Domingo, 24 de Julho de 2005

Mas...

Sucessivamente, a cada ataque terrorista, aparecem algumas vozes a condenar o acto, para logo a seguir, acrescentarem um "mas". Em jeito de desculpa? Ou no mínimo, justificação? Encontrar algo de racional na acção terrorista?

Invariavelmente, em relação aos que fazem o terror em nome da causa palestiniana, a justificação é o desespero. Entre os nossos intelectuais, cabeças pensantes e líderes de opinião com mais ou menos seguidores, a certa altura até surgiu a comparação entre a causa palestiniana e a de Timor-Leste, na época da ocupação indonésia.

Analogias entre a Palestina e Timor-Leste?

Haja decência! Nem as condições são idênticas, nem a origem da ocupação israelita dos territórios palestinianos tem qualquer analogia com a da ocupação indonésia de Timor-Leste. A Indonésia invadiu Timor como decisão unilateral, aproveitando-se cobardemente do caos da guerra civil que se seguiu ao abrupto fim do poder colonial português. Uma invasão pura e simples com o objectivo de anexação. Pelo contrário, Israel ocupou Gaza, Jerusalém Oriental e a Margem Ocidental após uma declaração de guerra e tentativa de invasão por parte dos exércitos egípcio e jordano, cujos governos detinham o controlo desses territórios.

Quanto às condições da ocupação, por muito trágica e urgente que seja a situação da maioria da população palestiniana, não creio que se possa comparar ao martírio passado pelos timorenses sob o domínio indonésio. É verdade que os números não dizem tudo, mas mais de 200 mil timorenses mortos pelo exército indonésio deveriam ser suficientes para conseguir travar qualquer tipo de comparação...

Ainda há a questão do desespero. É desesperante a situação de vida de grande parte dos palestinianos, sem dúvida. Mas isso justifica o terror? Torna-o válido? Os que compararam a Palestina com Timor-Leste nunca pararam para pensar porque razão os timorenses nunca tomaram como "forma de luta" os ataques terroristas suicidas contra autocarros, hotéis, discotecas, restaurantes e fiéis à saída de mesquitas em Jacarta, como os suicidas palestinianos fizeram dezenas de vezes contra autocarros, hotéis, discotecas, restaurantes e fiéis à saída de sinagogas em Tel Aviv e Jerusalém? Estariam os timorenses por acaso numa situação menos desesperante que os palestinianos?

E, já agora, que desespero levou 19 indivíduos a lançarem aviões contra o World Trade Center e o Pentágono? Eram todos estudantes universitários, filhos de famílias de classe média-alta da Arábia Saudita e do Líbano, viviam bem mais desafogadamente que o comum dos seus concidadãos...

E sexta-feira à noite, que desespero motivou as bombas em Sharm el-Sheikh?

Após o 11 de Março, justificou-se o terror com o apoio do governo espanhol à invasão americana do Iraque. Nos ataques a Londres, a razão foi também o apoio do governo britânico à guerra no Iraque. Com essa ideia em mente, várias dezenas de dignitários muçulmanos britânicos alertaram Tony Blair para reflectir (e consequentemente mudar) a sua estratégia em relação ao Médio Oriente. Será só Blair que tem de repensar e mudar? E será isso suficiente para parar as ameaças e os ataques?

Sinceramente, creio que não. Basta pensar no caso da França, que foi, desde o início contra qualquer intervenção no Iraque. No entanto, isso não bastou para ser poupada às ameaças terroristas da Al-Qaeda. Vários franceses foram raptados no Iraque e o país recebeu ameaças directas de atentados. A razão: a aprovação da lei que proíbe o uso de símbolos religiosos nos lugares públicos, conhecida por "lei do véu islâmico".

Alguém ainda acha que os terroristas precisam de desculpas? Ou afinal, tudo serve de desculpa aos terroristas?

publicado por Boaz às 18:38
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6 comentários:
De JesusRocks a 21 de Agosto de 2005 às 16:51
Gostei imenso do artigo pela lucidez com que expõe o conteúdo. Realço três impressões gerais sobre o tema: que realmente há pessoas que não condenam o terrorismo desde que justificado (e isto é condenável); que as pessoas (generalizando) tendem a estigmatizar os outros por coisas que foram feitas no passado (refiro-me ao facto de chamarem Sharon de criminoso de guerra); que sempre que não estejam interesses económicos envolvidos, as grandes potências escusam-se a intervir, enquanto que noutros casos... é o que se vê! Enfim, ganhaste mais um assíduo visitante. Felicidades para o blog.
De Gabriel a 29 de Julho de 2005 às 21:32
Invasão. Ocupação. Sim Diogo, há diferenças no modo como cada uma aconteceu. Vai aos livros de história se não percebeste o conteúdo do artigo. As palavras foram escolhidas conforme são mais usualmente definidos os factos. Ou já ouviste a expressão "invasão de Gaza"?
De Gabriel a 29 de Julho de 2005 às 21:29
Sim, as condições de vida dos palestinianos (pelo menos da maioria) é deplorável, mas isso não lhes dá o direito de matarem gente inocente nos autocarros. Porque é que o ódio palestiniano, da Al-Qaeda, do GIA argelino, da Irmandade Muçulmana egípcia... venha ele donde vier, só os leva a caminhos de destruição? Porque não usam o seu ódio de uma forma construtiva? Não há outros caminhos?
PS - Sim, choca-me que um país democrático (apesar dos seus grandes defeitos) como Israel, tenha eleito para dirigente alguém como Sharon. Mas tenho visto que os passos mais importantes para o avanço da paz no Médio Oriente, têm sido tomados por quem menos se espera: Rabin conquistou Jerusalém em 1967 e foi o maior artífice da paz; Netanyahu era de início visto como radical e negociou partes fundamentais. Sharon parece estar a fazer o mesmo depois de tanta violência no seu cadastro...
De ffun a 26 de Julho de 2005 às 11:41
"Israel ocupou Gaza" e "A Indonésia invadiu Timor"... achei interessante o uso das palavras. Sim... acho que nada justifica a acção terrorista, seja de que índole for, mas continuo a achar que terroristas e crimonosos de guerra estão no mesmo rol e Ariel Sharon e Ali Alatas não escapam. Já agora, encontra-me algo de racional para a "ocupação" de Gaza por parte de Israel. Se calhar há algum jeito altruísta no acto que ainda não descortinei... ou então os próprios palestinianos são adversos ao bem benevolente que a acção escondia. Não estás a querer justificar a "ocupação" israelita de Gaza através de uma comparação com a "invasão" de Timor pela Indonésia, pois não? Atenção: nada justifica ataques terroristas para defender uma causa, mas importa ser imparcial e nunca gostei de generalizações... o que leva alguns palestinianos a cometer estes actos é o ÓDIO que foi alimentado por interesses, agora o que os levou a esse ÓDIO... ora aí está uma boa questão a justificar. E já agora vejo pelo menos uma relação entre a "ocupação de Gaza" e a "invasão de Timor"... duram na exacta medida da complacência de algumas super potências.
De sergio a 26 de Julho de 2005 às 09:26
gabriel


o problema não á o terrorismo que não term justificação


o problema e a pergunta que te deixo é o que fazer aos palestinianos?


viverem como prisioneiros na suia terra
imaginas o que é a humilhação de todos os dias teres de passar por checkpoints ser revistado, todos eles são vistos por israel, não como seres humanos mas como crimonosos.

Sou a favor da existenci do estado de israel
mas não te esqueças que o 1º ministro de israel é um criminoso de guerra...
e não te vejo chocado
De Simon a 25 de Julho de 2005 às 18:54
Acho que o óbvio não precisa de muitas explicações. Excelente comparação feita entre as duas realidades: timorense e palestiniana. Nunca tinha pensado nisso...

O mais grave é que eles, terroristas, ofendem a democracia e certos lideres de opinião acham que não.

Há dias uma colega minha dizia-me "-Olha acho mo bem o que eles fizeram em Madrid e em Londres" " Bem feito para não se irem meter com eles" Eu só imaginei o seguinte: imaginei que ela ou alguém da sua familia seguia naquele metro ou naquele comboio e ficava sem duas pernas, por exemplo. Será que ainda acharia bem o que "eles" fazem? Imaginei que ela não consegue sequer imaginar isso. Acho que certos líderes de opinião assim estão: tão distantes da realidade e tão elevados no olimpo do seu pensamento, que é para eles dificil conceber o óbvio.

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