Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

Comove-me

Nestes dias foi impossível ficar indiferente à gigantesca procissão que passou diante do corpo de João Paulo II na Basílica de São Pedro. É certo que muitos entre os peregrinos, não passavam de turistas curiosos aproveitando a ocasião deste acontecimento histórico para estar ali, tirar uma foto com o seu telemóvel e poder dizer "eu estive lá".

Porém, a grande maioria era sem dúvida gente movida por uma forte consciência espiritual. É que esperar 15 horas de pé, sem protestar, numa fila que culmina com um breve olhar sobre um cadáver, não é para aventureiros ou gente impelida por uma curiosidade mórbida. A resistência dessas horas passadas a rezar e a cantar - para manter firme o espírito e desse modo também o corpo - entre pessoas desconhecidas é impressionante.

Fé

Sempre me comoveram as manifestações públicas de fervor religioso. Seja de que fé for. É óbvio que me comove uma multidão que reza em frente ao Muro Ocidental (também chamado das Lamentações). Eu próprio já vivi essa experiência. Estar sozinho, sem conhecer ninguém, na Western Wall Plaza apinhada de judeus a rezar no local mais sagrado para o Judaísmo, em que todos são estranhos, mas ao mesmo tempo existe uma comunhão de identidade que aproxima as pessoas, é qualquer coisa de sublime.

Mas também me impressiona a ideia de dois milhões de muçulmanos em Meca, aguentando o calor sufocante do deserto da Arábia Saudita, rumando por todos os meios possíveis ao vale de Mina para cumprir os rituais da Hajj, um dos pilares do Islão. Ou as multidões de hindus nas margens do Ganges e nas enormes peregrinações do Kumbha Mela, que chegam a juntar mais de 12 milhões de pessoas! Os tibetanos que percorrem a pé centenas de quilómetros, prostrando-se a cada passo, rumo a Lassa. Impressiona-me Fátima, mesmo que desaprove a mortificação física e um certo alarde daqueles que, de joelhos, percorrem o santuário. No entanto respeito.

Impressiona-me especialmente porque vivemos num tempo em que são poucos os que se afirmam crentes. Em que a crença se limita a vivências privadas, seja por detrás dos muros dos templos, seja nas próprias casas. "O meu minyan", como lhe chama Francisco José Viegas. O exemplo extremo é a França, onde, por decreto, se esconde a manifestação da identidade religiosa, sob a obrigatoriedade da laicidade do Estado e a sombra da igualdade. Como se alguém por não usar a cruz, a kippa ou o véu em público se tornasse igual ao seu vizinho. Há dias, nas Cortes espanholas, os deputados da esquerda republicana da Catalunha, do Partido Comunista e alguns do PSOE (no governo) recusaram-se a cumprir em pé o minuto de silêncio pela morte do Papa. Invocaram a regra da separação da religião e do Estado para justificar a sua atitude.

Os europeus desdenham dos americanos por andarem sempre a falar em Deus, por não se coibirem de se afirmarem publicamente como crentes. Uma das mais importantes festividades nos EUA é o Dia de Acção de Graças que tem um cariz nacional e religioso, mas multi-confessional, unindo todas as comunidades. Eu também acho um bocado hipócrita quando Bush termina o seu discurso perante o Congresso com um God bless America, depois de defender a invasão e ocupação do Iraque, num tom quase messiânico. Mas isso é a maneira de ser americana, em que os símbolos da religião entram na política, porque afinal os americanos são religiosos.

Deste lado do oceano a moda é ser ateu, ou no mínimo "agnóstico". Os portugueses engelhavam o nariz quando o então primeiro-ministro Guterres se afirmava como católico praticante e mais recentemente com as repetidas manifestações católicas de Paulo Portas. Conversão oportunista, diriam alguns.

Estamos no tempo do ser "não praticante", esse estatuto religioso que não é carne nem é peixe, em que cada um vive, obviamente, a religião à sua maneira, mas sem se deixar comprometer. "Eu cá tenho a minha fé"...

É por isso que me comove ver tanta gente empenhada em demonstrar publicamente a sua identidade e fazer disso uma festa, mesmo num tempo em que estão de luto.

publicado por Boaz às 17:13
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7 comentários:
De Gabriel a 18 de Abril de 2005 às 18:03
Rogério, não compares. É apenas mais um caso de hostilidade de dentro para fora. Alguém que tem um medo - injustificado, por sinal - de perder o lugar. Já conheço o género.
De rogrio a 18 de Abril de 2005 às 16:36
Este Jaime não está a ser um pouco elitista, ou diria mais... tem um discurso um pouco parecido com o dum senhor de bigode... nem digo mais
De Gabriel a 15 de Abril de 2005 às 16:17
Este não conhece o meu blog, se não já sabia da história.
De Jaime Cohen a 14 de Abril de 2005 às 17:09
Você é mesmo judeu? Ou é mais um suposto marrano?

Tem provas documentais como processos da Inquisição?

Descende por linha matrilinear de judias?

se não, não é judeu.

Jaime Cohen
De angel_innocent a 12 de Abril de 2005 às 17:36
só para te dizer que te "linkei" no meu blog. beijo
De angel_innocent a 12 de Abril de 2005 às 11:15
Também concordo que é comovente ver essas manifestações de fé. Quando vejo este tipo de situações até fico com arrepios e chego mesmo a ficar com a lágrima no canto do olho. Estive em Fátima aqui à uns tempos e fiquei realmente impressionada, é uma sensação fantástica, ficamos realmente emocionados e acho que conseguimos sentir muito bem o espirito do momento. (olha se quiseres passar lá no meu blog já tenho uma receita "para ti" - lasagna vegetariana) beijo
De rogrio a 11 de Abril de 2005 às 09:10
É bom ver que ainda muita gente se move pela fé, independentemente da religião ou fé...é bom ter alguma fé dentro de nós. Melhor ainda é as religiões não se atrapalharem umas ás outras respeitando, convivendo e aprendendo umas com as outras coexistindo em harmonia...

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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