Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

O pão e os mísseis

Crise humanitária em Gaza. É um dos assuntos do momento. O Hamas acusa Israel de querer matar os habitantes da Faixa de Gaza à fome. Abastecido quase na totalidade a partir de Israel, a Faixa está, desde há semanas, sob um bloqueio parcial. O fluxo de combustíveis foi reduzido. Há horas de apagão na Faixa, já que a central de energia fica sem abastecimento de combustível. Entre os seus 1,5 milhões de habitantes – num território pouco maior que a ilha da Madeira – cerca de 80% estão dependentes da ajuda humanitária. O Hamas diz que até a farinha começa a faltar nas padarias.

A situação de carência dura há meses. E não é coincidência que a crise foi agravada quando o Hamas tomou pela força o controlo na Faixa, instaurando um poder separado da Autoridade Palestiniana, que dirige a Margem Ocidental a partir de Ramallah. O terror já anteriormente derivado de Gaza agravou-se com a instituição do Hamastão.

Com o bloqueio mais ou menos apertado, ou operações militares mais ou menos intensas, destinadas a destruir a infra-estrutura terrorista do Hamas, recorrentemente, as Nações Unidas falam de “punição colectiva”. Os habitantes de Gaza pagam, em conjunto, pelas acções do Hamas. A União Europeia pede contenção na resposta de Israel.

Passemos então a cerca de Gaza e observemos o lado israelita. Há meses – ainda mesmo antes do assalto do Hamas à Faixa – que Sderot e outras cidades israelitas situadas perto da fronteira estão sob uma chuva de mísseis. Lançados a partir de Gaza. Da Gaza do Hamas. Do Hamas eleito quase por unanimidade pelos habitantes de Gaza. Da Gaza bloqueada. Da Gaza esfomeada. Da Gaza que continua a apoiar o Hamas. Do Hamas que manda os mísseis. Fecha-se o círculo.

Após o desmantelamento dos colonatos judaicos de Gush Katif e da expulsão dos seus habitantes para cidades de refugiados em Israel, os Palestinianos tiveram a oportunidade de provar o que eram capazes de fazer com um território sob seu controle. A desgraça que era a vida em Gaza durante a existência dos colonatos implantados no meio da Faixa não diminuiu. Depois da selvagem destruição dos edifícios de uso público dos antigos colonatos, deixados intactos por Israel para futuro uso pelos Palestinianos, não houve ordem no território. Houve caos. Depois houve eleições. A escolha avassaladora em Gaza: o Hamas.

O contrabando de armas a partir da fronteira de Rafah, que une a Faixa de Gaza ao Egipto, alimenta a indústria dos mísseis lançados contra as cidades israelitas. Para parar esta ameaça diária Israel responde com um bloqueio e algumas esporádicas operações militares. A ONU e a União Europeia pedem contenção.

Imagine-se que a situação na cidade de Sderot era num qualquer país da Europa. Bragança a ser bombardeada todos os dias, a partir de Espanha? Se os habitantes de Antuérpia não pudessem sair à rua, devido às bombas lançadas a partir da Holanda? Se, durante meses a fio, chovessem mísseis italianos em Nice ou alemães em Estrasburgo? Alguém pediria contenção a Portugal, à Bélgica ou à França?

De Israel espera-se que não faça nada. Que deixe as bombas cair sobre escolas e famílias de Sderot. Não digam que os habitantes de Gaza não têm nada a ver com os mísseis. As sondagens mostram que o Hamas e a sua estratégia terrorista continuam populares na Faixa. Os pais de Gaza estão dispostos a sacrificar, de qualquer forma, os seus filhos. O ódio que sentem por Israel é maior que o amor que sentem pelos seus filhos.

Negar o direito de resposta face à agressão vinda de Gaza, seja sob a forma militar ou de bloqueio económico, por parte de Israel, é negar a legitimidade israelita de proteger os seus habitantes. É negar o direito de Israel de viver em paz, um direito reconhecido a qualquer Estado. Não é mais nada do que negar a Israel o direito a existir.

PS – Apesar das bombas que caem nas cidades israelitas, o país continua a permitir a passagem de doentes graves provenientes de Gaza para tratamento em Israel. Portugal aceitaria tratar doentes espanhóis, se chovessem mísseis em Bragança?

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publicado por Boaz às 21:37
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7 comentários:
De Rui a 23 de Janeiro de 2008 às 14:27
não, mas apenas porque tem as urgências cheias!
De Daniel a 23 de Janeiro de 2008 às 23:43
O Hamastão existe. É um facto. E de inocente não tem nada. Ao menos já se sabe o que acontecerá num estado "palestiniano". A ausência de escrúpulos por parte do Hamas ao ponto de utilizar o próprio povo árabe muçulmano como arma política e humana é algo que para mim, ocidental e democrata, só pode ser qualificado como criminoso. O fim que imagino é a tentativa de provocar uma resposta militar por parte de Israel para vir clamar genocídio. A instrumentalização da opinião pública ocidental à custa do próprio povo.
Se Israel não intervir vamos assistir a mais uma "vitória à Nasrallah ", o povo sofre e o Hamas reclama a vitória sobre o poderoso estado de Israel.

Pelo meio Sderot é um campo de batalha. Essa gente sim, tem coragem. Quantos de nós lá continuávamos a viver?

De eduardo a 25 de Janeiro de 2008 às 15:10
O círculo não se fecha nessa lógica. Já se questionou porque será que a Fatah em 1982 era laica, e hoje em dia, em 2008 está lá o Hammas?

Hammas, que nos anos oitenta recebeu umas pequenas ajudas de Israel. Porquê?

Israel, tem que recuar até às fronteiras de 1967, acha que alguém se acredita que Israel alguma vez se irá retirar? Você acredita?

Esquece-se de falar, que aos colonatos retirados de Gaza, opõem-se os colonatos criados na Cijordânia…ou seja, a politica de Israel de ocupação permanece, basta pensar-se no muro, que eticamente pode ser incorrecto, mas só não é válido porque Israel anexa território que não lhe pertence – nada que não estejamos habituados, Israel desde 1967 está a ocupar territórios que não lhe pertencem…rouba.

Você como português que deve ser, não se questiona o que é que nos portugueses chamávamos ao MPLA? À UNITA? AO PAIGC? Sabe não sabe? Terroristas!!! Sim, terroristas porque lutavam pela independência do seu território, questionemos os métodos…não são os de uma guerra convencional, nem nunca o irão ser, basta olhar para a história desses conflitos armados.

Israel sobrevive nesta luta porque tem o apoio dos EUA, e mesmo com esse apoio viu-se o que se passou no Líbano, um país que com uma milícia, e não o exercito do estado, não conseguiu sequer controlar uma aldeia, uma cidade sequer…a politica de Israel tem que mudar.

Não quero com isto dizer que a culpa é só de Israel, não o é, agora essa ideia do estado israelita, de que se defendem, é apenas em parte verdade. Os Palestinianos cada vez mais irão extremar a sua luta, disso não tenho dúvidas, basta pensar na questão que lhe coloquei no inicio.

E como defensor dos povos à sua autodeterminação aceito que lutem, como não censuro os Vietcongs, como não censuraria os angolanos, como não censuraria os franceses, ingleses que por Hitler eram considerados…Terroristas…porque lutavam pelos seus territórios.

Saudações
De eduardo a 26 de Janeiro de 2008 às 10:18
toda a terra de israel?

Israel tem segundo o direito internacional, que retirar-se dos territórios ocupados. Como não ha futurologistas, a questão tem que ser essa a ser resolvida, e dps haverá paz? não sei, nem ng o poderá dizer

Israel tem uma percentagem absolutamente gigantesca de territorios ocupados pos guerra de 67, e é isso que discute, gaza, cijordánia e jerusalém...

Há sp aqueles que vem com a primeira guerra dos 7 exercitos arabes, mas essa não é a questão palestiniana, a questão palestiniana sao as fronteiras de 67!



De josé a 26 de Janeiro de 2008 às 23:53
Caro Eduardo:
A questão palestiniana para si é, já se percebeu, a conquista de terras a partir de 1967. Para si e para a generalidade da comunidade de Estados, sobretudos os ocidentais.
Não seguramente para o Hamas, e para os Estados que o apoiam.
Por outro lado, as "fronteiras" de 48 foram sempre e só uma linha de armistício, nunca reconhecidas por quem quer que seja como fronteiras definitivas. Veja-se o caso de Jerusalém que se encontrava dividida. Se as fronteiras recuassem a 1967 a cidade de Jerusalém não seria a capital una de um estado palestiniano, mas sim apenas uma parcela da cidade - a mais simbólica, diga-se, pois inclui a Cidade Velha e os seus monumentos religiosos, caros a muçulmanos, cristãos e judeus.
Nem palestinianos nem israelitas querem o regresso absolutamente integral às fronteiras de 67. Evidentemente todos querem ganhar no negócio.
Também julgo que neste momento ambos estão a perder com o negócio...
É verdade que alguns estados árabes já aceitam a existência de Israel e pretendem trocar terras por paz, o que parece validar a tese de Levy Eshkol e de Moshe Dayan que as terras conquistadas poderiam ser trocadas pelo reconhecimento árabe.
Infelizmente nenhum viveu o suficiente para presenciar essas demonstração de intenções - e só mesmo isso: demonstração de intenções - de uma parte - e só de uma parte - do mundo árabe.
Quanto ao direito internacional público - já que é deste que se fala - só mesmo sorrindo... mas sempre lhe digo que até aí... a doutrina divide-se.
Pessoalmente, acho que Israel tem mesmo que se retirar e negociar, acho que só terá paz se houver um estado palestiniano viável e forte, acho que Oslo foi uma fantástica oportunidade perdida por Arafat e Barak de forma criminosa, mas, olhando para aquele pedaço de território - talvez do tamanho do nosso Alentejo - e para a sua história, bem como para os interesses e potências envolvidas... que sei eu?
De eduardo a 27 de Janeiro de 2008 às 12:12
Caro José:

Não é so para mim, é para a generalidade dos Estados que estão Out do conflito.

Recorde-se por exemplo aquela que ficou conhecida como "The arab Propose", que consistia num reconhecimento legitimo do Estado de Israel, de todos os estados da liga arabe (leia-se paises como a Malásia que n reconhecem), com o regresso de Israel aos territorios de 67.

As fronteiras legitimas de israel são as de 48.

Quanto ao Hamas, é obvio que continua lá nos seus ideais "a destruiçao do estado de israel", e é absolutamente de lamentar e censurar, mas você José acredita k os Palestinianos votaram no Hamas por causa desse ideal? Eu pessoalmente não me acredito, acontece em mts paises com movimentos de libertação...penso sim, é que cada vez tudo se vais extremar, daí em 1982 existia uma Fatah Laica, e agora ha o Hammas!

Quanto ao Direito Internacional, as resoluções da ONU dizem aquilo que referi, A Resolução 242 de 1967 diz entre outras coisas que para o Direito internacional:

"Enfatizando, ademais, que todos os Estados Membros em sua aceitação da Carta das Nações Unidas assumiram um compromisso de agir de acordo com o Artigo 2 da carta,

1. Afirma que a efetivação dos princípios da Carta requer o estabelecimento de uma paz justa e duradoura no Oriente Médio que inclua a aplicação dos dois seguintes princípios:

I. Evacuação das forças armadas israelenses dos territórios ocupados no conflito recente;

II. Encerramento de todas as reivindicações ou estados de beligerância e respeito pelo reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de cada Estado da região e de seu direito a viver em paz dentro das fronteiras seguras e reconhecidas, livres de ameaças ou de atos de força;"

Agora o Dto. Internacional vale o que vale, mas ese descredito que se calhar mt de nos tem, tb o deve a israel, mas não só! Mas israel, como país Democratico que o é, deveria pautar-se por outro tipo de comportamentos, dada a geografia em que se encontra.


De José Almeida a 1 de Fevereiro de 2008 às 09:54
Gaza encontra-se cercada pelos israelitas...
Os seus habitantes passam fome, não têm electricidade, os hospitais não podem tratar os seus doentes...
Num gesto heróico, os milicianos do Hamas estoiram com o muro erigido por Israel e permitem a passagem para o Egipto de dezenas de milhares de palestinianos desesperados, com fome, com falta de bens essenciais...
Em Sderot e noutras localidades israelitas continuam a chover mísseis oriundos de Gaza... Sério?! Mas onde é que se vê isso? Em que televisão passou???
O problema (ou um deles, para ser mais rigoroso) é que Israel está a perder a guerra da informação.
Até à guerra do Líbano ( a primeira, a de 82) o mundo ocidental e a sua imprensa era quase unanimemente pró-israelita. Sim, sim, mesmo, ou sobretudo, a esquerda europeia.
A partir daí, e sobretudo nos últimos anos os palestinianos têm ganho a guerra da informação com a exibição de um gigante israelita a lutar contra um anão palestiniano que só quer a sua terra de volta...o que significa, mas isso não fica dito nas televisões, já agora TODA a terra de Israel!
Se mostrassem o que é viver nas cidades com permanentes alarmes de mísseis, se mostrassem as crianças israelitas a correrem para os abrigos, se mostrassem os mísseis a caírem , não só a comunicação ocidental prestaria um melhor serviço público de informação, como muito do que Israel actualmente faz - mas não tudo, tem que se dizer! - seria compreendido e aceite pela opinião pública ocidental.

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