Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Tzeduke, tzeduke!

Em Jerusalém é muito comum encontrar pessoas a pedir na rua. De acordo com as estatísticas, esta é a mais pobre cidade de Israel. O que é um paradoxo, pois esta também é uma das cidades mais caras para se viver. A cada ano, os cada vez mais incomportáveis preços das casas, levam milhares de jovens casais a abandonar a cidade para os subúrbios.

Ao mesmo tempo, no Bairro Judeu da Cidade Velha existem alguns dos apartamentos mais caros do mundo. Milionários estrangeiros dispõem-se a pagar centenas de milhares de dólares até por um cubículo sombrio, só para estarem perto do Muro Ocidental algumas semanas por ano.

Os bairros habitados por comunidades de judeus haredim, como Kiryat Zanz, San’hedria, Har Nof ou Mea Shearim, são dos mais sobrelotados da capital e, apesar de estarem entre os mais caros, têm uma boa parte dos seus residentes sustentados por organizações de caridade. Jovens recém-casados têm como alternativa os colonatos de Beitar Ilit, Modi’in Ilit ou Elad. E mesmo esses, dada a crescente procura, já começam a ficar caros para a maioria das bolsas.

Nas ruas dos bairros mais religiosos, dezenas de pessoas, na maioria homens, esticam a mão aos transeuntes, na esperança de receberem algum dinheiro. Nem todos serão necessitados, muitos aproveitam-se da generosidade dos locais e da inocência dos turistas. Os muitos loucos que param por estas bandas vivem do que conseguem juntar com a esmola. Nos tempos mais recentes apareceram e abancaram nas escadas de acesso ao Kotel os vendedores de pulseirinhas vermelhas – a moda cabalista adoptada e publicitada universalmente por Madonna. Cinco shekels, pouco menos de um euro. De euro em euro, se sustenta a barriga ou os vícios.

No Kotel, o Muro Ocidental, tanto na praça como no recinto de orações, abundam os que pedem. Aproximam-se das pessoas que caminham na praça para ir rezar junto ao Muro ou simplesmente dos turistas e vão pedindo: "tzedaka, tzedaka!" (em mau português será algo como "caridade, caridade!"). Pedem não tanto para proveito próprio, mas antes para obras de caridade: yeshivot, cantinas que servem comida aos necessitados, instituições que ajudam jovens casais ou soldados, etc.

As mãos estendidas só se recolhem no Shabbat e feriados judaicos. Nesses dias, existe a proibição religiosa de lidar com dinheiro. Mas a caridade não acaba com a entrada no Shabbat, antes toma outras formas.

Várias famílias religiosas em Jerusalém têm a casa aberta para quem quiser entrar e comer. Um desses casos é o Rav Mordehai Machlis, um rabino americano há mais de 20 anos em Israel. Todas as semanas, abre a sua sala de jantar para dezenas de pessoas: de estudantes de yeshivot aos turistas – nem todos judeus – que já sabem da sua fama e hospitalidade, e vários mendigos que procuram abrigo e uma comida melhor, ao menos no santo Shabbat.

A todos e sem distinção de credo ou condição social, o Rav Machlis acolhe com uma simpatia infinita e com a sua enorme sabedoria. A muitos proporciona a primeira experiência de uma refeição de Shabat, num ambiente religioso.

Apesar de não ter necessidade de ir a casa do Rav Machlis, volto lá de vez em quando. Para lá de um irresistível ambiente louco – imagine-se mais de 50 pessoas desconhecidas apertadamente sentadas numa sala de jantar – da experiência de ter de passar as travessas de comida por cima das cabeças para chegarem até às últimas mesas ao fundo da sala, é comovente admirar o deleite deste homem que, incansável, há anos que mantém a casa aberta, Sábado após Sábado, para dar a algumas dezenas de pessoas, em algumas horas, um pouco da experiência do dia mais santo do ano. Todas as semanas.

Nota: O termo hebraico tzedaka, tem um significado bem mais amplo do que caridade ou esmola. Significa antes de mais, justiça.

publicado por Boaz às 20:44
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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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