Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Quando a bolha rebenta

Depois de vários anos em que o preço do petróleo subiu a níveis nunca vistos, chegando aos 147 dólares por barril em Julho do ano passado, hoje encontra-se a menos de 50 dólares – e há poucas semanas esteve a menos de 40. Alguns analistas de economia explicam que uma das razões para a actual crise económica é exactamente a instabilidade do preço do crude. Quando o valor do principal motor da economia internacional se baseia na pura especulação, o resultado global não pode ser positivo. E quando o motor falha, todo o sistema vai abaixo.

Nos anos dourados das economias árabes, com um fluxo de receitas de exportações de petróleo que parecia não ter fim, construíram-se uma imensa colecção de elefantes-brancos dignos das histórias das Mil e Uma Noites. O melhor exemplo desta febre é o Dubai. Em pouco mais de uma década, passou de um pequeno porto nas margens do Golfo Pérsico para um dos maiores centros turísticos e empresariais do Mundo. Os projectos arquitectónicos cada vez mais arrojados fizeram a fama do pequeno emirado, um dos sete Emirados Árabes Unidos.


O Hotel Burj Al Arab, símbolo do ultra-luxo do Dubai.

Dois enormes aeroportos internacionais, uma gigantesca marina rodeada de hotéis de luxo e arranha-céus residenciais de ultra-luxo, vários dos edifícios mais altos do Mundo, as ilhas artificiais Palm Islands (três ilhas em forma de palmeira) e The World (um arquipélago com a forma dos continentes), hotéis que quebraram a escala das cinco estrelas. Todos os luxos que os (aparentemente) inesgotáveis petro-dólares, os desafios da engenharia e a mão-de-obra barata podem proporcionar. Os novos projectos sucessivamente ultrapassam a imaginação e os orçamentos dos seus concorrentes.

Noutras ocasiões em que o preço do petróleo desceu abruptamente, em especial na década de 1970 como consequência do embargo de petróleo ao Ocidente, verificaram-se convulsões sociais nos países árabes. Com a redução drástica dos orçamentos dos estados, os serviços prestados às populações foram cortados. Nessa altura, o luxo babilónico em que viviam as famílias reais árabes deixou de ser aceitável aos olhos do cidadão comum.

Quando há pita e um prato de feijão em casa, o árabe comum não reclama pela falta de direitos políticos, pela opressão das mulheres e das minorias religiosas, pelo analfabetismo, o atraso económico ou a falta de alternativas de emprego para os jovens. Porém, quando a crise chega à mesa da família, a extravagância dos sultões é ainda mais desavergonhada.

O mesmo poderá acontecer nos próximos tempos. Ainda mais quando o petróleo caro não significou, na maior parte dos casos, uma melhoria das condições de vida dos cidadãos dos países produtores. E mesmo que a gasolina continuasse mais barata que a água, Mohammad queixava-se "de que me serve a gasolina barata, se não a posso beber?" Praticamente sem actividade económica para lá da indústria petrolífera, e tendo de importar tudo o resto, de cereais à roupa e aos automóveis, a inflação disparou na generalidade dos países produtores de petróleo do Médio Oriente.

No Ocidente, a crise também fez os europeus e americanos olhar com cautela para os luxos. Nem os milionários de Nova Iorque e Londres deixam de pensar duas vezes antes de gastar mais de 10,000 dólares por uma noite num hotel de 7 – sim, 7! – estrelas, investir algumas dezenas de milhões numa ilha artificial no Golfo Pérsico, ou até em comprar ou arrendar um escritório num dos inúmeros novos arranha-céus nos novos centros financeiros das Arábias. Essa reserva do mercado levou de volta ao fundo da gaveta alguns dos projectos megalómanos sonhados para o Dubai e outros oásis fabulosos das vizinhanças. A fúria urbanística atingiu uma tal força que dificilmente é acompanhada pela procura, pelo que centenas de arranha-céus arriscam-se a ficar vazios.

Em Israel as coisas não estão tão tranquilas em termos económicos como nos últimos anos, mesmo que a descoberta de uma importante jazida de gás natural ao largo de Haifa e os crescentes projectos do país em desenvolver as energias renováveis, podem ser bons sinais económicos. Ainda que a miséria dos nossos vizinhos não deva ser fonte de contentamento, talvez possamos sentir algum alívio ao saber que, um dos efeitos colaterais da crise financeira mundial pode ser a diminuição das ajudas do Irão aos movimentos terroristas palestinianos e libaneses.

Parece que todo o desmedido e fascinante luxo das Arábias foi construído sob frágeis pilares de barro. Não admira que aos poucos o ouro se descasque e o edifício acabe por cair em ruína.

publicado por Boaz às 21:55
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1 comentário:
De Irene a 11 de Fevereiro de 2009 às 17:37
Finalmente, uma petição para que a ONU faça o seu trabalho como deve ser! Assinem e divulguem a seguinte petição para que o Hamas seja investigado pelos seus crimes (e não foram poucos):

http://www.petitiononline.com/tap12009/petition.html

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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