Sexta-feira, 1 de Outubro de 2004

Entre a batalha-naval e a Miss Universo

O primeiro debate entre os candidatos às próximas eleições presidenciais americanas, George W. Bush e John Kerry, teve lugar ontem, em Miami. O encontro foi dominado pelas questões da política externa, com o Iraque, obviamente, no centro das atenções.

Se alguém pensava em algo animado, coincidente com o espectáculo habitual que costuma caracterizar as campanhas eleitorais na América, ficou decerto desapontado. Nos tempos que atravessamos, em que o Mundo olha para as próximas eleições nos EUA quase como uma decisão entre a salvação messiânica - somos uns sonhadores... - ou a confirmação do desastre, esperava-se que o encontro pudesse ajudar a afundar Bush e levar Kerry para a frente das sondagens. Bastava a Kerry provar aquilo que para a maioria dos não-americanos é claríssimo: que ele é, no mínimo, mais inteligente que o actual presidente americano.

O debate foi tão morno e tão pouco apelativo (sobretudo mediaticamente), que não tenho a certeza que isso ficou claro para os americanos. E nós sabemos que eles são um bocado míopes nestas coisas de política...

A tarefa de Kerry também não era a mais fácil - a George Bush bastava aguentar-se, o que conseguiu, pois era Kerry quem tinha de "atacar" - e as regras do encontro serviam mais para disfarçar as debilidades mediáticas do texano, que para mostrar as verdadeiras capacidades de ambos.

Em directo na Euronews, na emissão da 2: - à mesma hora de uma excelente mini-série policial inglesa na TVI, bolas! - assistiu-se a pouco mais do que um sonolento monólogo com dois participantes. Um jogo de batalha-naval: ora atiras tu, ora atiro eu. As perguntas eram dirigidas a um dos candidatos, alternadamente, que tinha apenas 2 minutos para responder. O opositor dispunha depois de 90 segundos para contrapor e o primeiro podia defender-se em mais 30 segundos. Para assegurar o "timing", a cada momento havia 3 luzinhas que assinalavam o passar do tempo. A última era vermelha, sinal inequívoco de "time-out".

Kerry, é certo, mostrou-se mais solto no discurso, parecendo não ter tanta dificuldade em expressar as suas posições sobre os assuntos, apesar das várias argolas onde tem enfiado o pé, com algumas incoerências que se têm descoberto entre o seu discurso e a sua acção (em especial no dossiê iraquiano). Várias vezes Bush se mostrou visivelmente atrapalhado com a maior desenvoltura do opositor e, apesar da sua habitual pobreza de discurso, explorou as fraquezas de John Kerry e lá se foi safando aos seus dardos.

Para evitar que o público percebesse a diferença de altura entre os dois - Kerry é um bocado mais alto e na era mediática isso também conta - os candidatos raramente apareciam no mesmo plano de imagem e ainda estavam afastados vários metros um do outro. Ao contrário de debates em campanhas anteriores, as regras ditavam que nenhum podia levar sapatos de salto alto.

George W. Bush manteve a sua tendência para a piadinha e os sorrisos, enquanto o candidato democrata se mostrou mais sério. Até houve lugar para o elogio mútuo! Questionados sobre os pontos positivos que destacavam no adversário, Bush - verdadeiramente espantado com a pergunta - lá destacou os anos de serviço que Kerry dedicou à nação e o seu exemplo de pai e que as filhas de Kerry são amigas das filhas de Bush (que lindo, depois daquilo, devem ter ido todos tomar um cházinho em família!). Aparentemente, não encontrando nada para destacar do presidente, Kerry dirigiu os seus carinhos para a mulher, Laura: «uma excelente Primeira Dama». Viva a cordialidade.

Tanto Kerry como Bush se comportaram como se fossem no desfile de Miss Universo, cheios de desejos para a paz mundial e é obvio que ambos tinham de terminar com um tão americano "God bless America".

Ainda faltam mais dois debates até às eleições. Se a lista de regras se mantiver, vamos ouvir mais do mesmo, e não creio que os americanos, pelo menos os indecisos, consigam ver as diferenças entre os concorrentes à Casa Branca. O risco é ficarmos todos a perder.

publicado por Boaz às 17:04
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1 comentário:
De gonzas a 4 de Outubro de 2004 às 10:22
Lá vêm mais uns anos a aturar uma aberração mal falante...
Parabéns pelo Blog.

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