Sexta-feira, 20 de Maio de 2005

Petra Hostel - a casa dos viajantes

Na Cidade Velha de Jerusalém

A melhor vista da Cidade Velha
Do telhado da Petra Hostel - onde também se pode dormir, tem-se a melhor vista sobre a Cidade Velha. Frente ao Monte do Templo, muito perto da Igreja do Santo Sepulcro.

 

Quando estive em Jerusalém em 1999, fiquei hospedado na Petra Hostel, um dos mais antigos - e, de certeza o mais carismático - hotel da cidade. Desta vez, também escolhi a velha pousada, situada entre a Porta de Jaffa e o mercado árabe, mesmo em frente à Cidadela de David.

É um sítio curioso, abrigo para longo prazo de imigrantes recentes ou visitantes de mochila às costas. As instalações são hoje espartanas, longe do requinte que existia quando aqui passaram Agatha Christie e Mark Twain. O local tem uma certa aura hippie decadente, num ambiente relaxado e familiar.

Na recepção, a presença mais habitual é Gabriel, um afro-americano rastafari de poucas falas, vestido com robes coloridos e lenço a condizer. Há 11 anos que deixou o Connecticut e fez de Petra a sua casa, onde agora vive com Dagmar, uma ex-turista checa da mesma onda que ele.

É fácil meter conversa com os outros hóspedes - são hoje menos que no passado, é certo - com quem se pode partilhar a comida ou o tabaco e se arranjam desculpas para festejar. As festas da Petra Hostel chegaram a ser lendárias. Apesar da minha timidez habitual conheci, nestes 11 dias, um magnífico leque de gente interessante.

A primeira foi Lisa, uma australiana de 21 anos, em Israel de visita à família e que aproveitou para passar uns dias em Jerusalém. Graças a ela descobri a maravilha viciante das sementes de girassol, a versão local da nossa pevide.

Daniel, um americano da Pensilvânia, ex-estudante numa yeshiva (escola rabínica), que passara os últimos cinco meses a pastar cabras em Nablus, no norte da Cisjordânia. A combinação perfeita para fazer dele um místico. No dia seguinte a ter metido conversa com ele, fomos - eu, ele e Lisa - ao mikve (local de banho ritual judaico) mais sagrado que Daniel conhecia. O mikve dos Reis David e Salomão, na antiga Cidade de David, onde a água brota numa gruta da montanha. Na gruta, escura e estreita, só conseguimos mesmo molhar os pés, receosos da chegada iminente de um grupo de turistas que ultrapassámos no caminho entre as escavações arqueológicas.

Ao terceiro dia, assim que cheguei da minha segunda visita ao Yad Vashem (sete horas não chegaram), encontrei-o de malas feitas, à porta da pousada. Tinha conseguido um bilhete de avião para Nova Iorque a um preço especial, e voltava para casa algumas semanas mais cedo. Não estava certo que fosse a decisão correcta. Eu, apesar de me custar ver partir tão cedo aquele novo e especial amigo, ajudei-o a levar as pesadas malas e um shofar para a Estação Central de Autocarros. Nunca conseguiria sozinho, tal era a quantidade de bagagem. Mais o shofar. Num restaurante da Gare, dividimos uma lafa (espécie de pão espalmado) com falafel, acompanhada de histórias de vida.

Ariana, canadiana com ar hippie, a típica andarilha de mochila às costas, há quase um ano que percorria a Europa e o Médio Oriente. Portugal foi mesmo o seu primeiro destino, depois da chegada a Paris. Umas semanas em Malta e na Grécia, um mês no Egipto e passagens pela Roménia, Croácia, Bósnia e Bulgária. De Israel foi para a Turquia e daí planeava apanhar um autocarro para Viena e a um festival de música em Nuremberga. Antes de regressar a Montreal, onde apenas iria para ganhar dinheiro para uma nova viagem.

A mais cómica das pessoas que encontrei foi Sarah, uma jovem podologista (especialista em saúde dos pés) de Melbourne. Animou as conversas com o relato da sua visita a Masada e ao Mar Morto, na companhia de três monges ortodoxos ucranianos, num mini-bus com música hip-hop em altos berros. Imagine-se três austeros monges ao lado de uma loura divertidíssima ao som das batidas libidinosas de Black Eyed Peas em "full blast", a cruzar a Cisjordânia às 3 da manhã.

Da caricata viagem Sarah guardava como mazela um joelho inchado - um mau jeito dado na subida a Masada. Dez dias de descanso, receitaram-lhe numa consulta de hospital que lhe custara 1200 NIS (mais de 200 euros).

Sebastién, o tímido francês, que incrivelmente trabalha como segurança de uma loja em Orléans, que mal fala inglês, presenteou os novos amigos com um pequeno-almoço gaulês: croissants. É difícil imaginar como uma pessoa tão atrapalhada conseguiu chegar sem sobressaltos a Jerusalém - e como o fará no resto da sua passagem por Israel e o Sinai.

De início teve a providencial ajuda de Yuval. Este teria sido, sem dúvida, um génio renascentista, dados os seus múltiplos talentos. Jornalista israelita, casado com uma mórmon do Utah, freelancer para o Haaretz e a edição israelita da National Geographic Travel, para a qual estava a preparar uma reportagem sobre o regresso dos turistas às pousadas de Jerusalém. Amante de música - magnífico cantor e tocador de guitarra, e de poesia - recitava um poema apropriado em qualquer ocasião, fluente em hebreu, inglês, francês, finlandês e espanhol. O melhor guia para o "Death Tour", o "Passeio da Morte", pelos principais túmulos antigos de Jerusalém, por ter nascido na cidade, apesar de ter passado muitos anos em Boston e viver hoje em Tel Aviv.

Custa-me deixar este local, mesmo depois de todos estes companheiros já terem deixado a Petra Hostel. Resta, por mais uns dias, Tatiana, a imigrante de São Petersburgo, há três anos em Israel mas sem congueguir ler ou escrever hebraico. Resta-me a lembrança destas figuras curiosas que, se mais não fosse preciso, fariam esta curta viagem valer bem a pena.

Guardo-os a todos. Lembrei-me de todos quando deixei, esta tarde, um papel com uma prece numa brecha do Muro Ocidental.

publicado por Boaz às 23:14
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3 comentários:
De Paula Joo a 28 de Maio de 2005 às 12:02
Olé, bem vindo. Fiquei cheia de inveja, não vou a Jerusalém há anos. As sementes de girassol - garinim - são o passatempo nacional. As nossas não são bem a mesma coisa...

Beshanah ha'baah, ulai...
De Gabriel a 27 de Maio de 2005 às 13:33
Certamente que são outras experiências, mas nunca menores que a minha. A grandeza das expieriências está no que se tira delas, não do local onde acontecem. Desculpe lá esta dose de filosofia corn-flake. :)
De Adi a 26 de Maio de 2005 às 09:45
Não fui ainda bafejada pela sorte de ir a Israel, mas sei que também irá chegar esse dia. Mas estive 4 dias em Berlim com mais 5 dos nossos, onde também haviam checos, hungaros, franceses, ingleses, americanos, espanhois e israelitas. Visitei os vários museus sobre judaismo, ouvi a lingua de Israel e vivi intensamente um grande calor humano que nos uniu a todos. São outras experiências, menores que a sua, mas para mim foi grande. Shalom

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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