Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Viagens na minha (outra) terra

Na última Sexta-feira regressei de mais uma viagem a Portugal. Foi o meu terceiro regresso, desde que vim para Israel, em Setembro de 2005. Desta vez, porém, havia um elemento novo na viagem: Nicole, a minha esposa, de visita pela primeira vez ao meu país de origem. Ficámos pouco mais de duas semanas. Vida de casado e compromissos de estudo obrigaram à constrição das férias.


Arco da Rua Augusta, Lisboa; Sítio da Nazaré
São Pedro de Alcântara, Lisboa; Óbidos.

À partida, o obstáculo da língua estava praticamente ultrapassado – sendo brasileira e convivendo comigo há mais de um ano –, as nuances do português que o tornam intrincado para o ouvinte brasileiro, foram superadas com facilidade. Ainda assim, até mesmo eu, de vez em quando, esbugalhava os olhos, a pensar no que pensaria a Nicole acerca de algumas expressões portuguesas.

A alimentação, pela dificuldade em conseguir comida casher em Portugal (tirando a limitada variedade existente numa minúscula secção num supermercado lisboeta) foi a maior das contrariedades. Com antecedência, contactei uns amigos judeus em Portugal, a fim de conseguir a lista de produtos casher, para nos precavermos na ida ao supermercado. Cortámos a carne da dieta e aderimos em força às frutas, ao leite de soja e ao peixe. Como é abençoado o mar de Portugal! (Nem a propósito, a nossa primeira visita turística foi ao Oceanário de Lisboa.) Na bagagem de volta acabámos por trazer dois quilos de bacalhau, os quais ficarão guardados até voltar o desejo do "fiel amigo", depois de comermos bacalhau durante as duas semanas, quase dia-sim-dia-sim.

A inédita experiência da sardinhada não deixou boas memórias à minha cara-metade. Assadas inteiras, com tripas e tudo, com o consequente trabalho de tirar essa parte não comestível do peixe, foi um episódio desagradável. Já os joaquinzinhos fritos ficaram aprovados. E ainda mais, o arroz de grelos a acompanhá-los.

Com pouco tempo disponível, praticamente todos os dias tínhamos de ter uma coisa que só poderíamos fazer uma vez. Visitar a minha irmã e as minhas sobrinhas, antes que abalassem de férias para o distante Algarve, foi uma das primeiras tarefas. Sentia-me, diariamente, como que a marcar um xis numa lista de tarefas a cumprir, ao ritmo da sua execução: visitar a minha irmã, ver os amigos do antigo Grupo de Jovens, visitar a família de Alcobaça e de Lisboa. Cada coisa encaixada num horário apertado.

Consegui reunir a maioria dos amigos de infância após o Shabbat que passámos em minha casa. Reunimo-nos à volta do álbum das fotos do casamento. No geral parece estar quase tudo na mesma. Os mesmos empregos, os mesmos amores, e as mesmas eternas piadas que só nós entendemos.

Sem carro próprio, usámos o carro da minha mãe, com o compromisso de a ir buscar à sua hora de saída do trabalho. Assim, nos nossos passeios, estávamos limitados às proximidades da vila da Batalha. A cidade de Tomar e a sua modesta sinagoga (a precisar de algum restauro), Óbidos e a enchente de turistas italianos – e a ginjinha casher que serviremos aos nossos convidados no Shabbat –, Nazaré e a maravilhosa vista do Sítio, o castelo de Leiria.

Em Lisboa, estivemos menos tempo do que desejaríamos. Ainda assim, na Sexta-feira anterior ao Shabbat que passámos na capital (para termos algum contacto com a comunidade judaica local) aproveitámos para passear. As longas tardes de Verão deram-nos tempo para fazermos um dos mais típicos passeios lisboetas: uma viagem no eléctrico 28. Apanhámos o histórico “bonde” amarelo frente à Basílica e ao Jardim da Estrela. Apinhado, apesar de ter iniciado a sua viagem apenas duas estações antes, em Campo de Ourique. Turistas italianos, espanhóis e americanos compunham a maioria dos passageiros. Tivemos de ir em pé a maior parte da viagem, até à Avenida Almirante Reis.

São Bento, Bairro da Bica, Chiado, Baixa Pombalina, Sé, Alfama, Graça, Anjos, Martim Moniz. Uma delicia! Terminada a viagem de eléctrico, fomos a pé até à Praça da Figueira, descemos toda a Baixa até à Praça do Comércio. Subimos até ao Rossio pela Rua Augusta, eternamente alegrada pelos artistas de rua. Gostei especialmente das pinturas com os eléctricos de Lisboa em milhentas opções.

Fomos ao Chiado e aproveitámos o ar condicionado do Centro Comercial para recuperar o fôlego e arrefecer um pouco o corpo, naquela tarde quente. Continuámos pelo Bairro Alto até São Pedro de Alcântara, um dos mais privilegiados miradouros de Lisboa, agora mais limpo e cuidado do que da última vez que lá apreciei a sua magnífica vista. Pelo Rato chegámos ao ponto de partida do passeio. Alimentámos os atrevidos patos e os pombos do Jardim da Estrela com bolachas de água e sal.

O Shabbat foi muito especial. Hospedados em casa de uma família de amigos alemães, judeus ortodoxos, fomos recebidos como reis. A generosidade foi farta, com a mesa da família partilhada por mais sete pessoas: todos de Israel e de passagem por Lisboa. Voltámos à capital mais uma vez, de regresso do nosso passeio a Sintra. Fomos de comboio – foi a primeira vez que viajei na Linha de Sintra.

Dois dias depois regressámos a casa, a Israel. Não sei quando voltaremos. Esta será, possivelmente, em muitos anos, a única viagem que faremos apenas os dois, em casal. Em breve chegarão os filhos e aí as dificuldades de transporte, assim como as prioridades familiares, serão outras. Poderemos dizer que esta foi a nossa lua-de-mel não oficial.

publicado por Boaz às 22:08
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1 comentário:
De Gonzas a 8 de Setembro de 2008 às 12:27
Foi bom voltar a ver-te. Para a próxima já sei que será com mais membros na família. E quanto à lingua, lembro-me de a Nicole me responder a uma questão que eu lhe fiz dizendo que havia muitas coisas que ela não percebia :) Mais umas sessões com o Grupo de Jovens e ela até as piadas iria perceber :)

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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