Sábado, 27 de Novembro de 2010

A Igreja e a borrachinha

Depois de anos a lutar contra a maré, as críticas, as manifestações de repúdio, os cartoons ofensivos – acrescentaria ainda a modernidade libertina e os esquerdistas anti-tudo-o-que-cheirar-a-velho –, o Papa resolveu dar o braço a torcer e permitir o uso do preservativo (camisinha, em português do Brasil). Porém, a permissão é apenas "em certos casos", para reduzir o risco de contaminação por HIV, o vírus da Sida (ou Aids). "Finalmente". "Um passo no bom caminho". "Já vem tarde", etc. Este é o tipo de reações ao volte-face papal. Numa instituição atacada por todos os lados, nada do que possa fazer, chega para melhorar os estragos já feitos.


Preservativo Papal, o polémico cartoon de António, 1993 | Bordel em Nairobi, Quénia.
O presidente sul-africano Jacob Zuma, com as três atuais esposas. Em Dezembro casará com a quarta.
Tem pelo menos 23 filhos de 11 mulheres diferentes. No país com maior número de seropositivos do planeta, o presidente além de polígamo é também famoso por ser promíscuo. Um exemplo para a nação.

Virou moda atacar o Cristianismo. Não há que negar os abusos. A pedofilia entre os sacerdotes católicos e respetivo encobrimento pela liderança da Igreja são factos graves. Porém, se alguém pensava o contrário, membros do clero pedófilos (e encobrimento dos casos pelas altas esferas da hierarquia) também existem no Islão, no Protestantismo, no Judaísmo ou no Hinduísmo. E poucos saberão o que se passa com os jovens monges nos recônditos mosteiros budistas. Experimente googlar sobre o tema – foi o que eu fiz – e saberá que, por detrás da reclusão e da modéstia monástica oriental, também há predadores da inocência infantil. Não é só na sombra da cruz que se escondem os depravados.

Abuso de poder do clero. Mas não existem pastores, imãs, rabinos, gurus e lamas que se aproveitam da sua posição para enriquecimento ilícito? E relações demasiados próximas entre o poder clerical e temporal em todos os países onde uma religião – seja ela qual for – seja a maioria, o que leva tantas vezes à corrupção daqueles que se acham e dizem incorruptíveis? Obviamente que o facto de haver outros que também pecam não desculpa os pecados de ninguém. Talvez os torne mais relativos. Menos exclusivos. Este rol de crimes, abusos, pecados e pecadilhos é em muitos casos público, criticado e condenado. E obviamente, condenável.

De toda a má fama que a Igreja ganhou com tantos escândalos, tornou-se alvo de todas as acusações. A cada discussão sobre o uso do preservativo e a SIDA, os dedos acusadores viram-se para o Vaticano. Uma das acusações é culpar o Vaticano/a Igreja Católica pela propagação da Sida, por via da proibição católica do uso do preservativo. Em primeiro lugar, este tipo de acusação é absurdamente cínico. À laia dos medievais (e em alguns casos ainda atuais) libelos de sangue anti-judaicos, este é nada menos que um libelo. Libelo de esperma, digamos. É certo que a Igreja é contra o uso das borrachinhas, mas apenas os católicos são supostos cumprir os decretos vaticanos. Usemos um pouco a lógica. Apenas os católicos são infetados com Sida? E se, caso exista algum não-católico infetado, a quem devem atirar-se então as culpas? Se não à Igreja, então a quem?

É pura desonestidade intelectual acusar a Igreja de responsabilidade na propagação da Sida. Em termos de comportamento sexual, a doutrina oficial católica – a qual aliás, coincide com a posição da Lei Judaica – é bastante clara: proibição do uso do preservativo e do sexo antes do casamento e a obrigação da fidelidade conjugal. Na África Subsariana – onde vivem 70% dos infetados com a doença a nível mundial – a promiscuidade sexual, a poligamia e o recurso à prostituição são práticas correntes. Máximas da moral católica como a abstinência sexual pré-matrimónio e a fidelidade depois dele são antagónicas com a profundamente machista cultura africana. Sejamos honestos, estas são as razões para a alarmante propagação da epidemia em África (e não só). E não qualquer norma anti-preservativo saída da Cúria Romana.

E não é apenas em África que o "ideal do macho-alfa africano" adoece, morre, contagia e mata com Sida. Nos EUA, os Afro-Americanos somam 47% do total da população seropositiva (infetada com o vírus HIV) e, mesmo após várias décadas de campanhas de prevenção da doença, são mais de metade dos novos casos de contágio da doença, apesar de os Afro-Americanos totalizarem apenas 12% da população do país. Entre as mulheres afro-americanas as estatísticas mostram que elas têm 19 vezes mais hipóteses de sofrerem da doença do que as mulheres americanas brancas. Dezanove vezes! Porém, é racismo fazer estas correlações. (Tal como é homofobia referir que a maioria dos infetados nos EUA são homossexuais, incluindo metade dos novos casos reportados anualmente.) Isto não quer dizer, obviamente, que a homossexualidade ou o ser africano implica automaticamente contágio com Sida. Somente que, alguns comportamentos prevalentes nestes grupos – mas não exclusivamente neles – podem explicar os maiores níveis de incidência da doença.

O Uganda foi, nas décadas de 1980 e 1990 o país com maior prevalência da epidemia. Hoje é tido como o único caso de sucesso de controlo da doença em África, sendo o único país africano a conseguir reduzir a sua taxa de infeção por HIV. É verdade que campanhas de informação sobre o uso do preservativo tiveram os seus resultados no estancar da doença. Porém, mesmo contrariando a cultura local prevalente, houve também uma promoção da abstinência sexual antes do casamento e da fidelidade. Tal como tem sido a doutrina católica neste assunto. E assim continua a ser, apesar da nova permissão – em certos casos – do uso da camisinha.

Contudo, num mundo em que "É proibido proibir" é um dos lemas vigentes; o auto-controle é sinónimo de fraqueza; a virgindade, a fidelidade e o casamento estão ultrapassados e uma pessoa moderna é aquela que experimenta de tudo, colocar travões nas vontades é digno de condenação. Daí a impopularidade da posição tradicional do Catolicismo nesta questão. Podem elogiar quanto quiserem o uso da camisinha na diminuição do risco de infeção de Sida ou outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas sem uma educação do compromisso e da responsabilidade pessoal e sexual, não virá da borracha a salvação.

publicado por Boaz às 22:05
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Sábado, 20 de Novembro de 2010

O regresso dos peregrinos

Israel está na moda. Esta afirmação pode parecer estranha, dadas as recorrentes notícias mostradas sobre o país, que lhe dão uma imagem em geral muito pouco atraente. Os terríveis cinco anos da Segunda Intifada fizeram afundar a imagem de Israel depois das boas (ou talvez sonhadoras) perspetivas criadas com os acordos de paz. A Guerra do Líbano em 2006 e a última guerra em Gaza no Inverno de 2008-2009 ainda estão na memória de muitos. E o episódio da flotilha turca em finais de Maio de 2010 incendiou mais uma vez a opinião pública contra Israel. Mas podemos generalizar?

Quando visitei Jerusalém em Maio de 2005, o turismo local ainda estava praticamente moribundo, depois do golpe da Intifada. No mercado árabe da Cidade Velha muitas lojas estavam encerradas. Na Ben Yehuda, uma rua pedonal de lojas de souvenirs e cafés no coração da Cidade Nova, viam-se poucos turistas. Tão poucos que as lojas ofereciam descontos aos “turistas corajosos”. Visitar Israel naquela época era manifestar nada menos que uma evidente declaração política. Essa foi a razão secreta para a minha viagem.


Rua do Bairro Latino da Cidade Velha de Jerusalém, próxima do Santo Sepulcro.
Quase deserta. Mas isto era em 2006.

A cidade de Belém, vizinha de Jerusalém e controlada pela Autoridade Palestiniana, onde me atrevi a entrar por algumas horas, era uma deprimente cidade-fantasma, de ruas poeirentas e hotéis desertos. Na altura, a presença de turistas era tão incomum que eu, junto com um grupo de ocidentais hospedados na velha Petra Hostel, fui entrevistado por um jornalista israelita da revista National Geographic Treveler, para uma reportagem sobre o regresso dos mochileiros às pousadas de Jerusalém.

Hoje, cinco anos, algumas guerras e muitos gritos anti-Israel depois, a realidade parece o oposto ao marasmo no turismo israelita vivido nos meados da década. Todos os dias, ao atravessar a Cidade Velha de Jerusalém pelo shuq, o mercado árabe, sou testemunha de uma verdadeira torrente de visitantes. Apesar da crise económica internacional e da persistente valorização da moeda israelita, o shekel, em relação ao dólar e o euro. A época alta do Verão e as Grandes Festas judaicas do início do Outono passaram, mas o fluxo de estrangeiros não parece abrandar.

A julgar pelo crescente número de turistas e as boas recomendações de várias cidades israelitas em meios de comunicação especializados em turismo, não se confirma em nada a má imagem do país na arena mundial. Tel Aviv foi recentemente classificada pelo famosíssimo guia “Lonely Planet” em terceiro lugar no Top 10 dos melhores lugares para visitar em 2011. “A cidade que nunca dorme” foi ainda votada como uma das 10 melhores cidades do Mundo para diversão, a par de lugares com muito “melhor fama”, como Berlim, Las Vegas, Ibiza ou Lisboa. Jerusalém também tem recebido várias recomendações de renome no panorama turístico internacional.

Os turistas israelitas, após alguns anos afastados da Cidade Santa devido à violência terrorista da Intifada, regressam aos mercados, aos cafés da Ben Yehuda, ao Muro das Lamentações (conhecido localmente como Kotel, “muro” em hebraico) e ao parque arqueológico da Cidade de David. Apesar de não haver escola em Israel que não organize passeios ao Kotel e de, durante o serviço militar muitos soldados realizarem visitas à Cidade Velha, é comum ser inquirido na rua por turistas israelitas sobre como chegar ao Muro.

A normalização das relações diplomáticas de Israel com alguns países muçulmanos, mesmo que seja abaladas a cada estalar do conflito com os Palestinianos, tem atraído um número cada vez maior de peregrinos islâmicos a Jerusalém. Depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita, Jerusalém é a terceira cidade santa do Islão. Parecem ser indianos, malaios ou paquistaneses – os meus conhecimentos de antropologia não são suficientes para os identificar. E nunca tive coragem para lhes perguntar a origem.

Grupos de nigerianos cristãos, em especial as mulheres com os seus trajes coloridos e penteados entrançados, enchem as lojas de souvenirs. Admirava-me como um país com tanta pobreza como a Nigéria conseguia fornecer tantos turistas a Israel. Até descobrir que o governo do país patrocina a peregrinação dos fiéis cristãos à Terra Santa, tal como faz com a peregrinação de muçulmanos a Meca. Além dos produtos típicos do Médio Oriente, os nigerianos têm uma misteriosa predilecção por mantas e malas de viagem.

De Itália, Espanha, Polónia, França e Alemanha, com as suas bem estabelecidas comunidades católicas encontram-se numerosos peregrinos em excursões diocesanas acompanhadas com os respetivos padres. Da Rússia, vêm-se grupos de fiéis, a grande maioria mulheres, com a cabeça coberta com lenços brancos em sinal de recato seguindo o sacerdote ortodoxo, com os seus trajes negros e cabelos atados num longo rabo-de-cavalo. Destes lugares, quase todos os turistas são gente que já atingiu a idade da reforma. O mesmo se passa com os grupos de protestantes americanos. Sinal do desinteresse geral dos jovens por assuntos religiosos, que por essa razão preferem paragens mais exóticas e de veraneio.

Entre os judeus americanos estabeleceu-se o costume de viajar para Israel por ocasião do bar mitzva dos seus filhos. A cerimónia realizada pelos meninos de 13 anos que marca a sua entrada na idade adulta do cumprimento dos mandamentos costumava ser, e em muitos casos ainda é, uma ocasião efusiva, de exageros quase carnavalescos. Em vez de gastarem uma fortuna numa festa praticamente vazia de significado, as famílias decidem fazer uma viagem à Terra Santa, realizando a cerimónia religiosa no Kotel, o Muro das Lamentações. Nos hotéis vizinhos da Cidade Velha enormes cartazes dão as boas-vindas aos jovens e suas famílias.

Outro dos grupos numerosos é o dos sul-americanos. Colombianos ou mexicanos (identifico-os pelo sotaque) e sobretudo evangélicos brasileiros enchem as ruas do shuq. A decisão da companhia aérea israelita El Al de abrir uma ligação aérea direta Tel Aviv-São Paulo tem sido um sucesso. Por um lado, o Brasil é um dos destinos de eleição dos mochileiros israelitas para viagem pós-serviço militar. Por outro, para milhões dos fervorosos evangélicos brasileiros, uma viagem à Terra Santa é o sonho de uma vida.

Aqui, a TAP poderia fazer um bom negócio. A companhia portuguesa já é a companhia aérea estrangeira que mais voa para o Brasil, com ligações entre Lisboa e nove cidades brasileiras (com outras quatro que podem entrar na lista em breve). A El Al voa apenas para São Paulo. Apenas com abertura de uma ligação aérea entre Lisboa e Tel Aviv, Lisboa poderia servir de ponte aérea entre Israel e o Brasil, aproveitando-se do crescente fluxo de evangélicos brasileiros para a Terra Santa e da popularidade do Brasil em Israel.

E no final das contas, Lisboa até poderia impor-se como um destino por si só e não apenas como um aeroporto de escala. É que, até para os portugueses, Israel também já começa a voltar aos roteiros turísticos. De acordo com as estatísticas, ainda que os números absolutos ainda sejam baixos, em termos percentuais Portugal foi mesmo o país que mais aumentou a remessa de turistas para Israel. E sejam muito bem-vindos.

publicado por Boaz às 20:25
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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