Sábado, 25 de Outubro de 2008

Caros amigos

Recentemente, numa manhã, quando cruzava o shuq - o mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém - a caminho da yeshivá, uma senhora estrangeira que passava ali interpelou-me, entregou-me um postal colorido e disse-me em inglês: "Parabéns pelos 60 anos do teu país. Nós gostamos muito de Israel e desejamos-lhe muita sorte, a si e ao seu país".

Sorri perante tamanha simpatia e entusiasmo sionista, aceitei o postal e continuei o meu caminho. Assim que virei as costas para retomar a caminhada, olhei brevemente o papel que me entregara. De um lado era um alegre desenho infantil com os dizeres: "ISRAEL 1948-2008 Mazel Tov!" (que é como quem diz: ISRAEL 1948-2008 Parabéns!).

Tive de virar o cartão para desvendar a sua autoria - e intenções. Um texto em hebraico e em inglês, dizia: "Com este cartão nós congratulamo-lo do fundo dos nossos corações com os 60 anos de existência do Estado de Israel. Nós apoiamo-lo, e nós rezamos que o D'us de Abraão, Isaac e Jacob o abençoe, a si e à sua família!" E uma frase bíblica para reforçar a mensagem: "Quão bonitas nas montanhas são os pés do que traz boas novas, sobre os montes que ascendem para anunciá-las para proclamar a paz, para dar a conhecer a salvação, que dizem a Sião: 'O teu Deus reina!';" (Isaías, 52:7)

No fundo, em holandês, revelava-se por fim a autoria do cartão: "Cristãos por Israel".


O "evangelista" americano John Hagee, líder do movimento Christians United for Israel
(Cristãos Unidos por Israel), discursa perante os seus seguidores e apoiantes israelitas num comício no
Centro de Congressos de Jerusalém, Abril de 2008.

É quase um paradoxo a ideia de movimentos cristãos "amigos de Israel". Não que eu ache que temos de ser inimigos figadais como outrora fomos, mas não nos esqueçamos que o Cristianismo foi fundado com a finalidade de "substituir o Judaísmo". Afinal, o "Novo Testamento" está em oposição ao Velho. A "Boa Nova" de Jesus, ou a "Nova Aliança", como lhe chamam, em substituição da (velha) "Aliança de Abraão, de Isaac e de Jacob". No entanto, é um fenómeno cada vez mais visível em Israel. Na última semana, coincidindo com as festividades de Succot, realizou-se em Jerusalém uma marcha de cristãos pró-Israel. Uns 3000 cristãos de quase 100 países desfilaram com as bandeiras azuis e brancas de Israel. Várias instituições, associadas sobretudo ao Protestantismo da linha evangélica, existem com o objectivo de ajudar Israel. Uma boa parte do lobby político pró-Israel norte-americano é formada por cristãos. Milhões de dólares são doados anualmente a Israel por igrejas do mundo inteiro.

É sabida a ligação histórica dos primórdios do Cristianismo à Terra Santa de Israel, com as seculares peregrinações aos locais sagrados de Jerusalém, Belém e Nazaré. O controlo desses locais foi o propósito das Cruzadas, no início da Idade Média. No entanto, o novo apoio cristão a Israel não provém tanto de um desejo de controlo dos locais santos. As profecias judaicas falam claramente da vinda do "Redentor" após a concretização de uma série de factos. A reunião das tribos exiladas de Israel é uma delas. Por isso, uma boa parte da ajuda cristã é canalizada para a assistência aos novos emigrantes judeus em Israel. Instituições em Jerusalém e noutras cidades oferecem aos novos imigrantes objectos para a casa e roupas, bastando-lhe para receberem essa ajuda mostrar o documento que prova que são imigrantes recentes.

Esse apoio cristão internacional é mal visto em muitos sectores da sociedade israelita, incluindo os próprios cristãos árabes de Israel. São também olhadas com desconfiança pelos "pacifistas", pois na generalidade, essas igrejas evangélicas apoiam os colonatos judaicos nos "Territórios Palestinianos", e muitas criticam mesmo as negociações de paz com a Autoridade Palestiniana, além de pressionarem a política norte-americana nesse sentido. Os judeus sionistas religiosos, favoráveis à colonização manifestam igualmente um desconforto pelos novos laços com estes cristãos. É que a filosofia evangélica não esconde que esse apoio não deriva da pura e desinteressada simpatia pelos Judeus ou Israel em si mesmos.

Na verdade, ele tem umas segundas intenções bem determinadas, destinando-se a "antecipar a nova vinda do Messias". Como admitiu o filósofo judeu francês Henri Bergson: "As minhas reflexões levaram-me cada vez mais próximo do Catolicismo, no qual eu vejo a completa finalização do Judaísmo..." Numa nova interpretação da profecia judaica da Batalha de Armagedão, os cristãos crêem numa batalha apocalíptica entre o bem e o mal, que proclamará Jesus como o Messias e na qual os Judeus que não o aceitarem serão exterminados.

Por isto tudo, não é de espantar que, há uns anos, o Rabino Shlomo Aviner, director de uma importante yeshivá de Jerusalém, tenha recusado um chorudo cheque de uma organização de "amigos evangélicos". É que, como diz um célebre cronista português: "Não há almoços grátis".

publicado por Boaz às 22:25
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2 comentários:
De Duarte Sousa a 11 de Novembro de 2008 às 15:24
«"Não há almoços grátis".»

Precisamente. Esses cristãos evangélicos fazem recordar Martim Lutero. Quando este se apercebeu de que os judeus não pretendiam aderir à sua doctrina protestante não hesitou em amaldiçoá-los e acusá-los de heresia e materialismo.

Este tipo de atitude para com os judeus esteve patente ao longo da História do povo germânico. Foi ganhando grande força durante o século XIX com o surgimento do Romantismo e atingiu o seu auge no século XX com através da ideologia Nazi.

Por isso, quem pensa que estes cristãos evangélicos são aliados dos judeus, abra os olhos e lembre-se do passado.

PS: Para quem não acredita literalmente na Torah e na existência de um deus pessoal, menos credível parece a doctrina cristã, que nem sequer é coerente com a Torah.

De OBNOXIO a 6 de Março de 2011 às 19:56
Em primeiro lugar parabéns pelo seu blog!
Mas queria acrescentar que a ajuda, senão protecção do mundo ocidental a Israel é hipócrita! O "Velho do Restelo" que vive na minha cabeça pergunta-me se essa solidariedade se deve ao respeito por um povo que esteve nos primórdios dos valores que hoje nos orientam, ou se deve á necessidade estratégica de manter um estado forte não islamita no médio oriente ?????

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