Domingo, 2 de Março de 2008

A Luz e o "buraco negro"

Nas preparações para o casamento – felizmente está tudo a correr de forma tranquila – um dos obstáculos mais aborrecidos de transpor é a pesadíssima burocracia israelita. Se a burocracia civil é conhecida por ser demorada e atrofiante, a burocracia religiosa não é mais eficiente. Atrasos, falta de organização, pouca simpatia e ineficiência dos funcionários imperam em ambos os campos.

Na esperança de ultrapassar algumas dificuldades, decidimos abrir o processo de casamento no antigo local de residência da minha futura esposa – um local menos populoso e, por causa disso, onde a burocracia é menos morosa. Ilusão. Como eu nunca morei no local, tive de abrir o meu processo em Jerusalém, o local onde moro actualmente. Aí, a burocracia assenta bem no modelo de instituição pesada e ineficaz.

Tivemos de pedir vários documentos no Tribunal Rabínico de Jerusalém. No nosso caso, precisávamos de um "atestado de identidade judaica" para a minha noiva. Para mim, um "atestado de solteiro", já que os documentos do tribunal rabínico que julgou o meu processo de conversão servem como atestado que sou judeu. Abrir pasta aqui, ir pagar acolá, marcar entrevista para outro dia. Ir, esperar, fazer, esperar, assinar, receber, esperar, carimbar...

Nestes meandros burocráticos, uma das tarefas mais complicadas é a obrigatoriedade da presença de duas testemunhas para atestar a veracidade dos factos, quando se pretende fazer um documento. Encontrar duas testemunhas idóneas, disponíveis e conhecedoras, que pudessem afirmar a favor das nossas pretensões: por um lado, que a minha noiva é judia e por outro, que eu sou solteiro.

O tribunal situa-se no edifício onde funcionou o parlamento israelita entre 1950 e 1966, no centro de Jerusalém. Em Israel, a lei civil não contempla as áreas de casamento e divórcio, sendo estes assuntos regulados exclusivamente pelas autoridades religiosas – judaica, cristã e islâmica. Por isso, religioso ou não, toda a gente que decida casar-se, tem de passar ao menos uma vez por um tribunal rabínico.

Nas mesmas salas onde se prestam pacíficos testemunhos para casamento, também se ouvem histórias por vezes escabrosas que envolvem o litígio dos casais em processo de divórcio. O segredo dos depoimentos é assegurado pela arquitectura: as salas são hermeticamente fechadas, as portas são almofadadas do lado de fora para abafar o som e, ao mesmo tempo, evitar que as pessoas que esperam (e desesperam) do lado de fora, não possam bater na porta, incomodando o juízo que decorre no interior.

Os inconciliáveis mundos religioso e secular, que vivem lado a lado, na sociedade israelita, encontram-se também nos corredores deste tribunal. Mulheres não-religiosas são facilmente topadas por usarem calças, quase sempre justas, por menos elegantes que possam ser os seus corpos. Numa sociedade onde o sinal mínimo de religiosidade masculina é o uso de kippa, os homens não-religiosos notam-se pela cabeça descoberta. Ou então, por usarem uma kippa que não condiz com o resto da roupa. Calças de ganga, blusão de couro e... kippa de veludo negro!? Esse não engana ninguém.

À entrada das salas de juízo, um diligente funcionário verifica se todos os homens entram com a cabeça coberta. Invariavelmente, a kippa disponível será de veludo negro. Apesar de o estilo "nacional religioso" prescrever a kippa tricotada, o sistema judicial rabínico é dominado pelos ultra-ortodoxos, que usam a kippa de tecido negro. E essa é a única moda oferecida aos que não levam a sua própria kippa.

À saída das salas é fácil perceber para o que estão as pessoas no local. Caras alegres e descontraídas são sinal de estarem a tratar de assuntos de casamento. Há gente que sai a chorar, após relatarem as mágoas de um casamento terminado em desastre.

A lei judaica permite o casamento e o divórcio. Pode ser que alguns dos separados nos juízos de hoje, dentro de alguns meses ou anos, voltem a cruzar os corredores da burocracia. Nessa altura trazendo de novo testemunhas, para depoimentos de felicidade, para assim conseguirem refazer as suas vidas junto com outra pessoa.

As kippot que não combinam, as mulheres de calças justas, os homens barbudos e de capota negra, os escriturários de pena e tinteiro na mão, os funcionários diligentes, as lágrimas dos frustrados e os imponentes juízes rabínicos estarão lá, juntos, a compor o surrealista quadro da burocracia nacional.

publicado por Boaz às 21:41
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1 comentário:
De Le Rachelet a 15 de Maio de 2008 às 00:11
Ui, assim não admira que cada vez mais casais jovens optem por dar um saltinho até ao Chipre para dar (ou desatar) o nó.

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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