Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Em boa vizinhança

A cada três Sábados, a yeshiva fecha as portas e os alunos têm de encontrar um lugar para passar o Shabbat. Para os israelitas isso não é problema. Simplesmente, passam o Shabbat com as famílias, em casa. Para os estrangeiros (ou os israelitas sem família em Israel, como é o meu caso), a opção é conseguir uma casa alternativa. Com vários dias de antecedência, tentei arranjar um lugar fora da yeshiva para passar o Shabbat com a minha noiva. Depois de vários telefonemas, conseguimos um local disponível a pouca distância da yeshiva. Apenas umas centenas de metros, fora das muralhas da Cidade Velha, no bairro de Shiloah.

Somente a 20 minutos a pé da Cidade Velha, o local é, no entanto, um mundo à parte do Bairro Judeu e da Jerusalém moderna e judaica a que estou habituado. Ali é "o outro lado". Shiloah (Silwan, em árabe) é um bairro de população árabe, situado imediatamente a sul da Cidade Velha. Num vale estreito que desce em direcção ao Mar Morto, amontoam-se casas pelas encostas.


Shiloah na era otomana. Árabes e Judeus Iemenitas viviam aí juntos, 1910

A meio da encosta, um edifício alto ostenta orgulhoso, em toda a altura da frontaria, uma faixa com a bandeira de Israel. Não é o local mais seguro para os judeus atravessarem, muito menos para morarem. Para lá chegar, há que esperar na saída da Cidade Velha por um jipe especial, conduzido por agentes de segurança privada. Assim que chegamos à entrada do prédio, ao chamado por walkie-talkie de um dos agentes do jipe, a porta abre-se do lado de dentro. Várias pessoas chegam connosco para passar o Shabbat naquele estranho lugar.

O prédio, chamado Kfar Hateimanim, é a residência de sete famílias judias. Umas dezenas de metros acima na mesma rua, numa casa isolada, vive outra família de judeus. Todos casais jovens, com crianças pequenas, a maior delas com 3 anos apenas. Por não terem homens suficientes para o minyan (conjunto mínimo de 10 homens adultos, obrigatório para se realizarem orações públicas), necessitam sempre de convidados para completarem o número.

Depois de recebidos pela família que nos acolheu, fomos convidados a apreciar a vista do telhado. No último andar do prédio, funciona a pequena (e gélida) sinagoga e numa colorida sala ao lado, o infantário para as crianças residentes. No telhado plano, alguns baloiços, escorregas e casas de brincar: o parque infantil. A poucos metros das casas dos vizinhos árabes, que rodeiam o edifício por todos os lados. Sem qualquer protecção, sem telhado ou sequer uma rede. À distância de uma fácil pedrada. Para não falar de um tiro. Por enquanto a situação está calma.

Ficámos alguns minutos no telhado a apreciar o lugar, ao sol do final da tarde, antes de começar o Shabbat. No alto da montanha, ao longe, avistam-se as muralhas da Cidade Velha, a Yeshivat HaKotel e a cúpula negra da mesquita de Al-Aqsa. Da parte de fora das muralhas, o bairro de Ir David, a Cidade de David, onde David fundou Jerusalém há mais de 3000 anos. Vista de postal turístico. Ocupado durante as últimas décadas apenas por árabes, nos últimos anos, a população judaica tem alastrado, através da compra de edifícios completos a residentes árabes, povoados depois com judeus dispostos a viver naquela vizinhança.

Medonho é olhar o primeiro plano. Uma paisagem dominada por casas semi-acabadas, cada piso num estilo distinto, prontas para receber mais um andar assim que se casar o próximo filho da família. Ruas íngremes e apertadas onde, em muitos casos não conseguem passar dois carros em simultâneo. Montes de lixo deitados pelas encostas, entre as casas ou ao longo das ruas. Uma favela de cimento. A pouca distância, uma mesquita improvisada numa residência, com graffitis na fachada representando a Cúpula do Rochedo e a Caaba de Meca.

Mais do que pela vista, tremi ao pensar e presenciar a situação em que vivem as famílias naquele prédio, apesar de serem extremamente calorosas connosco. Sempre que encontrava a porta aberta, o bebé da família que me hospedou saía para ir brincar nas escadas interiores do edifício. Naturalmente, ao ver o bebé com pouco mais de um ano a brincar nas escadas, peguei nele e levei-o para a sala. Não fosse ele cair. A mãe logo me disse: “brincar nas escadas é para ele como sair à rua”. O pai, que divide o tempo entre o pequeno apartamento e a sala de estudos religiosos no último piso do prédio já desabafara que, em muitos dias nem saía do próprio prédio. Pudera, ir aonde? Para mudar de ares, dá uma volta no telhado. Sob a mira hostil dos vizinhos. A única forma que os habitantes de Kfar Hateimanim têm para sair à rua é sob a escolta dos agentes de segurança privada que patrulham o complexo em permanência.

Os habitantes judeus do local reclamam que os terrenos da zona são propriedades de judeus, comprados nas últimas décadas do século XIX pelo Barão de Rothchild, para albergarem pobres judeus iemenitas imigrados para a Terra de Israel. A maioria das casas foi ocupada por árabes após confrontos com os residentes judeus nas primeiras décadas do século XX, ou após a expulsão dos judeus do bairro, durante a ocupação jordana de Jerusalém Oriental, depois da independência de Israel.

Pode reconhecer-se a quase inutilidade das suas pretensões, para lá do risco de vida que correm os residentes de Kfar Hateimanim e do risco e trauma das suas crianças, criadas num ambiente cerrado e perigoso. Por enquanto, e devido à sua tenra idade, facilmente confinadas às paredes de casa, da sala do infantário e às escadas do prédio. Quando crescerem, possivelmente os pais mudarão de casa e serão substituídos por outras famílias.

Com os seus enormes gastos em segurança certamente mantidos por doadores privados, Kfar Hateimanim é, ao mesmo tempo um posto de resistência judaica e um espinho cravado na garganta e no orgulho dos árabes de Jerusalém. E não parece ajudar à convivência entre ambas as comunidades.

PS – Notícia recente sobre esta comunidade, no diário Haaretz: Court rules to evict eight Jewish families from E. Jerusalem house.

publicado por Boaz às 12:11
link do artigo | Comente | favorito

.Sobre o autor


Página Pessoal
Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente

.Pesquisar no blog

Este blog está registado
IBSN: Internet Blog Serial Number 1-613-12-5771

É proibido o uso de conteúdos sem autorização

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Ligações

.Visitantes

Jewish Bloggers
Powered By Ringsurf

.Arquivos

. Maio 2014

. Março 2013

. Novembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

.subscrever feeds

Partilhar