Domingo, 11 de Setembro de 2011

9/11 – A década

Lembro-me como se tivesse sido ontem, pensarão muitos, que terão ainda bem vivo na memória o abalo daquele dia. Para aqueles que presenciaram – mesmo pela televisão – o desenrolar do mais delirante ataque terrorista de sempre, o 11 de Setembro de 2001 é um dia inesquecível. Poderei dizer que será o dia mais negro deste ainda curto século XXI. O mais marcante, pelo menos.

Até hoje, sentimos as repercussões do embate dos dois aviões e a consequente queda das majestosas Torres Gémeas do World Trade Center. (Sem esquecer o ataque ao Pentágono e a queda do 4º avião num campo da Pensilvânia, heroicamente despenhado pelos próprios passageiros). A guerra ao terror, com todos os seus erros e más decisões, não tornou o mundo mais seguro depois do 9/11. Pelo contrário.

A invasão do Afeganistão e perseguição de Bin Laden – finalmente morto há poucos meses, depois de quase uma década de busca pelos americanos – não eliminou a ameaça dos Talibãs e do seu fanatismo. A sinistra al-Qaeda está ativa. Apesar de ferozmente acossada pelo exército americano, continua a espalhar o medo e a morte. Mesmo morto, Bin Laden continua a inspirar seguidores, dispostos a matar e morrer em nome da sua doutrina. Como uma sanguinária divindade pagã, a cujo culto devem ser sacrificados todos os que ousem recusar o seu tirânico domínio.


Segurança nos aeroportos | Prisão de Guantanamo, em Cuba | Abu Hamza al-Mazri, líder da mesquita de Finsbury Park, em Londres, um dos focos do radicalismo islâmico na Europa
Embate do segundo avião no World Trade Center, em NY | A queda da Torre Norte
Soldado americano ferido no Iraque | Jovens afegãs de burka numa cerimónia de graduação

O Afeganistão, para lá das principais cidades controladas pelo regime central apoiado e guardado pelo Ocidente, continua a ser um imenso campo de treino terrorista como era nos tempos em que a canalha de Bin Laden dominava o país. Espantados em parte do Afeganistão, os terroristas da al-Qaeda pululam hoje no Paquistão, na Somália, no Iraque e (suspeita-se) em Gaza. Ou onde quer que a confusão reine pelo mundo muçulmano.

A invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein provou-se um desaire militar e de relações públicas para os EUA. E um sorvedouro de dinheiro dos impostos americanos: de acordo com alguns cálculos, mais de 3 triliões (!) de dólares já foram gastos com a invasão e os quase oito anos de ocupação do Iraque. As armas de destruição maciça não passavam de uma boa desculpa para derrubar um ditador anti-americano e brutal, mas inocente em relação ao que se passou naquela manhã de Setembro. O Iraque é hoje um campo de treino e o maior palco de ação de organizações terroristas. Tirando o Curdistão Iraquiano, o resto do país é marcado pelos ataques às tropas ocupantes, as autoridades locais e a perseguição às minorias religiosas. Carnificinas diárias matam indiscriminadamente dezenas de pessoas, em atentados contra estações de polícia, mesquitas e mercados. O número de refugiados iraquianos nos países vizinhos e dentro do próprio país atinge os 4 milhões.

As invasões do Afeganistão e Iraque até poderiam ter sido "justas", ou no mínimo justificadas, se tivessem resultado numa pacificação desses países. Poderiam ter tornado o mundo num local mais seguro. Porém, o perpetuar da ocupação militar já custou alguns milhares de mortos entre as tropas americanas e britânicas. E entre os iraquianos, o número de mortos desde a invasão e bombardeamentos iniciais aos milhares de atentados que aconteceram desde então, varia entre algumas centenas de milhar e mais de um milhão, dependendo das fontes. Tudo isto fez rapidamente perder a simpatia pela "Guerra ao Terror", em especial na Europa, onde a imagem dos EUA é cada vez mais negativa. Nos EUA, o aparelho de segurança, apesar de consumir um orçamento astronómico de dezenas de biliões de dólares anualmente, continua a ser pouco eficiente. Nisto, Israel tem muito a ensinar aos Estados Unidos e a qualquer outro país.

Logo a seguir ao 11 de Setembro, as autoridades entenderam a necessidade de limitar os direitos individuais em nome da segurança coletiva. Hoje, essa concepção parece estar a perder apoio, tanto entre o povo, como entre os políticos. Por exemplo, enquanto radicais islâmicos propagam abertamente a sua doutrina nas ruas e mesquitas da Europa, as autoridades permanecem, em muitos cais, sem qualquer reação. Também, ou talvez sobretudo, por medo da retaliação violenta dos fanáticos.

Um ensinamento do Midrash (uma forma de explicar a narrativa bíblica) diz: "Aquele que é misericordioso com os cruéis, acabará sendo cruel com os misericordiosos" (Midrash Tanhuma, Parashat Mezorá, 1). Esta expressão poderia ser entendida e recebida, ainda que a contra-gosto, por muitos políticos e cidadãos comuns no seguimento dos ataques de Setembro de 2001. Hoje porém, a sua aceitação será menos unânime. Em nome da supremacia da "liberdade de expressão" e dos "direitos humanos".

O fanatismo islâmico, apesar de todos os apelos a uma auto-análise e reforma islâmica, também não diminuiu de força. Para lá das iniciais reações de júbilo pelos ataques de 11 de Setembro entre alguma populaça muçulmana, a opinião pública no mundo árabe e islâmico não se tornou mais pró-americana ou anti-fundamentalista. A verdade é que tampouco foram educados para tal pelos seus governantes e líderes religiosos. Tirando algumas cosméticas operações de caça a terroristas e seus apoiantes na Arábia Saudita, Iémen ou Paquistão, pouco foi feito para combater o radicalismo islâmico na sua origem. E mesmo estas operações destinaram-se mais a defender a permanência dos próprios regimes face à ameaça da oposição destes fundamentalistas, do que a combater os agentes armados do Islão radical.

Apesar de todas as discussões sobre os perigos do crescente radicalismo islâmico e a urgência de uma reforma social, política e religiosa no mundo islâmico, pouco mudou dentro do Islão desde 2001. Bin Laden e a sua ideologia fanática ainda alimentam paixões e fervoroso apoio populares. Os líderes políticos árabes continuam tão corruptos e fanáticos como antes. Até as revoltas populares que têm alastrado um pouco por todo a região, apesar das enormes esperanças da instauração da democracia, correm o risco de se transformarem em oportunidades de tomada do poder pela via democrática pelas forças radicais, como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Na Líbia, até agora um dos mais liberais regimes árabes em termos de igualdade entre os sexos, já se nota o aumento do número de mulheres que usa o véu publicamente, um sinal da crescente influência do Islão tradicional, depois do derrube do regime secular de Kadhafi. Os líderes da oposição líbia que tomaram o poder em Tripoli já anunciaram que a Sharia (a Lei Islâmica) deve ser a base da futura constituição da Líbia pós-Kadhafi. A esperança da "Primavera Árabe" poderá transformar-se num tempestuoso Inverno islâmico no Médio Oriente e Norte de África.

Os líderes religiosos muçulmanos, em especial no mundo árabe, tirando algumas figuras fora do mainstream, seguem a retórica da jihad contra o Ocidente. O Wahhabismo, a doutrina mais fanática dentro do Islão atual – apesar de ser considerada uma heresia por algumas das escolas islâmicas mais influentes – continua em forte expansão. Os abundantes petrodólares sauditas que patrocinam a construção de centenas de mesquitas dos EUA ao Brasil e a toda a Europa e África, patrocinam também os respetivos imãs, doutrinados de acordo com a corrente islâmica wahhabi, a única permitida na Arábia Saudita.

A Europa, com a sua cada vez mais alienada juventude muçulmana, dividida entre a sociedade europeia onde reside e a sua origem cultural, tem sido um fértil campo de recrutamento para o terrorismo. Os próprios autores do 11 de Setembro tinham sido estudantes em universidades europeias. E alguns dos mais ousados ataques (ou tentativas de ataque) desde o 11 de Setembro foram cometidos por muçulmanos europeus, como o "terrorista do sapato", o inglês Richard Reid.

Em termos políticos, a União Europeia tem sido cronicamente incapaz de ter uma voz única em termos de diplomacia, seguindo perigosa e estupidamente impotente face ao avanço do Islão radical dentro das suas fronteiras. O anti-americanismo doentio de alguns setores da política europeia tem minado uma completa cooperação em termos de segurança entre os dois lados do Atlântico que é indispensável para os desafios que se nos apresentam. A expressão "guerra ao terror" tornou-se quase inócua 10 anos passados do mais mortal atentado terrorista da história. As mudanças ao nível da segurança já caíram na rotina de muitos cidadãos.

Como comentou Uri Bar Lev, um especialista israelita em terrorismo: "Precisamos de começar a preparar-nos para a próxima guerra, em vez de para as guerras que já travámos. Estamos numa nova era, inteiramente diferente e mais perigosa do que a era passada. Não podemos dar-nos ao luxo de vacilar em face desta nova realidade."

publicado por Boaz às 13:00
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