Domingo, 3 de Julho de 2005

Quem canta, que males espanta?

Foi muito bonito o desfile das estrelas a cantarem em nome de uma causa nobre. Foi lindo ver Madonna, rainha das futilidades e do showbiz, a abraçar Birhan Woldu, uma etíope recém-licenciada em Agricultura, que há 20 anos - na altura do Live Aid - estava à beira da morte num campo de refugiados e que, segundo Bob Geldof, foi salva em parte com a ajuda dos donativos angariados por aquele concerto de solidariedade. Só pelo sucesso da sua história, valeu o esforço de há 20 anos. Afinal, "quem salva uma vida é como se salvasse a humanidade inteira" como diz o Talmude.


Madonna e Birhan Woldu no palco principal do Live 8, em Londres

Os 10 concertos, do Japão aos Estados Unidos, eram grátis. Não se pretendia angariar dinheiro para matar a fome em África (se bem que o SMS para pôr o nome na lista custasse 0,50€: a RTP também precisa de ajuda...). O objectivo era chamar a atenção do clube dos mais ricos para a miséria dos mais pobres. Apontaram-se os responsáveis pela miséria africana e esses foram os líderes dos países do G8, que vão reunir-se dentro de dias, na Escócia. "Os líderes dos 8 mais ricos reúnem-se num castelo escocês à beira de um campo de golfe, enquanto mais de mil milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia" foi a imagem que passou. Aqui estão os culpados, é a estes que tem de se pedir contas. Como é fácil arranjar bodes expiatórios, quando se seguem as regras do politicamente correcto.

E o politicamente correcto é mesmo culpar os brancos e os ricos por tudo o que de mal se passa em África. Nestas ocasiões tratam-se os africanos como criaturas indefesas, face à implacável voragem capitalista. A existência de uma gigantesca dívida externa na maioria dos países africanos é posta no cadastro dos europeus e americanos. As guerras que década após década se têm travado no continente, são explicadas como instigações interesseiras dos brancos, das empresas de armamento e de multinacionais que querem dominar os abundantes recursos de África.

Os africanos - incluindo os seus dirigentes - são apresentados como gente sem vontade. Inimputáveis. Marionetas puxadas por cordelinhos a partir da Europa e América. Ou nem sequer são incluídos como variáveis da equação. E quando se mencionam os próprios líderes africanos (como o angolano José Eduardo dos Santos) são mostrados como peões no cínico xadrez do Ocidente que só quer espremer a riqueza dos seus países. E eles, coitadinhos, deixam-se levar pelo engodo.

Obviamente que não podemos condenar as populações africanas à miséria eterna e ao subdesenvolvimento pelos erros dos seus líderes, os quais, na sua grande maioria, não foram sequer escolhidos pelos seus povos. Só que também é injusto que apenas se apontem os dedos acusadores - sim, trata-se também de apurar responsabilidades - aos senhores do capital, esquecendo deliberadamente que há grandes responsabilidades também do lado africano. O problema é que falar das coisas desta maneira é candidatar-se a levar com uma etiqueta de racista e colonialista.

Sem querer defender o passado colonial da Europa - e de Portugal em particular -, não deixa de ser preocupante, chocante até, que muitos países africanos vivam hoje pior do que há 30 ou 40 anos, quando se tornaram independentes. E, apesar de praticamente todos os Estados africanos terem já atingido a maioridade desde a independência, muito poucos ou nenhum atingiu a maturidade social e política que lhes permita fazer este tipo de reflexão.

Interessante e inédito, o testemunho de um cidadão da Costa do Marfim interrogado sobre as possíveis consequências de uma iniciativa como o Live 8. Disse: "Em África tudo é muito desorganizado. Queremos que os países ricos nos ajudem a organizarmo-nos, para que depois possamos seguir sozinhos o nosso próprio caminho. É humilhante andar sempre de mão estendida".

Os líderes africanos actuais são quase todos os mesmos que lideraram as revoltas e guerras de independência. Desde então que se agarram ao poder, sem nunca terem tido nem capacidade política nem legitimidade democrática para o exercerem. Até os três casos africanos que pareciam positivamente exemplares, estão agora também em sentido descendente: Costa do Marfim, Zimbabwe e África do Sul. Os dois primeiros bateram mesmo no fundo...

A Costa do Marfim foi, até ao final da década de 90 um exemplo de estabilidade em África. O país, apesar de não ser rico - excepto em cacau -, conseguiu algum desenvolvimento, mesmo governado durante 40 anos pelo mesmo homem: Félix Houphouet-Boigny, um ditador que como quase todos os ditadores era megalómano. Transformou Yamoussoukro, a sua aldeola natal, na capital política do país e mandou construir aí uma réplica da basílica de São Pedro. Depois da sua morte, o país entrou em colapso e hoje é um dos mais instáveis da África ocidental, dividido entre o poder oficial, a sul e os rebeldes no Norte. E o poder oficial é encabeçado por um típico ditador, Laurent Gbagbo, acusado em 2003 pela comunidade internacional de crimes contra a humanidade.

O Zimbabwe, que na década de 80 era até visto como outra boa excepção africana - o celeiro da África Austral, com um rendimento per capita de mais de 2300 dólares -, mesmo governado por Robert Mugabe, é hoje um país à beira do caos. É governado pelo mesmo Mugabe, que entretanto virou fascista, amordaçou os jornalistas, expulsou os agricultores brancos e vai matando os negros à fome. O rendimento da população é hoje quase 10 vezes inferior ao de há 25 anos. Para o presidente, a culpa vai toda para os brancos e Tony Blair. Uma das suas últimas medidas é a operação de limpeza das casas ilegais nas principais cidades, que já fez mais de 200 mil desalojados. Os reais motivos da campanha prendem-se com o facto de essas pessoas terem votado na oposição nas últimas eleições presidenciais. Deixá-las sem casa é a represália pela traição ao regime. A ONU e a União Africana calam-se e assim consentem.

Na África do Sul, depois do fim do regime racista do apartheid, as coisas pareciam risonhas. No entanto, desde que Thabo Mbeki assumiu o poder - e foi já reeleito - que se tem manifestado tão incapaz como a generalidade dos seus homólogos continentais. Incapaz para lidar com a imparável onda de violência. Incapaz, quase ao nível da insanidade, para lidar com a pandemia de SIDA que assola o país. E para embelezar a figura já de si bastante eloquente, é apoiante de Khadafi e do próprio Mugabe.

Por fim, valia a pena reflectir neste exemplo: em 1962, o Gana e a Coreia do Sul estavam ao mesmo nível de desenvolvimento. Hoje, a Coreia do Sul é tão só a 11ª economia do Mundo. O Gana, apesar de rico em recursos naturais, não saiu do estado de subdesenvolvimento.

PS - Para que não restem dúvidas, sim, eu defendo o perdão da dívida dos países do Terceiro Mundo. Defendo a justiça no comércio mundial, com a abertura dos mercados aos produtos africanos. Defendo o fim dos subsídios agrícolas na Europa e América, que são a maior causa de distorção das regras de mercado e que condenam muitos agricultores africanos à pobreza. Defendo maiores ajudas à assistência humanitária em África, a maioria das quais ajudas a projectos de desenvolvimento e não simplesmente envio de alimentos e medicamentos, que são soluções de curto prazo e que fomentam a dependência em relação ao exterior. Mas também defendo o fim da cegueira comprometedora das Nações Unidas face aos corruptos e brutais regimes africanos, um elemento essencial na tragédia do Continente Negro. E, se preciso for, que se acabe à força com esses regimes.

publicado por Boaz às 17:45
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3 comentários:
De rogrio a 7 de Julho de 2005 às 15:29
Eu também concordo com a maoiria do texto. E reforço ainda a ideia com esta frase: Temos que ensinar a pescar, e não dar o peixe para matar a fome.
De Simon a 6 de Julho de 2005 às 18:42
primeiro ministro israelita...
De Simon a 6 de Julho de 2005 às 18:41
Subscrevo em absoluto a tua visão: Detalhada, atenta e politicamente incorrecta q.b. Já agora gostava de saber,mudando se assunto, o que achas da acção do primeiro ministro em relação à retirada dos colonatos judeus.
Keep up with your good work!

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