Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Flashes da terrinha

O vento do fim da tarde no arvoredo. O nevoeiro matinal e a neve duas vezes por ano. As estradas sem trânsito no Shabbat. Os garotos que correm, sem preocupações, pelas ruas. Os parques infantis em cada quarteirão, para entreter as numerosas crianças. Os jardins fartos do bairro antigo. Os jardins ainda recentes do bairro novo.


O carvalho solitário que dá nome ao colonato. As famosas vinhas da região.
Um dos muitos parques infantis. A yeshivá Har Etzion.
A nova sinagoga askenazi. A única sinagoga sefardita.

A enorme yeshivá Har Etzion com os seus extensos jardins. Os peixes vermelhos nos lagos do jardim da yeshivá. Os edifícios baixos dos alojamentos dos alunos. Os prédios do kollel*, com apartamentos exíguos, rodeados de árvores e de caminhos cimentados. Os carrinhos de bebé, deixados à porta dos prédios, por falta de espaço em casa. Os choros dos bebés vindos dos apartamentos.

A "sinagoga velha" de 30 anos. As rezas da noite, em tom corrido, às 20, 21, 22 e 23 horas. As reuniões de Sábado à tarde dos grupos juvenis, no relvado ao lado da sinagoga. O salão de festas com a sinagoga dos judeus iemenitas nas traseiras. A mikve* antiga, agora só usada pelos homens. Um caminho ladeado de roseiras ameaçadoramente espinhosas. A nova rampa de acesso à sinagoga para cadeiras de rodas e carrinhos de bebé.

O posto dos correios com horários impossíveis. O corredor ao lado dos correios com centenas de caixinhas de correio. As caixas de correio todos os dias cheias de panfletos publicitários. O enorme contentor aberto para a reciclagem de cartão. A agência bancária, com um horário do género "Fechado 24 horas". O minimercado, chamado por alguns boutique. Os preços inflacionados (daí o apelido). A velhinha que vende flores na praça, durante a tarde. As mesas de venda de doces caseiros às sextas-feiras. O instituto que, misturando lei judaica e ciência, cria inventos "amigos do Shabbat".

Os gatos que trepam às árvores. Os gatos que vasculham os contentores do lixo. A matilha dos cães selvagens que uivam à noite. A ameaça da segurança do povoado de dar caça aos cães selvagens. O bicho misterioso – talvez um pássaro – que pipila de forma estranha, algumas noites, perto da minha janela. Cinco coelhos negros à solta pela rua, na noite de Shabbat. Duas meninas aflitas a correr atrás dos seus coelhos. O canto e o saltitar dos melros nos relvados.

Os hipopótamos de plástico no recreio do centro de crianças deficientes. O crepitar constante dos postes de electricidade. As actuações dos jovens nos feriados, no anfiteatro central. A enorme dupla sinagoga nova com os seus curvos telhados azuis. O – aparentemente – recatado acesso das mulheres ao mikve novo, logo ao lado da sinagoga. O enorme salão de festas, por baixo das sinagogas. As pessoas que esperam uma boleia na paragem do autocarro. Os carros que teimam em não parar para oferecer boleia. A espera ao sol, pela boleia que não chega. A senhora de chapéu de abas largas que todas as manhãs, nas suas caminhadas, nos saúda com um forte "Boker tov!" (Bom dia).

As crianças que aparecem na sinagoga, para receber um chupa-chupa, na manhã de Shabbat. A chuva de rebuçados sobre o jovem de 13 anos, no dia do seu bar mitzva*. A pressa das crianças para apanhar o maior número de doces. O sono que ataca metade da assistência da sinagoga antes da reza nocturna de Shabbat. A voz nasalada do leitor da Torá da sinagoga sefardita. As longas e rimadas bênçãos do oficiante da sinagoga para quem sobe à Torá.

As batidas da música quase em estilo rave e os gritos estridentes das raparigas nas agitadas festas de casamento da aldeia árabe vizinha, numa noite de Shabbat. A videira que sobe o estendal da roupa. Os cachos de uvas maduros que sempre me esqueço de colher. As árvores "de todos" neste ano sabático da terra*. Os anúncios de permissão para colher as frutas, nas árvores que, no próximo ano, voltarão a ter dono.

O pedregoso vale até à colónia de Elazar, cultivado de vinhas e oliveiras e com figueiras abandonadas. Os passeios de bicicleta que eu sonho fazer no vale (quando arranjar a dita bicicleta). Os muros de pedra que separam campos abandonados. O jipe da segurança que percorre dia e noite, as ruas do povoado. Os jovens que fazem a vigilância nos portões de acesso ao lugar, olhando de soslaio para os condutores que entram, antes de abrir a cancela.

Os judeus peruanos de origem inca e os judeus indianos Bnei Menashe, residentes no bairro de caravanas. A longa e sinuosa estrada que liga o povoado ao bairro de caravanas. Os planos sempre adiados de transformar a colina das caravanas num bairro a sério.

Kollel – instituição de estudo religioso ligada normalmente a uma yeshiva, onde estudam a tempo integral, homens casados, recebendo um salário e/ou alojamento.
Mikve – tanque para o banho de imersão ritual, usado principalmente pelas mulheres, para a purificação no final do seu período menstrual. É costume de alguns homens banharem-se no mikve antes de Shabbat, ou todos os dias, antes das orações matinais.
Bar mitzva – literalmente "filho do mandamento". Cerimónia de passagem para os rapazes de 13 anos, que marca a sua entrada na idade adulta em termos de cumprimento dos preceitos religiosos. Consiste na leitura pública do rolo da Torá, na sinagoga.
Ano sabático da terra - ou Shemitá, o sétimo ano do ciclo agrícola de sete anos, ordenado pela Torah para ser de descanso das actividades agrícolas na Terra de Israel. Nesse ano é proibido semear, colher, podar ou lavrar. Apenas algumas actividades de manutenção dos campos são permitidas. Qualquer fruto nascido neste ano é considerado "sem dono" e poderá ser colhido por qualquer pessoa.

publicado por Boaz às 22:51
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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