Domingo, 15 de Maio de 2005

Pequenos sinais

 

Na Cidade Velha de Jerusalém
 
Em Jerusalém, tal como no resto de Israel ou nos Territórios Palestinianos, a maioria das coisas significa muito mais do que aparenta. Esta cidade está cheia de pequenos sinais que demonstram isso mesmo. Apesar da aparente (aparente até quando?) calmaria, as divisões são imensas e mantém-se vivas, mesmo discretamente.
Os sinais das ruas, em qualquer lado da cidade, estão escritos em hebraico, árabe (línguas oficiais) e inglês (semi-oficial). No Bairro Judeu da Cidade Velha, os nomes em árabe - em todas as ruas, sem excepção - foram cobertos com grafitis ou autocolantes. Como não se pode “apagar” o adversário, apagam-se as suas referências. “No Arabs, No Terror”, ostentam alguns autocolantes.
Nos bairros muçulmanos as tabuletas das ruas estão mais ou menos intactas, mas por vezes encontram-se toscos grafitis de Estrelas de David riscadas. Ali, exemplos daquilo que poderá ser visto como provocação israelita abundam. Há poucos militares nas ruas, mas há três pequenas esquadras da polícia estrategicamente localizadas em “pontos quentes”. A tropa só vigia permanentemente a entrada da Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo. Tanto impede o acesso de homens com menos de 45 anos para as orações de sexta-feira, como, em qualquer dia, a de judeus nacionalistas que querem aceder ao local do antigo templo. Receiam-se ataques contra as mesquitas, que alguns extremistas crêem que apressariam a vinda do Messias. Recentemente estabeleceram-se na zona islâmica várias instituições judaicas, patrocinadas muito provavelmente por benfeitores americanos: uma yeshiva (academia rabínica) e uma sinagoga.
Uma das questões que mais tem exaltado os ânimos é recente compra, por parte de uma organização judaica, de dois edifícios pertencentes ao Patriarcado Grego Ortodoxo. Traição, é como os palestinianos descrevem o sucedido.
Na Ben Yehuda, uma animada rua pedonal da Cidade Nova, há cartazes nas lojas a dar as boas vindas e anunciam “descontos para turistas corajosos”. Por todo o lado, nas casas, nos carros, há bandeiras israelitas - o Dia da Independência já passou, mas as bandeiras continuam. Algumas estão acompanhadas de fitas cor-de-laranja, sinal de que ali se é contra o plano de retirada de Gaza, que será implementado dentro de alguns meses. Aqui, as ideias políticas mostram-se às claras.

Na zona sul, a meio caminho entre a Cidade Velha e Belém: a Floresta da Paz. O local é realmente idílico, onde as famílias passeiam nas tardes de Sábado. Judeus de Talpiyyot, Árabes de Jabel Mukhabar. A vista próxima, no entanto, engana. A norte, para lá do vale, a Cúpula do Rochedo, colada ao Muro Ocidental, o maior centro das discórdias. Para leste, serpenteando sobre as colinas poeirentas do Deserto da Judeia, outro muro. Se separação ou de segurança, dependendo da perspectiva. Erguido pela violência, causador de mais violência. Só as gralhas divertidas e barulhentas, à cata de restos de comida nos caixotes, ou os lagartos que correm sobre as pedras, conseguem dar um ar de normalidade ao local. Logo ao lado, uma base da ONU lembra que aquele sítio é vigiado por outros olhos...

Os sinais de que as coisas não vão bem são bastantes, mas também se notam -discretos, é certo - outros que traduzem esperança. Crianças árabes cumprimentam os turistas com um “hello” e um sorriso. Quando não obtêm resposta imediata, presumem que o turista é afinal um israelita e repetem o gesto com um “shalom” e o mesmo sorriso. OK, algumas fazem-no e logo correm a pedir uma moeda. Outras - a maioria, quero acreditar -, fá-lo porque, cansadas da guerra, apenas desejam sentir-se um pouco mais normais.

publicado por Boaz às 07:36
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1 comentário:
De rogrio a 16 de Maio de 2005 às 09:25
Quo local mais louco...sinceramente...é um local muuuuito estranho....

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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