Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

'Olho por olho' e um erro de visão

A Mahatma Gandhi é atribuída a frase: “’Um olho por um olho’ apenas fará com que todo o Mundo fique cego”. A base desta frase tornada famosa é o versículo “Olho por olho, dente por dente” (Levítico 24:20). É um dos versículos mais conhecidos e também mais mal entendidos de toda a Torá. Numerosos pensadores o citaram e acabaram por inverter o seu sentido.

Um dos primeiros foi Jesus. Comentando o ensinamento da Torá disse: "Ouvistes que foi dito ‘olho por olho e dente por dente’. Porém, eu vos digo, não resistam ao mau, mas se alguém te bater na face direita oferece-lhe também a outra". A máxima de “dar a outra face”, uma das mais famosas da Cristandade, derivou na verdade de um erro de interpretação daquela passagem da Torá.

O livro “O Cuzarí”, uma das obras clássicas do pensamento judaico, escrita no século XII pelo Rabino Yehuda Halevi, expõe a intenção daquela passagem da Torá. (O livro desenrola-se sob a forma de um diálogo entre o Cuzarí, rei dos Cazares, e um sábio judeu.) O rei interroga-se como puderam os sábios judeus interpretar de forma tão diferente à letra do texto, impondo uma compensação monetária em vez de respeitar a ordem explícita: “conforme o que ele fez, assim lhe será feito”.

O sábio que responde às questões do Rei explica que os versículos próximos revelam exatamente o significado de “um olho por um olho”. No versículo 18 está escrito: “E quem ferir um animal, o pagará, vida por vida.” E no versículo seguinte: “conforme o defeito que causar ao homem, assim será obrigado a pagar”.

Afinal, haveria algum sentido se a Torá nos ordenasse matar o animal de alguém que matou o nosso? É óbvio que não, até porque isso não iria reembolsar o prejuízo que sofremos. E o mesmo se aplica aos danos físicos. Se alguém ferir o braço de outra pessoa, não pediremos que a pessoa ferida cause o mesmo ferimento no braço daquele que a feriu. Isso não solucionaria o prejuízo causado, antes deixaria – numa interpretação à moda de Gandhi – toda a gente com braço aleijado. Regra igual se aplica ao versículo “vida por vida”, interpretados como uma compensação a ser dada ao dono do animal morto, semelhante ao valor deste animal. Se era um animal forte e apto para trabalhar ou coxo e doente. Cada um com o seu valor.

Se interpretarmos estas leis literalmente, acabaremos por contradizer o bom senso. Vejamos o caso do “olho por olho”. Se o agressor já for cego de um olho, enquanto a vítima possui dois olhos sãos, como poderíamos cegar o único olho que resta ao agressor, deixando-o completamente cego, enquanto a vítima continuaria a ver? Isto, se aplicássemos literalmente o versículo “conforme ele fez, assim lhe será feito”.

As interpretações literais destes versículos eram defendidas por correntes consideradas hereges pela tradição judaica, como os Saduceus e os Caraítas, estes últimos ainda hoje existentes. O espírito desta passagem não é o da vingança – que é o que parece à primeira vista – mas antes um conceito muito em voga nos nossos dias: o princípio da compensação monetária por danos, ou indemnização.

Antes das modernas leis de defesa do consumidor e dos pedidos de reparação por prejuízos, a Torá já prescrevia as regras de compensação e o princípio da responsabilidade. A ignorância, a superficialidade na análise e a descontextualização causaram uma série de mal-entendidos em relação à justiça enunciada na Torá. Dai que não espante que gente como o recém-falecido Saramago – não propriamente reconhecido como teólogo – a tenha definido como “Um manual de maus-costumes”.

publicado por Boaz às 14:40
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Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Shalom, bem-vindo a Portugal

Quando revelo que sou de Portugal, em conversas com algum israelita, a maioria declara não conhecer nada do país. Por vezes perguntam se é bonito, sem existe anti-semitismo e o que tem de interesse. Na verdade, apesar de todos os atrativos turísticos de Portugal, o país atrai uns insignificantes mil turistas israelitas por ano. Isso, num universo de quase dois milhões de israelitas que fazem férias no estrangeiro, anualmente. Porém, não é de estranhar a falta de turistas israelitas – ou judeus em geral – em Portugal. O país apresenta uma série de problemas difíceis de ultrapassar para qualquer turista judeu.


Sinagoga Shaarei Tikvá, em Lisboa. Uma jóia pouco conhecida.

Na minha recente viagem a Portugal, senti o menor dos problemas do turismo judaico no país: a inexistência de voos diretos entre Israel e Portugal. Porém, apesar da conveniência que seria ter um voo direto, não faltam aeroportos europeus como alternativas para escala entre os dois países. Se a escala for curta, até se aguenta. No passado, tanto a El Al como a TAP tiveram voos diretos entre Tel Aviv e Lisboa (esta última nos longínquos tempos da ligação Lisboa-Macau, que fazia escala em Tel Aviv). Porém, a escassez de turistas israelitas a escolherem fazer férias em Portugal e os poucos portugueses que visitam Israel, determinaram o fim da rota nas duas companhias.

Por comparação, em Espanha existem ligações diárias entre Barcelona e Madrid com Tel Aviv (mais do que uma por dia), e outras para algumas estâncias de veraneio da costa espanhola. O “país vizinho” atrai cerca de 200 mil turistas israelitas todos os anos. Ou seja, 200 vezes mais do que aqueles que visitam Portugal.

Mas, de novo, este é o menor dos problemas que um turista judeu enfrenta quando decide viajar para Portugal. Ainda que uma parte importante de israelitas e dos judeus em geral não sejam religiosos, muitos preocupam-se minimamente com a alimentação casher: a que segue o código de Kashrut, a lei alimentar judaica. Ora, num país tão voltado para o turismo e, alegadamente interessado em atrair o público judaico, em todo o país não existe sequer um único restaurante casher. Em Lisboa, a zona nobre dos hotéis, em redor do Marquês de Pombal, Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, com dezenas de unidades à escolha, fica a uma conveniente curta distância da sinagoga, mas não se encontra um único hotel casher.

Em termos de alimentação, pelo menos em Lisboa e Porto, existe em cada uma das cidades somente um supermercado com uma minúscula “secção de produtos kosher”, com artigos como sopas em pó, conservas, bolachas, compotas de fruta, duas ou três variedades de vinho casher português e espanhol de péssima qualidade e carne congelada a preços descaradamente inflacionados (a bem da verdade, não por culpa dos respetivos supermercados).

Isso não quer dizer que um visitante judeu em Portugal – ou qualquer um dos judeus residentes – que queira cumprir as intrincadas regras da alimentação de acordo com a Lei Judaica, se arrisca a morrer de fome. A abundância de frutas e peixe e o uso de algumas leniências nas leis de Kashrut, salvam qualquer um da carência alimentar.

Ultrapassadas as dificuldades de acesso ao país e a alimentação, resta o país em si. Portugal não apresenta monumentos judaicos de referência, como aqueles que se destacam na Europa Oriental ou mesmo em Espanha. Nenhum dos escassos vestígios da presença judaica em Portugal poderá rivalizar com locais como Cracóvia, Praga, Toledo ou Córdoba. Em Lisboa – caso raro entre as capitais da Europa – não existe sequer um museu judaico. Apesar da vontade expressa pela Comunidade Israelita de Lisboa e da autarquia, a abertura de um museu judaico há anos que não sai do papel.

As marcas da presença judaica em Portugal são raras e pouco significativas, se comparadas com outros mercados turísticos. Talvez o mais interessante para o turista judeu seja mesmo uma visita a Belmonte. E aí, nem sequer para conhecer o pequeno Museu Judaico ou a moderna sinagoga Beit Eliahu, mas antes para conhecer ao vivo a extraordinária comunidade judaica local e escutar as histórias dos cripto-judeus, entretanto regressados ao Judaísmo. A ausência de anti-semitismo em Portugal, em contraste com uma Europa onde essa praga regressa numa onda cada vez mais forte, pode até ser um dos pontos a favor para a escolha de Portugal como destino de férias para os turistas judeus.

Empresários turísticos de Portugal interessados em atrair o pujante mercado israelita declararam que pretendem destacar-se como um produto distinto de Espanha. Porém, para o conseguirem terão de resolver uma série de obstáculos. O mais simples dos quais será mesmo pôr aviões a voar entre Tel Aviv e Lisboa.

publicado por Boaz às 22:08
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