Domingo, 13 de Maio de 2007

Boaz, o deicida

Há sempre uma primeira vez, para (quase) tudo. Desta vez, dei em assassino. Bem, pelo menos é a fama que, pelos vistos e sem ter dela a mínima consciência, me acompanhava.

No último Sábado à noite, em Lisboa, regressava da sinagoga para a casa onde passei o Shabbat, com mais dois membros da comunidade judaica lisboeta. Quando atravessávamos a passagem subterrânea da estação de metro no Marquês de Pombal, na altura em que subíamos as escadas de um dos lados da Praça, ouvimos: "Deviam ter vergonha. Mataram a Jesus!"

Passámos e não respondemos. Uma das pessoas que me acompanhava observou pouco depois: "Foi a primeira vez. Nunca me tinha acontecido".

Mantendo o hábito que trouxe de Jerusalém, eu levava a minha kippa bem à vista, ao contrário do que é normal entre os Judeus de Lisboa, que têm o costume de ocultar os símbolos externos do seu Judaísmo. Um dos homens que me acompanhava levava um chapéu negro, o outro, um boné. Assim, deve ter sido pela clara exibição da minha kippa que fomos reconhecidos como judeus.

Pelo tom pastoso da voz do "acusador" - das duas uma - ou tinha acabado de sair do dentista ou estava mesmo bêbedo. Faz-me lembrar um episódio ocorrido com Mel Gibson o qual, durante uma "operação stop" da polícia também vomitou uma série de vitupérios anti-semitas contra o agente.

Há um provérbio judaico que diz: "entra o vinho, sai o segredo". Nestes casos, por via do álcool, se revelam os sentimentos de cada um. A acção do vinho faz cair as máscaras e expõe os homens na sua forma mais autêntica. Sob o seu efeito não há politicamente-correcto, etiqueta ou a básica boa educação.


O judeu errante, de Gustave Doré.
Pela sua imperdoável culpa na morte de Jesus, o judeu foi condenado a vaguear eternamente.


 

A acusação de deicida atribuída aos Judeus foi, nos últimos dois milénios, a desculpa para toda a espécie de humilhções e massacres. Conjugada com outras acusações e mitos surgidos durante os séculos. A arma de destruição maciça perfeita para atrair as massas populares a dar uma mãozinha na empreitada de Inquisições, sucessivas expulsões, pogroms. E a Shoá. O recorrente argumento tornado válido para perpetuar um ódio secular e nunca ultrapassado.

Apesar deste episódio e da possibilidade de acontecer de novo, não deixei, nem penso deixar, de andar com a minha kippa bem à vista. Seja em Lisboa onde, entre a multidão, até posso passar despercebido, seja na Batalha, onde a maioria das pessoas me conhece.

É verdade que o Portugal de hoje está, felizmente, muito longe do país anti-semita de outrora. Os ataques contra judeus são praticamente inexistentes entre nós, ao contrário do que acontece em países como a França, a Bélgica ou o Reino Unido.

Todavia, um caso destes, mesmo isolado, não deixa de revelar, nas entrelinhas, o tal bichinho do caruncho normalmente escondido que, de tempos a tempos, fura até à superfície.

Quando, em Israel, dizia convicto que em Portugal não existe anti-semitismo, sempre alguém, pouco convencido disso me dizia que ele apenas está oculto, mas está sempre presente. E que sempre se encontra alguém que não aceita que o judeu simplesmente continue a existir.

publicado por Boaz às 15:18
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14 comentários:
De Daniel a 16 de Maio de 2007 às 23:35
Levantar a cabeça e seguir em frente.
A atitude de segredo, passividade, refúgio, que o Judeu tradicionalmente segue em Portugal torna-o responsável pela impunidade que sente o imbecil com que se cruzou. É a minha opinião.
No entanto, quando releio o que escrevi, levanto os olhos do ecrã e vejo a minha família. Confesso que temo. Não minto se disser que todos os dias me pergunto se é possível ser-se Judeu fora de Israel. Até onde se pode dobra um homem? A comer bitoques?
De MCA a 18 de Maio de 2007 às 11:31
Boaz , não dês demasiada importância a esse tipo de atitudes. A estupidez humana não tem limites e desaba constantemente sobre tudo o que seja estereótipos , do judeu à loura, do funcionário público à sogra. Claro que, quando esses estereótipos envolvem grupos étnicos, culturais ou religiosos, podem tornar-se muito perigosos. Também já ouvi queixas de brasileiros e negros (até nascidos cá!) em relação a frases do tipo «Vai para a tua terra». Imagino - embora não conheça nenhum - que os muçulmanos sintam o mesmo problema por assumirem o véu islâmico e outros sinais exteriores da sua fé.
Quanto a esse idiota em particular, esse que te insultou, até duvido que seja português. Um português diria «mataram Jesus» e não «mataram a Jesus». Bom, isto já é pura especulação. Mas esse tipo de fanatismo é mais comum nas seitas pseudo-cristãs (muito divulgadas entre os brasileiros) e não nos católicos.
Com os católicos não tens de te preocupar. Acho que aprenderam a lição da história. Digo eu... :-)
De Boaz a 19 de Maio de 2007 às 23:46
Também percebi a calinada no português do "acusador" quando disse "Mataram a Jesus". Mas creio que esse erro se devia mais ao estado de bebedeira que o dito cujo aparentava do que a uma eventual ignorância pela nossa gramática.
De MCA a 21 de Maio de 2007 às 10:30
Uma achega "teológica". É uma estupidez da parte dos cristãos odiarem os judeus por terem morto Jesus e isto por duas razões: primeira, porque quem matou Jesus foram os romanos e não os judeus; segunda, porque se os cristãos realmente acreditam que Jesus era o Messias esperado pelos judeus, também acreditam que esse Messias teria de morrer para ressuscitar, logo, quem o matou apenas cumpriu uma missão. Não acreditar nisto é o mesmo que dizer que Jesus não era o Messias e que os judeus tinham razão em não o seguirem. Ou a lógica é uma batata. Pra mim é indiferente, claro... :-)
De António a 24 de Maio de 2007 às 00:13
Com que então cá por Portugal. Estamos cada vez mais quadrados, não é?
Que tenha uma boa estadia por cá.
Sou cristão porque sou, porque me marcaram desde a nascença.
Mas, sinceramente, penso que todos nós temos é medo, medo do desconhecido, do incógnito que nos envolve e que não conseguimos tocar.
Cá vamos andando...
Shalom

De joao moreira a 26 de Maio de 2007 às 23:37
É assim: as pessoas dizem que não! Não são racistas nem intolerantes! E, muitas vezes, não o expressando, pensam-no. Quando o descontrolo é maior descobre-se a careca. Os problemas sociais mais estimulam estes preconceitos. Os africanos, os imigrantes, os...judeus! Quando surge algum conflito ou tragédia há que apontar e inputar o sucedido a alguém. Os ditos estão na linha da frente. Esse atavismo está latente nas gerações que viveram àfrica, de uma maneira ou de outra; os conflitos europeus ou que foram educados/as num sentimento de "supremacia" e de grandes feitos imperiais. Penso que esses sentimentos se manifestam menos (felizmente!) nas novas gerações.

João Moreira
De MARK ROBERTSON a 4 de Junho de 2007 às 09:30
Canhoto, deixa um pouco de brasa para a minha sardinha! Era um dos teus acompanhantes judeus (dos que alegadamente andam sempre a paisana). Sabes muito bem que ando sempre com kipa e em Shabat com chapéu preto e kipa . O chapéu preto de abas largas é tão tipicamente judeu como o teu kipa branquinho (estilo que o papa também usa).
De paulina a 8 de Fevereiro de 2009 às 15:50
Caro Boaz/Canhoto. Brasileira origem judaica. Cheguei ao Blog procurando 'Geicida' no Google. Teu site 1o. da lista. PARABENS PELO CONTEÚDO. Pena que o fluxo parou (ultimo comentario em junho07). Entendi..foi um fato de 'momento' (?). Venho, pois, - espero - trazer nova semente; aprofundar debate. A tua APRESENTAÇÃO está PERFEITA e COMPLETA. Por que procurei o Termo 'DEICIDA'?. Acompanho sempre os fatos mundiais com vivo interesse. O recente Conflito de Gaza fez aflorar os milenares demônios adormecidos. Na tentativa de entender bem o que se passava no oriente médio, buscava notícias. Coincidentemente comecei a receber emails de amigos, com comentários (respondia: COMENTÁRIOS críticas). Certo dia recebi email de desconhecido, intitula-se Teólogo Prof e Frei e rotula a defesa de Israel como reação desproporcional e, ao longo do extenso discurso que um povo como o hebreu (classifica como FORTE e poderoso) deveria ter aprendido ao longo da historia..(Redobrei minha dedicação ao noticiário para ter suficiente bagagem para respostas robustas. Amplio meus conhecimentos analisando dezenas de notícias/debates televisivos, enfim tudo que possa enriquecer acervo de conhecimentos e contínuo a mandar-lhe tais resultados, em confronto ao seu manifesto (e conversa telefonica que tivemos, posteriormente). Nesse fluxo de informações, deparei-me com as do Bispo Richard Williamson, e sua Teoria do Negacionismo..entre os comentarios disse alguém que o ref. Bispo teria levantado, outrossim, a Teoria do Deicismo. Ao tentar me aprofundar no assunto, online - Google - 1o. site - O SEU. E sobre o qual quero tecer meus primeiros e diversos comentários: Não se deve jamais esquecer a dimensão da "Shoá" (na verdade das Shoàs); não subvalorizar o Ódio Racial - INFELIZMENTE ele existe; e grande (descomunal) - quisera estar enganada - ele tem textura sutil como micro-vasos-capilares (imperceptíveis), como vulcões (lança todo seu estrondo instante), qual veneno do animal mais peçonhento: dá subito bote, mata em segundos; como na floresta seca: basta tênue chama para devorar tudo. Devemos estar atentos aos menores (e até ao mais aparentemente inocente) comentários. È no disfarce que se encontra o maior perigo. E é na passividade que o povo judeu mais apanhou. Pelas dores e lágrimas derramadas, temos de ter como lema "passividade nunca mais". Como exemplo cito o fato do Lider da Comunidade Judaica em Roma que revidou de imediato a Teoria do Negacionismo do Bispo e forçou o Papa a se posicionar firme e claramente. O terreno do diálogo sincero, da palavra verdadeira e do esclarecimento é o mais fértil para o entendimento de todos os seres e extirpar todos os ódios. Shalom.
De Boaz a 8 de Fevereiro de 2009 às 21:53
O fluxo de comentários parou em Junho de 2007, tal como você observou pelo simples facto de o artigo ter sido escrito em Maio de... 2007. Com a passagem do artigo para o fundo da página de entrada do blog e depois para a gaveta dos arquivos, pouco o lêem e logo, poucos o comentam.
De paulina a 9 de Fevereiro de 2009 às 01:56
Olá Boaz
Estimei muitissimo sua pronta réplica. Grande pena não estar sendo sua pagina visitada com frequencia. Seu artigo deveria ser lido amiude. De minha parte estou divulgando para várias pessoas (familiares/ amigos). Certamente vão ler a matéria. Quem sabe -um ou outro - até responder. Veja como eu tinha razão. O anti-semitismo é um demônio muito presente, fica latente a espreita de uma ocasião propícia. Na primeira oportunidade o monstro se manifesta. Há pouco, ao abrir o site do meu provedor - Terra - deparei-me com a seguinte noticia: Onze pessoas são presas por atacar sinagoga em Caracas ... Procuradoria da Venezuela comunicou neste domingo detenção de policiais e civis por suposta participação no ataque à principal sinagoga de Caracas, ocorrido em 31 janeiro ultimo...E que "Pelo menos 12 pessoas com máscaras invadiram a sinagoga..destruíndo objetos além de pichar paredes com insultos aos judeus. O fato ocorreu alguns dias após o presidente da Venezuela, Hugo Chávez romper relações com Israel (assunto completo está no site do 'TERRA' - fácil de acessar. Lá vc vai encontrar outras noticias de assunto paralelo: 1 - Chávez condena ataque à sinagoga e nega ódio aos judeus 2 - Chávez sugere que oposição está por trás de ataque a sinagoga 3 - Sinagoga venezuelana é atacada em meio a tensão com Israel... e sugere até que se faça comentários. haja tempo para..COMENTARIOS & Comentários & COMENTARIOS. Esta me estarreceu!! Quem diria na Venezuela!!...nem a Venezuela escapa.. Conclui-se: ODIO RACIAL/ anti-semitismo está disseminado por toda parte. A infantil 'represália' teve, sem dúvida - um propósito provocativo - cujos efeitos foram exatamente os esperados.

De Boaz a 9 de Fevereiro de 2009 às 19:59
Eu até acho que o meu blog tem um bom número de visitas, bem mais do que eu esperava. Não faço publicidade nenhuma, a não ser um link no final dos meus emails, junto com o meu endereço.
A única forma de publicidade que não é da minha responsabilidade é o boca-em-boca. Não tenho grandes ambições para o blog. É só um pequeno capricho meu.
De DINO ALVES a 9 de Outubro de 2010 às 06:47

Uma vez encontrei um homem, que pregava contra
o Estado de ISRAEL. Um homem vestido de Rabino.
Logo senti ódio por aquele homem.

Que me perguntou: por que odeia um Judeu?


Eu não sabia.
Era um Rabino NETUREI KARTA.
De Boaz a 10 de Outubro de 2010 às 20:44
Não se preocupe com os Neturei Karta. São barulhentos e gostam de aparecer nas notícas, nem que seja a darem beijinhos ao Ahmadinejad.
Porém, até mesmo os judeus ultra-ortodoxos mais anti-sionistas, como os da linha Satmer e Toldot-Aharon, os consideram como excomungados.
Estão em tão má consideração que foram expulsos de várias sinagogas e comunidades, em Israel, Londres ou Viena.
São poucas dezenas de lunáticos que só são levados a sério por gente tão anti-Israel como eles, como o tal presidente do Irão, o Hezbollah, ou esquerdalhada fanática europeia.
De david garon a 4 de Março de 2011 às 04:14
muito bom boaz...eu me lembro de ter te falado isso: antissemitismo existe, mesmo que oculto...abraços

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