Domingo, 29 de Julho de 2007

Força

A yeshivá está de férias. Nos últimos dias de aulas e nas duas primeiras semanas de interrupção, recebemos um grupo de cerca de uma dúzia de rapazes do Bar Ilan, um colégio judeu do Rio de Janeiro. Apesar de provenientes de famílias judias e frequentarem um colégio judeu, a maioria deles não estavam habituados a um ambiente religioso. Antes de virem para a yeshiva, passaram vários dias a passear por todo o Israel.

Foi tarefa dos alunos de língua portuguesa da Yeshivat HaKotel recebê-los e tentar incutir-lhes um pouco mais de Judaísmo prático, para lá do Judaísmo cultural ao qual estão mais ligados.

A mim couberam-me dois rapazes tranquilos, Nahum e Moti (nomes fictícios). O animador do grupo pediu-me para estudar mishnayot com eles. Tarefa aparentemente fácil para alguém habituado ao ambiente religioso e ao estudo das fontes judaicas. No entanto, para eles mesmo o nível básico do estudo estava muito para lá do seu interesse.

Ao fim de três mishnayot, e não tendo o mínimo feedback dos meus companheiros de estudo, decidi fechar o livro e pedir sugestões de temas para estudarmos ou apenas para conversarmos. Moti disparou uma série de perguntas: "O que é o demónio? O demónio existe?"; "Porque é que Deus permitiu o Holocausto?"; "Porque é que todo o mundo odeia os judeus?". Caramba – pensei – estas são perguntas para rabinos, não para mim! Tentei responder às suas questões o melhor que sabia. Afinal, já estudo na yeshiva há mais de um ano, já tenho de ter algum tipo de resposta até para estas perguntas bicudas.

Dois dias depois, fizemos uma vista ao Yad Vashem, o Museu Memorial do Holocausto de Jerusalém. Como não poderíamos entrar como um grupo único, fomos divididos em pares ou trios: um aluno da yeshiva para um ou dois dos rapazes do colégio. De novo calhou-me o Nahum. Esta seria a minha quinta visita ao Museu, e a segunda como guia.

Nós os dois fomos os primeiros a entrar. Tentei dar-lhe uma perspectiva geral do museu e da história que ele encerra. Obviamente que Nahum já vira muitas das imagens e ouvira histórias como as que são mostradas no Yad Vashem, mas ficou impressionado pela presença de objectos autênticos nas várias salas do museu. Candeeiros públicos, bancos de rua e pedras da calçada verdadeiros numa reconstituição de uma rua do gueto de Varsóvia. As cruas fotos de um massacre de judeus numa aldeia do Leste da Ucrânia. Uma grade sobre a qual eram incinerados cadáveres no campo de concentração de Majdanek. Aos poucos, todos os outros companheiros de visita nos foram ultrapassando, e acabámos por ser os últimos a terminar a visita. Já na praça do Museu, encontrámos o resto do grupo reunido a rezar a oração da tarde. Como se sentiriam Nahum e os outros rapazes a rezar depois de visitar um local como aquele? Afinal, a pergunta deveria repetir-se vezes sem conta: "Porque é que Deus permitiu o Holocausto?".

Apesar de já ter visitado o museu por várias vezes, descobri coisas que nunca tinha visto. Um pequeno placard contava a história de cerca de 2000 judeus polacos convertidos ao Cristianismo e que, mesmo assim, foram enclausurados no gueto de Varsóvia e finalmente deportados. E sem qualquer distinção de fé, gaseados em Treblinka como todos os seus companheiros de clausura.

Dias depois, os animadores do grupo resolveram mostrar um vídeo-clip de uma canção israelita, "Chazak amenu" – Forte é o nosso povo. Mostrava imagens de Israel e manifestações pró-Israel ocorridas em vários países durante os anos da Intifada, quando de todo o Mundo choviam críticas a Israel. Demonstrava que, em tempos de infortúnio, o Povo Judeu se une, independente das suas diferenças. Religiosos e seculares, ortodoxos e reformistas, de Israel e da Diáspora. Unidos à força pela ameaça externa. Voltei a recordar a história dos tais judeus que renegaram a fé de Abraão e que mesmo assim não tiveram melhor sorte que os outros no gueto.

Reparei que nestes dias, Nahum, habitualmente pouco interessado, se mostrava mais concentrado durante as horas de reza.

Não sei que impacto terá a visita do grupo a Israel e o que levarão para o Brasil, para lá de algumas dezenas de fotos e recordações de turista para a família. Mas se depois desta experiência, todos eles se casarem com mulheres judias e assim fizerem frente à tendência de assimilação dos judeus fora de Israel, já terá valido o esforço. É que essa é, nas últimas décadas a maior ameaça ao Povo de Israel.

Gostava que de Portugal viesse um grupo de jovens para viver o mesmo tipo de experiência cá em Israel. Só é preciso um patrocinador e vontade da comunidade.

publicado por Boaz às 16:51
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6 comentários:
De JoanaTorrado a 31 de Julho de 2007 às 10:31
Bom dia.

Muitos Parabéns. O Blog tem um merecido destaque na Homepage do SAPO e dos Blogs.

Esperamos que esteja a gostar da experiência na nova plataforma. Qualquer dúvida não hesite em contactar-nos.

Boa continuação :)
De J.Wollvsttaven a 31 de Julho de 2007 às 17:02
Caro Boaz, Shalom.
Venho acompanhando teus passos pelo blog (que diga-se de passagem, está cada vez melhor), e mesmo que venhas a passar por tantos dissabores com a burocracia, alegra-me o fato de que tens alcançado o teu objetivo. Bem, enquanto não tornamos a Eretz Israel de modo definitivo, resta-nos agora esperar pelo convite do teu casamento. Sucesso.

J.Wollvsttaven
De MCA a 6 de Agosto de 2007 às 14:12
Olá, cá estou eu outra vez, a tua assídua visitante gentia
Tenho uma reflexão e um reparo a fazer a este post.

A reflexão é sobre a questão «porque é que Deus permitiu o holocausto?». Essa não é uma questão colocada apenas por judeus nem apenas em relação ao holocausto. Como sabes, não foram apenas os judeus a serem massacrados (embora fossem, indubitavelmente a maioria e os alvos pricipais do ódio nazi). Questionar o holocausto em termos apenas de perseguição aos judeus e, em consequência, perguntar porque é que Deus não protegeu o seu povo eleito é uma questão que se coloca, historicamente, em termos errados. Historicamente. Teologicamente não me pronuncio.

O reparo tem a ver com a «renúncia a Abraão». Nos termos da teologia cristã essa questão é incorrecta. Os cristãos (como sabes) veneram Abraão e Moisés, não os rejeitam. Apenas os cristãos acreditam que Jesus era o Messias esperado pelos judeus. Ou seja, do ponto de vista dos cristãos, os judeus é que rejeitaram o messias e os cristãos é que são os verdadeiros continuadores do judaísmo: «Veio ao que era seu e os seus não O receberam» (Jo. 1, 11).
Aliás, como sabes, a Bíblia cristã divide-se em Antigo e Novo Testamento. O Antigo Testamento não é rejeitado pelos cristãos, antes é considerado como o anúncio do que viria a ser narrado no Novo.
Não importa no que é que eu acredito. Importa que esta é a visão dos cristãos. Logo, dizer que aqueles cristãos de que falas rejeitaram Abraão não é correcto na teologia cristã.
De MCA a 6 de Agosto de 2007 às 14:14
Desculpa a formatação maluca do comentário anterior mas enganei-me nos comandos...
De Boaz a 6 de Agosto de 2007 às 21:36
Para os Cristãos, a Aliança de Deus com o Povo de Israel, conhecida como o pacto (brit) de Abraão, foi substituida pela Nova Aliança.
Os cristãos, dos quais os primeiros eram mesmo judeus, o que fizeram foi negar a validade desse pacto. É nesse contexto que disse também acerca desses judeus polacos convertidos ao Cristianismo que "renegaram a fé de Abraão".
De MCA a 7 de Agosto de 2007 às 10:29
Sim, tens razão. Para os cristãos há uma Nova Aliança. Mas os próprios cristãos não sentem isso como uma rejeição, percebes? Eles continuam a venerar Abraão. A leitura cristã da relação entre a Velha e a Nova Aliança é muito sofisticada: os cristãos acreditam que entre os Velho e Novo Testamentos há uma espécie de "efeito de espelho" em que o Velho Testamento preparava o Novo e o Novo reflecte o Velho. A Páscoa cristã é uma nova "Passagem" para o Reino dos Céus, espelhando a "Passagem" dos Judeus para a Terra Prometida. Os 40 dias de Jesus no deserto são o espelho dos 40 anos dos Judeus no Deserto. E por aí fora... Portanto, do ponto de vista cristão, não há rejeição, mas cumprimento. Claro que, do ponto de vista judaico, os cristãos estão enganados, seguiram um falso Messias, um impostor. Foram ludibriados, fizeram mal a agulha . Mas são sinceros na sua crença de que estão a cumprir Abraão, Moisés e os Profetas.

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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