Sexta-feira, 12 de Agosto de 2005

Adeus Gaza, 'Orange County'

Dentro de três dias, se as coisas correrem como o previsto, começará a retirada dos 21 colonatos israelitas de Gaza e de mais quatro no norte da Cisjordânia. Os ânimos estão há muito exaltados em Israel. E têm crescido sempre, desde o anúncio do plano de retirada, há vários meses. Centenas de colonos e seus apoiantes têm tentado entrar nas colónias a ser desmanteladas, para impedir a operação.

A semana passada, um soldado extremista disparou sobre os passageiros de um autocarro numa cidade árabe do norte de Israel, a fim de desencadear confrontos que desviariam os soldados que devem assegurar a prossecução do plano. Morreram 4 passageiros e mais de 20 ficaram feridos. O soldado foi depois linchado até à morte, pela população em fúria.

Laranja, o símbolo da oposição ao 'disengagement'.

Quando estive em Jerusalém em Maio passado, eram bem visíveis as divisões causadas pelo "disengagement". Por todo o lado, se viam as fitas cor de laranja, a cor dos opositores da retirada. À porta da estação central de autocarros da capital, raparigas judias religiosas, cumpriam a sua parte no esforço por angariar gente e fundos para a sua causa. Tinham montado uma banca no passeio, onde vendiam pulseiras de borracha, fitas, crachás e bandeiras. Tudo no mesmo tom invariavelmente laranja fluorescente. Os carros andavam engalanados com bandeiras nacionais e os apoiantes dos colonos acrescentavam à bandeira a tal fita. Alunos das escolas usavam-nas atadas na pega das mochilas. Alguém se tinha esforçado muito para mostrar a sua oposição ao plano, pendurando a dita cuja nos fios eléctricos, bem no meio das ruas e avenidas.

Eu, que sou a favor da retirada - peca por tardia, mas mais vale tarde que nunca -, também consegui arranjar uma dessas fitas, sem ter contribuído para a causa. Encontrei-a perdida, à beira da estrada que liga Belém a Jerusalém. Curioso sítio para encontrar tal símbolo, já que a estrada corre em "território ocupado" não longe do checkpoint e do "muro" à entrada de Belém e serve de acesso a vários dos colonatos mais militantes.

É óbvio que o "disengagement" não é o fim da retirada. Outros planos de retirada se seguirão. Não pode ser de outro modo. Ninguém no governo de Israel, por mais militante sionista que seja, acredita que os Palestinianos irão dar pulos de alegria por terem 300 quilómetros quadrados de dunas e esgotos a céu aberto (é isso que é Gaza, nada mais) para fazer o seu Estado.

As divisões na sociedade israelita são profundas, apesar de a maioria se manifestar a favor da decisão de Ariel Sharon. Mas abandonar a porcaria de Gaza e de 4 pequenas comunidades da Margem Ocidental, com o realojamento de pouco mais de 7000 colonos até parece fácil, face ao desafio que será abandonar a Margem Ocidental em peso, onde vivem mais de 100 mil israelitas.

Há poucas semanas ouvi a posição oficial do governo israelita em relação ao plano, pela voz do embaixador em Portugal. Na altura, das pessoas presentes, só uma se manifestou declaradamente a favor da retirada. Com a sua experiência e autoridade de antigo militar de elite que passou os 3 anos de tropa numa unidade de tanques exactamente em Gaza, revelou que Israel deveria abandonar todos os territórios ocupados em 1967: Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Isso traria, de acordo com as suas palavras, a paz para Israel.

Infelizmente, não tenho soluções que ache que sejam milagrosas, ou mais ou menos definitivas. Não consigo conceber nenhuma ideia que seja capaz de, definitivamente, parar com a violência e resolver o conflito com justiça e equilíbrio. Tenho esperança que, mais cedo ou mais tarde a paz chegue.

publicado por Boaz às 03:19
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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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