Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Glória fácil

De tempos a tempos, algum inspirado propõe a realização de grandes eventos internacionais em Portugal. A última foi a proposta de Gilberto Madaíl, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, da realização em Portugal do Mundial de Futebol de 2018. Seria uma realização conjunta com Espanha.


18.788 mulheres formam as cores da bandeira nacional no Estádio do Jamor,
em apoio à selecção portuguesa de futebol, antes do Mundial da Alemanha, Maio’06

Vai e volta, surgem os sonhos dos elefantes brancos. Num país nunca recuperado da perda da glória das Descobertas e ainda com sonhos de Sebastianismo, enganos grandiosos como um Mundial de Futebol ou umas Olimpíadas parecem reanimar a vontade de afirmação nacional dos Portugueses. Projectos grandiosos espevitam a baixa auto-estima lusitana. Isso e as recorrentes notícias de possíveis sucessos na prospecção petrolífera em Portugal. E não fosse Portugal o campeão das apostas no Euromilhões. A sedução da glória e riqueza fáceis.

Em boa hora, o presidente Cavaco Silva se revelou contra a iniciativa de um Mundial em Portugal. O tempo não é de “vacas gordas” e “o país tem outras prioridades”, foram as suas oportunas justificações.

(Não estou com isto a fazer a campanha de Cavaco. Eu nem sequer votei no dito senhor. Ocupado com os meus afazeres em Jerusalém, deixei passar as últimas eleições presidenciais como tinha feito com as legislativas, sem me preocupar em ir sequer registar-me à embaixada a Tel Aviv. Um dia inteiro perdido só por isso! Nem vale a pena. Continuo registado na freguesia de Golpilheira, concelho da Batalha. Os que vivem no rectângulo que se mexam. Cavaco é “presidente de todos os portugueses”, sem dúvida. Mas é aos do rectângulo que ele tem de mostrar trabalho.)

O Europeu de Futebol de 2004 foi sem dúvida um sucesso de promoção internacional do país. Os resultados no aumento do turismo ainda hoje se fazem sentir. No entanto, depois das semanas dos jogos, da invasão dos turistas, ficaram os estádios, quase todos às moscas. O melhor exemplo é o Estádio Municipal de Leiria, a minha cidade natal. Um mamarracho inútil – que serviu apenas para dois jogos durante o Europeu! – vazio e coloridamente agressivo, ao lado da belíssima colina do castelo. Alguém que o impluda, como fizeram com as torres de Tróia. Acaba-se a vergonha e alivia-se o buraco na Câmara.

Desde 1986, ano da entrada de Portugal na antiga CEE, é inegável que o país deu um salto gigante em direcção ao progresso. Se alguém visitasse hoje o país, ao final de 20 anos de ausência, até os recantos mais remotos lhe seriam irreconhecíveis.

Todavia, os biliões da Europa não fizeram recuar como deviam os principais atrasos estruturais de Portugal. Para lá das crónicas derrapagens nas obras públicas, ficou a deficiente aposta no conhecimento. A inteligência que é mal aproveitada no país, além daquela que se vai esvaindo, rumo a outros pontos da Europa ou os Estados Unidos, onde os profissionais bem qualificados são melhor valorizados. Em reconhecimento de mérito e em salário. Os rápidos resultados do betão ganharam à custa da lenta capitalização da Educação. Numa luta de cinzentos, ganhou o cinzento do betão. Perdeu a massa cinzenta.

Em Israel – desculpem-me a comparação – o progresso deu-se com a aposta inversa. Ao longo das décadas, as universidades israelitas foram formando uma das mais reconhecidas comunidades científicas do Mundo, competindo com os melhores centros da América e Europa. O Technion de Haifa ou o Instituto Weizmann são apenas os dois exemplos mais famosos. As grandes empresas de software todas têm centros de pesquisa em Israel, no famoso Silicon Wadi dos arredores de Tel Aviv, inspirado no Silicon Valley californiano. No próprio país germinaram algumas grandes empresas tecnológicas internacionais.

Por outro lado, auto-estradas são realidades recentes por cá. Só agora se constrói a ligação de comboio rápido entre Jerusalém e Tel Aviv. O aeroporto Ben Gurion, o principal de Israel, foi apenas modernizado nos últimos anos. Jerusalém está em obras para o metro ligeiro de superfície. Para os próximos anos está prevista a construção do metropolitano de Tel Aviv (com a portuguesa Soares da Costa no consórcio vencedor do projecto). Só depois de alcançar uma economia consolidada na alta tecnologia e no conhecimento, Israel começou a investir no betão.

Só assim o país aguenta taxas de crescimento de mais de 5% ao ano, invejáveis entre os países industrializados. A bolsa de Tel Aviv está entre as que apresentam maior crescimento a nível mundial. E até mesmo em 2006, ano da Guerra do Líbano, a derrapagem económica foi mínima.

publicado por Boaz às 21:36
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1 comentário:
De MCA a 15 de Fevereiro de 2008 às 14:29
Pois é, meu caro, mas o prof. Cavaco que ultimamente anda com dúvidas em relação a tudo e se preocupa tanto com os gastos em betão foi o rei do betão quando era primeiro-ministro. Ok, este não é lugar para discutir política nacional mas, já que falaste do assunto, não podia deixar de fazer esta observação.
Quanto ao resto, estou inteiramente de acordo. Defendo que, mais do que infraestruturas materiais (que são, obviamente importantes), precisamos de infraestruturas mentais.

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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