Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Natal sem Natal

Alguém me pediu para escrever sobre o Natal. Pedido difícil feito a alguém que deixou de festejar o Natal faz uns anos... Apesar de este não ser um artigo feito por encomenda, decidi aceder ao pedido.

Na minha infância, tal como na da grande maioria das infâncias no Ocidente, o Natal era a época mais esperada do ano. Pouco me importava o menino Jesus e ainda menos o Pai Natal. Aliás, em minha casa os meus pais sempre nos informaram que eram eles próprios quem oferecia os presentes e que estes não apareciam caídos, sem esforço, por via de um velho gordo que chegara pela chaminé de madrugada. Sabíamos que as prendas tinham de ser pagas com dinheiro a sério e, para as poderem comprar, os pais teriam de trabalhar. Não era menos mágico o meu Natal, mesmo com essa lição de economia doméstica.

No início, os presentes eram entregues só de manhãzinha. Decisão pedagógica. Era o único dia do ano em que eu e a minha irmã saltávamos da cama. (Ouve outra ocasião em que saltei da cama, quando a minha mãe me acordou dizendo que tinha nevado!) Com o tempo, os presentes passaram a ser entregues à noite, assim que tocavam as doze badaladas na igreja vizinha. Éramos mais crescidos e mais difíceis de domar e os meus pais já não aguentavam a nossa ânsia de receber os presentes.

Despojada do significado religioso, pela gradual secularização da família, aquela era apenas uma festa familiar. Os únicos marcos da tradição eram a árvore decorada e o presépio – o único símbolo religioso resistente na festa, presente mais pela graça de ir recolher musgo ao pinhal e montar o cenário do que pela veneração do menino na manjedoura. E a enorme travessa das filhós que a minha mãe pacientemente fazia e eu ajudava a polvilhar de açúcar e canela.

Com o meu crescente afastamento do Cristianismo, o Natal tornou-se um verdadeiro embaraço familiar e pessoal. A certa altura eu até pedia à minha mãe e aos amigos para não me comprarem e oferecerem presentes. E informava que não daria presentes a ninguém. Era difícil. Nem sempre era bem aceite a minha decisão. Ir contra a tradição e o espírito da época era um acto de rebeldia. Até vir para Israel, a única coisa que eu mantinha era a troca de presentes com o grupo de amigos local. Porém, era mais para festejar a nossa amizade e podermos, ao menos uma vez por ano, conseguirmos reunir-nos do que, de novo, pelo menino.

Num dos meus últimos anos em Portugal, uma crise familiar fez que não fizéssemos festa nenhuma em casa. O almoço de Natal acabou por ser num restaurante na praia da Nazaré. Foi horrível, especialmente para a minha mãe. Deve ter sido uma frustração brutal. Eu tinha ido contrariado, sem qualquer pachorra para a festa. Ela bem tentava puxar conversa, mas eu só queria acabar de comer e voltar para casa. Enquanto ela queria dar um pouco de alegria e significado festivo à data. Felizmente, só dura um dia.

Nessa altura, eu ainda não tinha começado oficialmente o meu processo de conversão ao Judaísmo, por isso ela ainda não entendia bem o meu comportamento de indiferença pela data em questão. Mesmo que ela soubesse das minhas intenções de conversão, que já duravam há uns anos. Talvez pensasse que era apenas uma fase minha ou que aquele desejo não implicava nenhuma mudança extraordinária.

Desde que vim para Israel, o Natal acabou definitivamente. Em Jerusalém, as poucas marcas do Natal que detecto, são as raras árvores decoradas nas janelas das casas do Bairro Arménio da Cidade Velha, a pouca distância da yeshiva onde estudo. Ou nas casas de cristãos nos bairros árabes do lado oriental da cidade. Mais para o sul da cidade, o cenário muda: o final da Estrada de Belém – a estrada que liga Jerusalém a Belém – está iluminado com luzes coloridas. Para agradar aos milhares de turistas cristãos que inundam a região nesta altura.

Na yeshiva é um dia de estudo como outro qualquer. Com uma excepção: à meia-noite do dia 24, apesar de não haver um anúncio oficial para o efeito, os alunos devem parar no estudo durante uns minutos. (Os poucos que a essa hora ainda persistem no Beit Midrash, a sala de estudos principal). A interrupção não é por respeito à ocasião. Antes pelo contrário. É inesquecível que as maiores tragédias do povo judeu aconteceram às mãos de alguns dos seguidores do menino da manjedoura. Por isso, a dignidade de estudar Torá não deve ser dada a tal momento. Por isso alguns interrompem o estudo para jogar xadrez.

publicado por Boaz às 12:21
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12 comentários:
De Joao a 19 de Dezembro de 2007 às 21:30
Caro Gabriel

Leio o seu blog há algum tempo com muito interesse e simpatia. Se me permite, fiquei triste com a forma como se refere ao cristianismo neste seu post “Natal sem Natal” e no anterior “Diferente para quê?”. Sou católico e admiro imenso o judaísmo e o povo judeu, como João Paulo II em relação ao qual se referiu com simpatia em outro post seu. Reconheço evidentemente o sofrimento tremendo que foi infligido ao povo judeu por cristãos e pela Igreja ou os seus representantes. Mas o cristianismo é outra coisa. Acabo de ler um livro do Rabino Jonathan Sachs em que expressa apreço pelo cristianismo. Parece-me que temos muito em comum, porque não procurar o positivo e nobre em cada uma das nossas tradições religiosas e aquilo que nos aproxima? Digo isto sem qualquer intuito de proselitismo: estou convencido de que o judaísmo encerra um extraordinária riqueza espiritual para a humanidade e que a sua identidade deve ser mantida e não diluída ou apagada por outras religiões ou culturas.

Um abraço

João
De Lucas a 20 de Dezembro de 2007 às 12:39
Mais uma vez perdes-te no caminho de "... a minha é melhor que a tua..." e "... eu sou um coitadinho porque sou Judeu e houve um holocausto que matou milhões como eu..." "... às mãos dos seguidores do menino da manjedoura. Por isso, a dignidade de estudar Torah não deve ser dada a tal momento. Por isso alguns interrompem o estudo para jogar xadrez."

Tomar o todo pela parte é feio.

Generalizar e diminuir as crenças dos outros também...

Porque é que tu te julgas no direito de fazer estas diminuiçoes de valor?

Fará isto parte da tua senda de "... ai eu agora vou-me converter e vocês todos têm de aceitar isso tudo e mudar os jeitos/trejeitos/maneiras/tradições e outras que tais das nossa relações porque EU agora não posso fazer isto e aquilo e mais não sei quê..."

Só nós temos de fazer as cedencias? Tu em respeito dos Outros não tens? ( cada um é livre de fazer o que quer mas há laços a respeitar... laços de Amor... Deus não é Amor?)

Só tu é que estás justificado pelo Divino para diminuir a minha Crença de bom Cristão (que eu o lucas que tu conheces bem todos os dias tenta ser)?

O nosso Deus, Boaz, não nos deve separar...

O nosso Deus, Boaz, não quer que nem tu nem eu afunilemos o nosso campo visual/mente com "regras de etiqueta" e posturas de ruptura, como se fossemos um burros com albardas muito apertadas...

Bom fim de semana Boaz...

:(

Lucas

De Lucas a 20 de Dezembro de 2007 às 13:56
...aliás, intolerância, desrespeito e posturas de ruptura e superioridade( onde é que eu vi isto recentemente... Hum?) é que, na minha modesta e insignificante opinião, estiveram na origem do nosso Holocausto... (é meu também...)... Foram homens iguais a ti e a mim que o causaram e sofreram...

Não metam o Menino nisto porque foi para nos salvar destas atitudes que Ele foi crucificado.

E se não acreditas nisso, ok. Não te vou dizer que estás errado...

E se diminuis a minha Crença. Ok, dou-te a outra face.

mas olha que só tenho duas... é a imperfeição do ser Homem.

Estás a ficar extremista Boaz.

Cuidado com o caminho que trilhas.

O teu amigo cristão,

Lucas
De Lucas a 20 de Dezembro de 2007 às 15:11
ainda isto...

Li num outro artigo o seguinte, dito por ti:

"...PS – Outra pessoa comentou ao comentário inicial: "Agora que vem o Natal sejam vocês mesmos e deixem os outros na paz do Senhor, que é todo o mesmo, para qualquer religião." Uma correcção: o "Senhor" não é – de todo – o mesmo. Antes pelo contrário. O meu Senhor é o Deus Uno e Único, o Rei dos Reis, o Criador do Céu e da Terra, que sacou o Seu povo do Egipto por meio de prodígios. O da manjedoura, esse joga noutro campeonato."

o Deus Uno e Único, o Rei dos Reis, o Criador do Céu e da Terra, é Grande!!!!

Logo não pode caber só na vossa barriga Judaica.

não te sabia tão intolerante Boaz... :(


Ps.: Como estou a falar com o meu Amigo Gabriel Boaz, não me escuso à crueza das palavras.
Citando a Sandra: " Os Amigos não servem so para dizer que está tudo bem." , servem também para discutir, ralhar e apertar as mãos sem as lavar depois de ir mijar.


Aquele Abraço

Lucas
De MCA a 21 de Dezembro de 2007 às 16:46
«É inesquecível que as maiores tragédias do povo judeu aconteceram às mãos dos seguidores do menino da manjedoura.»
Tenho de subscrever algumas coisas (não todas)escritas em outros comentários. É tão injusta esta afirmação como dizer que os judeus de hoje são os culpados pela morte de Jesus. Esse tipo de mentalidade já deu os seus frutos. Frutos muito venenosos, aliás. Eu não sou religiosa e, talvez por isso, consigo ter o distanciamento suficiente para distinguir Jesus dos seus pretensos seguidores. Quem provocou tais tragédias não seguia o "menino da manjedoura"; pelo contrário, traiu-o.
De blogdoscaloiros a 23 de Dezembro de 2007 às 21:49

Shalom Boaz,

Viemos agradecer, sensibilizados, o facto de não teres esquecido a mensagem!

É verdade que aqui deixámos, há algum tempo, um pedido: se acaso escrevesses um texto sobre o Natal e as tradições em Jerusalém... o favor de nos avisar!

Decidimos, entretanto, publicar uma mensagem escrita por um aluno e seu Pai, já que nela está contido um voto universalista, dedicado às crianças em dificuldade!

Apreciei imenso ler o teu testemunho! A infância, vivida segundo os princípios cristãos [católicos] e a vivência actual, segundo a crença e os princípios que o teu livre arbítrio te levaram a escolher!

Eu tenho uma visão cósmica de religião!
Para mim, a religião é una! As interpretações é que variam!

Não vejo distinção entre cristãos, budistas, muçulmanos.

E agora aqui te deixo os meus votos:

Neste Natal, eu peço mais Fraternidade para todos aqueles Seres que vivem abaixo do dignidade humana... e são muitos, actualmente :(

E que o respeito pelos outros, a esperança em dias mais justos, sejam visíveis em cada dia, no gesto, na palavra, no sorriso!

Shanti!


Nota - Jamais no nosso blogue é publicado o que quer que seja [texto e/ou imagem] que não faça referência a Autor e/ou fonte! É uma 'regra de oiro' que alunos e professora seguem com rigor!

A propósito... quem é o autor/fotógrafo da imagem aqui publicada? Linda, por sinal!
De Moisés a 26 de Dezembro de 2007 às 14:20
WIKI: Intolerância religiosa é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Poderá ter origem nas próprias crenças religiosas de alguém ou ser motivada pela intolerância contra as crenças e práticas religiosas de outrem. A intolerância religiosa pode resultar em perseguição religiosa e ambas têm sido comuns através da história.
De Moises a 26 de Dezembro de 2007 às 14:48
Qualquer coisa te falhou na mensagem do menino da manjedoura Boaz… por trás do menino e da manjedoura está a essência… É provável que nunca te tenhas atrevido a olhar, não apenas a ver, mas a olhar… reparar. Não te vou anunciar a Boa Nova porque acredito que apenas trilhamos caminhos diferentes mas com a mesma Estrela como guia.

Não somo dignos da nossa religião se não nos dignificarmos na nossa diferença Boaz…

Dou valor à tua conversão pela crença e esforço que a ela dedicaste… não queiras desmoronar o compensado respeito a troco de uma ou outra expressão supérflua e infeliz que possa ser interpretadas como despeito.

Deus é amor… Atreve-te a viver por amor… Deus é amor… Nada a temer…
De Moises a 26 de Dezembro de 2007 às 14:56
A pirâmide invertida é a técnica mais comum de construção das notícias. Significa, muito simplesmente, que numa notícia, todas as restantes informações são dadas por ordem decrescente de importância, de forma que, à medida que se vai descendo no corpo da notícia, os factos relatados se vão tornando cada vez MENOS ESSENCIAIS.

És formado em Comunicação Social Gabriel... Aquele último parágrafo só prova que tens vindo a apurar a técnica até em teztos não jornalísticos... Mas não te esqueças da credibilidade... Essa é sempre uma regra a seguir... :))))))
De Gonçalo a 29 de Dezembro de 2007 às 13:24
Olá, Gabriel.
Desiludes-me muito com este post. Será que acreditas realmente no que escreveste? A ser uma verdadeira convicção tua o que escreves aqui, como teu amigo, fico feliz por teres escolhido o judaísmo em vez do islamismo. Porque com estas tuas convicções tão extremistas, já estarias a andar por aí com um cinto de bombas prestes a explodir algo no mundo dos "infiéis".
Os extremos nunca foram bons para ninguém.

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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