Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

Diferente para quê?

Recentemente publicaram este comentário no Clara Mente: "Só por curiosidade, decidiu ser judeu só para ser diferente não foi? (...) foi por capricho, para ser do contra ou por convicção que decidiu abraçar o judaísmo? E se foi por convicção, que espécie de convicção foi essa? Religiosa ou política?"

Já contei a história do meu processo de conversão inúmeras vezes. Uma das últimas vezes foi ao meu mestre principal na yeshiva, o Rav Gadi. Ele ficou tão impressionado que até me pediu para contar a história numa aula, frente a toda a classe, a fim de estimular os outros alunos, alguns deles pouco dedicados ao estudo. Face à proposta dele, eu engelhei o nariz e disse-lhe que me desagrada esse tipo de exposição.

Contar uma vez por outra, numa conversa privada, quando as perguntas surgem – normalmente começam com “Mas há judeus em Portugal?” e umas perguntas depois, eu tenho de dizer que a minha família não é judaica e pronto, lá revelo que sou converso.

Não, o motivo da minha conversão não foi mesmo só para ser diferente. Obviamente que foi para tomar um caminho diferente na minha vida. Educado como católico e praticante até à adolescência, com aulas de catequese semanais durante 8 anos. Sempre fui uma pessoa religiosa, ou no mínimo com uma crença mais ou menos estruturada em Deus. E até me via como um membro convicto da Igreja Católica, mesmo que não concordasse com tudo o que a sua respectiva hierarquia e teologia impunham.

Quando comecei a fazer algumas perguntas sobre o papel de Deus no mundo, da responsabilidade pessoal de cada um no seu destino e no destino do Mundo, na salvação, etc., as respostas eram tudo menos satisfatórias, aceitáveis. Não procurava lógica – a fé não tem de ser lógica –, procurava coerência entre o deus apresentado pela doutrina e o seu papel no nosso mundo (se é que ele tinha algum), as descrições nas Escrituras...

Descobri no Judaísmo a mais completa, coerente, humana e ao menos tempo divina das religiões. E mais do que uma religião ou um conjunto de crenças, encontrei um modo de vida integral, guiado pelo divino e explicado pelo humano. Impossível de ser vivido cada um por si, apenas possível em comunidade, em família.

Só para ser diferente? Nunca me passou isso pela cabeça. Confesso que eu sempre fui um pouco marginal, excêntrico, original, entre os meus amigos. Não do género drogado ou de roupa estranha, punk, dread, metaleiro ou afins. Apenas à parte. Mas não o fazia de propósito, “só para ser diferente”. Nunca senti uma necessidade especial de afirmação perante os outros. Sou demasiado recatado para isso.

Para terminar, há muitos motivos para se decidir ser judeu. Talvez até “só para ser diferente” possa ser um deles. Nem vou comentar a sua validade. Não me compete. Mas um motivo desses só serve mesmo como ponto de partida. Quem levar a coisa a sério e decidir avançar a fundo no processo de conversão, verá que por “só para ser diferente” não vale a pena passar tantas provas.

E afinal, quem é que, por exemplo, desejaria ter de se levantar cedo todos os dias para rezar durante cerca de uma hora (às vezes até mais), ainda antes de tomar o pequeno-almoço e ir trabalhar? Não poder fazer o que a maioria das pessoas fazem ao Sábado, por a maioria dessas coisas estarem interditas nesse dia? Jejuar algumas vezes por ano, duas delas um jejum integral, sem comer ou beber, por 25 horas? Não comer tudo o que me apetece? Só para ser diferente. Além disto, ser uma minoria, na grande parte dos casos, minúscula e em regressão, em quase todos os países, vivendo em sociedades onde os judeus, se não são perseguidos, no mínimo são “olhados de lado”? Só para ser diferente?

Fashion? Talvez ache que a Madonna e os amigos dela do Kabbalah Center são judeus e que esse é o Judaísmo autêntico. Engana-se. Nem Cabala a sério é, mas uma mísera versão light, para estrela. Uma espécie de vídeos de ginástica da Jane Fonda ou curso de auto-ajuda para tontos, versão pseudo-cabalista.

Judeu por convicção política? O que tem a ver uma coisa com a outra? Hello?! O Judaísmo é uma religião, não a Internacional Socialista.

Não, só para ser eu mesmo.

PS – Outra pessoa comentou ao comentário inicial: "Agora que vem o Natal sejam vocês mesmos e deixem os outros na paz do Senhor, que é todo o mesmo, para qualquer religião." Uma correcção: o "Senhor" não é – de todo – o mesmo. Antes pelo contrário. O meu Senhor é o Deus Uno e Único, o Rei dos Reis, o Criador do Céu e da Terra, que sacou o Seu povo do Egipto por meio de prodígios. O da manjedoura, esse joga noutro campeonato.

publicado por Boaz às 21:05
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9 comentários:
De Anónimo a 7 de Dezembro de 2007 às 11:45
Estou esclarecida. Era só mesmo uma curiosidade que eu tinha. Se fui demasiado provocadora, peço desculpa, mas foi mesmo intencional. Achei que haveriam mais reacções a uma provocação e não me enganei.
Desejo realmente que o caminho que escolheu o faça muito feliz. Em última análise, isso é que é importante.

Boas Festas para todos.

Licínia Duarte
De ajosue a 7 de Dezembro de 2007 às 12:50
Acompanho o blog quase desde o início e é entusiasmante . É inspirador para mim que ainda não consegui avançar no processo de conversão.
De Ana a 11 de Dezembro de 2007 às 08:52
Tenho seguido o teu blog á algum tempo, principalmente por curiosidade (i.e. o porque de uma pessoa converter-se ao judaismo, o porque de se mudar para Israel, entre outras). Percebo perfeitamente a tua desilusao com a religiao católica ("sofri" do mesmo!), o k me é dificil de compreender é o porque de te teres virado para o judaísmo, especialmente porque pelo que conheco do judaismo é uma religiao mais "religiosa" (principalmente para os convertidos). Questiono-me principalmente se tens realmente encontrado mais respostas no judaismo? Nao encontras limitacoes (tal como encontravas no catolicismo)? Porque é que dizes que a fé nao tem de ter lógica? Esta última pergunta é, para mim, o grande "problema" da religiao no geral, porque é que a religiao é a única coisa que nao tem de ter lógica... tudo o resto no mundo tem de ter lógica.

Cumprimentos,
Ana
De Marco Moreyra a 12 de Dezembro de 2007 às 09:57
Sinceramente não percebo pq te dás ao trabalho de reagir a provocações deste tipo!

Simplesmente não vale a pena...

Abraço,
Marco
De Anónimo a 12 de Dezembro de 2007 às 12:09
Caro Marco:

Vale sempre a pena quando a alma não é pequena, o que até parece ser o caso do Sr. Gabriel.
Portanto, não leve as coisas tão a peito, aceite o próximo, deixando-o exprimir-se. Chama-se a isso liberdade de expressão, desde que não haja ofensa. As provocações são boas, levam à reflexão, ao debate de ideias. Se estivermos todos de acordo, os blogs e mesmo a vida perdem a gracinha toda. Portanto relaxe e, se puder, provoque um bocadinho. Vai ver, não dói nada e é bastante salutar.

Abraço:
Licínia Duarte
De MCA a 26 de Dezembro de 2007 às 18:11
Vim aqui no outro dia e comentei o post mais recente mas só hoje desci com o cursor até aos posts anteriores. Bom, em primeiro lugar, acho a pergunta meio tonta. Ou então muito provocatória. Um processo de conversão deve ser muito complicado tal como é complicado um processo de "laicização", de abandono de uma religião sem a substituir por outra. São processos complicados porque mexem com aspectos muito profundos do nosso ser e ninguém o faz para «ser diferente» ou para «ser fashion». Bom, calro que há aquelas "religiões" americanas malucas de que os actores e cantores pop tanto gostam mas aquilo não são verdadeiramente religiões nem merecem o meu respeito. Quero dizer-te que sigo regularmente o teu blogue (como obviamente já percebeste) com muita simpatia.
Fui educada como católica como 99% dos portugueses nascidos antes do 25 de Abril. Afastei-me da prática religiosa, com a qual não me identifico, mas permaneço algures entre o agnosticismo (porque realmente não acredito que seja possível ter certezas) e a convicção profunda de que existe algo mais do que os 5 sentidos nos mostram.
O que eu te quero dizer neste momento, Boaz, é que, independentemente da tua percepção íntima sobre as outras religiões e das tuas convicções religiosas, é um erro factual dizer que o Deus não é o mesmo. Se andaste na catequese 8 anos, sabes isso tão bem como eu (também por lá andei). Historicamente, o Deus dos cristãos, tal como o Deus dos muçulmanos É realmente o Deus de Abraão. Foi esse Deus que um homem chamado Jesus e um homem chamado Maomé adoraram. Fizeram-no da melhor forma? Quem sabe? Eu não sei. Tu parece que sabes. Que essa convicção não te faça perder a capacidade de reconhecer nos outros uma fé tão sincera como a tua.
De MCA a 26 de Dezembro de 2007 às 18:29
Já agora, só mais uma achega: na tua pagina pessoal dizes duas coisas interessantes e com as quais concordo. A primeira é: «Gosto de Gandhi, de Yitzhak Rabin, do Dalai Lama e de Bertrand Russel.» Obviamente que estás a falar de contemporâneos, homens do Séc. XX. Mas permite-me lembrar-te que, no seu tempo, também Jesus foi um homem (para mim foi apenas um homem) que enfrentou o poder, defendeu as suas convicções e acabou por morrer por elas. Não consegues apreciá-lo também?

Outra coisa que dizes é «Gosto da ideia de Deus. Não gosto daqueles que se fazem de seus mensageiros exclusivos.» Eu também gosto da ideia de Deus embora a minha (sublinho minha) ideia de Deus seja diferente da tua. E também não gosto daqueles que se fazem seus mensageiros exclusivos. Mas não estarás tu, também, a caír nisso quando estabeleces um muro intransponível entre o judaísmo e as outras duas religiões monoteístas? Pensa nisso.
Bom ano!
De Larissa a 9 de Janeiro de 2011 às 04:43
Olá, é primeira vez que entro em seu blog e estou adorando ler seus textos. Tenho 16 anos e estou passando exatamente pelo que vc descreve antes de sua conversão. Eu já conversei com minha mãe e amigos, a reação deles não foi tão diferente quanto você descreve. Por vezes parece não ''ter caído a fixa'' da minha mãe. Constantemente me aparecem perguntas absurdas como essas que você respondeu, é embaraçoso porque nem todo mundo tem sensibilidade para nos entender. Gostaria de te dar os parabéns por ter tido a garra de levar a sério algo tão belo e por escrever tão bem.
Barux hashem!
De alexandre a 22 de Maio de 2015 às 15:22
Gostei muito de ler seus pensamentos , muito interessante o processo que partilha , eu tambem passei uma experiencia identica e identifico-me muito com seu pensamento, coragem Boa sorte , Que Deus o Abençoe

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