Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2005

Quem dá mais neste leilão de boa-vontade?

O mundo está mobilizado no auxílio às vítimas do tsunami no Índico. Em apenas dez dias angariou-se a nível mundial uma soma recorde para socorrer os feridos e desalojados, apoiar a reconstrução e auxiliar na tarefa de identificar e enterrar os mortos. Já se ultrapassaram os 2000 milhões de euros. É um bom sinal, aparentemente. Vários países competem no campeonato do "quem dá mais". As tabelas dos doadores estão sempre a mudar, tal é o frenesim solidário.

As nossas televisões dedicam longos minutos nos noticiários e até promovem galas de solidariedade a favor da causa. É o caso da RTP, amanhã. Na TVI, o programa do Goucha também lhe vai ser dedicado. Centenas de jornalistas de todo o mundo estão no Sudeste Asiático para mostrar as áreas devastadas, as mágoas dos sobreviventes e cobrir as operações de ajuda. (As nossas televisões continuam na sua habitual procura da lágrima e nas perguntas estúpidas às vítimas.)

Muitas empresas e gente milionária, de estrelas de Hollywood, da música e do desporto, prometem milhões em ajuda, mas que certamente não se esquecerão de deduzir na próxima declaração de impostos.

Mas, e se entre os milhares de mortos não houvesse turistas ocidentais, será que a atenção – e logo a solidariedade – seria tão grande? Nas minhas aulas de jornalismo aprendi que um dos valores-notícia é a proximidade, seja ela geográfica ou emocional. Cinicamente dizia-se nessas aulas que a vida de um francês vale a de 100 paquistaneses. Neste caso a proximidade é, por via da distância geográfica, puramente emocional. E este facto é muito fácil de provar.

Em 1997, um tufão fez mais de 140 mil mortos só no Bangladesh. Quase tantos como o total de vítimas de 26 de Dezembro.

Nessa altura, quanto milhões se angariaram para auxílio ao Bangladesh, que é um dos países mais pobres do mundo?
Quantas contas foram abertas nos bancos para arranjar dinheiro?
A TMN (ou outra operadora) lançou alguma campanha nesse sentido? Quantas mensagens de SMS foram então enviadas?

Pelo cavalgar dos números, haverá nesta altura no Darfur perto de 100 mil mortos, assassinados pelas milícias árabes janjaweed apoiadas pelo governo do Sudão.

Quantos minutos de silêncio se fizeram hoje, à porta do Parlamento Europeu, da nossa Assembleia da República, nas Bolsas, centros comerciais e ruas de todo o mundo para lembrar o Darfur?
Mais do que o silêncio, quantos minutos de denúncia desta tragédia passaram no último mês pelas televisões, pelo Parlamento Europeu e pela Assembleia da República?
Quantos aviões de ajuda humanitária foram enviados da Europa para os campos de refugiados do Chade onde procuram abrigo mais de um milhão de pessoas de Darfur?
O tenista Tim Henman, prometeu doar às vítimas do maremoto 100 dólares por cada "às" que conseguir fazer nos próximos três torneios. E quantos dólares vai doar ao Darfur?

Em apenas algumas semanas do ano de 1990, mais de 800 mil pessoas foram mortas no Ruanda num genocídio entre hutus e tutsis.

Quantos fogos de artifício de Ano Novo deixaram de ser lançados (como os de Bruxelas e Estocolmo deste ano) em homenagem à tragédia dos ruandeses?
Quantas equipas de médicos legistas europeias, americanas, australianas ou japonesas foram enviadas para o Ruanda para ajudar na identificação dos cadáveres?
Com que empenho se mostrou o Secretário-Geral da ONU num apelo para congregar esforços no auxílio às vítimas?

As respostas a todas estas perguntas são uma de duas: pouco ou nada. Porque ninguém faz turismo no Bangladesh, no Sudão ou no Ruanda.

É óptimo que as pessoas se preocupem com aquilo que se passa a milhares de quilómetros de distância. Que abdiquem de um pouco do seu conforto em favor dos que precisam. A era da globalização não serve apenas para o negócio, também serve para a solidariedade. Mas afinal, quanto renderia este leilão de boa-vontade se não houvesse gente dos nossos entre os mortos? Talvez não passasse de pouco mais que um rodapé, como é vulgar nas notícias com gente de longe...

publicado por Boaz às 23:52
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3 comentários:
De JS a 7 de Janeiro de 2005 às 17:47
É bom que expresses a tua opinião. Tal como o faço em:

http://politicatsf.blogs.sapo.pt e em:
http://joepimenta.blogs.sapo.pt
...

Sobre este assunto muitas prguntas ficam por fazer e muitas respostas ficam por obter...
Aqui vão algumas:
- Será que as explosões nucleares que se fazem naquela parte do mundo não precipitaram o aparecimento de alguns sismos?
- Será que se os Estados Unidos vão gastar tanto dinheiro em ajuda e pesquisa cientifica sobre estes acontecimentos quanto gastam com a pseudo luta contra o terrorismo?
- Será que a publicidade que é feita sobre este assuto não tem só a ver com as tendências necrofagas da comunicação social ( tedência à qual faço referencia em ... politicatsf.
...
Continua...
mas já que tiveste aulas de jornalismo... eu digo-te uma coisa... para a próxima compacta mais o teu texto ou faz um resumo à parte se não ninguém te lê...
...
Cumprimentos
JS
De Bode Expiatrio a 7 de Janeiro de 2005 às 17:18
Será quem a caridade chega? Parece que há mais promessas que entregas. As ajudas prometidas são já da ordem dos 4000 milhões de dólares, mas são PROMESSAS. No ano passado, em relação ao terramoto de Bam, no Irão, prometeu-se muito (não tanto como agora, é claro) mas menos de 10% da verba prometida chegou realmente a ser entregue. O mesmo aconteceu aquando do furacão Mitch na Guatemala e Honduras. Get the point?
De Anónimo a 6 de Janeiro de 2005 às 19:51
Assim chamas de 'hipócrita' a juda que se dá.
Eu tenho medo de fazer assim juízos tão certos! Mesmo que os números e as estatísticas t'o fundamentem, julgo que devias antes agradecer a caridade que chega.
Deves deixar de criticar o ponto de partida, mesmo que cheire a Ocidente, e deves louvar o que chega.
Poderás assim pensar: 'Bem, talvez a intenção de onde isto parte não é a melhor, mas é bem o ponto de chegada. Pena não chegar a outros em iguais circunstâncias'
Porque nunca poderás a forma de dar de quem o quer dar.

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