Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

Mais um "suposto marrano"

Nos meus contactos com pessoas que - como eu - estão a passar por num processo de conversão ao Judaísmo, encontrei diferentes tipos de motivações. De um modo geral, ou é um caminho que já vem da própria experiência da família, (cripto-judeus, marranos), ou então são pessoas que, de alguma forma se foram aproximando do Judaísmo, sem qualquer interferência familiar. É o meu caso.

Em nenhum dos casos é fácil a resolução do "problema". Para além das diversas fases que é preciso cumprir - quase os 12 trabalhos de Hércules - há que lidar ainda com a pouca receptividade da própria comunidade judaica, mais ainda do que com "os de fora". Recebi recentemente este comentário revelador:

Você é mesmo judeu? Ou é mais um suposto marrano? Tem provas documentais como processos da Inquisição? Descende por linha matrilinear de judias? Se não, não é judeu. Jaime Cohen

Gostava de ter respondido em privado, por e-mail, mas como o autor não deixou qualquer contacto, e eu não o conheço de todo, aqui fica a resposta. (Talvez ele volte entretanto para o ler.)

"Mesmo judeu". O que é um judeu? Esta é uma pergunta que permanentemente se ouve nos meios judaicos. De acordo com a definição da Halachá (a lei judaica), é judeu todo o descendente de mãe judia ou por conversão. A minha mãe não é judia de todo, nem a minha avó. Eu até sou daqueles que desde pequeno costumava ouvir termos como judeu, rabino, judiar ou judiaria, com sentido bem distante do seu real significado.

Não sei o que é um "suposto marrano". Um fantasma? Um mito da família do unicórnio, do judeu de cauda ou do Adamastor? Uma ilusão de óptica? Nem creio que todos os marranos tenham provas documentais da sua condição. Nem todos foram apanhados pela Inquisição, pelo que nem todos têm essas provas. Têm, acima de tudo memória, porque foi pela memória, para lá da descendência, que perpetuaram a sua identidade. A própria condição do marrano (realmente a Joana tem razão, esta é uma palavra muito feia) pressupõe secretismo. Um secretismo cultivado desde tenra idade, para iludir os de fora, possíveis denunciantes ao Santo Ofício. E é preciso ter provas? Afinal, ambos os casos, cripto-judeus ou não, são tratados de igual modo. E as comunidades, pelo menos cá no "Rectângulo", costumam ser igualmente avessas aos dois.

Juntando as peças: não descendo de judeus pela linha matrilinear, não tenho provas documentais de como sou marrano, porque, como disse, não sou marrano. No fundo estou num limbo, um estranho em qualquer lado, um sin papeles. Tal como aos outros, os que têm ascendência pela linha matrilinear e os que têm provas dos seus antepassados presos pela Inquisição, o que me falta é o papel. A "carteirinha", como dizem alguns.

Nunca vi diferenças de legitimidade entre eu e eles. Estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 18:24
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6 comentários:
De Cristiano de Lima Paiva a 22 de Abril de 2006 às 00:35
Bem, suas palavras me fizeram chorar...
Eh exatamente assim que sinto-me; sinto-me apontado por judeus que não me querem em seu meio. Estou a quase 5 anos lutando (fazendo os trabalhos de hércules) e está cada dia mais dificil.
Muitas vezes oq me resta eh a enorme vontade de chorar e morrer.

Não tenho como provar que sou marrano, talvez nem o seja... Mas D'us sabe o quando choro em meu coração por não poder está perto do povo que tanto amo.

(Cristiano Paiva, BRAZIL/ Recife-PE)
De Simon a 28 de Junho de 2005 às 17:25
Resposta brilhante. De resto, bem mais merecedora de reconhecimento de "alma judaica" que a do senhor que disparou perguntas, bem mais inquisitoriais. ;)
De Gabriel a 20 de Abril de 2005 às 16:30
Pois... obrigado pelo apoio Rogério (tu estás sempre aí qdo é preciso, eu sei), mas o pior é que realmente o que ele disse tem significado. Mas eu tenho estofo para ele.
De rogrio a 20 de Abril de 2005 às 08:33
Não ligues muito a coisas que não devemos devemos dar grande significado, mas fizeste bem em dizer o que pensas...
De Emanuel Ben-Zion a 20 de Abril de 2005 às 01:07
Gabriel, esse senhor também já me escreveu. Ainda não sei muito bem quais são as intenções dele, ou quem é ele realmente. Fica aqui as trocas de comentários:

http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11585390&postID=111205111583588555
De jorge cardoso a 5 de Julho de 2008 às 16:42
olá,nasci em lisboa mas as minhas raizes são transmontanas,mais propriamente de santa marta de penaguião.Não sei se sou judeu mas tambem não me sinto cristão,tudo o que sei é que a minha familia do meu lado paterno,meu avô (já falecido) e todos os seus irmãos tinham uma relação muito estranha com a igreja catolica.todos eles evitavam as igrejas,jamais faziam o simbolo da cruz,para o meu avô e seus irmãos lhes fora ensinado por seus pais que a cruz não passava dum "pedaço de pau com um boneco pendurado",não celebravam o natal nem a pascoa,em suas casas não entravam santos nem cruzes,toda a cerimonia religiosa a que se prestavam ficava-se somente em reunir a familia num momento festivo e mergulhar os seus filhos varões de tenra idade em lagares de vinho,um genero de batizado,os pertences das meninas eram mergulhadas em tinas de agua,diziam eles que era para dár sote.Meu avô e sua familia afirmavam não serem cristãos,embora fossem batizados,mas tambem nunca os ouvi alguma vez dizer que seriam judeu.Não possuo nenhum docomento a informar o que a minha familia é ou o que foi,tudo o que sei é que o comportamento da minha familia e de muitas outras com comportamento semelhantes em tras-dos montes certamente deverá ter uma razão uma fonte.

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