Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Apontamentos de uma viagem de autocarro

Depois de uma semana confinado – à força – à Cidade Velha, por causa dos três dias de nevão e consequente paralisação da cidade, consegui sair para lá das muralhas. Em Motzei Shabbat (após o final do Shabbat), fui até ao principal centro comercial de Jerusalém para encontrar-me com a minha noiva que não havia visto toda a semana.

Enquanto esperava pelo 6, o único autocarro que liga a Cidade Velha ao Shopping Malcha, em frente à Câmara Municipal, algo me chamou a atenção. Uma estrela no chão. Uma estrela em papel, recortada de alguma revista. Amarela, como aquelas que os Judeus eram obrigados a usar durante o Holocausto. Com a palavra “Jude” no meio. Apanhei-a, surpreso por encontrar tal coisa cuidadosamente recortada de uma revista, caída no chão. “O que fazer com isto?”, pensei. Por momentos coloquei a estrelinha em cima de um muro junto à paragem do autocarro. “Não, com o vento, irá parar de novo ao chão”, reflecti. Decidi guarda-la na carteira.

O 6 chego poucos minutos depois. Apinhado. Um autocarro, em qualquer lugar de Israel, é um mundo. A mistura de gentes e raças é assombrosa. Religiosos de fato e chapéu negro, ainda com as suas melhores roupas de Shabbat, junto com os seculares. Lado a lado com jovens cheios de rebeldia vindos de algum dos bairros ou colonatos menos religiosos da cidade, a caminho da borga nocturna semanal. No shopping ou na Rua Ben Yehuda, as “Docas” de Jerusalém.

À minha frente, três raparigas sul-americanas. Pelo sotaque deveriam ser argentinas. Ao meu lado, do outro lado do estreito corredor, duas mulheres asiáticas: uma filipina e outra que, pela fisionomia seria provavelmente cingalesa (do Sri Lanka). A filipina faz parte da numerosa comunidade filipina residente em Israel. Na sua grande maioria, a comunidade compõe-se de mulheres jovens. Enfermeiras recém-formadas nas universidades das Filipinas que buscam uma vida melhor em Israel. Trabalham nos turnos nocturnos dos hospitais ou, o que é mais normal, como assistentes domésticas.

É comum ver idosos israelitas caminhando na rua, em cadeira de rodas ou apoiados na bengala ou no andarilho, acompanhados das suas enfermeiras particulares filipinas. Devido ao seu papel social, o termo filipinit (mulher filipina, em hebraico) passou a significar assistente doméstica. Assim que termina o Shabbat, às centenas confluem para as Centrais de Autocarros ou os centros comerciais onde se encontram com outras colegas de profissão. A central de autocarros de Tel Aviv, por exemplo, transforma-se numa Pequena Manila, com algumas das suas lojas já destinadas à clientela oriental.

À chegada ao centro comercial, o autocarro, até então cheio, esvazia-se de uma só vez. Uma torrente de clientes encaminha-se para as portas do shopping, tendo de esperar na fila da segurança, para passar pelos detectores de metais. Ninguém reclama a demora, é o hábito diário de muitos anos, em qualquer local de Israel. Não uma realidade surgida pela Intifada.

Numa cidade com poucos divertimentos, o que é estranho se considerarmos que Jerusalém tem cerca de 600,000 habitantes, há poucos lugares para sair à noite. O principal é o Shopping Malcha. Multidões de jovens da cidade e arredores confluem às salas de cinema do centro comercial. Famílias levam os filhos aos restaurantes de comida rápida. Fãs de futebol juntam-se no local depois de cada jogo no Estádio Teddy, situado mesmo ao lado. Ao subir as escadas rolantes tem-se a visão de um imenso formigueiro, difícil de suportar para quem não é grande fã de multidões.

Uma volta pelo shopping com a minha futura esposa, à procura de alguma promoção que nos interessasse, olhando as lojas de decoração para tirarmos ideias para a nossa futura casa. O tempo passa rápido e, antes que ficasse tarde para apanhar o transporte de volta, saímos do turbilhão.

No regresso, entre um grupo de jovens alegres e faladoras, reparei numa quieta menina. Não falava, apenas parecia olhar o vazio. Menina dos olhos tristes. Dava a impressão de soluçar. Soluçar por dentro. Dava pena olhar para ela. Uma jovem normal, quieta, ao lado das animadas amigas, depois de uma noite no shopping. Que contraste!

Com a aproximação do autocarro às muralhas da Cidade Velha era hora de fazer o resto do caminho a pé. Dez minutos passando pela Porta de Jaffa, o Bairro Arménio e as vielas do Bairro Judeu. Àquela hora, naquela parte da cidade já são poucas as pessoas na rua. Até ao amanhecer, quando as ruas da Cidade Velha se enchem de gente, no bulício do mercado árabe. Numa amálgama de residentes e turistas. Por enquanto, o formigueiro reside no outro limite da capital.

publicado por Boaz às 21:10
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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