Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Se eu te esquecer, Jerusalém

Hoje é o Dia de Jerusalém. Há 41 anos, durante a Guerra dos Seis Dias (1967), o exército de Israel reunificou a cidade, dividida desde 1948. Com a derrota israelita na frente de Jerusalém na Guerra da Independência, em 1949, todo o Bairro Judeu da Cidade Velha, habitado permanentemente por judeus durante séculos, foi sistematicamente arrasado pelas tropas jordanas. Sinagogas seculares, casas, escolas, hospitais, monumentos históricos, foram deixados em escombros. Todos os habitantes judeus foram expulsos. Os escombros das sinagogas foram transformados em currais de animais domésticos. O cemitério judaico do Monte das Oliveiras foi profanado pelos jordanos, com centenas de lajes tumulares usadas para pavimentar estradas.

Os lugares santos judaicos, como o Muro Ocidental – única parte remanescente do antigo Templo de Jerusalém – foram interditos aos fiéis judeus. Tal como haviam feito os Romanos e seus herdeiros bizantinos após a destruição da cidade no ano 70 da Era Comum, os jordanos proibiram os judeus de rezar nos seus locais sagrados. Por 19 anos, a única opção foi vislumbrar o Monte do Templo ao longe, a partir da Cidade Nova.

Durante quase duas décadas a cidade esteve dividida. Junto à muralha ocidental da Cidade Velha, estendia-se uma extensão de terra altamente vigiada. Uma "terra de ninguém" entre duas linhas de arame farpado. Até Junho de 1967.

Em apenas seis dias, numa impressionante campanha militar desenrolada em três frentes – no norte contra a Síria, no sul contra o Egipto e no Leste contra a Jordânia – Israel multiplicou por três o seu território. Após dois dias de combates na Cidade Velha, Jerusalém foi reunificada. Pela primeira vez, em quase 20 anos, os judeus puderam voltar a rezar no Kotel, o Muro Ocidental.

E, ao contrário do que haviam feito as autoridades jordanas durante o seu controle da cidade, a liberdade de acesso aos locais santos foi garantida a fiéis de todas as religiões. Apenas duas semanas depois do fim dos combates, foi permitido a todos os muçulmanos o acesso à mesquita de Al-Aqsa.

Hoje, Jerusalém é uma cidade diferente. Após a estagnação da divisão Israel-Jordânia, a capital floresceu. As obras de modernização estão por toda a parte. Uma das obras a ser inaugurada hoje é a magnífica ponte do futuro metro ligeiro, projectada por Santiago Calatrava. Por agora, só a circulação de peões será possível. Dentro de três anos (se não houver mais atrasos na obra) também o metro ligeiro deslizará pela delicada ponte branca, na entrada da cidade.

Depois de anos com numerosos ataques terroristas nos mais diversos pontos da capital, a atmosfera é descontraída. Multidões de turistas – com as novidades dos chineses e dos nigerianos – voltam a pisar as calçadas milenares de Jerusalém. A actividade cultural é vibrante. Novos bairros residenciais, hotéis e centros tecnológicos estão em construção.

No entanto, falam em dividir a cidade. Os mal-esclarecidos planos do governo, de entregar alguns bairros habitados maioritariamente por árabes, à Autoridade Palestiniana, fazem temer uma nova divisão na cidade. Sobre a Jerusalém unificada, até agora aberta a todos, paira a intenção de cortá-la ao meio. Um regresso aos terríveis dias antes de Junho de 1967. Não creio que haja algum dos seus habitantes que realmente deseje um regresso a esses tempos. Nem sequer os árabes que, apesar de boicotarem sistematicamente as eleições municipais, usufruem, como qualquer jerusalemita, dos transportes, hospitais e demais serviços públicos.

A cidade permanece solene. Maravilhosa, apesar de todas as convulsões e tragédias por que passou em mais de 3000 anos de história. Cada uma delas lhe deu um carácter novo. Talvez seja essa permanente mudança que lhe garante a essência de eternidade.

"Se eu te esquecer, Jerusalém, que a minha mão direita esqueça a sua destreza. Que a minha língua se pegue ao meu palato se eu não te recordo, se eu não elevo Jerusalém acima da minha maior alegria." (Salmo 137:5)

publicado por Boaz às 00:00
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