Sexta-feira, 8 de Julho de 2005

Terror, a convivência possível

Ontem o medo e morte em larga escala chegaram mais perto de nós. Em Londres. A escassas horas de voo. No mesmo fuso horário. Não foi em Bagdade ou em Jacarta, locais bem mais distantes, em todos os sentidos da palavra "distante".

Quando os ataques são no Iraque, na Indonésia ou em Israel, vemo-los normalmente como factos suficientemente longínquos para, em grande medida, nos passarem ao lado. Mas não em Londres. Ou em Madrid. Nesta nossa Europa tão dividida em tantas coisas, em momentos como estes, é como se fossemos um único povo. Um único país. Como se Londres fosse tão "nossa" como é Lisboa.

Nos comentários aos ataques terroristas retive em particular o do General Loureiro dos Santos. Disse ele que "no futuro, teremos de encontrar um nível de convivência possível com o terror". Como é possível conviver - viver com - o terror? Admiti-lo como tão normal que condicione toda a nossa vivência diária?

Conscientes da impossibilidade de prever e evitar todas as acções terroristas, passaremos a encarar o terror como uma coisa que nos pode acontecer como qualquer outra casualidade. Passará a ser exactamente isso, uma casualidade? Adaptados a um estado policial, integraremos nas nossas rotinas coisas hoje aparentemente tão absurdas como ter de passar por um detector de metais em cada ida ao restaurante, ao supermercado, ao banco, aos correios, ao cinema. A ver em cada paragem de autocarro um polícia de rádio na mão, em diálogo com outros polícias em permanente estado de alerta. Habituar-se a que, a qualquer momento, o trânsito seja cortado nas nossas ruas, por causa de uma suspeita.

Em nome do bem comum e da essencial segurança que garante o nosso modo de vida, teremos de abdicar de certas liberdades, bem mais importantes do que simplesmente termos de abrir as carteiras à entrada do café.

Os terroristas usam a seu favor as liberdades que conquistámos nas nossas sociedades. É provável que tenhamos de abdicar de algumas delas para os conseguir vencer. E isso é o mais terrível nesta história. Significa que são eles que nos vencem, porque dominam o nosso modo de vida. Porque nós teremos de mudar, enquanto eles continuarão sempre iguais ao que sempre foram. Inflexíveis.

Em Londres, Nova Iorque, Madrid ou Telavive, são irrelevantes as caras e as causas que se escondem por detrás do terror. Toda a busca de justificações para o que se passou ontem em Londres é tão repudiável como o próprio atentado, porque isso significaria admitir que eles - quem quer que sejam - possam estar certos nos seus actos, que as suas pretensões sejam justas e logo, válidos os seus métodos. Nenhum terrorismo é merecedor de crédito, pois causa alguma justifica a barbárie indiscriminada que é a própria essência do terrorismo.

publicado por Boaz às 03:45
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4 comentários:
De Simon a 14 de Julho de 2005 às 10:23
Afinal eram putos de aparência certinha e de mochila às costas que rebentaram com tudo. Seria bom estarmos muito mais atentos aos nossos filhos. A qualidade dos professores nas escolas já não é o que era.

Este caso provavelmente tem motivações de impeto juvenil equivalente às dos putos de Columbine: outro país, outra religião, a mesma desmotivação com uma causa equivalente: busca de um sentido para a vida em completa desorientação e uma ansia mórbida de endireitar o mundo. Inflexibilidade para com os seus mentores irresposáveis e idealistas.
De Funny a 10 de Julho de 2005 às 20:50
É necessário distinguir e separar as acções terroristas de todas as outras, pois de facto o seu impacto é bem diferente. Quando existem, não se pode comparar genocídos com homicídios, no caso do terrorismo e dos outros crimes é a mm coisa! Mas aos terroristas não podemos responder com privação da nossa liberdade, tal como já havia propostas de todos os telefonemas e e-mails na Europa serem vigiados. Isso é dar força aos terroristas, a vida amedrontada, sermos prisioneiros de nós próprios com medo de uma minoria, de alguns extremistas desumanos. O terrorismo acaba, acabando com os terroristas (os peixes grandes).
De simon a 8 de Julho de 2005 às 19:32
Eu cá não distingo este crime de crimes "normais" de "mass crime". Atribuir distinção ou arruma-lo numa secção especial de crime é dar-lhe demasiada distinção de importância.
Inflexibilidade absoluta para com os inflexíveis...para garantirmos os direitos conquistados há muito de podermos continuar a viver despreocupadamente e de modo flexível e tolerante.
De simon a 8 de Julho de 2005 às 19:22
O terrorismo...este, terá tendência para acabar. Basta destronar as cabeças mentoras e deixa de existir a motivação de continuar.

Aconteceu com a Bader Meinhof, Ira, Eta, Brigadas vermelhas; acontecerá com os extremistas islâmicos ou com quaisquer outros que chamam a atenção do mundo por esta via.

Respostas rápidas, cirúrgicas e pouco mediatizadas contra os focos criminosos: tem sido sempre essa a solução ao longo dos tempos (não são demostrações de força ofensivas e ostensivas de longa preparação...tipo Iraque II)

O terrorismo é a forma mais fútil, egocêntrica, cobarde e indiferenciada de se chamar à atenção... e é altamente reprovável pelas pessoas de bom senso..ou seja a grande maioria de nós: a principal razão porque está condenado à morte.

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