Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

O visitante


Cúpula do Rochedo e uma cruz. Foto de Sarah Duishart, Maio 2005

Começou hoje a visita do papa Bento XVI a Israel. Não é uma visita pacífica, ainda que ele tenha apresentado a sua viagem ao Médio Oriente como uma "de apelo à paz e à compreensão entre as religiões". Bom slogan, mas algo distante daquilo que tem sido o seu papado.

No ano passado, Bento XVI provocou um escândalo com o Islão, ao citar uma obra cristã medieval que caracterizava alguns ensinamentos de Maomé "maléficos e desumanos", em especial "o seu mandamento de espalhar a fé pela espada". As autoridades muçulmanas exigem um pedido de desculpas pela grave afronta ao profeta.

Com os Judeus, a sua relação também não tem sido a mais amistosa. Restaurou uma passagem antiga da missa em que apela à conversão dos Judeus. E mais recentemente reabilitou um bispo inglês renegado, Richard Williamson, famoso pelo seu revisionismo do Holocausto. Ao visitar o Yad Vashem, o Museu do Holocausto em Jerusalém, será difícil não pensar nesta questão e que o jovem Joseph Ratzinger (o verdadeiro nome do papa) foi membro da Juventude Hitleriana – ainda que a incorporação no movimento de propaganda nazi fosse obrigatória para todos os jovens arianos e o seu pai fosse um crítico do Nazismo.

Este será o terceiro papa a visitar Israel, depois de Paulo VI e João Paulo II. A vista de 2000, é vista por muitos como a mais importante do pontificado de João Paulo II. Em 1964, Paulo VI fez uma vista relâmpago de menos de 12 horas. Na altura, recusou-se encontrar-se com o presidente da República Zalman Shazar, em Jerusalém, encontrando-se com ele apenas no posto de fronteira de Meggido, nunca lhe dirigindo a palavra como chefe de estado. E, mais estranho ainda, durante a visita não mencionou o nome do país “Israel”. Na altura, o Vaticano ainda não reconhecia o Estado Judaico (isso só veio a acontecer 30 anos depois). O re-estabelecimento da soberania judaica na Terra Santa era uma espinha difícil de engolir pelo Catolicismo, herdeiro da ideia do novo pacto, em substituição do antigo pacto de Deus com o Povo de Abraão.

Nas semanas que antecederam a visita uma nova questão difícil foi levantada entre Israel e a Igreja Católica. O Vaticano reclama direitos de soberania sobre vários locais santos cristãos em Israel, entre eles: a igreja da Anunciação em Nazaré e a igreja das Beatitudes em Tiberias. Além da problemática questão de extra-territorialidade – porque há-de ter o Vaticano soberania sobre igrejas em Israel se uma sinagoga em Roma não é território israelita? –, o próprio favorecimento do controle católico desses locais implica uma exclusão das outras confissões cristãs. O Catolicismo nem sequer é a principal confissão cristã em Israel, sendo uma minoria entre as várias comunidades ortodoxas.

Por outro lado, é sabido que a comunidade católica a nível internacional nem é conhecida por ser pró-Israel, nem o turismo católico é de grande expressão entre os peregrinos cristãos que vistam o país, ao contrário de várias igrejas evangélicas. Então, para quê o favorecimento?

Tal como o Rabino Norman Lamm, director da importante Yeshiva University de Nova York comentou: "O papa é um intelectual e como tal existe algo nas entrelinhas do seu comportamento. Os seus interesses são principalmente teológicos. Nada de grande consequência sairá da visita. É importante não pintar o papa como um demónio. Ele tem uma grande porção de poder e influência, e é importante ter um amigo. Mas ele deve saber que nós [os Judeus] não estamos à venda."

publicado por Boaz às 22:56
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1 comentário:
De Matheus Bueno Funfas a 20 de Maio de 2009 às 21:33
ótimo blog. muito bom mesmo. conheço pouco sobre o judaísmo, mas estou tentando me aprofundar cada vez mais no estudo dessa, e de outras religiões.

parabéns por vários de seus textos, a grande maioria nos mostra boa parte de como é o dia-a-dia de um povo que muitos julgam sem conhecer.

pretendo voltar aqui mais vezes para ler.

abraço e votos de paz.

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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