Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2005

Porque é preciso não esquecer


O portão principal do campo e a torre de vigia, com os carris por onde chegavam a maioria dos prisioneiros.


'Arbeit Macht Frei' - O trabalho faz a liberdade. O incrível lema escrito no portão do campo.


Algumas das cerca de 600 crianças sobreviventes do campo de Auschwitz II-Birkenau, mostram os números de identificação tatuados no braço. Quase 7000 prisioneiros, incluindo mais de 600 crianças estavam vivos quando o campo foi libertado. (Imagem de um documentário soviético sobre a libertação de Auschwitz em 1945).

Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último vestígio de civilização desaparecera à nossa volta e dentro de nós. A obra de animalização, começada pelos alemães triunfantes, fora levada a cabo pelos alemães derrotados.

É homem quem mata, é homem que faz ou sofre injustiças; não é homem quem, perdida qualquer vergonha, divide a cama com um cadáver. Quem esperou que o seu vizinho acabasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem qualquer culpa própria, mais afastado do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais selvagem e o sádico mais atroz.

Uma parte da nossa existência reside nas almas de quem entra em contacto connosco: eis porque não é humana a existência de quem viveu dias em que o homem foi coisa aos olhos do homem. (...)

Mas a milhares de metros acima de nós, nos rasgos entre as nuvens cinzentas, desenvolviam-se os complicados milagres dos duelos aéreos. Por cima de nós, nus, impotentes, inermes, homens do nosso tempo procuravam a morte recíproca com os instrumentos mais requintados. Um gesto do seu dedo podia provocar a destruição de todo o campo, aniquilar milhares de vidas; enquanto o conjunto de todas as nossas energias e vontades não chegaria para prolongar um minuto a vida de um só de nós.

A confusão cessou à noite, e o quarto encheu-se de novo com o monólogo de Sómogyi. Na escuridão total, dei por mim acordado de repente. «L'pauv vieux» calava-se: acabara. Com o último estremecimento de vida, atirara-se da cama para o chão: ouvi o golpe dos joelhos, das ancas, dos ombros e da cabeça.

- "La mort l'a chassé de son li", sentenciou Arthur. Não podíamos certamente levá-lo para a fora durante a noite. Não nos restava mais do que voltar a dormir."

Este é o relato de Primo Levi (químico e escritor judeu italiano) do último dia em que foi prisioneiro em Auschwitz, registado na sua obra "Se Isto É Um Homem". No dia seguinte, o Exército Vermelho libertou o campo. Há exactamente 60 anos.

O que resta hoje da memória?

Mais: Liberation of Auschwitz-Birkenau by Russian troops January 27, 1945 | Yad Vashem (Museu Memorial do Holocausto, Jerusalém) | Simon Wiesenthal Center / Museum of Tolerance | Survivors of the Shoah Visual History Foundation | US Holocaust Memorial Museum (Com uma grande base de dados de fotos e histórias) | 60 anos da libertação (na BBC) | Why didn't the Allies bomb Auschwitz? (Uma boa pergunta, na BBC) | Holocaust Memorial Day (eventos no Reino Unido) | Fotos actuais dos campos de concentração / Idem (Do fotógrafo Alan Jacobs) | The Holocaust Revisited: A Retrospective Analysis of the Auschwitz-Birkenau Extermination Complex (Fotos aéreas tiradas pelos Aliados a partir de Abril de 1944. Também inclui uma descrição e história do campo) | An Auschwitz Alphabet (Baseado na obra de Primo Levi, por Jonathan Blumen) | What I Learned From Auschwitz (Do mesmo autor - o seu site, The Ethical Spectacle tem vários ensaios sobre o assunto).

publicado por Boaz às 03:03
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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