Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Porto de refúgio

Imigrantes, migrantes e refugiados. Três termos que fazem parte do quotidiano de Israel. A maioria dos israelitas é imigrante (como eu, por exemplo), aquilo que em hebraico se chama oleh – o que fez aliyá, a imigração para Israel. Ou, se eles próprios não são imigrantes, serão a primeira ou segunda geração de cidadãos de Israel. São poucas as famílias que se estabeleceram em Israel há mais de três gerações.

Além da muito discutida situação dos refugiados palestinianos, a história de Israel é marcada pelas sucessivas ondas de refugiados judeus. Primeiro, os quase um milhão de judeus países árabes. Depois, sucessivamente, os judeus do Irão, da ex-União Soviética. Os judeus argentinos e uruguaios chegaram durante a crise económica na América Latina, enquanto uma nova vaga de anti-semitismo na Europa fez chegar os franceses nos últimos anos.

Na última década, com o desenvolvimento económico – em especial depois do abrandamento da violência da Segunda Intifada, milhares de imigrantes não-judeus chagaram ao país para trabalhar. É um fenómeno corrente em todas as sociedades modernas. Em Portugal, e na generalidade da Europa Ocidental são os africanos, os chineses, os sul-americanos e os europeus do Leste. Nos EUA são os mexicanos ou os cubanos. Em Israel, a imigração económica é quase totalmente asiática: filipinos, tailandeses, chineses, cingaleses (do Sri Lanka). Nos últimos anos, surgiram dois novos fenómenos das migrações para Israel: os sudaneses e os eritreus.


Vestido de menina africana na cerca da fronteira Israel-Egipto, 20-8-07. Foto de Yonathan Weitzman.

Do Sudão chegaram refugiados do Darfur. Fogem de um dos mais trágicos e ignorados conflitos actualmente no Mundo, iniciado em 2003. As milícias árabes Janjaweed que contam com o apoio do governo sudanês lutam contra vários grupos de guerrilha de tribos não-árabes da região. De acordo com organizações não-governamentais, o número de mortos poderá ultrapassar os 500.000. Os refugiados são mais de 2,5 milhões. Numa comunidade internacional vesga e cheia de "outros interesses", a única consequência do conflito foram as recentes acusações de crimes de guerra e genocídio contra o presidente do Sudão Omar al-Bashir. Como retaliação pela afronta da crítica, o governo sudanês expulsou as organizações internacionais de ajuda aos refugiados de Darfur.

A guerra, a pobreza e a ditadura na Eritreia levaram a uma pequena vaga de refugiados para Israel. A Eritreia, um país do Leste de África pouco maior do que Portugal, foi parte da Etiópia até à independência, em 1993. É por várias organizações considerada um dos países com pior registo de direitos humanos no Mundo. (Aliás, quem ouviu falar da situação na Eritreia?) O presidente eritreu, Isaias Afewerki, foi incluído na lista dos piores ditadores pela revista Parade Magazine. Toda a imprensa é controlada e as eleições são proibidas por "polarizarem a sociedade".

Em Israel, algumas centenas de refugiados sudaneses receberam asilo político, algo extraordinário, já que provêm de um país que, além de não ter relações diplomáticas com Israel, é visto como um país hostil. Ainda assim, os sudaneses de Darfur receberam ajuda do Estado. As crianças ingressaram nas escolas. Os eritreus começam a substituir os árabes nos trabalhos de limpeza de ruas e edifícios públicos. Em Alon Shevut, dois homens da Eritreia são uma visão comum a cuidar da limpeza pública. Na Yeshivat HaKotel, um jovem eritreu foi a última adição à equipa de funcionários.

O que espanta mais nesta história é que os sudaneses e a maioria dos eritreus são muçulmanos. Arriscaram-se a atravessar mais de 1500 quilómetros de deserto, onde ficaram sujeitos à violência de bandidos, em terras sem lei nem ordem. Na passagem pelo Egipto, sofreram a brutalidade da polícia. Algumas mulheres relataram terem sido violadas. Querem chegar a Israel, o único país judeu do Mundo. O "pequeno Satã" e "inimigo dos Árabes e do Islão". Ainda assim, com todos os seus defeitos, é o porto de abrigo sonhado por muitos.

publicado por Boaz às 21:50
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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