Quinta-feira, 25 de Novembro de 2004

Algumas razões para sorrir

Há poucos dias, em Lisboa, perdi o expresso para casa. Como o próximo era só daí a 4 horas – que serviço eficiente, hein?! – e uma vez que eu não sou pessoa de ficar sentada à espera durante tanto tempo, resolvi ir dar uma volta pela cidade. Sem destino, sem propósito. Nem sequer para ver as montras, que também é coisa que não aprecio, ainda mais quando já estão inundadas da fúria natalícia. Só andar por aí, com o rádio de bolso ligado e os auscultadores nos ouvidos.

Foi uma caminhada de alguns quilómetros, de Sete Rios ao Rossio, passando pela Praça de Espanha, Marquês de Pombal, Rato, Príncipe Real e Carmo, regressando depois pela Avenida da Liberdade, Marquês, Parque Eduardo VII e São Sebastião.

Já no dia anterior tinha notado que as pessoas raramente olham as outras na cara e mantêm sempre um ar sério, aborrecido. Assim, decidi logo à partida que ia tentar manter, enquanto caminhava calmamente, um sorriso nos lábios. E aproveitar as pequenas coisas que via para manter o sorriso. Ao mesmo tempo iria observar a reacção das pessoas quando passasse por elas com aquela disposição.

Durante as várias horas do passeio por Lisboa reparei que as pessoas, de um modo geral pareciam tristes. Andavam na rua de olhar baixo, quase sempre virado para o chão. Talvez à espera de aí encontrar a sua sorte. Raramente passava por alguém que em vez de olhar para baixo, olhava em frente, ao infinito. E ainda menos vezes alguém que me olhava nos olhos quando passava por mim. E quando isso acontecia, rapidamente desviavam o olhar. Invariavelmente, para o chão ou o infinito.

Talvez se, mesmo no meio das suas pressas tentassem observar as outras pessoas, as ruas com outros olhos, o dia até lhes poderia parecer melhor. A mim soube-me bem superar o tédio da espera pelo expresso com uma visão nova da cidade.

Encontrei inúmeras razões para ficar bem disposto. O céu azul e o Sol radioso apesar do tempo frio. O semáforo onde eu chegava e que estava verde. Passar pela porta de um edifício que conheço e pensar no que se estaria a passar lá nesse momento. Duas manilhas junto às obras do Marquês: uma metáfora ao túnel. Os telhados dos prédios e a cúpula da Estrela ao fundo da Rua do Monte Olivete: um postal turístico ou um quadro de Maluda. O panorama da Baixa no miradouro de São Pedro de Alcântara. Passar por ruas onde nunca tinha estado. Uma boa canção a tocar no rádio – o que por vezes até me fazia ter vontade de dançar no meio da rua e no mínimo me fazia caminhar ao ritmo da música. (Não, não ando a tomar drogas. Era mesmo autêntico, sem “pastilhas”.) Os vendedores de castanhas a fazer cartuxos com folhas das páginas amarelas. As bolachas de aveia e um gole de água, acompanhados da vista grandiosa do alto do Parque Eduardo VII. A escultura do Cutileiro logo ali ao lado. Um melro que a poucos metros de mim se demorou a beber água numa bica.

Ao chegar ao destino, só me arrependi de não ter andado ainda mais devagar para não ter de esperar ainda durante uma hora. Ao menos, ainda me sobravam bolachas e um pouquito de água.

Cada vez acho mais que devemos aproveitar cada bocadinho de tempo para tirar o máximo das mais pequenas coisas, em vez de nos queixarmos de tudo. Ainda mais, após uma senhora de 30 e poucos anos que conheci recentemente me ter dito que, apesar de estar sem trabalho e depois de dois tumores cranianos se considerar uma privilegiada. E ter sempre um sorriso nos lábios.

publicado por Boaz às 04:43
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6 comentários:
De Paula a 27 de Dezembro de 2004 às 17:01
Adorei. Era disto q te falava qd dizia q estavas amargo e sem capacidade para te entusiasmares com as pequenas coisas da vida! Bem-vindo! N é mt melhor deste lado?
De rogrio a 29 de Novembro de 2004 às 16:48
Eu prefiro dizer viva a nossa mente...que de vez enquando é diferente :)
De Bode Expiatrio a 25 de Novembro de 2004 às 16:10
ffun amigo, não creio que Leiria seja muito mais sorridente e de cabeça levantada.
De ffun a 25 de Novembro de 2004 às 13:39
Viva Leiria!
De gonzas a 25 de Novembro de 2004 às 12:18
Cabeça sempre baixa, ar triste e apressado... bem-vindo a Lisboa. Não é pela cidade que não gosto de cá andar, mas sim pelas pessoas. Sente-se a tristeza e o stress em cada pessoa que se cruza no teu caminho. E isso faz-me sentir "velho".
De victor a 28 de Outubro de 2007 às 00:39
Adoro o que escreve simplesmente me identifico com você por além de ser brasileiro eu ser também português. Acho que por termos um mundo apressado nossa vida se torna vazia e os pequenos detalhes como um simples gesto como o sorriso se tornam escassos.

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