Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

O negócio da verdade ou a verdade do negócio

Apesar de descartada a outrora sonhada carreira de jornalista, tento de alguma maneira manter-me informado acerca do que se passa no Mundo, em especial pela via dos meios de comunicação social portuguesa e israelita. Quase diariamente consulto os sites de jornais portugueses. Como é natural, interesso-me de modo particular pela cobertura dos acontecimentos no Médio Oriente. No último ano da faculdade realizei o meu trabalho final do Curso de Comunicação Social, dedicado em parte à cobertura das notícias do Médio Oriente por dois diários portugueses. Os anos passam, os velhos erros continuam (e agravam-se). Aquilo que, há quase 10 anos parecia uma tendência de jornais populistas, alastrou hoje ao jornalismo tido como "de referência".

Os jornalistas profissionais são regidos por um Código Deontológico (CD), um conjunto de regras éticas formuladas pela própria classe jornalística para regular a sua atividade. A cada atropelo de alguma dessas regras por "forças externas", a defesa das regras supremas é categoricamente afirmada. Porém, quando a falha vem da própria classe jornalística, nem sempre a retificação é feita, apesar de uma das regras do CD – no caso de Portugal, mas o mesmo vale para os outros países –, ser "promover a pronta retificação das informações que se revelem inexactas ou falsas". Em pouquíssimos casos é dado um destaque à retificação idêntico àquele que merecera a notícia. (Uma retificação significa um admitir de erro na transmissão da verdade, e nenhum meio de comunicação social gosta de passar por mentiroso). Ou seja, serão também poucas as pessoas que conhecerão a retificação dos factos, mantendo-se como "verdade" pública o erro que fora inicialmente noticiado.


Os gritos de Huda Ghaliya, numa praia de Gaza. | Muhammad Al-Dura, o ícone.
Nuvens de Photoshop sobre Beirute | Os órgãos roubados, por Donald Boström.

No caso das notícias sobre o Médio Oriente, os últimos anos têm sido férteis em casos graves de atropelos às regras jornalísticas. Em geral, em desfavor de Israel. O mais famoso dos quais continua a ser a história de Muhammad Al-Dura, o menino palestiniano morto em 30 de Setembro de 2000, no segundo dia da Segunda Intifada. A sua morte foi filmada pelo repórter de câmara palestiniano Talal Abu Rahma ao serviço da TV France 2. A história foi transmitida ao Mundo pelo repórter Charles Enderlin, correspondente do canal em Israel, que não estivera no local das filmagens, comentando uma sequência editada de imagens com menos de um minuto (de um total de mais de 17 minutos de filmagem nunca transmitidos em público), dizendo que o menino tinha sido "alvo de tiros de uma posição militar israelita".

Sérias dúvidas sobre o caso Al-Dura surgiram nos dias seguintes. Porém, na opinião pública mundial, bombardeada pelas imagens do tiroteio, a culpa israelita estava já cristalizada. O caso de Huda Ghaliya e da sua agonia ao lado dos cadáveres dos seus familiares numa praia de Gaza é idêntico ao de Muhammad Al-Dura. A chamada "Batalha de Jenin" também continua a ter fama de massacre, ainda que se tenha provado que tenham morrido 52 palestinianos (a maioria deles armados) e não as centenas que foram noticiados. E por aí em diante. Nestes casos e noutros, nenhuma investigação seria considerada séria. No máximo, uma investigação que provasse a inocência, ou ao menos introduzisse a presunção da inocência do lado de Israel, seria vista como uma manifestação do "poder da propaganda sionista". E por isso, até hoje, Muhammad Al-Dura, Huda Ghaliya e Jenin continuam a ser poderosos e inquestionáveis ícones da causa palestiniana.

A Guerra do Líbano produziu mais alguns casos de fabricação de notícias contra Israel. O fotógrafo libanês Adnan Hajj, trabalhando para a agência Reuters, divulgou algumas fotos de Beirute durante os bombardeamentos israelitas, em Agosto de 2006. O fumo dos bombardeamentos, propositadamente manipulado digitalmente pelo fotógrafo, chegou às redações de todo o Mundo. Esta e outras tramas em redor da manipulação de fotos da guerra do Líbano foram descobertas por vários bloguistas americanos. A Reuters admitiu os erros e o fotógrafo foi dispensado. Mas isso não diminuiu o estrago mediático contra Israel.

Um dos casos recentes foi a notícia do tablóide sueco Aftonbladet, em Agosto de 2009, da autoria do jornalista freelancer Donald Boström alegando que, em 1992, o Exército de Israel recolheu órgãos de prisioneiros palestinianos. A notícia provocou uma crise diplomática entre a Suécia e Israel. O jornalista confessou mais tarde que não tinha quaisquer provas daquilo que escrevera e que apenas pretendia o assunto investigado e declarou que: "se é verdade ou não – Eu não tenho ideia. Não tenho qualquer pista". As próprias fontes mencionadas pelo jornalista revelaram depois não terem fornecido nenhuma das informações contidas no seu artigo. Ainda assim, com todas estas falhas, o artigo foi publicado e o editor do jornal manteve o apoio ao deplorável trabalho do jornalista.

As regras sagradas do jornalismo parecem ser constantemente quebradas quando o assunto é Israel. A falta de confirmação das fontes e o uso de expressões de opinião disfarçadas em verdades noticiosas são fenómenos repetidos. Outro dos mistérios da relação dos media com o conflito Israel-Palestinianos é a persistente ausência de factos de enorme valor noticioso que sejam desfavoráveis ao lado palestiniano. Por exemplo: o fenómeno da corrupção e do défice das contas da Autoridade Palestiniana (em 2005, as doações atingiram os 1,1 mil milhões de dólares e o défice chegou aos 800 milhões) não aparece nas páginas de economia dos jornais europeus, ainda que o bolso dos europeus seja o principal financiador da Autoridade Palestiniana.

As contradições na situação em Gaza também não parecem merecer a análise dos media ocidentais. Ao mesmo tempo que políticos e comentadores europeus comparam Gaza com um "campo de prisioneiros" (o último a usar a brilhante metáfora foi o novo PM inglês David Cameron), no território dominado pelo Hamas são inaugurados hotéis de cinco estrelas, uma piscina olímpica, resorts de praia, restaurantes de luxo e centros comerciais. Esta pujança de construção contrasta profundamente com a ideia expressa nos relatos do persistente bloqueio israelita à Faixa: causador da falta de materiais de construção, água, e outros produtos básicos. E mais estranho parece quando, os hotéis recém-inaugurados, os resorts e os restaurantes sejam frequentados pelos mesmos jornalistas estrangeiros, deputados do Parlamento Europeu e trabalhadores das ONGs de visita a Gaza que, entre umas braçadas na piscina, um banquete no restaurante Roots e uma sessão de compras nos shoppings e mercados fartos, relatam a "total miséria" do local e repetem a a já costumeira comparação com "um campo de prisioneiros".

E, se a situação é grave no que toca ao trabalho dos jornalistas, pior é com os comentários dos leitores nos sites de notícias. É de acreditar que a maioria das pessoas que lêem aqueles jornais até sejam gente decente, informada (e minimamente bem formada). É provável que muitos dos tais comentaristas de ocasião até saibam discutir com calma uma variada série de assuntos, com mais ou menos capacidades. E acima de tudo, o consigam fazer de uma forma tranquila. Porém, misteriosamente, tudo se transforma quando o assunto é Israel.

A cada ato de Israel, mesmo que nada tenha a ver com o conflito com os Palestinianos, seguem-se inacreditáveis e numerosas manifestações de raiva verbal. Expressões cheias de ódio, as eternas comparações grosseiras com o Holocausto. (José Saramago parece ter deixado uma numerosa horda de sucessores intelectuais). Uma das mais comuns é afirmar que "Hitler deveria ter terminado o trabalho". Será que as pessoas têm real consciência da dimensão do bizarro daquilo que se atrevem a expressar? Talvez a maioria nem sequer seja anti-semita – até acho que o termo está demasiado banalizado –, talvez estejam apenas tremendamente mal informadas sobre os assuntos: a situação do Médio Oriente e o Holocausto.

A par da incredulidade face à índole dos comentários, espanta-me que as mesmas regras de "justiça" e crítica dirigidas a Israel sejam totalmente alteradas quando se muda a geografia dos factos. Por exemplo, por ocasião da decisão recente de expulsar centenas de imigrantes ilegais de Israel, choveram os tais comentários indignados. A mesma indignação aconteceu na semana seguinte, quando a França e a Itália decidiram expulsar milhares de imigrantes ciganos romenos. Porém, desta vez, o conteúdo das opiniões foi bem mais civilizado. E até compreensivo.

Talvez ser anti-Israel seja uma atitude que simboliza a modernidade, o atual auge do progresso das ideias. Afinal, a causa palestiniana é "a Causa" entre a intelectualidade europeia e americana. Desta forma, quem se atreva a apartar-se da causa, arrisca-se a ser qualificado de antiquado, reaccionário, imperialista e outros apodos de mau crédito. Contudo, é interessante notar que, das mesmas vozes que não se inibem de acusar Israel, nunca se escutam criticas à violência entre os próprios Palestinianos. Como a que é exercida pelo Hamas sobre as mulheres, os opositores políticos e os cristãos em Gaza, ou a da própria Autoridade Palestiniana também em relação aos seus opositores, aos denunciantes da corrupção do regime ou aos "traidores informantes de Israel". O mediático "humanismo" dos pensadores só funciona num sentido. E fora outras centenas de valorosas causas mantidas na ignorância das massas e no silêncio dos "formadores de opinião".

Uma amiga jornalista, numa discussão recente sobre este assunto talvez tenha revelado a essência do enigma: "O jornalismo é uma profissão como qualquer outra, há bons e maus profissionais, cometem-se erros, injustiças... mas é um negócio como qualquer outro". Na esfera mediática parece compensar ser anti-Israel. O negócio floresce pela existência de polémicas. Israel atiça paixões como nenhum outro país do Mundo. A "Causa" vende bem. E talvez por isso, ainda mais em tempos de crise, se justifiquem tantos atropelos à transmissão da verdade.

E assim, parece cumprir-se uma cínica máxima atribuída (sem qualquer prova) a Joseph Goebbels, o sinistro mestre da propaganda nazi: "Uma mentira repetida milhares de vezes torna-se verdade". E segue solta esta verdade frouxa, sem ninguém que a pare.

publicado por Boaz às 13:36
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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