Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Não há fábricas em Gaza

Quando Israel retirou os colonatos judeus da Faixa de Gaza, em Agosto e Setembro de 2005, foram demolidas as residências particulares, mas não os edifícios públicos. As antigas sinagogas e yeshivot, vazias de objectos sagrados, foram vandalizadas pelos moradores de Gaza, assim que o último soldado deixou a região.

Nos últimos anos da existência dos colonatos de Gush Katif, o principal bloco judaico em Gaza, as estufas eram a principal actividade económica. Milhares de toneladas de verduras orgânicas e flores eram exportados anualmente para a Europa. (Ainda hoje, em Israel, "Gush Katif" é sinónimo de legumes orgânicos e livres de bichos.) As estufas, ao contrário das casas dos antigos residentes foram deixadas intactas. O objectivo era transformá-las num pólo de desenvolvimento económico de Gaza. Porém, desde 2005, as estufas que tinham sido umas das mais avançadas do mundo, não produziram nada. Poucos dias após a evacuação, a maioria das estufas tinham sido saqueadas pela própria população.

Nos extensos terrenos vazios da área dos antigos colonatos pretendia-se construir prédios residenciais, para suprir a falta de habitação de qualidade em Gaza, uma das regiões mais densamente povoadas do Planeta. Apesar dos milhões de euros, dólares, e petro-dólares injectados anualmente nas finanças da Autoridade Palestiniana (estatisticamente, os Palestinianos são mesmo o povo que recebeu mais ajuda internacional per capita, de todos os tempos) a situação económica em Gaza não progrediu. Antes pelo contrário.

Nas eleições legislativas de Janeiro de 2006, ganhas pelo Hamas, a situação piorou. A maioria dos financiadores internacionais da Autoridade Palestiniana suspendeu os pagamentos. Quando o Hamas tomou de assalto a Faixa de Gaza em Julho de 2007 e dominou o território após sangrentos confrontos com apoiantes da Fatah, o território perdeu a maior parte das fontes de ajuda internacional, incluindo as fontes árabes.

Os Palestinianos desperdiçaram a oportunidade criada com a retirada de Gaza de 2005. Alguns idealizaram mesmo criar na Faixa de Gaza numa espécie de Hong Kong do Médio Oriente. Passe o delírio romântico de tal empreitada, a verdade é que Gaza perdeu todas as oportunidades que se lhe apresentaram. Por exemplo, as praias da região, em especial a de Dugit, eram famosas por terem "as melhores ondas de surf de Israel". Com esse potencial, poderiam ter construído resorts que estariam cheios de turistas israelitas e internacionais. Nada foi aproveitado. É evidente que Israel não ajudou da melhor forma para a prosperidade de Gaza, mas com a transformação da região num imenso campo de treino terrorista sob as ordens do Hamas, o país não poderia manter nem sequer o mínimo de cooperação com as autoridades locais.

Israel acabou por impor um bloqueio económico parcial. Todavia, mesmo nas alturas mais "apertadas" Israel continuou a fornecer cerca de 70% da energia de Gaza. O Egipto, esse estado amigo de todas as causas do nacionalismo árabe, fornece 20%. O que resta é produzido por uma central de energia na Faixa. Doentes de Gaza continuaram a ser tratados em hospitais israelitas, mesmo quando as bombas caíram a poucos metros do hospital Barzilai de Ashkelon.

Após a tomada do poder pelo Hamas, o Egipto estancou a fronteira internacional de Rafah, que o separa de Gaza. (Aliás, alguém ouviu falar do "bloqueio egípcio"?) Durante os confrontos entre o Hamas e a Fatah, os blocos de cimento de uma secção da barreira fronteiriça foram derrubados. Os canhões de água e os tiros da polícia de choque egípcia não impediram a passagem de mais de 500 mil palestinianos para o Sinai. Em poucos dias, a população de Gaza recheou a dispensa, parca com o bloqueio económico, enquanto o Hamas aproveitou para se abastecer de armas, incluindo os mísseis Grad, de fabrico iraniano, que agora disparam sobre as cidades do sul de Israel.

Depois do encerramento da fronteira, a alternativa para o Hamas para o abastecimento de armamento e para os civis para obterem bens básicos, foi o recurso aos túneis de contrabando. Supõe-se que existam mais de 200 entre os dois lados da fronteira de Rafah, por onde passa de tudo. Comida, medicamentos, combustível, animais e talvez até um soldado sequestrado (existe a hipótese de o soldado israelita raptado Gilad Shalit ter sido retirado de Gaza através de um dos túneis). Tudo é traficado. O Hamas controla todas as mercadorias que são contrabandeadas através dos túneis, cobrando uma taxa "alfandegária" usada para financiar as suas operações.

Desde 2005 a única indústria que floresceu em Gaza foi o fabrico de mísseis Qassam, para serem disparados sobre Israel. Daí que faltem todos os produtos transformados, mesmo os mais básicos, como o pão e o sabão.

É óbvio que Israel não tem favorecido a prosperidade em Gaza. A opção dos habitantes de Gaza em apoiarem o Hamas também não. Que país não bloquearia o seu inimigo declarado, impedindo-o de receber ajuda do exterior? O desenvolvimento visível na cidade árabe de Belém, nos arredores de Jerusalém, é um sinal claro de que a calma com Israel é da maior conveniência para os Palestinianos.

Não haverá desenvolvimento nem paz quando todos os recursos dos palestinianos forem dirigidos para o conflito com Israel. Tal como um dia declarou a Primeira-Ministra Golda Meir: "Haverá paz quando os Árabes começarem a amar os seus filhos mais do que eles nos odeiam".

publicado por Boaz às 22:36
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2 comentários:
De joão moreira a 15 de Janeiro de 2009 às 15:17
Excelente post!!!
De Pedro a 15 de Janeiro de 2009 às 17:02
Moi bo texto. Gardo o teu blog nos meus favoritos.

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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