Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Os outros seis milhões

De acordo com a tradição judaica, apenas um quinto dos antigos escravos hebreus foi libertado do Egipto. A Torá revela que 600.000 homens com mais de 20 anos saíram da escravidão. Se juntarmos mulheres, crianças e jovens até aos 20 anos, teremos perto de três milhões de pessoas. E estes, lembremos, eram apenas 1/5 dos Filhos de Israel. Os outros, os que não saíram, nunca chegaram a receber a Torá. Nunca entraram em Israel. Nunca se tornaram Judeus. Os Hebreus que nunca saíram do Egipto morreram durante os três dias da praga da escuridão. A escuridão egípcia, na qual estavam tão imersos, sufocou completamente a sua identidade hebraica.

 
Travessa de Pessach com lugar para as diferentes comidas da festa.

No ano passado, a Agência Judaica realizou uma pesquisa destinada a determinar a população potencial de pessoas que podem fazer aliyá, a imigração para Israel. Praticamente esgotada a população de Judeus da antiga União Soviética, o estudo centrou-se nos Estados Unidos, o país com a maior comunidade judaica fora de Israel. Pelos números oficiais das comunidades judaicas, vivem nos EUA mais de 5 milhões de Judeus. Porém, o estudo da Agência Judaica descobriu que existem cerca de 11 milhões de norte-americanos com direito a imigrar para Israel – 6 milhões a mais do que o número oficial de Judeus!

Quem são estes seis milhões?

A grande parte dos judeus dos EUA chegou no período entre os finais do século XIX e o pós-II Guerra Mundial. Na sua maioria gente pobre que fugia de perseguições na Rússia, Polónia e Alemanha, fundaram a maior comunidade judaica do Mundo. No terreno da liberdade americana o Judaísmo atingiu o seu nível mais elevado desde a Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol. O inglês tornou-se, segundo alguns, o "novo iídiche". Os Judeus atingiram a plena integração na sociedade americana: são líderes políticos e culturais, ícones da sociedade, apontados como exemplos do melhor que a América produz. No cinema, na ciência, na literatura.

Porém, em duas gerações apenas, milhões de descendentes dos judeus americanos perderam-se para o Judaísmo. A tranquilidade da vida judaica na América "ajudou" à assimilação. Muitos não têm qualquer vínculo com a comunidade judaica e a assimilação atingiu níveis alarmantes: mais de 50% dos judeus do país casam-se com não-judeus. (No Brasil a percentagem será superior.) Porém, mais do que uma catástrofe, muitos vêm este fenómeno como um sinal de "integração".

São numerosas as comédias que mostram um "casamento ecuménico", com um rabino e um padre católico ou pastor protestante partilhando a cerimónia. De novo, a "integração". Apesar da enorme presença de elementos judeus na cultura americana (e daí para todo o mundo), mais crianças judias sabem o nome da mãe de Jesus do que da mãe de Moisés. Muitas famílias judaicas celebram Channuka mas com uma árvore de Natal ao lado da chanukkia. Muitos judeus não celebram Rosh Hashaná nem escutam o toque do shofar, mas não perdem um Reveillon, nem deixam de escutar e admirar o fogo de artifício.

Em Portugal, dos fundadores da sinagoga de Lisboa, há pouco mais de 100 anos, são raros os seus descendentes que permanecem judeus. Mesmo das poucas famílias judias que restam, contam-se pelos dedos de uma mão as que são realmente religiosas. Há judeus suficientes para encher diariamente os cerca de 300 lugares da sinagoga, mas esta é usada apenas no Shabbat e festas. E o minyan (grupo mínimo de 10 homens necessário para realizar uma cerimónia religiosa) depende invariavelmente de algum ocasional turista. Sem escola judaica para as crianças, deixar o país é a opção para quem quer permanecer fiel às tradições. Em três gerações, as famílias judaicas tradicionais de Lisboa foram totalmente assimiladas. Restam os nomes de família apresentados com um orgulho aristocrata, mas pouco ou nada mais do que isso.

No calendário judaico, em Tisha be'Av, lembramos a destruição do Templo de Jerusalém e o consequente exílio que se lhe seguiu. Nesse dia lembramos também a Expulsão dos Judeus de Espanha, ocorrida na mesma data. É dia de jejum e de luto. Uma vez por ano, comemoramos o Yom HaShoá, o dia da memória do Holocausto. As sirenes tocam e o trânsito pára em Israel. Escolas e comunidades judaicas de todo o Mundo organizam palestras e exposições sobre o tema. Lembramos com solenidade nestas duas datas as maiores tragédias que caíram sobre o nosso Povo. Os milhões de Judeus que morreram e a glória do nosso passado. Todavia, não temos nenhuma data dedicada aos descendentes dos "Filhos de Israel" que nunca chegaram a ser Judeus.

A destruição do Templo, a Expulsão de Espanha, o Holocausto foram tragédias impostas aos Judeus por outros povos. Recordamo-las com dor pelas enormes perdas que sofremos. Lamentamos os Judeus que se perderam pela acção brutal dos Romanos, da Inquisição, dos Nazis. A assimilação, porém, é uma tragédia causada por nós mesmos, dentro do próprio Povo Judeu. De livre vontade, judeus casam-se fora da fé judaica. Alguns líderes judaicos chamaram-lhe "o Holocausto Silencioso". Silencioso, porque destrói sem sangue, sem tiros, sem cinzas. Mas – é possível – sem dor?

Como crescem os filhos dos Judeus que se casaram fora do Judaísmo? Que identidade têm? Sentem-se Judeus, ou outra coisa qualquer? Talvez até tenham passado pelo brit (circuncisão) e uma espécie de bar mitzva, estudaram em alguma escola judaica, tenham alguns amigos judeus… Como pode não sentir dor um filho de pai judeu e mãe não-judia quando entra numa sinagoga e, para o minyan, ele conta tanto como o turista que veio apenas tirar fotos?

O Judaísmo é uma corrente de elos unidos, formada desde Abraão. O elemento que mantém forte a corrente é a família judaica. Pessach - a Páscoa - é a festa judaica mais familiar. Não por acaso, as figuras centrais na celebração do seder de Pessach são as crianças. É nelas, na sua integração na história e tradições judaicas, que reside a coesão de toda a cadeia de transmissão que começou com Abraão. Afinal, Abraão foi escolhido para receber o pacto divino não apenas por ser um homem justo, mas porque D’us soube que Abraão transmitiria o Seu pacto às próximas gerações.

É nas crianças judias, frutos de um casamento e de uma família judaica, que se perpetua o pacto entre D’us e Abraão (reafirmado no Sinai a todo o Povo de Israel). Pessach, que significa "passagem", é o símbolo maior da transmissão da identidade judaica. Ao vivermos Pessach como se nós mesmos tivéssemos sido redimidos do Egito, renovamos a nossa fidelidade ao Povo de Israel. Decidimos se permanecemos, com os nossos filhos, fiéis ao pacto que recebemos dos nossos antepassados e aceitamos a redenção de D'us, ou se somos dos milhões que desapareceram na escuridão.

Nota: O nome da mãe de Moisés é Yocheved.

publicado por Boaz às 18:50
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11 comentários:
De Sandra a 8 de Abril de 2009 às 21:21
A liberdade de escolha é uma das características mais enriquecedoras do ser humano. Escolher de livre vontade partilhar a sua vida com alguém não-judeu porque acredita que a sua felicidade assim será maior, é uma opçao de vida perfeitamente válida, não uma tragédia. Porque antes de sermos de qualquer religião, somos todos seres humanos.

De Boaz Gabriel a 9 de Abril de 2009 às 23:54
É verdade que a liberdade de escolha é enriquecedora e faz parte da nossa humanidade. No entanto, uma escolha, todas as escolhas, têm de ser feitas com responsabilidade, com consciência das suas consequencias.
E uma das consequências de um casamento entre um homem judeu e uma mulher não-judia é que os seus filhos não serão judeus. E mesmo que seja uma mulher judia que se case com um não-judeu sendo os seus filhos automaticamente judeus) deverá ter consciência de um possível futuro problema de identidade dos seus filhos.
Se os pais valorizarem essa parte da sua identidade, e quiserem transmiti-la aos seus filhos, deverão pensar 2 vezes se realmente acreditam "que a sua felicidade assim será maior".
"É uma opção de vida perfeitamente válida", mas isso não faz com que seja bem sucedida.
De Michael a 9 de Novembro de 2009 às 04:42
Vi que esse texto foi publicado há algum tempo, mesmo assim quis comentá-lo. Curioso você colocar em questão a "responsabilidade" de uma decisão basicamente porque ela parece não bater com o que vc conseidera responsável. Todas as decisões que tomamos trazem consequências. Toda essa discussão sobre assimilação é bem curiosa, até porque ela se baseia toda no fato de que é judeu quem nasce filho de mãe judia. Conceito definido por quem? Deus? Tem certeza disso? A turma da yeshiva está sendo "responsável" ao definir quem é judeu dessa forma?
Você sabe exatamente o que difere judeus e não judeus do ponto de vista religioso orotodoxo? Consegue escrever aqui?
De Boaz a 9 de Novembro de 2009 às 21:30
"no fato de que é judeu quem nasce filho de mãe judia. Conceito definido por quem? Deus? Tem certeza disso?" Acreditamos que a Torá é a palavra de Deus. E se, baseados na Torá, os nossos Sábios definiram como judeu aquele que é filho de mãe judia... então sim, foi Deus quem definiu as coisas desse modo. Porém, existe ainda a opção da conversão. São estas duas formas de pertença ao Judaísmo de acordo com a corrente ortodoxa.
De Moacir a 10 de Abril de 2009 às 17:03
Creio que aqui no Brasil poucos jovens descendentes de judeus (e mesmo adultos) sabem o que é Aficoman na tradição do Pessach. Já o ovo de pascoa....

Muito bom o artigo. Parabéns
De joao moreira a 11 de Abril de 2009 às 23:16
Concordo com o que está escrito e com o primeiro comentário. A felicidade sobrepõe-se a todas as opções religiosas. Os casamentos/uniões de quem seja/não seja praticante não deve ser motivo para criar atritos entre pais e filhos. Estes devem ser livres de seguir as suas opções. Reconheço que quem siga uma religião que não é maioritária no país de residência, tenha tendência a perder essa afinidade religiosa e a integrar-se numa nova realidade (quer devido à sua paternidade quer à sua futura família).
De joao moreira a 12 de Abril de 2009 às 19:09
O "DN" de hoje (12/04) na secção "Desporto", no artigo "Páscoa fora das religiões" aclara algumas situações. (www.dn.pt)
De joao moreira a 14 de Abril de 2009 às 21:53
Ao leitor Moacir:

Não sei se é paulista ou se sabe, mas qual é o nome do cemitério judeu de S.Paulo?
De Beitar a 25 de Abril de 2009 às 22:50
Interessante o artigo, mas existe algo que não estamos de acordo. A Halacha diz claramente quem é Judeu, nisso acho que não há dúvida, mas o problema passa na total inaptidão dos rabinos perceberem que o Judaismo não está cegamente ligado ao laço entre Mãe e filho/a. Dou-lhe um exemplo: Existem Judias que casam com muçulmanos que educam os filhos na nova "fé", mas estes não deixam de ser judeus. Todos concordamos neste ponto. Agora, uma criança nasce de pai judeu apenas, é educado no Judaismo, mas não é Judeu (eu sei, a conversão é mais fácil), mas o meu ponto é bastante simples: O Judaismo tem que ser ou uma religião de educação ou uma etnia com um sistema religioso. Na primeira, e a que faz mais sentido, Israel acabaria num segundo, na segunda os Rabinos não querem tocar. Logo ficamos todos num limbo. Meu rapaz, a nossa religião é bela, mas não é perfeita
De Boaz a 27 de Abril de 2009 às 00:17
O Judaísmo não é, nem pode ser uma etnia, com um sistema religioso. Que parentesco "étnico" existe entre os judeus haredim da Polónia e os Falash Mura da Etiópia ou os judeus de Cochim?
De Beitar a 27 de Abril de 2009 às 16:40
Boaz, o significado de etnia não implica raça, mas sim um conjunto de pessoas com o mesmo sistema cultural, histórico, religioso, sanguineo, etc. Todos os grupos de judeus têm misturas,, excepto talvez os Falasha, e outros na Ásia (são grupos que se converteram totalmente ao Judaismo no passado).

O que eu quero dizer aqui é bastante simples: O Mundo já não é o mesmo de há 2000 anos, nem de há 500 atrás, tal como o tempo a Halacha foi alterada de modo radical em alguns momentos da História (veja a destruição do templo e o fim dos rituais). Neste momento, judeus lutam com inimigos externos, mas também internos. Cada uma "rema" para o seu lado, se cada um de nós olhar apenas para o que o "nosso" movimento no diz quem é ou não judeu então o Judaismo vai acabar qualquer dia.

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