Domingo, 8 de Julho de 2007

Ousar a Utopia

Numa pesquisa recente na Internet encontrei no sítio da revista Foreign Policy uma série de textos de activistas e pensadores sobre a situação actual do nosso Mundo. O mote apresentado a esses pensadores, publicado na edição de Maio/Junho de 2007 foi apresentado como "21 soluções para salvar o Mundo". Implementação da democracia, respeito pelos direitos humanos, leis de mercado tendencialmente justas, alternativas energéticas, mudança de políticas ambientais para travar/reverter o aquecimento global, luta contra a pobreza ou acesso à educação, eram alguns dos gigantescos desafios para os quais apresentaram ideias.

Por exemplo, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, hoje convertido em activista político (e grande opositor de Vladimir Putin) propôs a assinatura de uma Magna Carta global que substituísse a caduca Organização das Nações Unidas. Afinal, como observa Kasparov, "terroristas e ditadores são recebidos com cortesia na arena da diplomacia, apesar do seu total desprezo, e até ódio pelo que representa a civilização ocidental."

Sendo a ONU uma organização onde democratas e tiranos são colocados no mesmo nível do palanque, e onde, para vergonha universal, os primeiros se deixam – em grande parte por via dos seus interesses em matérias-primas – manipular pelos segundos e fecham os olhos a gritantes atrocidades, a Magna Carta de Kasparov teria como valor absoluto a vida humana, em vez do território, a ideologia ou o comércio.

O escandaloso fosso entre os ricos e os pobres (só para que conste, Portugal é o segundo, entre os países desenvolvidos onde esse fosso é maior, logo atrás dos EUA) poderia ser atenuado por uma lei que tornaria realidade a máxima de Robin dos Bosques. Não sob a forma de assaltos as carteiras mais recheadas, mas leis que, de princípio limitariam a acumulação de riqueza. Actualmente, a absoluta e aparentemente intocável liberdade de mercado permite por um lado uma acumulação de riquezas sem limites, por outro, uma implacável submissão à lei do mais forte.

Assim, naquilo a que chamou "o embaraço da riqueza", o professor Howard Gardner, de Harvard, propõe um limite ao enriquecimento individual. Afinal, para que faz uma pessoa com os seus lucros anuais de 200 milhões de dólares? Como pode o Mundo ser justo quando há empresários que ganham no final do ano, o equivalente ao Produto Nacional Bruto de alguns pequenos países? (Ou, por exemplo, o orçamento de um clube de futebol como o Manchester United ser equivalente ao valor das exportações do Burundi?).

Gardner propõe como salário anual máximo o equivalente a 100 vezes o salário médio de um trabalhador desse país. Por exemplo, se o trabalhador médio aufere 40,000 dólares, o mais bem pago do país receberia um máximo de 4 milhões. Ainda, cada indivíduo não poderia acumular como fortuna pessoal mais do que 50 vezes o rendimento máximo permitido anualmente. Duzentos milhões de dólares constituiriam então o limite máximo de riqueza. Ainda assim generoso, não?

Qualquer rendimento adicional teria de reverter para caridade ou para o governo sob a forma de doação geral, ou dirigido a um qualquer fim específico, como a assistência aos veteranos de guerra ou um fundo de apoio às artes. Com os biliões acumulados mundialmente, haveria finalmente dinheiro para implantar os projectos urgentes para resolver os grandes e, aparentemente insolúveis, problemas da Humanidade.

Pode parecer utópico um plano deste género, mas vejamos que, ao longo dos séculos ideias tidas como revolucionárias, apesar de enormes objecções, conseguiram abolir instituições tão enraizadas na sociedade como a escravatura, ou a implantação do direito de voto universal.

As soluções não foram apresentadas como mágicas, nem com a facilidade que se associa mais aos super-heróis do que aos simples mortais que somos. Baseiam-se na urgência de soluções corajosas e radicais para resolver os desafios do Mundo actual. Um Mundo que não pode esperar nem pela lentidão da evolução política e muito menos pelo contínuo cinismo dos governantes.

Nestes, como noutros casos no passado, serão os visionários que alguns chamarão de loucos e sonhadores a encontrar resoluções onde outros apenas viam castelos nas nuvens.

publicado por Boaz às 21:31
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4 comentários:
De MCA a 11 de Julho de 2007 às 10:31
Desculpa. Não é utópico. É estúpido. Não é estabelecendo tectos para o que cada um pode possuir que se resolve alguma coisa. Primeiro pela impossibilidade prática que tornaria ridícula qualquer tentativa de o conseguir. Depois, porque as pessoas têm o direito de enriquecer, desde que usem meios justos e legítimos e não prejudiquem ninguém. O que é preciso é estabelecer regras para o funcionamento do mercado e boicotar os países que exercem uma concorrência desleal por não respeitarem os direitos elementares dos trabalahdores e dos consumidores. Depois, cada qual enriqueça quanto quiser e conseguir. Isso é um estímulo.
De Boaz a 12 de Julho de 2007 às 22:19
Para grandes problemas requerem-se grandes e estranhos planos. Noutras coisas no passado também as pessoas pensavam que seria estúpido acabar com elas. Para quê deixar de ter escravos se os negros ou os índios não têm alma!? Afinal são uma ajuda ao trabalho tal como um burro ou uma carroça... Para quê liberdade religiosa?! Afinal de contas, só Jesus salva, não é? E por aí em diante...
De MCA a 13 de Julho de 2007 às 12:21
Não é a mesma coisa. Os exemplos que dás (posso tratar-te po r tu?) são exemplos que estão relacionados com preconceitos raciais ou religiosos. O que eu critico não é isso. Não é dizer: as pessoas desta ou daquela raça não podem ter mais do que x rendimento. É estabelecer tectos para a riqueza em geral. isso, além de impraticável, é injusto. Não se combate uma injustiça com outra injustiça.
Já agora, não deixa de ser curioso defenderes isso. Não sei se sabes que anda para aí um idiota (Pe dro Arro ja) na blogosfera que é doentiamente anti-semita e que diz que o neo-liberalismo (que ele já defendeu em tempos, também doentiamente, mas agora está contra) diz ele que o neo-liberalismo é uma invenção judaica. E ele, que era um neo-liberal daqueles fanáticos, que estão contra todo o tipo de protecção social, que defendem que tudo se compra e se vende (incluindo os votos, os afectos, o pai e a mãe), que defendia o anarco-capitalismo e o darwinismo social, desde que chegou à conclusão que o neo-liberalismo era uma invenção judaica resolveu ficar contra o neo-liberalismo.
De Nuno Matos a 27 de Julho de 2007 às 22:54
Caro Canhoto:

Permita-me, antes do mais, que o felicite pelo seu blogue pelo seu trabalho na internet.
A questão que coloca nesta entrada é uma questão de senso -comum, o mesmo é dizer que é uma das mais difíceis de resolver. Claro que nos choca o enriquecimento desmesurado de uns quando justaposto à mais clamorosa pobreza, aquela que tudo retira, até a palavra. Todavia, o programa aqui proposto comporta em si a génese do totalitarismo.
A pobreza e a desigualdade sempre foram o pretexto das grandes ideologias totalitárias.
O sofrimento de milhões de seres humanos não pode ser resolvido senão com a juda possível, aqui e agora, e com o silêncio de quem constata que, demasiadas vezes, nem toda a nossa ajuda o consegue aliviar.


Cumprimentos

Nuno Matos

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