Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Silêncios ao som das bombas

Desde há quase duas semanas, que todos os dias ouvimos e vemos nas notícias o regresso da violência em larga escala no Líbano. O exército libanês ataca com toda a sua força as posições de uma tal Fatah al-Islam, um grupo terrorista palestiniano derivado da OLP e com alegadas ligações à Al-Qaeda em dois campos de refugiados. Os sinistros membros desse grupo terrorista fizeram já saber que lutarão até à morte. Como todo o bom terrorista, aliás.

Ao mesmo tempo que a situação se arrasta, não vemos qualquer reacção dos nossos "defensores dos oprimidos" de ocasião. Voltemos então no tempo até Março de 2002 e façamos uma breve comparação.

Na altura, a Europa tinha manifestações umas atrás das outras a condenar Israel por uma acção militar no campo de refugiados de Jenin, onde o exército israelita combatia militantes palestinianos armados. Israel foi, sem piedade, acusado de enormes atrocidades e de matar centenas de civis. Mesmo em Lisboa, frente à embaixada israelita, bloquistas, comunistas e simpatizantes gritaram slogans acusatórios e empunharam cartazes mostrando de um lado, uma inocente e heróica criancinha palestiniana de pedra na mão e do outro, o arrogante e terrível tanque israelita.

"Estes bárbaros são capazes de tudo!" rosnava um músico decadente aos microfones da televisão. "Podiam ser os nossos filhos...", carpia uma mãezinha amargurada de cartaz em punho.

Investigações posteriores por parte de observadores internacionais provaram que as "centenas de civis chacinados" em Jenin foram afinal 70 e, na sua maioria, militantes armados. Na altura, Israel mandou soldados de infantaria para o terreno para minorar as baixas civis e limitar a destruição. Mesmo assim as acusações choveram contra Israel, apesar de terem morrido mais de 20 soldados do Tzahal durante a operação.

Ora, de volta ao presente, o exército libanês bombardeia diariamente e com artilharia pesada campos de refugiados no norte e no sul do país, onde muitos civis ainda se encontram encarcerados sem conseguir escapar do meio dos combates.

E os justiceiros da nossa praça calam-se. Parecem não ver as ligações entre os casos. É que até os coitadinhos são aparentados: tanto a Fatah al-Islam de Nahr al-Bared, como as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa de Jenin descendem de uma forma ou de outra do aparelho da OLP, a organização fundada pelo saudoso Yasser Arafat, o grande herói da malta que gritava contra Israel por essa Europa fora em 2002.

A razão deste silêncio é evidente. Afinal, é ideia aceite que os Árabes e os Muçulmanos são inimputáveis. Afinal, se eles se matam entre eles, alguma razão devem ter. Seja o exército libanês, os sunitas e xiitas em guerra aberta entre si no Iraque, os talibãs no Afeganistão, os lacaios do governo sudanês no Darfur, os senhores da guerra na Somália e por aí em diante. A lista seguiria longa. Só vale mesmo a pena ladrar e empunhar vistosos cartazes quando são as bestas ocidentais a matar cidadãos árabes. Seja Israel (posto avançado do Ocidente no Mundo Árabe), sejam os EUA no Iraque.

É que é apenas seguindo este modelo que o tradicional maniqueísmo da esquerda europeia funciona. É óbvio que esses senhores não estão para admitir que os seus modelos de valores estão, há muito, caducos.

publicado por Boaz às 20:47
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