Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Passar ao lado da História

11 de Setembro, por pouco, não passava alheio à histórica data. Sem televisão em casa – bem, na verdade até temos o aparelho, mas há cinco meses que permanece desligado, ainda dentro da própria caixa –, o acesso ao mundo exterior é mais ocasional. Na yeshivá, apesar de ter mais de 100 alunos americanos, não ouvi falar do assunto.

Do jovem de 20 e poucos anos interessado em prosseguir uma carreira jornalística e viciado em telejornais e notícias, sou hoje um fraco consumidor de notícias e dos media. O sonho da carreira jornalística passou e o pouco uso que faço do que aprendi na faculdade é o (bastante útil) olhar crítico em relação às notícias e, obviamente, este humilde blog.

Há 7 anos, nesta altura estava em minha casa, a terminar as férias do Verão. Assistia, como fazia quase todos os dias, aos noticiários matinais no canal de notícias europeu EuroNews. Com noticiários de meia em meia-hora, é fácil estar em cima do acontecimento. Começara a transmitir as primeiras imagens de Nova Iorque, naquela manhã inesquecível. A princípio, os relatos da jornalista informavam a suspeita de que uma avioneta chocara contra uma das torres do World Trade Center. O que, a ser verdade, seria a segunda vez.

Eram quase 13 horas, o tempo dos noticiários de início da tarde nos canais portugueses. Passei a emissão para a SIC, que nessa altura já tinha interrompido o programa matinal de Fátima Lopes para mostrar as imagens da nuvem de fumo, do buraco na Torre Sul do WTC, acompanhada de relatos cheios de dúvidas do que acontecera. Três minutos depois do início do Jornal da Uma, em directo para a minha sala de estar – e para todo o mundo – o segundo avião chocou contra a Torre Sul.


Uma pessoa salta do World Trade Center depois da Torre Norte
ter sido atingida por um dos aviões sequestrados (AP Photo/Richard Drew).

Naquele momento, deixara de ser um estranho acidente, para passar a ser um macabro e terrível ataque terrorista. Naquela tarde, segui a emissão televisiva com um ávido apetite por notícias. Todos os programas foram suspensos e, em suspenso também eu fiquei, durante todo o dia, até às 2 da manhã do dia seguinte, quando o último dos canais nacionais (em minha casa em Portugal não havia, nem hoje existe, televisão por cabo) regressou à programação normal.

O auge do êxtase foi a inacreditável queda da primeira torre. Mesmo no conforto da minha sala, senti-me gelar de terror. Logo depois, a segunda torre a cair. Nem a mais demente produção de Hollywood poderia conceber um cenário daqueles. As imagens das pessoas trancadas nos edifícios a saltarem para a morte, foram algumas das mais sinistras experiências visuais a que assisti. Em que pensariam as pessoas no último momento antes de se lançarem? Era impossível não se interrogar...

No dia seguinte, apesar da continuação do tempo de férias, acordei cedo. A avidez de notícias – uma noite inteira de coisas a acontecer um pouco por todo o Mundo depois de uma tragédia daquelas! – despertou-me bem cedo e fez-me correr para a frente da televisão. Não conseguia deixar-me ficar sem saber o que se passava...

Os meses passaram, tiraram-se conclusões acerca das origens do ataque. Os EUA começaram uma guerra global que, há muito começara, mas que passara até então despercebida para a maioria das pessoas. Os muçulmanos ganharam um infame herói, Osama Bin Laden, auto-proposto salvador da sua civilização. O "choque de civilizações" retomava a sua sangrenta e imparável cavalgada. Muitos, mesmo depois de tantas mortes que causou, mantêm-no como o seu modelo. Triste, muito triste.

Invasão do Afeganistão, atrocidades e queda dos talibãs, Bali, 11 de Março em Madrid, Metro de Londres, Istambul, invasão do Iraque, falência de companhias aéreas. Foram apenas algumas das manchetes que surgiram nos meses e anos seguintes, relacionadas com o 11 de Setembro de 2001. Habituámo-nos à repetição de atentados: muda a geografia, mas a marca é a mesma. Rendemo-nos às novas regras de segurança nos aeroportos: depois do bombista dos sapatos obrigaram-nos a descalçar; com o terrorista da bomba-líquida proibiram-nos de levar mais de 100ml do que quer que fosse na bagagem de mão.

O nosso Mundo é hoje muito diferente daquele que existia em 2001. Porém, acostumámo-nos às mudanças. Cada um à sua maneira. Daí que, até eu, outrora um ávido consumidor de notícias, quase me tornei indiferente à data. Do lema: "Nunca esqueceremos", nesta como noutras tragédias, virou pouco mais que um slogan. Quase tudo daquilo que entrou na nossa vida após o 9/11 simplesmente já faz parte da nossa normalidade.


publicado por Boaz às 00:33
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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