considera os não-judeus como "infiéis contra os quais há que travar uma guerra santa" ou "condenados ao fogo do Inferno".

Quaisquer que sejam as motivações para a conversão, é essencial que todos os que entram no Povo de Israel o fazem com fé clara e consciência da responsabilidade de cumprimento da Torá.

publicado por Boaz às 00:15
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O Grande Canal

Diz-se em Portugal: “Não há fome que não dê em fartura”. Em Israel, a braços com uma grave situação de seca há vários anos, teve nos últimos dias fortes chuvas. Algumas cidades ficaram alagadas na região central, próxima de Tel Aviv. Apesar de abundantes – ou melhor, demasiadas para tão curto espaço de tempo – estas chuvadas pouco ajudam na situação de carência de água no país.

O país tem poucas fontes de água doce. A maior é o Lago Kineret, ou Mar da Galileia, abastecido pelo rio Jordão, que nasce no Líbano. As outras são os dois aquíferos principais: o Ocidental, na planície costeira, e o das montanhas, na região de Jerusalém. Porém, todas estas fontes dependem da chuva, e essa tem sido escassa na última década.


Nahal Keziv, um pequeno ribeiro da Galileia, Março de 2007.

Há anos que se idealizam planos para resolver a questão da falta de água. No início do século XXI, a solução estava na construção de várias centrais de dessalinização da água do mar. Duas centrais foram construídas, mas a sua capacidade é insuficiente para compensar a crescente procura de água e a decrescente oferta das fontes existentes, já de si escassas. Planos saíram das gavetas dos ministérios e os estudos fizeram-se. No ano 2000, o Inverno foi generoso e voltou-se a arquivar o plano de dessalinização em larga escala. A seca regressou nos anos seguintes e de novo se voltou a falar nas centrais. Mais alguns estudos, mais alguns orçamentos, mas obras… nada. Em 2004, a chuva foi de novo abundante e o plano multimilionário foi novamente abandonado. Um tira e põe na gaveta ao sabor dos Invernos secos ou chuvosos. E o problema continuou.

Nas últimas semanas, o governo de Israel reabilitou uma ideia já antes apresentada para resolver a míngua do precioso líquido: importar água da Turquia. É um plano arriscado além de pouco eficiente. Em termos económicos é uma solução dispendiosa, implicando a construção de navios próprios para o transporte de água e das infra-estruturas para armazenar a água importada. Além de representar a dependência de um recurso estratégico como a água numa fonte estrangeira. E para piorar a questão, a relação com a Turquia, o principal aliado de Israel no Médio Oriente, já viu dias melhores.

Desde que os islamistas moderados assumiram o governo turco, a relação com Israel deteriorou-se. Após a “Operação Chumbo Fundido” em Gaza, em Janeiro último, algumas declarações do Primeiro-Ministro turco contra Israel foram consideradas ofensivas pelas autoridades e pelos cidadãos israelitas. Como reação, os turistas israelitas – uns dos principais clientes do turismo turco – escolheram outros destinos para as férias. Exatamente na mesma semana em que foi reabilitada a ideia da importação de água da Turquia, a polémica voltou a abalar as relações entre os dois países. Um canal de TV turco transmitiu uma série que retratava os soldados de Israel como assassinos de crianças árabes. De novo, os turistas israelitas se vingaram da Turquia e desmarcaram as férias nos resorts da Anatólia.

A questão da falta de água é uma questão de tal modo grave que se propõem as soluções mais ousadas. A mais impressionante de todas é a construção de um canal entre o Mediterrâneo e o Lago Kinneret. A água produzida por algumas centrais dessalinizadoras na costa mediterrânica seria canalizada para o Lago Kinneret. Isso significaria voltar a encher o lago, cujo nível de água foi reduzido a um nível alarmante. O excesso de água do Kinneret seria deixado fluir para o Rio Jordão, que sai do lago em direção ao sul, até ao Mar Morto. A abundância de água no Kinneret e no Jordão permitiria voltar a abastecer o Mar Morto que há décadas vê o seu nível decrescer, mais de um metro por ano.

Porém, para concretizar este plano megalómano – mas talvez o único que resolva a situação e que não implique a dependência nas fontes dos vizinhos de Israel – é preciso mais do que muitos milhões de dólares. Para começar, mais do que o livro de cheques em mão, é preciso muita vontade política. Nos grandes projetos nacionais realizados ou idealizados nas últimas décadas, o avança e recua têm sido a regra, não interessa que lado do espectro político manda nos destinos da nação: os sistemas de Metro Ligeiro de Tel Aviv e Jerusalém, o comboio rápido para Jerusalém e claro, as centrais de dessalinização de água.

De acordo com a tradição judaica, Deus criou a Terra de Israel sem fontes de água para que o Povo Judeu rezasse pedindo pela chuva. Para que soubesse que, independentemente do engenho humano e das decisões dos governos de carne e o osso, é o Governo Lá de Cima quem determina quanta água chega às torneiras israelitas.

publicado por Boaz às 15:35
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