Domingo, 1 de Julho de 2007

A minha mala de cartão

Cheguei a Israel na passada quarta-feira. Todavia, esta chegada, a minha quinta ao país, não tem paralelo com as outras. Agora cheguei como imigrante. Sem o aparato de muitas chegadas de imigrantes dos Estados Unidos, com milhares de pessoas à espera com bandeirinhas, mas com todos os passos planeados a partir do momento da aterragem no aeroporto de Ben Gurion.


Imigrantes de Marrocos no aeroporto de Lod, onde chegaram num avião vindo de França, 1954

Comecei o processo de aliya (nome dado à emigração para Israel e que, literalmente, significa "subida") ainda em Jerusalém, nos finais de Fevereiro último. Numa ida ocasional a um gabinete da Agência Judaica, para acompanhar um colega da yeshiva entretanto chegado a Israel, pedi eu também informações sobre os procedimentos de imigração.

Mais dúvidas surgiram e acabei por contactar o serviço em língua espanhola ou portuguesa do Global Center da Agência Judaica. Fui a uma entrevista, preenchi uns papéis e levei os meus documentos essenciais à abertura do ficheiro para a minha imigração: o passaporte e a chamada teudat hamará (uma declaração que atesta que eu sou judeu após passar o processo de conversão), essencial para assegurar o meu direito a emigrar para Israel.

Mais uma ida ao Global Center entregar uns papéis que faltavam e uma troca de e-mails com informações. Aos poucos, a data da minha aliya ia ficando mais clara. Após receber a garantia de ter todo o processo tratado e entretanto transferida a minha pasta para a delegação da Agência Judaica em Madrid – responsável também pelos raros casos de portugueses que emigram para Israel – resolvi comprar a viagem para Portugal. Todo o dinheiro que havia ganho em sete dias de trabalho nas limpezas antes de Pessah serviu para pagar o bilhete. Aproveitava para visitar a família e sabia que o meu voo de regresso a Israel seria pago pela Agência Judaica. E entretanto evitaria ter de renovar o meu visto de turista, entretanto a caducar. E como só poderia fazer aliya quando completasse um ano após a conversão, seria o timing perfeito.

Com a chegada a Portugal tive de ligar para Jerusalém, a confirmar que já me encontrava fora do país. Os trâmites seguiriam agora a partir de Madrid. Informada a embaixada israelita em Lisboa, estava aberta a porta para a obtenção de um "visto de aliya". Só foi necessário encontrar uma data em que o horário da embaixada coincidisse com a minha permanência em Lisboa às sextas-feiras. Coisa difícil, já que a delegação israelita fecha ao meio-dia e eu chegava normalmente à capital à uma da tarde. Levantar-me bem mais cedo e apanhar o autocarro das 8 da manhã para Lisboa foi a única opção. E esperar que não houvesse nada de extraordinário na embaixada que me impedisse de tratar da burocracia.

Numa das minhas idas de final de semana à capital para passar o Shabbat, fui à embaixada para pedir o visto. O habitual aparato de segurança no local foi facilmente ultrapassado com uma conversa em hebraico com um dos seguranças israelitas e o mostrar do passaporte com uma série de carimbos estampados em Israel. Algumas informações num questionário e pronto. Seria só esperar dois dias e o visto estaria pronto. E o senhor cônsul desejava falar comigo...

Chegara a altura de marcar a data do voo de regresso a Israel. Oferta do governo de Israel através da EL-AL, foi-me dito que o receberia por e-mail. Só sabia a data e a hora. Mas havia um problema: o voo seria apenas entre Madrid e Tel Aviv. A viagem Lisboa-Madrid teria eu de a comprar e seria posteriormente reembolsado. Procedimento estranho se comparado com o que acontece com os emigrantes que viajam da América Latina, aos quais a viajem é paga integralmente desde o início. Com grande aperto, lá consegui um voo para Madrid na data exacta que necessitava. E ainda tive de enviar o próprio bilhete, a factura e os dados da minha conta bancária para a delegação madrilena da Agência Judaica.

Telefonema para um lado, e-mail para o outro, agora parece que o dito cujo vai ser pago pelo consulado de Israel em Espanha. Vá-se lá saber... We wait and we wonder.

E ainda me falta toda a fase do processo após a chegada. Isso é outra empreitada.

publicado por Boaz às 11:51
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8 comentários:
De MCA a 11 de Julho de 2007 às 10:20
A ver se eu percebi bem: é preciso ser judeu (de religião) para emigar para Israel? Não aceitam imigrantes cristãos? Ou ateus?...
De Johny-12 a 11 de Julho de 2007 às 22:19
Parabéns pelo sonho que finalmente se concretiza talvez um dia nos conheçamos pessoalmente em Jerusalem!

abraço!
De Boaz a 12 de Julho de 2007 às 22:14
Não é preciso ser judeu de acordo com a lei judaica (que reconhece como judeu o filho de uma mulher judia). A lei israelita, para efeitos de imigração permite também os filhos de pai judeu. Um cristão que seja filho de judeus pode também. Ateu, igualmente. Não é uma questão de religião pura e simples, é uma questão de descendência. Afinal, há dezenas de países de mairoa cristã no Mundo e apenas um de maioria judaica.
De MCA a 13 de Julho de 2007 às 12:13
Desconhecia e não quero fazer juízos precipitados mas cheira a "pureza de raça"... no Ocidente uma atitude dessas seria altamente criticada.
De Boaz a 14 de Julho de 2007 às 20:42
Só para que conste: não existe uma "raça judaica", portanto essa tal de "pureza de raça", não tem qualquer sentido. Em qualquer país, definem-se parâmetros para a imigração. Em Portugal, por exemplo, facilita-se a imigração dos descendentes dos portugueses. E isso, não entra na sua definição de pureza de raça? Em Israel facilita-se a imigração dos judeus (mesmo que não sejam judeus pela definição da lei religiosa judaica), mas não se exclui, em determinados casos, a legalização de pesoas sem qualquer vínculo ao Judaísmo.
De MCA a 16 de Julho de 2007 às 10:43
Ok. Claro que não existe uma raça judaica. Mas como também há por aí uns malucos que acham que existe uma "raça portuguesa"... Como critério de prioridade, acho compreensível. Como critério de exclusividade acharia mal.
De carla neves a 31 de Julho de 2007 às 12:18
Ólá passei por aqui como quem não quer a coisa e n pude deixar de ler, eu a pensar que só em Portugal é que existia o problema da burocracia, mas parece-me que deste mal padecem todos os paises.
Bjs e bom "inicio " de vida.
carla
De Yôga a 2 de Agosto de 2007 às 00:46
às vezes poderiamos fazer uma viagem às nossas origens... talvez se encontre verdadeiras essencias.
Pratico SwáSthya Yôga para me encontrar comigo mesmo e resgatar da origem o que de importante é para o ser humano
Parabens pelo blog

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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