Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

De olhos na Diáspora

Depois de dois anos, terminámos o curso de preparação para shelichut, para irmos trabalhar em alguma kehilá (comunidade judaica) da Diáspora. No início do curso, as limitações do meu hebraico (que ainda persistem, embora cada vez menos) fizeram-me perder algum do conteúdo de algumas classes.

Nas primeiras semanas, muitas das aulas pretendiam dar-nos uma perspetiva da situação do Povo Judeu no Mundo. Perante a maior experiência e muito maiores conhecimentos de quase todos os meus companheiros de classe, apercebi-me do quanto ainda tinha de desenvolver as minhas aptidões. Porém, também percebi que, apesar das minhas limitações em alguns níveis, a minha capacidade de relacionamento com outras pessoas e diferentes culturas – a tal “cabeça aberta” que falta a muitos judeus religiosos israelitas – ajudavam a ultrapassar alguns desses obstáculos.


Emissário Chabad conversa com um jovem não-religioso.
O movimento Chabad é pioneiro nas iniciativas de aproximação dos 'afastados' às suas raízes judaicas.

Relatos dos diretores do curso, que viajam regularmente para acompanhar o trabalho nas várias congregações, assim como dos próprios emissários de visita a Israel, revelaram uma imagem quase catastrófica do Judaísmo da Diáspora. As altíssimas taxas de casamentos mistos em todos os países (exceto em dois ou três casos muito específicos), níveis de prática religiosa e conhecimentos de Judaísmo muito baixos, crise na identidade judaica entre os jovens e ocorrência de anti-semitismo. A cada semana, a carga de tragédias aumentava e com ela a sensação de total impotência para enfrentar a situação.

Aos poucos, porém, a frustração foi substituída pela consciência de que, apesar das enormes dificuldades no trabalho com as comunidades judaicas, existe muito por onde melhorar e qualquer pequeno progresso faz uma grande diferença. Apesar do desinteresse (ou pura ignorância) pelas tradições dos antepassados, das crescentes taxas de assimilação e abandono da vida judaica, os processos inversos também se verificam.

O renascimento da espiritualidade, o regresso às origens perante a perceção de que o "Mundo Ocidental" não dá todas as respostas nem preenche todos os vazios. Ainda que, por vezes, essa nova espiritualidade não se enquadre propriamente dentro das normas da ortodoxia. Como alguém muito pragmático descreveu o fenómeno: parece não existir nenhuma contradição em “estudar Cabalá numa Sexta à noite, em redor de um prato de camarão”.

Ao longo do curso fomos recebendo algumas propostas de destino de trabalho. Ansiosos por preencher as vagas e enviar o maior número de emissários da própria organização, antes que o lugar seja ocupado “pela concorrência”, recebemos também algumas propostas quase absurdas. A primeira foi para Lisboa, poucos meses após o início do curso. Tendo eu passado por Lisboa na minha caminhada em direção ao Judaísmo, e conhecendo ainda um pouco da kehilá, depressa entendi a proposta como irrealista. Enfrentar uma comunidade pequena mas complicada como Lisboa, com a minha inexperiência, seria um perfeito suicídio. Alguém me avisou: “vão comer-te vivo!”.

O "caso Lisboa" não avançou – na verdade não tinha sequer como avançar logo à partida – e, numa questão de poucos meses, o lugar foi preenchido por alguém muito melhor preparado. Definitivamente, aquela oferta não era para alguém que procura ainda o seu primeiro posto de shelichut.

Alguns meses depois, fomos despertados com a possibilidade de irmos para Madrid. Alguém na comunidade madrilena pretendia abrir um beit midrash – um centro de estudos judaico – e precisavam de um professor. Ao mesmo tempo trabalharia com os jovens no colégio judaico local. Algumas conversas com um intermediário deram-nos detalhes interessantes sobre o trabalho. Porém, algumas semanas depois, de repente, os planos para o beit midrash madrileno esfumaram-se.

Ainda durante o primeiro ano do curso, mais de metade dos colegas de classe encontraram um lugar em comunidades no estrangeiro. A maioria na América do Norte. Outros, por alguma razão, desistiram de sair. Ao longo do segundo ano, o entusiasmo inicial de trabalhar para ajudar o Povo de Israel esmoreceu parcialmente. O panorama de sair de Israel para, daqui a alguns anos, voltar ao país sem ter casa nem trabalho, fizeram-nos distanciar um pouco daquele sonho.

Entretanto recebemos uma proposta para Cancún, no México. O tipo de comunidade pareceu-me bem interessante: pequena mas ativa, sem escoa judaica onde tivesse de ensinar todos os dias “das 9 às 5”. Falei pela Internet com os líderes da comunidade e cheguei mesmo a viajar para o México durante uma semana, a fim de conhecer in loco a comunidade. Apesar da experiência positiva da viagem e do contacto com os judeus de Cancún, acabaram por decidir que eu ainda não tinha a experiência necessária para resolver os graves problemas da comunidade. Não posso dizer que não tenham razão, apesar de lamentar de ter – de certa forma – perdido uma boa oportunidade. Mas, se não é, é porque não tem de ser.

Havíamos decidido, à partida, irmos para algum lugar de língua portuguesa ou espanhola, também por questões de proximidade cultural. Enfrentar a possibilidade de não entendermos as pessoas com quem iríamos trabalhar e ainda forçar as nossas crianças a aprender um idioma adicional, estava fora de questão. Porém, as ofertas para outras latitudes continuaram a chegar. Como o cargo de vice-rabino de Atenas, na Grécia, trabalhando como auxiliar do rabino local e em projetos de educação dos jovens da comunidade. Sem falar grego, a única possibilidade seria comunicar-me em inglês. Contudo, a minha esposa praticamente não fala o idioma de Shakespeare (e menos ainda o de Platão), pelo que isso significaria, nos primeiros meses, até aprender um pouco do idioma local, uma total impossibilidade de comunicação. Por outro lado, as crianças estariam numa escola onde aprenderiam um idioma – neste caso o grego – totalmente desconhecido por nós, e que não seria sequer usado em casa. Proposta idêntica tivemos para Wroclaw, na Polónia. Mas em vez do grego, o polaco. Que se seguirá: coreano?

Poucas semanas antes de terminar o curso soubemos do caso da comunidade de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos. A comunidade pretendia um casal de professores para a escola judaica local. O homem ensinaria os rapazes, a esposa daria aulas às meninas. Pelos dados que recolhi sobre a kehilá – quase ultra-ortodoxa – entendi que não seria o lugar adequado para nós.

Mesmo depois de terminado o curso, as possibilidades de saída continuarão a surgir. Porém, quanto mais tempo passa depois da conclusão do curso, é verdade que diminuem as hipóteses de encontrarmos algum lugar. É algo que ainda queremos fazer, mas não podemos sair precipitadamente. A comunidade certa para os emissários certos. Como num casamento. De outra forma, arriscamo-nos ao fracasso.

publicado por Boaz às 20:00
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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