Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007

Quem se lembra dos Arménios?

Vizinho do Bairro Judeu fica o Bairro Arménio, o mais pequeno dos bairros da Cidade Velha da Jerusalém. Daquela que foi outrora uma comunidade influente e numerosa, restam hoje poucos milhares de residentes. Muitas das casas do bairro são hoje habitadas por judeus. Com a afluência contínua de novos habitantes à Cidade Velha, deparando-se com a falta de casas no Bairro Judeu, a alternativa é o Bairro Arménio.


Mosteiro Arménio na Cidade Velha de Jerusalém, 1910

Uma das marcas do Bairro Arménio são os permanentes cartazes colados nas paredes das ruas principais, muito frequentadas por turistas. De tempos a tempos são renovados, pois a mensagem neles contida tem de continuar a ser difundida. A mensagem de recordar o genocídio dos Arménios, perpetrado pelos Turcos em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial.

Aproveitando-se do facto de as atenções do Mundo estarem dirigidas para o conflito que grassava na Europa, o governo turco ordenou a deportação maciça do Povo Arménio que habitava a parte oriental do território turco. Uma a uma, aldeias e cidades inteiras, e os bairros arménios nas cidades turcas foram esvaziados. Primeiro os homens, válidos para a guerra e para evitar que se formassem num exército de guerrilheiros, foram levados para fora das povoações e assassinados. Depois, a restante população: mulheres, crianças e velhos foram ordenados caminhar durante semanas e meses em direcção ao sul, ao deserto da Síria. A fome, a sede, a tortura dos guardas turcos que os escoltavam fizeram centenas de milhares de mortos.

Em poucos meses, mais de um milhão de Arménios foram aniquilados e despojados da sua terra natal por quase 3000 anos. E isto, em nome de um estado turco homogéneo com um povo único, uma língua e uma religião. Depois de terminado o trabalho, as autoridades turcas depressa se ocuparam em ocultar as provas dos seus crimes, tornando-se "o Genocídio Esquecido".

A tragédia dos Arménios foi o primeiro genocídio do século XX. Duas décadas depois, um certo soldado austríaco com pretensões imperialistas inspirou-se exactamente no trabalho que haviam feito os turcos e na falta de memória da Humanidade, para executar a "Solução Final do Problema Judaico". Terá dito «Hoje, quem se lembra dos Arménios?»

Com o empurrão que lhe faltava para levar a cabo os seus intentos genocidas, as deportações em massa de Judeus começaram em toda a Europa ocupada pelos Nazis.

Israel, como herdeiro principal da memória da Shoa - em especial quando do Irão e entre alguma intelectualidade europeia e americana se levantam vozes que pretendem apagar a história e negar que o Holocausto alguma vez teve lugar - tem também a responsabilidade de não deixar cair no esquecimento o Genocídio Arménio.

No entanto, por conveniência política da sua aliança com a Turquia - o maior aliado de Israel no Médio Oriente - pressões para o estado turco reconheça, 90 anos depois (!), as suas responsabilidades para com a tragédia de 1915, não constam da agenda da política externa israelita. Neste aspecto a União Europeia pode dizer-se que pôs a pressão no momento chave. Numa altura em que a Turquia pretende entrar no clube europeu, a UE colocou com uma das condições essenciais para a sua entrada, o reconhecimento do Genocídio Arménio.

Por aqui, os Arménios continuam, entre a sua vida quotidiana a tentar preservar a memória com os cartazes. Não sei quantos turistas reparam, e se reparam, se dispensam alguns minutos para ler o que deles consta. Num esforço hercúleo de quem sabe que a memória colectiva é, para os que estão de fora, algo muito difícil de manter.

Num mundo cheio de distracções, todos nós temos ligado pouco ao que se passa no Sudão. Os Arménios foram chacinados há 90 anos, os Judeus, há 60, os Ruandeses há pouco mais de 10. Em Darfur o genocídio é uma realidade actual, diária. Alguns até podiam argumentar com a falta de informação, pela indiferença em 1915 ou em 1933-45. Mas na década de 90 no Ruanda e hoje, no Darfur, ninguém - ninguém mesmo - pode dizer que não sabe o que se passa.

publicado por Boaz às 11:50
link do artigo | Comente | favorito
6 comentários:
De joao moreira a 8 de Janeiro de 2007 às 23:15
Os "impérios" impuseram-se a muitos povos. O povo arménio foi vítima do otomano. É um povo de uma religião encaixado entre povos que seguem outra religião. O conflito no Nagorno-Karabah continua vivo Este enclave em território azeri proclamou a independência, apenas reconhecidopela Arménia.
De a. cardoso a 2 de Janeiro de 2007 às 09:34
Mas para muitos e muito mais facil fazer de conta que esses genocidios nao aconteceram, nem continuam a acontecer.
E que no Dafur, tal como na Armenia, sao originados por gente de uma religiao que parece que ninguem tem coragem de combater, quando se derem conta se calhar sera tarde demais.

Shalom.
De fran a 5 de Setembro de 2007 às 03:13
belo post. realmente, não dá pra esquecer o que foi feito. e não importa se vc é armênio, judeu, argentino ou francês. foi um ato covarde contra a humanidade
De fábio daniel a 24 de Abril de 2011 às 12:00
como sempre Boaz, o texto está excelente. de facto é sempre muito fácil ignorar os acontecimentos. os que aconteceram a quase 100 anos atrás a mídia ainda engatinhava para levar a público mas, o que acontecem diariamente, nos dias de hoje, fica a ignoráncia somente de quem quer.
De António Silva a 24 de Abril de 2011 às 22:51
O filme Ararat do Atom Egoyan é muito esclarecedor. Recomendo como fonte de informação complementar para melhor entender o genocídio dos arménios.
De Anónimo a 30 de Abril de 2011 às 22:53
Conheço esse filme. É realmente muito bom.

Comentar artigo

.Sobre o autor


Página Pessoal
Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente

.Pesquisar no blog

Este blog está registado
IBSN: Internet Blog Serial Number 1-613-12-5771

É proibido o uso de conteúdos sem autorização

.Artigos recentes

. Pontes e muros entre Roma...

. Habemus "chaver" no Vatic...

. Quando a sirene toca, de ...

. Morto e envenenado (por e...

. A onda africana

. Vêm aí os Persas?

. Jihad casher? – os fanáti...

. Passerelle de Jerusalém

. A Cruz nas terras do Cres...

. Os moicanos de hoje

. De bolha em bolha (de Cop...

. 9/11 – A década

. Kiddush com tequila (Em t...

. De olhos na Diáspora

. Mazal tov!

.Ligações

.Visitantes

Jewish Bloggers
Powered By Ringsurf

.Arquivos

. Maio 2014

. Março 2013

. Novembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

.subscrever feeds

Partilhar