Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Mais do que uma questão dérmica

Lição básica de conduta em Israel

Todas as sociedades têm os seus códigos de conduta pública. O faz-se e o não se faz. Por exemplo, no Japão as pessoas cumprimentam-se com uma vénia – incluindo os apresentadores de notícias perante os telespectadores. Na Suécia, é considerado uma enorme falta de educação arrotar em público. Em Portugal, quatro pessoas não apertam as mãos ao mesmo tempo, fazendo um aperto por cima do outro. No Uruguai e em França, os homens cumprimentam-se com um beijo. São códigos que cada um aprende em contacto com a sociedade onde vive.

Em Israel, uma das regras entre a sociedade religiosa é: homens e mulheres não se tocam. A não ser entre o casal e pessoas de família muito chegadas. O que exclui também os casais de namorados. No que diz respeito a cumprimentos: homens cumprimentam homens com um aperto de mão ou abraço, as mulheres cumprimentam-se com um beijo, abraço ou um aperto de mão. Com o sexo oposto o cumprimento resume-se à forma oral: “Shalom”, "Como está?" e afins. Toque, nem pensar.

No ambiente militar, onde toda a sociedade israelita se mistura, o contacto entre os sexos foi ultrapassado em parte pela instituição dos batalhões para soldados religiosos. Nas bases em que se encontram estes batalhões, em geral não servem soldados do sexo feminino. Mesmo assim, entre as comunidades haredim (ultra-ortodoxas) existe uma tradicional oposição ao serviço militar. Por um lado, essa oposição deriva de uma opinião geral contra o Estado. Porém, mais do que a questão política, levanta-se a questão do contacto entre membros dos dois sexos, restringido pela Halacha, a lei judaica. Quem cumpre este código dentro da Halacha chama-se shomer neguia (guardar o contacto).

Em alguns sectores este comportamento é por vezes levado ao extremo. É o caso dos transportes públicos. Mesmo que a Halacha não prescreva qualquer limitação especial nestas situações, é costume aceite que homens e mulheres – não casados entre si – não se sentam um ao lado do outro. Em várias linhas de autocarros de Jerusalém que passam por bairros de população judaica haredi, impera a regra (não-oficial) "homens à frente, mulheres atrás".

Por vezes, as mulheres até entram no autocarro pela porta traseira, para evitar atravessar a "secção masculina". Mandam depois alguma criança – livre desses constrangimentos separatistas – pagar o bilhete ao motorista. No entanto, na maior parte dos casos, os autocarros estão tão lotados, que homens e mulheres têm de andar "perigosamente juntos". O que origina sistematicamente protestos das comunidades haredim aos serviços da Eged, a empresa de transportes públicos local.

Em Jerusalém, dominada pelo estilo de vida religioso – mesmo que não seja seguido por todos – esta regra é cumprida. As surpresas surgem quando, mesmo em Israel, se muda de cidade. Em Haifa, por exemplo, a população religiosa é muito menos influente e nem toda a gente conhece estes códigos. Há dias, de visita a uma família amiga da minha noiva, à chegada a sua casa, deparei-me com esta realidade.

A dona da casa abraçou calorosamente a minha noiva e a minha futura cunhada. Quando chegou a minha vez, ela estendeu a mão perguntando ao mesmo tempo "Toca, não toca?". A minha noiva apressou-se a avisar: "Não, não toca". Não houve grande embaraço, desta vez. A senhora entendeu. Mas há momentos em que as pessoas não entendem e sentem-se ofendidas.

Em alguns casos, face a uma mão estendida, dizem as regras que, se não der para resolver a questão de outra forma, é melhor dar mesmo o aperto de mão à senhora, do que causar o seu embaraço. "É preferível deixar-se lançar num fornalha em chamas, que causar vergonha ao seu vizinho".

publicado por Boaz às 22:30
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4 comentários:
De Dulcineia a 29 de Dezembro de 2007 às 12:39
Este blog está cada vez mais interessante. Sempre quebra a minha monotonia.
De Gonçalo a 29 de Dezembro de 2007 às 13:19
Meu amigo Gabriel, já diz o ditado, "uma vez em Roma, sê Romano"!
Eu considero-me uma pessoa viajada e já passei por muitas culturas diferentes. E em todas essas culturas há sempre algo que se faz diferente do que estamos habituados. Cada vez que saio do meu Portugal vou para um país cujos costumes são diferentes dos meus, e com os quais eu tenho que me aproximar.
Uma das coisas que mais me choca com a tua conversão, sobre a qual já te expressei o que pensava e sentia, foi quando da última vez que tiveste em Portugal, ao abraçares a Sandra, lhe disseste que seria o último abraço que lhe irias dar. Como teu amigo, aceito a decisão (que é diferente de concordar), apesar de achar que colocas valores superiores à religião debaixo dela. Todas as religiões apregoam o amor, a amizade, a paz, a compreensão. Quantos destes valores tu proclamas após a tua conversão?

Um grande abraço.
De Sandra a 29 de Dezembro de 2007 às 13:59
Os códigos de conduta fazem parte da cultura de uma sociedade, na qual a religião tem um grande peso. Em Portugal, é normal cumprimentares as pessoas com dois beijos mesmo que não as conheças de lado nenhum. Eu sempre achei isso um exagero e quando posso e não causo grande embaraço, adopto a maneira australiana, de dar um aperto de mão na primeira vez que conheço alguém. Adopto os aspectos culturais que fazem sentido para mim, sem causar problemas a ninguém. É também assim que a cultura evolui. Mas quando gosto de alguém, dou abraços e beijos à vontade, o toque de pessoas de quem gostas é uma sensação fantástica. Como aquele abraço que te dei da ultima vez que cá estiveste... já sabia que ia ser o último :)
De David a 15 de Janeiro de 2011 às 23:20
As leis da neguiah têm sido interpretadas diferentemente ao longo da historia e das correntes (modern orthodox etc)

Entendo que tenha-se de evitar um abraço, mas porque é que prefere evitar um simples "aperto de mão", mesmo quando a sua mulher esta consigo nesse momento ? E sobretudo, como fundamenta essa particularidade ?

David.

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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